Anjos Da Morte

2 Um, de volta a realidade


Ela estava deitada sobre uma cama bagunçada, toda desorganizada e colorida pelos lençóis e travesseiros de cores variadas.

– Aaaah! – A voz de pânico da garota percorreu todo o quarto escuro.

Sua respiração estava acelerada e uniforme. Ela repousara a mão sobre o peito coberto por uma fina camiseta branca, para assim ouvir seus batimentos cardíacos... Estavam acelerados. Então o sonho, ou pesadelo, invadiu sua cabeça, a lembrança de estar voando era doce e um delírio para Natalie.

O corpo da garota era delicado e frágil, porém bonito. Seu rosto era de certo modo angelical. Seus lábios de cor rosada, fartos, e seus olhos verdes como o mar – com pequenas raias douradas – e sua pele branca com as bochechas rosadas.

– Droga! – Resmungou ela ao ver o relógio que tinha do lado de sua cama. – Estou atrasada!

Ela se levantou rapidamente, correu para o armário localizado no canto do quarto pequeno e o abriu com veemência, agarrou uma muda de roupa qualquer – uma calça jeans clara e uma camiseta de manga cumprida branca – e se vestiu com pressa. Partiu para o banheiro bege dela, escovou os dentes e penteou o cabelo.

– Filha! – Uma voz feminina suave invadia seus ouvidos. – O café está pronto!

Era sua mãe.

– Já vou! – Natalie gritou usando todo o ar que tinha guardado em seus pulmões cansados.

Natalie jogou a franja loura de lado e prendeu seu cabelo longo num coque mal feito e pulou para fora do banheiro, correndo até a escada que levara ao primeiro andar, estava faminta.

– O que tem para o café hoje mãe?

– Panquecas! – E moça que estava atrás do fogão tinha trinta e dois anos, era jovem, dona de um rosto belo, covinhas nas bochechas rosadas e olhos castanhos cor de mel. Loura como a filha. – E preparei chá gelado também, hoje está um calor infernal!

– Parece ótimo! – Natalie deu um sorriso sincero, ela tinha um relacionamento forte com sua mãe.

A menina se sentou na cadeira da cozinha, afundando-se no estofado branco repousando os braços na madeira escura de demolição. Estava morrendo de sono, afinal não tinha dormido quase nada na noite passada, o sonho de estar voando depois de ter pulado de um prédio imenso continuava vívido em sua mente – e essa terrível lembrança continuava se repetindo a cada segundo, como num filme estrangeiro onde o personagem principal fica preso num dado momento da sua vida para sempre – isso era horrível...

– Você vai chegar atrasada hoje Natalie. – Grunhiu a mãe.

– Eu sei... – Natalie fez uma careta.

– Então se apresse! – A moça colocou um prato com panquecas, calda dourada de mel e morangos na frente de Natalie.

– Obrigada. – Murmurou ela.

Natalie praticamente engoliu as panquecas e virou o chá com pressa, se levantando rapidamente ela correu até a porta parando somente para pegar a sua mochila – qual estava jogada no chão da sala – e pulou porta afora.

– Até mais tarde! – Sibilou ela para a mãe sorridente.

O caminho até a escola era curto, ficava somente há duas quadras da casa de Natalie, e lá estudavam seus melhores amigos e claro, seus piores inimigos. Ela nasceu e foi criada nessa cidade não tão grande, porém não esquecida, chamada Northville.

Natalie conhecia bem o lugar, ela cresceu ali com sua mãe e desde que era pequena saía pela cidade, chegando a passar à noite acordada na praia, somente apreciando a vista e descansando os pés na água salgada do mar azul e profundo, límpido e hipnotizante. Nunca fora uma garota ruim, não bebia, não fumava e nunca fez nada de ruim a ninguém, sempre fora doce e bondosa com os outros – mesmo que isso tenha sido até mesmo ruim para ela – Natalie nunca perdeu a postura de boa moça.

O barulho que o All Star preto de cano longo de Natalie fazia quando encontrava com o chão aquecido pelo sol que irradiava acima dela era ruidoso. O sol estava forte naquela manhã, a obrigando a subir as mangas de sua blusa de frio.

– Que calor. – Sussurrou para si mesma. – Devia ter vestido algo mais leve.

