Fragrâncias florais estavam sendo exaladas por todos os lados, os aromas doces, cítricos, amadeirados, perfumavam magicamente todo o reino. Um feitiço de primavera estava no ar, deixando o ambiente suscetível a alegria, ao romance e aos momentos de prazer. Além do odor das flores que estavam espalhadas por vinhas em paredes, postes e gigantes vasos em arranjos coloridos, o cheiro de comida de rua e restaurantes era de uma maravilha olfativa divina. Borboletas coloridas voavam aos montes por todo lugar. Bentley cruzou algumas ruas até achar ao lugar perfeito, para estacionar e montar sua barraca na calçada.

— Aqui parece realmente um bom lugar. — Elogia Deborah ao seu marido, descendo os degraus de madeira da carruagem, seguida logo depois por Anna e Noturno.

— Você já tinha visto tantos humanoides e um lugar tão lindos assim? — Anna suspirou a pergunta para seu amigo, que estava em seus braços.

— Obviamente não, — ele responde sarcástico — até porque, nasci e cresci na nossa casa ou você acha que venho aqui saborear os deleites de uma vida felina, sempre que posso? — Anna revira os olhos com um sorrido.

— Era uma pergunta retórica, não precisa responder tão ríspido. — Anna faz cafuné entre uma orelhinha e outra. — Eu prometo que você vai comer peixes daqui a pouco.

— Hmmm... — Ele lambe o próprio focinho — Me desculpe, você sabe como fico quando estou com fome.

— Tudo bem, vamos ajudar a mamãe e o papai a montar a barraca. — Ela põe o bichano no chão.

— Uh? Não se preocupe filha, papai dá conta de tudo por aqui, — informa Bentley segurando algumas tábuas de madeira e um martelo — podem passear vocês dois, divirtam-se.

— Tem certeza pai?

— Não seja boba ele já ofereceu. — Resmunga Noturno despercebido no chão.

— Está tudo sob controle. — O velho homem tranquiliza com um sorriso.

— Eu avisei. — Diz o gato convencido.

— Aqui Anna, — Deborah a entrega uma algibeira — uns trocados para vocês se divertirem e este manto.

— Obrigada mãe. — Anna agradece pegando o pequeno saco de couro azul anil e vestindo o manto no mesmo tom. Sua mãe já havia ensinado algumas malícias urbanas. Como ladinos que espreitavam esperando qualquer vacilo, ou pessoas geniosas que vendiam coisas sem valor algum, como itens de luxo e aqueles que aplicavam golpes com constrangimentos públicos, tudo com intuito de pegar fácil seu dinheiro. A garota lembrando fielmente dos ensinamentos da mãe, prende sua algibeira a um bolso dentro do manto e dá uma rápida piscadela para Deborah, que rir com orgulho.

— Não vá muito longe, esteja aqui antes que o sol se ponha. — Ordena cuidadosa.

— Tudo bem. — Diz a garota do vale se afastando da carruagem de seus pais, acompanhada por seu melhor amigo.

— Ela vai ficar bem ne? — Pergunta a poquissonea ao seu marido.

— Claro que vai, — conforta Bentley batendo alguns pregos — nós a criamos muito bem e ela é uma garota esperta. Ai! — grita o homem batendo o martelo no dedo.

— Se ela for parecida com você, passarei o dia inteiro preocupada. — O casal sorri, Bentley chupava o dedo enquanto Deborah procurava uma poção para sanar a dor de seu cônjuge.

Perambulando, Anna admirava cada detalhe de tudo que não conhecia. Vestes de forasteiros, formas e características de seres humanoides, como uma pequena família de gnomos montanheses ou um grupo de jovens bardos compostos por elfos florestais, que eram verdes e possuíam tantos adereços florais, que pareciam ornar com a cidade e o festival.

— Vejam o que temos aqui. — Uma pequena senhora humana chama atenção da garota do vale. A mulher parecia uma bruxa de conto de fadas de livros tradicionais, grande nariz enverrugado, cabelos grisalhos e uma postura curvada, vestia um capuz feito de camurça na cor verde musgo — Uma bela jovem, o que está procurando exatamente meu amor, um rapaz bonito por acaso?

— Não tenho interesse em rapazes. — Ela diz tentando desviar a atenção da mulher que insistiu.

— Belas moças então? — Ela ergueu algumas vezes as sobrancelhas.

— Também não, obrigada. — Anna se distancia da mulher, que segura o braço da garota.

— Ora, ora, não seja mal-educada. — Os dedos da senhora eram duros, a garota os visualizou rapidamente e arregalou os olhos ao perceber que eram feitos de gravetos. A senhora conduziu de forma persuasiva fazendo com que Anna caísse sentada em uma cadeira de madeira. — Posso ler as sementes para você? Por uma pequena bagatela de 5 moedinhas de pratas, apenas.

— Acho que n...

— Que ótimo! Sua mãe realmente criou uma dama muito educada. — Afirma a senhora em alto som. Chamando atenção de curiosos em volta e obviamente interrompendo a garota.

Constrangida e sem graça, Anna estava sentada próxima a mesa de uma tenda aberta, cheia de plantas esquisitas. Muitas raízes, galhos secos e gravetos quase despidos de folhas que cobriam toda uma tenda improvisada. A mesa era composta por apenas um largo e grande tronco de árvore cortado ao meio. A senhora sentou-se numa cadeira do outro lado da mesa e então, começou a sussurrar coisas inaudíveis para suas mãos fechadas, que pareciam segurar alguma coisa, ou coisas.

— Então senhorita, — ela disse em mistério fixando seu olhar nos olhos da jovem — nos diga, qual seu nome?

