Natalie estava em silêncio, segurava seu milkshake com a mão livre e com a outra conferia seu celular para ver se tinha recebido alguma mensagem nova, logo voltou o seu olhar para Ed e Lucy que tomavam seus refrigerantes.

- Que horas são? – Perguntou Lucy.

- Quase quatro. – Falou Ed enquanto mordiscava seu Donut.

Eles estavam lanchando num café localizado há algumas quadras da escola. Natalie tinha almoçado em casa com sua mãe, mas o clima lá estava tão chato e monótono que decidiu ligar para Ed e Lucy para que eles se encontrassem em algum lugar, Valerie’s Coffee era a opção ideal.

Os olhos cor de mel de Ed estavam direcionados para o rosto delicado de Natalie, ele observava atentamente a curva de seu sorriso, a cor de se sua pele e o caimento de seu cabelo louro.

- Você esta diferente Nat. – Observou Ed.

- Como assim? – Natalie franziu a testa.

- Não sei explicar direito, mas é algo... Sei lá. – Ele apertou os olhos tentando ver melhor. – Acho que é algo dentro de você.

Lucy riu alto.

- Você anda fumando alguma coisa Ed?

Natalie arregalou os olhos como se reprovasse aquele tipo de coisa.

- Não Lucy. – Ele fechou a cara.

- Foi só uma pergunta, não se sinta mal por isso. – Sua voz estava carregada de deboche.

Natalie observava Lucy, os olhos rasgados, azuis e sombrios, seus cílios eram grossos e longos – almejados por muitas garotas, inclusive por Natalie que tinha que usar rímel para ter cílios como os dela – tudo culminava para a personalidade explosiva e teimosa.

- Esse garçom é um gato. – Sibilou Lucy.

Ed fingiu não ouvir, desviou o olhar para o outro lado do café.

- Quem? – Perguntou Natalie por curiosidade.

- Aquele ali, parado do outro lado, apoiado no balcão, de cabelos louros. – Lucy deu um gemido e voltou à atenção para o rapaz.

- É bonitinho. – Natalie deu outro gole de seu Milkshake.

Ela percorreu o café inteiro atrás de algum conhecido até que encontrou os olhos dourados de Ed, olhando diretamente nos dela. Há quanto tempo ele estava encarando Natalie? Hum.

Algo no olhar dele não alegrava Natalie, talvez tenha sido a observação dele minutos atrás falando que ela estava diferente, o que ele queria dizer com aquilo? Ela não estava diferente! Era a mesma Natalie de sempre. Talvez ele estivesse falando de seu cabelo, certo? Tinha que ser isso, afinal, ela não tinha mudado nada...

Bem, eles por mais que fossem amigos mal se falavam ultimamente, Ed não falava com Natalie e Lucy todo o tempo, ele costuma andar somente com seus amigos do time de futebol ou os amigos que gostavam das mesmas músicas que ele, estar com elas naquele momento foi algo raro e até mesmo precioso para Natalie, ela sentia falta dele.

- Vocês vão para o acampamento de verão da escola nesse final de semana comigo? – Perguntou Natalie se referindo ao ‘recesso’ de meio de ano que a escola faz para todo o ensino médio, e como eles estavam no segundo ano automaticamente estavam incluídos.

- Não sei se vou. – Falou Ed, com um olhar pesado de culpa. – Desculpe.

Lucy revirou os olhos.

- Também ainda não sei.

- Mas nós tínhamos combinado de irmos juntos! – Os olhos de Natalie ardiam. – E agora vocês vão me dizer que ‘simplesmente não iram’?

Eles ficaram em silêncio.

— Tudo bem então. – Respondeu Natalie com rispidez.

Ela se levantou da cadeira com ignorância, a bateu contra o chão e saiu do café sem nem ouvir a resposta de seus amigos, que naquele momento ela duvidava muito que eram realmente ‘amigos’.

- Mãe? – Gritou Natalie do primeiro andar.

Nenhuma resposta.

Ela deve ter saído.

Sozinha. Era assim que se sentia já há algum tempo, simplesmente solitária. Se não bastasse os sentimentos confusos por Ed agora ela tinha uma sensação terrível de abandono percorrendo seu corpo e eriçando os pelos de sua nuca. Droga! A única coisa que ela mais desejava naquele momento era se deitar, dormir e acordar só no inverno onde iria ter a chance de ver o que ela mais amava. A neve.

O seu quarto estava quieto e arrumado, sua cama bem-feita e a janela de vidro aberta, dando visão à cidade grande, casas, lojas e prédios.