Ela deu um pulo para frente, algo tinha batido contra suas costas fracas, um impacto forte e descuidado, Natalie se virou com pressa.

Edmundo a fitava.

– Oi Ed. – Ela estava séria.

– Bom dia Natalie! – Ele sorriu.

Os olhos castanhos cor de mel, quase da cor do sol, de Ed encaravam os de Natalie. Ele era alto, tinha o cabelo ruivo – da cor castanho avermelhado – e sua pele era bem branca, a ponto de ficar vermelha quando ele ficava exposto ao sol, sempre fora assim, afinal eles dois são amigos de infância.

– Você também está atrasado Ed? – Perguntou Natalie, remexendo seus cabelos louros.

– Sim, acabei dormindo um pouco demais, mas eu acho que á essa hora só vamos chegar ao segundo horário mesmo. – Ele diminuirá seu passo.

Natalie fez uma cara feia.

– Você tem que sempre saber de tudo?

– Sim. – Ele riu.

Ela bateu no peito forte de Ed com força, logo notara que ele estava... Maior.

– Você cresceu? – Perguntou Natalie.

– Um pouco. – Ed piscou com o olho direito.

Natalie analisou o corpo do amigo, olhando da ponta do pé até o último fio de cabelo vermelho espetado.

– Hum. – Ela riu, sim, ele estava maior, mais forte, nunca notará os músculos do braço dele ou o peito forte. Era muito estranho notar que ele não era mais o garotinho cujo Natalie brincava de pique esconde no parquinho.

– Você está se sentindo atraída por mim? – Ele riu.

– Lógico que não Ed! – Ela deu um passo para o lado a fim de afastar. Era muito estranho ela se sentir atraída por ele quando os dois tinham crescidos juntos! Ela sempre o vira como seu melhor amigo, seu irmão! Esse relacionamento não podia existir, de modo algum!

Mas você bem que ficou a fim de pular em cima dele e beijá-lo até ficar sem ar!

– Que horror! – Natalie berrou tentando repreender a voz que soava em sua cabeça.

– O que foi? – Perguntou Ed. Natalie tinha se esquecido de que ele estava ali o tempo todo, merda!

Natalie ficou ereta, levantou a cabeça e encarou Ed, forçando-se a não ficar corada naquele momento, não podia, não podia, ela começou a repetir isso em sua cabeça – tornando a simples frase não podia o seu mantra – mas é claro que podia, ela até que gostava dele.

– Nada Ed. – Ela forçou um sorriso.

– Você é meio estranha Nat. – Seu velho apelido de infância, Nat, isso bastava para ela se derreter toda. Não! Da onde vinha todo esse sentimento de amor e atração? Meu deus. Devo estar louca mesmo.

A garota loura logo notou que Ed estava apressando seu passo, ele corria na direção d grande prédio cinza de concreto com detalhes de tijolo e gesso da cor vermelha, a escola.

– Vamos logo Natalie! – Ele correu na frente.

– Droga Ed! – Ela correu o mais rápido que podia tentando acompanhá-lo, mas era bem difícil, afinal ele sempre fora mais rápido e forte que ela. Isso foi constatado no dia em que os dois tinham só nove anos e brincavam na gangorra, Ed sempre ficava embaixo mantendo Natalie presa no alto até ela chorar e berrar por sua mãe. Hoje com dezesseis anos ela ainda ficava com raiva dele por isso.

Natalie correu até Ed e bateu nas suas costas.

– Me espera! – Ela encarou os olhos cor de mel dele.

– Você que é muito lerda.

O sinal que anunciava o próximo horário bateu, a melodia invadiu toda a escola indo até o pátio principal, onde eles estavam.

– Droga. – Murmurou Natalie enquanto ria ao se lembrar de sua infância ao lado de Ed.

– Vou indo pra aula, agora tenho história. – Ele fez uma cara feia. – Nos vemos no intervalo, Nat?

Ela olhou bem nos olhos castanhos profundos dele, observando a doçura quando ele falava, o timbre de sua voz, embora masculino e grosso emitia compaixão.

– Sim, nos vemos no intervalo. – Ela retribuiu a ele um sorriso sincero.

