Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
9 De Sirloom a Platina
O sol já estava a clarear, refratando seus raios nas janelas do quarto de Anna, que não conseguira pregar os olhos desde o pesadelo. Sua mãe explicara que estava a trabalhar com luzinas aquela noite em seu laboratório, mas algo na explicação simplória de Deborah, não fazia sentido para a garota. Como o polén simplesmente flutuou do porão ao quarto da menina com as portas fechadas? Como explicar o quão real era o calor do pássaro de fogo? Que agora, depois de Noturno ajudar em pesquisas na modesta, porém, não pequena biblioteca dos Rampart’s, descobriram que a tão gloriosa ave era nada mais nada menos que uma fênix. Um pássaro lendário e místico, dotado de poderes milagrosos.
—Como explicar todas aquelas sensações Norturno? — Anna colocara sua enorme franja atrás da orelha direita, era uma habitual mania sempre que ela se forçava a pensar. — Eu pude vivenciar o calor da fênix e conseguia sentir os cheiros do campo de luzinas, que logo depois foi invadido por um cheiro terrível de morte e... — Ela tremeu enquanto se sentava no tapete ao chão, ao lado da caminha do gato.
— Os mortos-vivos? — O felino interrompe sua dona, como de costume. — Eu sei, eu sei. Você já me evidenciou seus devaneios.
— E você, assim como a mamãe, também acha que foi apenas um sonho. — Ela revira os olhos. — Eu sei o que vi e senti. Foi uma experiência além de ilusória, foi tão real, sabe?
— Talvez devêssemos parar de ler seus livros de aventuras antes de dormir. — Sugere o felino se espreguiçando entre os lençóis. Anna lamenta com um suspiro frustrado.
— Tudo bem, não tocarei mais no assunto. — A garota se levanta rápido, vai até seu armário de cabeceira e retira um tubo de ensaio tampado. Ela destampa-o e ingere o líquido lilás do recipiente, fecha os olhos por cinco segundos sentindo-os formigar um pouco, que rapidamente passa. — Vou me arrumar para o festival, em breve viajaremos.
— Quando estivermos de partida me carregue, vou continuar meu soninho pós soneca, pós estudos da madrugada. — Boceja o gato entre miados. Noturno podia ser bem egoísta e mandão na maior parte do tempo, o que as vezes irritava Anna. Apesar destas características muitas vezes desagradáveis do bichano, a extrema sinceridade (mesmo que indesejada) dele, também era o que fazia Anna confiar quase cegamente em seu melhor amigo.
Anna fitava-se em frente ao espelho, olhos azuis tão claros quanto uma joia feita de água marinha, seus grossos, longos e lisos cabelos pretos, estavam caídos por cima de seus ombros, descidos até um pouco acima de sua cintura. Nariz pequeno e grandes olhos expressivos, sobrancelhas grossas, queixo delicado e maçãs do rosto corada. A garota se achava pálida demais, desde pequena sonhava em ter a pele caramelizada e escura de sua mãe. Mas aceitara que tinha puxado as características paternas, como o casal já havia explicado antes.
Estava trajando um belo vestido de festa que sua mãe comprou dias atrás, para que ela usasse no dia do festival. Era uma peça de cor roxa, fina e elegante. Decote reto que mostrava apenas suas clavículas, manga curta e silhueta do tipo linha A seguindo até a altura dos joelhos. Todo coberto por uma renda espiralada com formas que pareciam rosas bordadas por todo vestido.
— Como você está linda. — Deborah elogia sua filha ao entrar no quarto, Anna fica corada além do normal e esboça um sorriso tímido. A mulher se aproxima orgulhosa da bela jovem e admira o quanto sua garotinha tem crescido, ambas olham para Anna no reflexo do espelho, a poquissonea acaricia os perfumados cabelos de sua filha e os arruma em um delicado coque, preso por uma delicada fita lilás deixando a franja solta. — Você está deslumbrante. — Anna sorrir mostrando os dentes, observando os orbes douradas de sua mãe lacrimejarem.
— Obrigada. — A garota se vira e abraça sua mãe.
— Venha, vamos comer uns biscoitinhos e tomar um chá antes de partir. — Anna assente e corre para cozinha, enquanto calçava suas sapatilhas pretas.
— Uau! — Bentley arregala os olhos assim que sua filha invade a cozinha — Você está magnifica.
