Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
11 A garota, o gato e a vassoura
Anna transita resmungando entre pessoas, enquanto Noturno apressava os passos para acompanhar sua dona.
— Ela não sabe de nada. — Pensa alto a garota do vale franzindo a testa. — Não acredito que me deixei ser envolvida por uma vigarista.
— Anna, ande mais devagar, — as patinhas ligeiras quase não conseguiam reconduzir os enormes passos de humano — juro que se eu me perder vou arrumar humanos que valorizem a presença de um gato lindo, fofo e felpudo como eu...
A garota estava tão interdita em suas reclamações mentais, que nem notara que uma grande barraca se locomovia em rodas a sua frente, batendo de cara e causando um estardalhaço. As finas rodas da barraca que era conduzida por um velho senhor não aguentaram o impacto, cambaleando e fazendo-a cair de lado. Anna tentava recobrar a consciência, depois de ficar um pouco atordoada ao cair de bunda no chão.
— Você quase caiu em cima de mim. — Reclama o gato arqueando as costas enraivecido.
— Desculpe, — Anna esfrega e balança a cabeça — o que aconteceu?
— Olhe por onde anda menina, — reclama um velho correndo para pegar alguns produtos caídos no chão — se quebrar alguma coisa, você há de arcar com as consequências.
— Me desculpe senhor. — Ela se levanta e corre para ajudá-lo. As pessoas ao redor não pareciam se importar, logo que alguns curiosos viram do que se tratava, já deixavam o lugar. Os produtos do velho senhor, eram utensílios domésticos, tais como, vassouras de palha, espanadores de penas, baldes de madeira, tapetes, panelas de metais, talheres entre outros objetos para casa.
— A maioria desses objetos possuem a assinatura de Merelimus.
— Mere o que? — Anna pergunta entregando uma espátula para o senhor que pegava alguns espanadores no chão. Ele olha para a garota de baixo para cima.
— Claro que você não conhece, como uma camponesa saberia? — Ele arranca a espátula da mão dela. — Não que eu deva explicações para filha de camponês. Mas Merelimus é um dos maiores feiticeiros do reino de Platina e seus objetos assinados são enfeitiçados. Um especialista em artefatos domésticos para ser mais exato.
— Isso deve ser bem importante e caro também, — Anna sorri gentil pro vendedor — mais uma vez senhor... — Ela faz uma pausa para que ele se apresente.
— Sou Igory, um dos vendedores contratados e selecionados do grupo Merelimus, para revender os incríveis produtos do maior e melhor feiticeiro de Rimedra.
— Como eu ia dizendo Senhor Igory, me perdoe, não era minha intenção causar todo esta confusão e muito menos destruir sua barraca ou seus produtos. — Ela se abaixa e pega um espanador e entrega ao senhor. — Aliás, me chamo Anna.
— Com intenção ou não, se houver algo quebrado você vai pagar camponesa. — Rosnou o homem, Anna apenas assentiu constrangida.
— Só um comando e eu arranho a cara dele. — Miou Noturno mostrando as unhas.
— Tudo bem Noturno. — Anna o tranquiliza. — Este feiticeiro, o Merelimus parece bem poderoso. — Comenta a garota de manto azul.
— Como eu já disse e você parece não ouvir, — ele coloca alguns dos objetos dentro do carrinho — ele é o melhor feiticeiro do continente, talvez até do mundo inteiro.
— Nunca ouvimos falar dele. — Debocha Noturno.
— Quem disse isso? — O velho procura em volta irritado.
— Eu mesmo aqui embaixo. — Diz o gato com a cabeça levantada, encharcado por um deboche cítrico.
— Mas é só um gato que fala, como saberia de algo. — Rir alto o homem.
— Senhor Igory, — Anna chama atenção ao mesmo tempo que impede que Noturno responda rispidamente o senhor e cause uma desordem ainda maior — você disse que são produtos enfeitiçados, o que eles fazem?
— O que eles não fazem? — Ele riu tentando chamar atenção de todos em volta. — Nossos produtos são os melhores e mais luxuosos que os Platinianos poderiam querer, — alguns civis aproximam-se — quem não iria querer uma vassoura voadora que pode varrer sua casa sozinha?
— Sozinha? — Pergunta Anna. — Que incrível!
— Realmente, incrível é o adjetivo correto para os produtos domésticos Merelimus. —Logo estavam cheio de pessoas interessadas nos produtos. — Além de preços bons, nossos produtos são os melhores.
