Anna e o Renascer dos Mortos-vivos
1 Luz na tempestade
No meio de uma noite chuvosa e trovejada. Corria uma bela e jovem moça encapuzada de branco, cinco pequenas esferas alvas de luz acolitava-a, contornando seu corpo e dando rodopios, iluminando com dificuldades a vereda onde seguia. Mesmo que engolida numa penumbra densa, fria e molhada. Apressava-se, estava desesperada e aparentemente exausta, sendo perseguida e caçada por alguém. Em seus braços, ela carregara com dificuldades um bebê, uma garotinha que chorava sem parar.
— Ficarás bem meu amor, — ela aperta a criança envolvida em seus braços, — imploro que pares de chorar. — Sentiu o calor de suas próprias lágrimas, mesclar com as densas e geladas gotas de chuva.
Alguns minutos tropeçando em poças lamacentas, chegam as margens violentas de um rio. Quase não se vira nada, apenas ouvia-se os ruídos barulhentos das agressivas correntezas, que viajava feroz e transbordante devido a tempestade contínua. A moça encapuzada joga-se próximas as margens, ficando de joelhos. De maneira ansiosa, levanta sua mão direita e rodopia seus dedos, comandando que as esferas de luz se agrupassem, formando assim, um globo de puro fulgor. Com o suporte de seu orbe iluminado, conseguiu vislumbrar a face chorosa e bochechuda de sua filha, o que a fez suspirar e engolir seu próprio choro.
— Sphaera glacies! — Ela sussurra. Alguns litros de água saem das correntezas, levitando suavemente. Dando forma a uma cápsula fina e redonda, que logo começara a solidificar, transformando-se numa resistente camada de gelo brilhante. Com gentileza, ela pousa sua bebê na esfera cristalina que se formava, junto a ela, colocou um pequeno objeto. — Que Cannor te abençoe. — Imediatamente, uma protetora e acolhedora onda de calor, seca e aquece a pequena criança, então, a cápsula se fecha por inteiro. Em seguida, a encapuzada de branco dá um beijo na ponta de seus dedos, e toca na gelada superfície da cápsula, num gesto de amor e uma tentativa lamentável de dizer adeus a sua filha. Conduz a esfera congelada até a fugaz correnteza, que a leva embora.
Com suas vestes encharcadas de lama, ela volta correndo. Seu coração aflito sabia exatamente para onde as águas furiosas daquele rio, levaria sua bebê, para as quedas de uma cachoeira perigosa, ainda mais destrutiva devido ao pé d’água. E só de pensar no quão aniquilador poderia ser a queda, conseguia sentir um arrepio cortante na espinha. No entanto, ela deveria confiar em sua força interior e deixar que a fé em sim mesma salvasse seu único tesouro. No meio do caminho, ela é surpreendida por um homem alto, vestido por um manto preto.
— Quase um ano que não te vejo! — As trovejadas da tempestade ressoavam, quase encobriram o som da voz do homem, que ainda continua a questionar a moça de capuz branco. — Por onde esteve, minha amada? — Mesmo com palavras de aparências tão confortáveis, a jovem não se sentiu segura, deu alguns passos para trás numa tentativa fracassada de fugir. Persuadida pelo medo, ousou virar-se de costas para o alto senhor, e ele, já estava a sua frente. Ofegante, a moça tentara novamente, corre para o outro lado, mas de novo, estava ele a esperando.
O frio estava impetuoso, a mulher sentia uma aversão bombear por cada parte de seu corpo. Ele agarra abruptamente seu pescoço e a ergue, fazendo o capuz dela deslizar para trás, mostrando agora, sua bela face sendo estrangulada. Pouco podia se ver de seu rosto, entre mechas de cabelos grudadas a sua face, era facilmente perceptível reconhecer uma beleza naturalmente angelical. Bochechas pálidas pelo frio, lábios carnudos e rachados, mas tudo podia ser razoavelmente esquecido, sempre que percebiam o quão extraordinários eram seus olhos. O mais puro e cristalino branco diamante, como se sua íris tivesse luz própria, tanto, que podiam refletir cores com o mínimo de luz recebidos de fora, como prismas. Os cabelos longos e negros, agora pesados e encharcados, tão longos que caíam em seus tornozelos.
O homem a arremessa no chão, fazendo-a cair num breu enlameado. Mesmo com o sofrimento físico, que estava lhe sendo feito, ela não esbouçou qualquer reação. Continuou inerte nas frígidas e sujas poças, devido ao dilúvio que despencara freneticamente. Com passos firmes, ele se aproximou. Ela levanta a cabeça e o encara, fitando diretamente seus olhos. Um lume flamejante de ira, dominou o modo que ela o afrontava apenas com o olhar, e logo, podia-se ver uma alaranjada faísca, domar seus orbes prismáticos, dançando conforme os desejos de seu coração. Um pavor fez aquele homem de grande estatura arrepiar.
