— Foi só um sonho. — Ela esfrega as mãos nos olhos, tentando recobrar a consciência ainda morosa pelo sono. Observara entre o aconchegante conforto de seus lençóis, o caos tempestuoso afora, fascinada com o show de luzes explodindo no céu escurecido pelas nuvens carregadas de chuva, Deborah levanta-se e vai até a janela. Entre relâmpagos que clareavam a cada poucos segundos, podia-se ver o lago próximo de sua casa extremamente agressivo, uma enxurrada de lama corrente inundando suas hortas. Apesar da desordem vista abaixo, um ponto de luz, como uma estrela no céu, chama a atenção da mulher. Ela fixou seus olhos dourados naquele pequeno foco iluminado, que parecia aumentar, como se estivesse aproximando. Até perceber que sim, estava vindo em sua direção. Brevemente, a pequena estrela fora crescendo em sua visão e finalmente ganhando forma. Pareciam asas batendo no meio da chuva. Deborah precisou esfregar forte seus olhos, ao perceber a gigante borboleta luminosa aproximar de sua casa. Não conseguira acreditar que tal criatura existisse e muito menos que veria algo assim, nessas circunstâncias. A mulher que já estava arrepiada da cabeça aos pés, arregalou mais os olhos, enquanto a borboleta perdia seu brilho e parecia virar pó no meio da ventania, o inseto pousou de forma graciosa em seu lago, soltando algum tipo de cápsula na água, que mais parecia um ovo avistando-se de longe.
Curiosa, a mulher corre. Desce as escadas, abre a porta da cozinha onde a ventania fria, acompanhada de grossas gotas quase congeladas de chuva, surpreende sua pele de um jeito horripilante. Deborah se envolveu em seus próprios braços, agitando suas mãos contra seus ombros, numa tentativa falha de se aquecer. Algo naquela borboleta aquecia o coração da Sra. Rampart, apesar do quão estranho ou extraordinário aquele inseto parecia. Mesmo descalça, ela afundou seus pés na correnteza congelante de lama, que quase arrastou a mulher. Imersa até metade de suas coxas, ela se esforçara para chegar até o lago, onde ouviu um fraco choro de bebê. Praticamente nadando entre terra e água, Deborah conseguiu chegar as margens do lago. Espantada, ela se depara com uma clara esfera boiando e se desfazendo nas ondas, feita por uma intrigante casca de gelo, afinando cada vez mais rápido enquanto balançava-se e dentro o que parecia ser um bebê.
— Pelas Deusas! — Murmurou numa prece ligeira e assustada, entrando nas águas para resgatar a criança.
Deborah segura a casca de gelo que consequentemente se parte por sua fragilidade, fazendo com que mais água inundasse a esfera e avolumando o grito choroso do bebê. Com um pouco mais de cautela ela agarra com dificuldades a esfera, no entanto, as águas agressivas arrastavam o que pareciam galhos de árvores, que eventualmente arranharam vários lugares de seu corpo, principalmente todo o braço que segurava o compartimento que envolvia o pequeno bebê. Obstinada, Deborah rangeu seus dentes, suportando a dor sem apertar novamente a casca, para não se partir, cuidadosamente ela conseguiu trazer a criança em seus braços. Célere e aflita, saiu do lago e entrou em casa, correu para o quarto, catou lençóis secos e limpos, tirou os trapos encharcados da criança e notou após despir, que era uma garotinha. Extremamente confusa com a situação, ela logo enrola a bebê chorosa em panos secos.
— Shhh... — Ela a abraça enquanto nina, tentando conter o desespero gritante que ecoava pelos cômodos da casa. — Você está bem agora. — Poucos minutos como se entendesse o que dizia, a neném acalmou-se.
A mulher pousa a bebê tranquilizada na cama, aconchegando-a entre travesseiros. Deborah tateia as vestes ensopadas da menina e sente algo pontudo, intrigada segura firme o que parece metal seguido de uma fina corrente. Suspendendo o objeto, ela vislumbra um apanhador solar luzidio feito de ouro branco. Modelado em finos fios do caro metal, possuíam placas moldadas em formas triviais de sol e lua minguante, que seguravam pêndulos por delicadas correntes, em suas pontas esferas de cristal lapidados. Um pêndulo maior encontrasse no centro do objeto, nele, uma grande pedra de cristal em formato de octaedro triakis. Um artefato misterioso, algo nestes símbolos específicos faziam Deborah ter um arrepio horripilante na espinha. Examinando com certa cautela, ela encontra uma única palavra entalhada na forma do sol, “Anna”.
Ela volta a observar abobada a bebê que a encarava entre balbucios, Deborah se sentia estranhamente feliz ao admirar a pequenina, um sentimento quente chacoalhava seu coração, fazendo-o bater mais forte com a sensação de que ele iria sair pela boca. A visão da mesma começara a embaçar e uma emoção familiar simplesmente eclodiu em forma de lágrimas. Fechando e pousando sua mão por cima do peito, Deborah delonga em acreditar, ela morde seus lábios, sorrir, chora, aperta seus dedos com um pouco mais de força, ela treme, até que finalmente decide tocar a neném novamente. Ela estica um de seus dedos perto da mãozinha levemente rosada, que o segura com todos os dedinhos, num dos reflexos mais primitivos que um ser humano pode ter. O sorriso entre dentes e sobrancelhas arqueadas de Deborah só expressavam o mais puro estado de júbilo que a poquissonea encontrava-se.
— Então, seu nome é Anna? — Perguntou contente. A bebê só a encarava enquanto emitia sons.
— Anna, algo dentro de mim está a me dizer que serei sua mamãe a partir de agora. — Deborah deita na cama aproximando Anna para apreciar o rostinho corado e rechonchudo. — Acho que temos grandes chances de fazermos uma a outra felizes, bem, — ela repara uma certa característica singular na garota — o que temos aqui?
A mulher constata que as íris de Anna não possuem uma coloração normal para um humano. Deborah nunca viu alguém na vida, com íris tão atípicas. Os olhos da pequena garota pareciam quartzos aura de anjo lapidados, em volta das escuras pupilas. Não portavam uma cor definida exatamente, eram brancos, mas possuíam reflexos prismáticos, como se qualquer mínimo foco de luz pudesse ser facilmente refletido. Ela analisou mentalmente todos os livros, lugares ou seres humanoides que tenha conhecido, mas nada iluminava seus pensamentos no momento. Interiormente ela sabia que aquela incomum condição, poderia significar a ruina de sua família.
— De onde você veio Anna? — A garota adormece entre os lençóis que aparentavam certo conforto, dando um ronco até alto para um bebezinho. Deborah sorrir cativada, ela desliza seus dedos nos escuros cabelos da garotinha e suspira, com um sentimento agridoce entre medo e felicidade.
Abruptamente, a porta do quarto se abre fazendo um estrondoso barulho, assustando Deborah e despertando Anna que berra num choro ensurdecedor.
— Deborah você tá b... — Bentley extremamente surpreendido arregala os olhos ao ver um bebê na cama do casal berrando. — Mas, o que é isso?
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