Alguns compradores logo cercaram a carroça do Senhor Igory e Anna se viu cada vez mais distante, dando espaço para que ele pudesse vender seus produtos em paz. A garota andava de costas até tropeçar novamente e cair de novo, com a bunda no chão.
— Hoje não é meu dia de sorte. — Ela procura o motivo de sua repentina queda, até ver uma vassoura de palha caída no chão. A vassoura possuíra a assinatura de Merelimus. Anna avançou sua mão esquerda para agarrar o cabo da vassoura no chão, mas o objeto estranhamente contorce a madeira de seu cabo, fazendo com que ela não consiga agarrá-lo. Ela tenta outra vez e mais algumas vezes. — Oras. — Respira fundo, até a vassoura tremer algumas vezes. Anna limpa seus olhos sem acreditar, ela teve a ligeira impressão de que a vassoura estava... Rindo?
— Noturno, definitivamente estou ficando maluca. — Ela sorriu.
— Não acho que esteja maluca, — diz o felino um pouco incrédulo — eu também vi, ela parecia estar sorrindo.
Ambos observam a vassoura levantar-se diante de seus olhos e usando a palha como pés ela sai correndo.
— Hey! — Anna se levanta do chão — Você não pode fugir, você pertence ao senhor Igory. — Ela corre atrás do objeto.
— Ah! Obviamente ela vai correr atrás de uma vassoura mágica esquisita, — reclama o gato albino correndo atrás da garota — eu achei que iriamos comer várias guloseimas e iguarias, mas aparentemente, é mais divertido correr atrás de objetos encantados, só para entregar a um velho vendedor rabugento que usa a palavra camponesa de forma pejorativa.
A garota do vale e o gato correram por becos, esbarraram em pessoas, saltaram obstáculos diversos e estavam exaustos enquanto caçavam a vassoura mágica que parecia estar se divertindo o bastante com a perseguição. Anna centrou seu olhar, fixando-o como um falcão sua presa, ela mirava obcecadamente o cabo da vassoura ao mesmo tempo que esticava sua mão para agarrá-lo, até perceber uma parada brusca do objeto. Ao segurar a madeira do cabo, Anna tropeça, atropelando em um grupo de pessoas que estavam fazendo um círculo, observando o que parecia uma apresentação de arte. Ela cai de barriga no chão com as mãos para frente, segurando a vassoura que girava a ponta do cabo como se estivesse desnorteada.
— Como você ousa atrapalhar o grande oráculo?
Anna faz uma careta de dor e olha para cima, para a figura que fazia uma certa sombra por cima de seu corpo. E arregala os olhos encantada ao entender que era uma fada a sua frente.
— Me desculpe. — Choraminga a garota.
— Jovem — Uma fada masculina muito alto e musculoso trajado com armaduras verdes chama atenção, a voz dele era rouca e ele falava firme como um general de guerra — espere sua vez com os outros jovens e se interromper o ritual da descoberta mais uma vez, você será punida e devidamente presa por baderna e desrespeito contra os direitos militares de Platina e a corte das fadas.
— Antes de mais nada, — Noturno aparece, andando por cima das costas de Anna e ele continua a falar — peço desculpas mais uma vez por minha humana, ela é um pouco atrapalhada e não tinha o conhecimento sobre o que estava acontecendo no local. Permissão para que fiquemos apenas vislumbrando seus digníssimos trabalhos.
— NHAAIIII! Que fofinho um gatinho que fala! — Pula estridente uma fada de menos de um metro. Diferente das outras com típicos tamanhos humanos, ela era uma versão humanoide minúscula. No topo de sua cabeça, coberta por volumosos e lindos cachinhos castanhos tinham orelhinhas de urso.
— Meredith, fique quieta. — Uma voz atrás sussurra um pouco alto.
Anna, Noturno e a vassoura saem de fininho com sorrisos envergonhados, mesmo sem face, a vassoura estava curvada de um jeito que parecia estar envergonhada. Ficando atrás de algumas outras pessoas e observando que cinco fadas muito diferentes umas das outras, faziam um círculo.
— O que é isso Noturno, esse tal de ritual da descoberta? — Pergunta Anna para o felino em seu ombro.
— Algo que eu sempre quis ver, — cochicha o gato no ouvido de sua dona — o ritual da descoberta, feito pela corte das fadas. — O bichano enfatiza admirado.
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