— A-Anna.

— A-Anna, que nome lindo. — Todos riem ao redor.

— Nome dela é Anna. — Resmunga Noturno chamando atenção de todos e pulando no colo de sua dona/amiga. Os curiosos ao redor da mesa, começaram a cochichar coisas como “um gato falante que fofo, uau um gato que fala, o gato deve ser dessa menina”.

— Muito bem, me perdoe por meu erro bobo. — A senhora falou de um jeito tão debochado que todos riram. — Eu sou a Madame Agapanto, sou uma vidente da floresta. — Logo ela abaixou o capuz mostrando todo seu rosto. Anna finalmente pode ver a cor dos olhos da madame, belas orbes rosas como ametistas. Apenas a franja dela era grisalha, o resto de suas madeixas eram constituídas de vinhas brancas e quase secas. Todos ficaram ainda mais surpresos, não de um jeito bom, a pele da senhora parecia madeira velha se descascando.

— Você é, — Anna diz eufórica de um jeito admirado e introvertido — belíssima.

— Fico lisonjeada senhorita Anna, — ela sorrir com estranheza — geralmente não é a reação comum das pessoas ao olharem para mim, você nunca viu uma dríade antes?

— Nunca. — Responde sincera e com uma ingênua empolgação.

— Bem, vamos aos negócios Anna. — Agapanto coloca três sementes sob a mesa, uma verde, uma laranja e uma rosa. — Essas são minhas sementes do saber. Coloque suas mãos acima das sementes, deixe que elas sintam sua energia. — A garota obedeceu, pós suas mãos tremulas por cima das sementes. — Ora, não precisa ficar nervosa, eu não vou arrancar um pedaço seu, querida.

— Anna tem certeza de que quer fazer isso? Não estou com um bom pressentimento. — Noturno mia e coloca suas patas sob a mesa, ficando de pé no colo de sua dona e observando as sementes um pouco mais de perto. A garota por sua vez, já estava tão nervosamente curiosa, que ignorou seu amigo por completo.

— Vou deixar que você me faça três perguntas, — a dríade segurou as mãos tremulas da garota com suas mãos feitas arbóreas — a semente verde irá responder uma pergunta sobre o seu passado, a laranja te aconselhará sobre seu presente e a rosa responderá uma pergunta sobre seu futuro. — Neste momento, todos estavam em silêncio e tão apreensivamente curiosos quanto Anna. — Mas existe uma condição.

— Que condição? — Perguntam Anna e Noturno juntos.

— Apenas as sementes que germinarem determinarão quantas perguntas serão respondidas.

— Acho justo. — Confirma Anna.

— Antes, — a madame estende suas mãos, fazendo um gesto para que Anna pague a consulta antecipadamente. A garota assim fez, retirou cinco moedas de pratas de seu saquinho — muito bem vamos fazer a iniciação, fixe seus olhos nas sementes a nossa frente.

Anna devotou toda sua atenção as pequenas sementes coloridas na mesa. Ela sentiu alguma coisa que não parecia normal, como se pudesse ouvir pequenos batimentos cardíacos vindos de cada semente. Ela arregala os olhos e a semente verde germina, em uma pequena planta. Madame Agapanto parecia surpreendida, como se não tivesse o costume de fazer aquilo.

— P-Pois b-bem Anna, — a verdade, é que a velha dríade já tinha visto sim muitas sementes germinarem, porém, a semente da garota brotou de um jeito agressivo, como se a planta estivesse crescendo a anos — pode fazer sua pergunta sobre seu passado.

— Hmm... — A garota começara a semicerrar os olhos, tendo uma conversa mental consigo mesma. “Meu passado não é um mistério, nasci e cresci na casa dos meus pais e minha vida inteira lutei para curar meus olhos. E se eu testar se a madame Agapanto é uma vigarista?” — Já sei, qual foi a doença que tive, que mais demorou a sarar?

— Está querendo testar a sabedoria das plantas? — Rir a madame, que pegou a pequena muda e engoliu, os olhos rosas dela mudaram de cor para um verde vibrante, que dominou todo seu globo ocular, numa luz mágica. — A única doença que você realmente teve quando mais nova, foi uma gripe acompanhado de uma febre muito forte.

— Você está mentindo. — Reclama a garota, o que faz alguns seres rirem ao redor.

— Oras, como ousa! As sementes do saber da Madame Agapanto nunca mentem. — Afirma ríspida a dríade do outro lado da mesa.

— Desde muito pequena, eu tive uma doença rara nos meus olhos, — Anna levanta-se da mesa — por isso eu repito, você está mentindo.

— Eu sabia que ela era uma charlatã. — Retruca Noturno.

— Talvez seja você que não conheça tão bem seu passado quanto pensa. — Diz a senhora.

— Já chega, eu não vou ficar aqui ouvindo essas mentiras sobre mim. — A garota sai de perto com seu companheiro e os outros seres ao redor se dispersam, convencidos de que a vidente era realmente uma farsa.

— Esperem, não vão embora, — ela se levanta frustrada — esta tola que está mentindo. — Ninguém deu ouvidos a dríade. Que resmunga palavras feias, até ser surpreendida por uma outra semente germinada.

A semente rosa não apenas havia germinado, como também florescido, o que causou um arrepio em cada parte vegetal de seu corpo. A madame engoliu a muda florida e então seus olhos brilharam em um rosa choque intenso.

— Como será o futuro desta garota? — Ela perguntou de forma rude. — Por Liossey! O que é isso? — Ela gritou erguendo a cabeça, levantando o pescoço, onde não apenas seus olhos, mas sua boca também emitiu uma luz rosa radiante.