Mesmo evidentemente cansada, a moça de longos cabelos negros se levanta e ficara de pé, ela limpa sua face, tentando enxugar a água gelada que estava em seu rosto e o defrontou. O homem, no entanto, mascarou o terror com um sorriso diabólico e tirou por debaixo da manta negra que usava, sua mão, que empunhava um cajado, em forma de dragão. O objeto, possuíra uma esfera vermelha como sangue, na boca do animal. Ela franze a testa levantando suas grossas sobrancelhas, e toda aquela chama de ira fundida de esperança se esvai. O encapuzado ergue seu cajado dourado, em meio de trovões e relâmpagos e grita o mais alto que pôde.
— Te verei no inferno, meu amor. Sanguessugartea! — A maldição de sangue! Ela lastimou.
A esfera rubra, que se encontrara na boca do dragão, ilumina poderosamente com uma luz vermelha de cor vinho. A jovem moça rapidamente começara a levitar. Ela sente seu sangue circular rápido pelo corpo, seus olhos começaram a arder, os ouvidos já não captavam mais os estrondos da tempestade. Sua língua parecia entrar em sua garganta a sufocando, então, ela chorou. O sangue que saía de seus olhos, ouvidos, nariz e até boca, eram suas lágrimas angustiada. Mesmo com toda consternação desenfreada lhe corrompendo, a jovem moça, que agora sucumbira impiedosamente, só tinha um único pensamento enquanto deixava a consciência de seu corpo.
— Anna! — Depois de seu último suspiro, não ouvido por seu algoz, que se deleitava com tudo que assistira. Uma luz incandescente emergira de seu peito. Velozmente, uma parte desta vislumbrante centelha é absorvida pela esfera do cajado que o homem segurava com afinco, enquanto ele comemorava com uma gargalhada eufórica.
— Eu levei anos para sentir esse poder vindo até mim, — ele se aproximou do corpo ainda suspenso no ar, cheio de sangue — é uma pena, que você tenha partido tão jovem, tão bela, tão poderosa. — Passa os dedos na face pálida da jovem, tirando mechas do grosso e negro cabelo encharcado, grudado por água da chuva e sangue, num rosto lindo e mórbido — Esta energia celestial agora é minha.
Ele celebra realizado, mas nem toda luz fora absorvida pela boca do dragão. Junto com toda aquela intensidade iluminada, gigantes e delicadas asas desabrocharam, como uma borboleta brilhante emergindo de sua crisálida. Agindo com estranheza, o homem fita o glorioso inseto espectral, sentindo todo aquele poder, que simplesmente disparou como uma flecha para algum lugar, sumindo num horizonte escurecido, pela densa tempestade. Rendendo um esbravejo furioso de indignação.
— O que? O que era aquilo? Não! Eu preciso de tudo! — E um rugido feroz se perdeu, entre o caos sonoro de todo aquele imenso temporal.
Despencando da cachoeira, localizava-se o compartimento de gelo mágico que carregava a bebê. Estava a poucos metros de chocar-se contra rochas pontiagudas, o que com certeza não aguentaria o impacto. A borboleta de luz que emanara de sua mãe, chega radiante num momento milagroso, resgatando a cápsula glacial. Batendo veloz suas asas, ela transportara Anna. Essa, que dormia tranquilamente como se nada tivesse acontecido, viajando para o mais longínquo e desconhecido lugar, onde a magia pudesse guiar.
Mesmo com o céu noturno poluído por nuvens escurecidas, fortes rajadas de chuva e relâmpagos repentinos, podia-se ver a luz transcorrer a quilômetros de distância. Seres de todos os tipos avistaram o fenômeno. Muitas dessas testemunhas sabiam que o lar que habitavam, corrompera-se com anos em trevas. E que de alguma forma, aquela era a fagulha de esperança. O inseto de luz viajou o mar tempestuoso, montanhas íngremes com picos enevoados, sobrevoou um imenso vulcão inativo e até campos das flores mais venenosas. O temporal era de escala colossal, toda aquela água que tombava sem previsão de terminar, dominava simultaneamente diversos países. O mal presságio, alguns assim o chamaram.
A luz desvanecera e junto a ela, a altitude do voo da borboleta. Pousando já sem brilho numa lagoa entre morros, com suas asas de cristal que se esfarelava como poeira brilhante ao vento. As ondas agitadas do lago, chacoalharam a esfera de gelo, arremessando-a as margens e quebrando a casca da mesma. Fazendo com que o frio, as gotas de chuva e as águas da lagoa inquieta entrassem, acordando a pequena criança, que berrava num choro caótico.
Notas finais
Obg por ler até aqui.
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