— Obrigada pai. — Anna abraça seu velho pai e se senta ao lado dele na mesa. O café da manhã dos Rampart’s fora agradável e entre sorrisos e comidas caseiras deliciosas, a garota do vale guardava secretamente uma ansiedade que não queria compartilhar com seus pais. Uma sensação forte de que sua vida iria mudar e hoje seria um dia decisivo. Ela observava a calma e carinho contidos naquela refeição matinal e decide aproveitar a companhia dos pais ao máximo. — Pai, mãe.
— Sim querida? — Deborah sorri segurando sua xícara ainda esfumaçante com chá.
— Pode falar. — Bentley fala ao mesmo tempo de sua esposa.
— Eu amo muito vocês, obrigada por tudo. — Sorri gentilmente e arrancando lágrimas, abraços e beijos de seus queridos pais.
Depois do emocionante café da manhã, os Rampart’s pegaram suas mercadorias para vender, enchendo sua modesta carruagem com todo tipo de poções, loções, fragrâncias, iguarias mágicas, feitos por Deborah com o auxílio de Anna e estranhos objetos mecânicos, como brinquedos, utensílios domésticos, entre muitas coisas que Bentley inventava. Como Noturno não queria acordar, Anna o tirou contra a sua vontade da tão confortável caminha de gato, entre muitos murmúrios e choro ele apenas aceitou, “ao menos não estou andando com minhas próprias patas” ele pensou. Deborah deu revitaliza aos cavalos, uma poção de sua autoria que aumentava o vigor dos animais, tornando-os mais resistentes, fortes e rápidos. Finalmente todos pegaram a estrada.
O dia estava especialmente ensolarado em Sirloom, pássaros cantavam, o vento era fresco e conseguia bater de frente contra o calor moroso do sol. Várias carruagens seguiam para o Reino de Platina, cheias de famílias de mercadores, amigos buscando aventuras banais, grupos de músicos e muitas outras carruagens e carroças diversas. Anna estava empolgada, atenta a todos os detalhes, nas vestes das pessoas, nos diferentes meios de transportes de cada. Observara pela janela da carruagem de sua família que o mundo a fora era colorido.
— Mãe olha. — Chama atenção para que Deborah também visse o entorno das estradas, cobertos por milhares de flores, todas tão diferentes. A garota conhecia a maioria dessas belíssimas plantas dos livros de sua mãe, mas nos altos das montanhas no vale, onde ela fora criada, esses tipos de flores não sobreviveriam.
— São esplendorosas. — Sorri a poquissonea para sua filha.
— Quer saber de uma curiosidade? — Pergunta Noturno no colo de sua dona, lambendo suas patas.
— Que tipo de curiosidade? — Anna pergunta empolgada.
— As fadas da primavera fazem todo trabalho, há exatamente três dias aconteceu o ritual de equinócio da primavera. — Ele para de lamber suas patas e levanta seu pescoço para dar ênfase em seus conhecimentos — Quando as fadas do inverno vão dormir e as fadas da primavera acordam, elas fazem este ritual, elas saem de Feéria o reino das fadas. Portais em formas de flores, são abertos por vários lugares que a primavera está chegando. Sobrevoando todos esses territórios, elas colorem, desabrocham e aquecem tudo com a magia dada pela mãe natureza.
— Fadas. — Ouvindo atenta os fatos contados por Noturno, Anna vigia janela a fora tentando ver uma dessas tão incríveis fadas da primavera.
— O Noturno está certíssimo, — comenta Deborah — acrescentando informações as suas curiosidades, em Platina, as fadas são convidadas de honra do próprio rei, que faz o festival da primavera em homenagem a elas. Como uma troca benevolente, elas decoram todo o reino com suas magias e encantamentos. Deixando toda cidade com um pequeno vislumbre de como é Feéria.
— Não vejo a hora de chegar em Platina, — se empolga a garota do vale com um forte palpitar em seu coração — será que conseguiremos ver uma dessas fadas?
— Talvez. — Sorri Deborah.
Anna encanta-se por algumas horas com as diversas paisagens ao longo do caminho. Até que começara a ter uma perspectiva diferente em relação a estrada, ela agora era feita de pedra, tijolos e mais tijolos de pedra. Pondo sua cabeça para fora da janela, homens cobertos por elegantes armaduras feitas de Platina, reluzem recebendo sua total atenção. Enquanto a carroça passara por um gigantesco portão, coberto por flores diversificadas que o dominava de uma ponta a outra. Como se toda estrutura fosse feita apenas por vegetação.
— Chegamos! — Grita Bentley da frente da carruagem.
— Até que enfim. — Sorri Anna.
— Comidas exóticas, aí vou eu! — Mia Noturno tão alto que se pode ouvir de fora da carruagem, mesmo com tanto barulho de um dia festivo, que só está começando.
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