O casal de quase meia idade dormia ainda com a alvorada alaranjada de um céu tranquilo. A rotina do Sr. Bentley Rampart era rigorosamente metódica, sempre que os primeiros raios de sol transpassavam os vidros de sua janela, ele levantava de sua aconchegante cama. Em meio a bocejos, coçava seus cabelos cheios e cacheados, deslizando os dedos em suas madeixas acobreadas e mescladas ao grisalho que começara a dominar recentemente suas raízes. Sua barba era igualmente carregada. Um homem de baixa estatura, medindo um pouco mais de um e sessenta de altura e suas orelhas são demasiadamente avantajadas, olhos verdes e pele caucasiana. Casado com Deborah aproximadamente doze anos. O simples homem protela acordar sua esposa, então cautelosamente sai do quarto, esforça-se para não pisar muito firme no chão feito de madeira, ou até mesmo, em abrir e fechar a porta, pois ocasionalmente, o rangido poderia despertar sua companheira.

Ao descer as escadas, caminha sem desvios até a cozinha. O cômodo era espaçoso, possuía uma grande fornalha iglu esculpida em tijolo de barro branco, alojada acima de uma lareira. Acoplada ao topo da fornalha estava a chaminé, também feita com o mesmo tipo de material níveo, que se estendia até o teto. Diferente das demais partes da casa, esta, fora a única construída com paredes feitas de tijolos, o chão e o teto eram de madeira. O ambiente era agradavelmente simples, possuía um jogo de mesa feito com ipê preto, composto por uma mesa retangular e quatro cadeiras rústicas. Alguns armários foram construídos com o mesmo recurso escuro do jogo de mesa. Onde eles acomodavam sacas de pano, que guardavam variados tipos de grãos e diversificadas panelas feitas de estanho, ferro ou cobre. Algumas dessas panelas estavam penduradas nas paredes. Inclusive, uma das paredes dispunha de uma ampla janela.

Bentley vaga ainda sonolento até um de seus armários, retira um bule globular de estanho, o repousa por poucos segundos em cima do objeto, enquanto destranca as janelas. Assim que abriu, uma brisa fria preenche o local, o presenteando com um amadeirado e floral perfume, exalado das plantas de seu jardim. O aroma vinha combinado com uma leve maresia de água doce, do lago muito próximo de sua casa. A casa encontra-se nos mais altos morros entre colinas, de um pequeno vilarejo chamado Sirloom, no reino de Platina. Ele respira fundo sentindo a paz no odor da natureza, fechando seus olhos e esboçando um singelo e tranquilo sorriso.

O homem vai até a serena e potável lagoa, enche o bule e admira mais uma vez a beleza das águas, que espelhava os primeiros raios de sol em sua superfície, numa dança suave das ondas com a luz. O Sr. Rampart suspira triste, em seu olhar, um sentimento de vazio. Tentando não sucumbir a sensação infeliz, balança sua cabeça em negação e vai até sua horta de ervas e plantas herbáceas. Bentley arranca alguns talos de hortelã-pimenta e volta até sua cozinha. Acende a lareira e põe o bule na fornalha.

— Bom dia.

Uma voz rouca e feminina espreguiçada por um breve bocejo, entoou atrás de Bentley, que se vira para contemplar sua esposa. Deborah usara um simples vestido evasê azul marinho, ramos de alamandas roxas bordadas da bainha até metade do traje o decorava com um certo charme de um campo noturno. A mulher era praticamente o oposto de seu marido em relação a sua aparência física, possuíra uma grande estatura, media trinta centímetros a mais que seu companheiro. Sua pele aveludada em negro claro, quase como calda de caramelo. Seus olhos dourados, tão amarelos e radiantes como gemas de âmbar, desdenhavam de um olhar doce, porém cheios de vazio. Deborah possuíra belas e genuínas características negroide, como lábios grossos e carnudos, nariz um pouco largo, enormes madeixas crespas que se enrolam volumosos até o quadril.

Bentley quase ousou sorrir ao admirar sua esposa, sua respiração sempre ficara escassa ao fitar aqueles incríveis olhos áureos. Ela arrasta uma das cadeiras junto a mesa e senta confortável, sente o aconchegante bálsamo mentolado da infusão das ervas nas águas ferventes. Com o auxílio de uma luva de algodão, o homem segura o bule e serve a bebida em duas xícaras de porcelana.

— Hoje preciso ir até a urbe. — Ele afirma juntando-se a Deborah a mesa.

— Tem umas coisas que preciso que compre para mim, — ela dá um breve gole após assoprar um pouco, afastando a fumaça de calor de sua bebida, — encomendei alguns frascos a Jhenesi, algumas semanas atrás.

— Tudo bem, — ele sorrir repetindo a sequência de sua esposa — se tudo der certo, volto ainda hoje antes do jantar.

— Não esqueça de falar para o Karl, — Deborah levanta e vai até um dos armários, onde retira um pote vedado, — ele ainda nos deve parte do valor do tônico. — Ela volta para mesa, levando consigo um pote cheios de biscoitos amanteigados e continua. — Pode pegar duas sacas com trigo, no lugar das moedas devidas.

— Certo! — Bentley concorda apanhando um punhado dos mesmos biscoitos. — Acho que vou levar a Tesla comigo hoje.

— Tem certeza? Ela não parecia bem ontem, vomitou algumas vezes, — ela degusta uma de suas iguarias amanteigadas — fiz um antidoto para ela, você deveria levar a Hada.