Natalie caminhou até a sua sala com calma, agora tinha aula de física e não estava assim tão ansiosa para ela e sua cabeça só conseguia raciocinar uma coisa, Ed, algo nele dava a ela um sentimento de paz e harmonia, o que era bem raro na vida dela, já que como seu pai havia sumido há quatro anos ela e sua mãe tiveram que se virar para sustentar a casa e as despesas das duas. E ele sempre estivera lá com ela, para lhe dar apoio, Ed nunca a abandonou.

Ela entrou na sala em silêncio, sem fazer muito barulho nem chamar muita atenção ela se sentou na carteira do meio, cruzando seus braços e afundando a cabeça neles.


Natalie estava andando até o pátio central da escola para comer seu Cupcake de chocolate e encontrar Ed.


– Merda! – Grunhiu Lucy, uma menina magra, alta, de cabelos castanhos escuros que iam até o ombro e uma franja um tanto quanto longa. Seus olhos eram de um azul cintilante, claro e reluzente, sua pele branca pálida.

– O que foi? – Respondeu Natalie, assustada com o grito da amiga.

– Derramei suco na minha blusa nova! – Lucy apertou os olhos como se fosse chorar. – Eu tinha comprado semana passada!

Natalie revirou os olhos.

– Que mandou vir com roupa nova para a escola? – Zombou Natalie.

Lucy parou por um momento e fitou Natalie com amargura, fulminando a amiga.

– Eu preciso ficar bonita! Eu tenho toda uma imagem a construir.

– Que imagem? – Natalie riu.

Lucy franziu a testa.

– A imagem de uma garota bonita, mas não exagerada, cabelo arrumado, mas não lambido, maquiagem impecável, mas não exagerada e, claro, roupa nova e moderna.

Natalie encarou a amiga por um tempo até que não agüentou a caiu na gargalhada.

– Como você é fútil Lucy!

– O quê? Lógico que não Nat! Eu sou simplesmente bem cuidada... – Ela levantou o queixo a fim de encerrar aquele bate boca, porém mostrando que ela tinha sido a vencedora.

– Hum. – Piou Natalie. – Se você diz.

– Isso mesmo!

Lucy andou na frente enquanto escondia a parte suja da blusa enfiando-a no short jeans curto. Natalie apenas a seguiu sem dizer muita coisa, aquele era o jeito Lucy de ser, um pouco esnobe, mas no fundo ela sabia que a amiga era boa pessoa, isso era fato, afinal foi Lucy que a confortou quando seu gato, Senhor Bigodes, morreu e também quanto Marcus, o ex-namorado de Natalie, terminou com ela. Tudo era uma questão de amizade.

– Ali o Ed! – Lucy apontou para a fonte de água no meio do pátio, havia nela uma escultura de um anjo bem no meio da água, bem antiga, e tal anjo segurava em suas pequenas mãos um jarro bem-feito, decorado com pequenos riscos, delicados e com uma pintura velha desbotada. Dela saia à água que ficava em movimento constante, como um chafariz.

Natalie ergueu o pescoço e levantou a cabeça caçando o rosto de Ed e seu cabelo vermelho vivo no meio de tantas pessoas, logo o viu. Sentado na borda da fonte ele lia um livro de capa azul cujo título era um mistério, Ed parecia bem atento ao conteúdo do livro já que não desviava os olhos dele nem por um segundo.

– Ed! – Lucy gritou.

– Ei. – Natalie entreviu. – Para de gritar aqui.

Todos os estudantes que estavam no pátio naquele momento olharam para elas, todos encaravam as duas com perplexidade e de certo modo estranheza.

– Viu o que você fez? – Murmurou Natalie enquanto agarrava o braço de Lucy.

– O que foi isso? – Falou Ed no momento em que as garotas se aproximaram.

Natalie revirou os olhos.

– Foi culpa da Lucy.

– O quê? – Lucy colocou as mãos na cintura e fez um gesto de intimidação com a cabeça. – Foi culpa do Edmundo que não ouvia a gente!

Ed se levantou de onde estava sentado e deixou o livro na beirada da fonte.

– Eu não ouvi, estava muita gritaria aqui no pátio. – Ele fez um gesto com a mão mostrando lugar.

Natalie se conteve para não falar mais ao notar que quase todo mundo estava os encarando naquele momento de vergonha, ele preferia continuar a conversa em outro lugar.

– Vamos sair daqui. – Sussurrou Natalie para os dois amigos enquanto puxava Lucy com uma mão e segurava seu Cupcake com a outra.