Prédios.

A lembrança daquele sozinho maluco veio a sua cabeça, ela correu para a sua cama e se jogou com tudo no colchão macio, enfiando sua cabeça no travesseiro para espantar os pesadelos.

Como um foguete ela decolou de forma rápida e barulhenta para um mundo tenebroso de memórias. Desde o momento em que ela, ou melhor, a garota do seu sonho, correu pelo prédio e de lá pulou, e antes que pudesse cair no chão duro de concreto criou assas.

Muito estranho.

Natalie não era um pássaro para sair voando por ai. Preferiu então apenas esquecer.

- Ai. – Gemeu ela ao se virar de costas na cama.

Suas costas doíam e pinicavam, ela passou a mão por dentro da camiseta tocando sua pele desnuda a fim de ver se encontrava algo... Nada, devia ser cansaço.

- Vai passar. – Ela murmurou para si mesma.

O seu celular começou a vibrar na mesinha ao lado da cama, ela esticou o braço para pegá-lo encostando a ponta dos dedos no material frio dele.

Assim que ela olhou o visor pôde ver o nome dele, Ed e, junto a isso uma foto dele, sorrindo com seus lábios rosados e sua barba ruiva, quase loura, fina em seu rosto.

Ela ficou tensa, sua boca estava trêmula, embora não notasse.

- Alô? – Ela flou.

- Oi Nat. – Ele continuou. – Desculpe pelo que aconteceu hoje, sério, me desculpa.

Ela ficou em silêncio por um momento pensando no que poderia responder ao seu melhor amigo de infância.

- Não foi nada. – Ela resolveu mentir. – Eu que fui meio infantil.

Bem, ela realmente achava não tinha sido nada infantil, mas não podia dizer isso a Ed, ele a acharia cabeça dura e orgulhosa, mas essa era a mais pura verdade.

- Não. – Protestou ele. – A culpa foi minha, eu disse que iria com você no acampamento e eu vou.

Uma pontada de culpa invadiu o coração de Natalie.

- Não, se você não quiser ir não precisa, sério!

- Eu vou sim, eu quero ir.

Natalie ficou em silêncio, mas logo notou que o silêncio tinha ficado constrangedor então ela decidiu falar.

- Tudo bem. – Ela parou por um instante. – Tenho que desligar, nos falamos depois?

- Sim, claro, amanhã nós conversamos. – Respondeu ele, e logo Natalie desligou.

Ótimo!

Agora ele iria por culpa dela para a droga do acampamento do ensino médio, seria um fim de semana nada agradável.

Natalie se permitiria a dormir naquele momento, a afundar sua cabeça ainda mais no travesseiro e se deixar levar pelo sono, mas algo a dizia que aquilo não seria tão bom assim, afinal podia ter sonhos estranhos novamente.

Ele se levantou de uma vez e caminhou até a porta de sei quarto parando no espelho grande que ficava encostado a parede. Natalie olhou seu reflexo por algum tempo, observando seu cabelo cumprido louro claro, sua cintura fina e seu rosto delicado.

Algo em Natalie realmente estava diferente, mas nem mesmo ela podia dizer o que era.

Um barulho vindo do andar debaixo chamou a sua atenção, e com o susto ela tinha acabo dando um pulinho em frente ao espelho.

- Quem está ai? – Gritou ela.

- Eu, filha! – Sua mãe respondeu na mesma altura que ela.

Natalie correu até o andar debaixo.

- Aonde você foi? – Perguntou ela enquanto descia as escadas cobertas por carpete.

- Ao mercado. – Nesse momento sua mãe colocava as compras sobe a bancada da cozinha.

Olhando o tanto de sacolas que ela carregava Natalie não hesitou.

- Quer ajuda?

A mãe a fitou por um momento enquanto ia até o lado de fora pegar mais sacolas no carro.

- Seria ótimo.

Natalie seguiu sua mãe e pegou o máximo de coisas que conseguiu. Logo elas esvaziaram o porta-malas do Ford Fusion preto da mãe.

- Obrigada. – Respondeu sua mãe, ainda um pouco ofegante.

- De nada. – Natalie deu um sorriso.

Sua mãe foi em direção a cozinha preparar alguma coisa para o jantar, sendo que já eram quase sete horas, e Natalia precisava sair um pouco de casa, algo a dizia que permanecer lá naquele instante não ia ser bom, sua mãe ficava muito estressada quando cozinhava.

- Vou dar uma caminhada, já volto mãe. – Disse ela enquanto caminhava até a porta aberta.

- Tudo bem. Não demore.