— Mas ela é um pouco... — Ele demonstra uma rápida frustração. — Lerda, mas tudo bem, dado as circunstâncias, não vou fazer a coitada da Tesla se esforçar tanto, Hada é preguiçosa, mas tudo bem, vamos lá. — O jeito simples e bobo do Bentley sempre fazia a Deborah rir, ouvir ele resmungar com tanta naturalidade de suas mulas, fez ela esbouçar um curto sorriso.

Após a refeição do casal, Bentley acomoda a carroça na Hada, uma mula alazã, pequena e rechonchuda. Ele pega seu chapéu de palha e monta no animal, minutos antes de partir, Deborah o entrega uma bolsa com alguns lanches para viagem, ele agradece com um sorriso e olhar afetuoso e sai dos limites do terreno de sua casa.

Deborah odiava a sensação de ficar sozinha, a falta da voz de alguém ou presença humana em casa, ansiava seu coração com uma desagradável solidão. Então, ela tentava distrair sua mente com afazeres domésticos. Alimentava os animais, regava as plantas, colhia frutas, limpava e organizava a casa, preparava suas refeições. Sua manhã solitária era ocupada principalmente com seu amado hobby, que também era seu trabalho. A alta mulher é um dos poucos seres que conquistaram o título de “poquissoneo“ ou seja, mestre na criação de poções e iguarias mágicas, só existem vinte seres no mundo inteiro que possuem esta honra de tanto renome. Ela passava muito tempo despercebido em seu porão, estudando extratos de ervas, substâncias, observando e analisando como tudo se comportava ao frio extremo ou no calor quase absoluto, criando texturas e misturando elementos.

Horas passaram como segundos naquele mesmo dia para a poquissonea, estava anotando em um de seus livros algo sobre o quanto o extrato de luzina, combinada de água doce e ouro derretido, ficara gelatinoso e luminoso e sonhava com as infinitas possibilidades de sua descoberta. Continuaria estudando se não fosse interrompida por barulhos confusos, vindos de dentro de casa. Apressadamente largou suas pesquisas, subiu as escadas e fora surpreendida pelo oposto e repentino clima lá fora. O céu antes alvejado pelo sol, estava integralmente nublado. A ventania que invadiu a casa, sacodiram as janelas e derrubaram objetos. Deborah azafamou entre tropeços, arrumando tudo que podia pelo caminho até as janelas. Após lutar contra as rajadas de vento gélido, conseguiu finalmente trancar as janelas e suspirou forte quase aliviada.

Ao notar as pedras do sol e da lua, percebeu que a noite já havia tomado conta do céu, e ao olhar através das janelas que uma impetuosa tempestade se aproximara. A mulher preocupou-se. “Bentley conseguirá chegar a tempo? Será que algum estorvo o atormentara no meio do percurso? Foi numa noite assim, que eu perdi meu Darius...” Ela enfim entregou-se a sentimentos que tanto temia. A mulher de grandes e volumosos cabelos cacheados, pegou um candeeiro na cozinha já apaziguada da ventania, o acendeu e subiu até seu quarto. Posicionou o objeto que segurava em cima de uma cabeceira de mesa, abriu a gaveta do mesmo e tateou com os dedos até encostar em objeto firme. Deborah ficou paralisada por alguns segundos antes de retirá-lo, fechou os olhos e arfou com pesar, sentiu seu coração palpitar na gorja, então, retirou um pequeno quadro emoldurado.

Segurando o choro, usou a debilitada iluminação do candeeiro para fitar a obra. A moldura era de madeira clara e firme, porém, esculpida de forma delicada. Facilmente via-se desenhado na tela Deborah mais jovem, sentada em um balanço com um garotinho acomodado em seu colo. Lá estava ele, o filho desaparecido do casal. Numa noite de tempestade, o jovem garoto sumiu da casa dos Rampart’s. Sem deixar rastros, sem avisar, não o viram em lugar algum. Ninguém tinha notícias na antiga cidade onde viviam, apenas que crianças na mesma idade do filho deles, também haviam desaparecido na mesma noite. Para a infelicidade de todos, o evento desencadeou a centenas de anos com várias famílias. Pouco sabia sobre o infortunado fenômeno, apenas que comoveu todas as raças em escala mundial. Perceberam que tudo começou com a aparição da lua cheia e roxa brilhando no céu. Aparentemente, todas as crianças que nasciam em noite de lua sombria, como começaram a chamar, desapareciam em algum momento de suas vidas. Lamentavelmente, o herdeiro dos Rampart’s nasceu em um dia considerado amaldiçoado. Deborah repousou o quadro sob seu busto, virou em posição fetal e chorou. Faziam anos que seu garotinho sumiu, mas a falta que sentia nunca fora realmente preenchida.

O primeiro trovão rugiu depois de um desmedido clarão no céu. As inúmeras gotas de chuva, tintilavam ferozes contra o vidro da janela. Ainda agarrada a imagem de seu pequeno descendente, a mulher fixou o olhar na tempestade a fora. Envolvida por seus devaneios, consumidos por sua mente, ela estava se aprisionando em lembranças ilusórias de tempos que não existiram com seu filho. Deborah entrara em uma utopia psicológica, imaginando dias como se Darius não tivesse realmente desaparecido, ensinando-o a criar sua primeira poção mágica, dando sermão por cair depois de subir em uma árvore, seu rosto enquanto ela o colocava pra dormir e a admiração, ao perceber os primeiros pelos crescendo no rosto do garoto. Imersa em seu paraíso mental, a experiente poquissonea adormece, vivenciando desesperadamente sua aprazível fantasia.

— Anna! — Um grito ecoa no quarto, despertando Deborah, que senta na cama assustada.