Aniquila-me
49 Situação de estresse
Notas iniciais
Minha mente era feita de perguntas. Todas se embaralhavam em minha cabeça, se contorciam, me esmagavam. Como eu ia sair dali? Será que Malia e Scott conseguiriam chegar até Stiles e Liam?
— Eu já vou responder as perguntas que você deve estar fazendo, Lydia. — Foi a promessa do doutor antes de cutucar minha cabeça com um dedo, como se mostrasse que eu tinha questionamentos internos.
Fechei os olhos e desejei poder me mover. Porém, tudo que consegui foi voltar a abrir os olhos a tempo de ver o momento em que o doutor se inclinou para mim e me tirou do chão, sustentando meu corpo.
Em momentos de medo, agonia, preocupação, o tempo passa de forma diferente. Até o modo como enxerga as situações, muda. Tudo parece mais lento e ao mesmo tempo, veloz demais para você conseguir acompanhar.
É como se o seu raciocino não funcionasse como deveria. Você sabe que precisa fazer algo. Precisa agir, precisa pensar, mas o medo não deixa. Os seus próprios pensamentos o aprisionam.
Uma voz muda surge em seus ouvidos e por mais que você saiba que aquela voz não existe, seus ouvidos ardem ao ouvir os berros que alertam que tudo vai dar errado. Esses gritos avisam todos os perigos, no entanto, não falam como você faz para se livrar daquela situação.
Sem ter controle dos movimentos do meu corpo ou da minha voz, não pude fazer nada. Senti quando o doutor me deitou sobre uma maca gelada e logo depois, algo frio e melado tocou minha barriga desnuda.
Não podia nem sequer olhar para meu abdômen, não podia erguer a cabeça para saber o que ele fazia comigo. Só podia ficar em silêncio e esperar, sentindo tudo e sem ter nenhuma reação.
— Maravilha! Isso é perfeito, Lydia!
A voz do doutor era exatamente como eu me lembrava, doce, calma, enjoativa. Dizia meu nome como se eu fosse uma pessoa especial, como se eu não tivesse acabado de matar tantas pessoas que trabalhavam para ele.
— Você é mesmo uma criatura fantástica, minha querida! Eu sabia que tudo isso valeria a pena.
Os olhos escuros se exibiram para mim. O doutor andou até meu campo de visão, apoiando uma mão em minha cabeça. Ele sorria. Todos os dentes à mostra.
Desejei arrancar cada um daqueles dentes. Queria tirar a mão dele da minha cabeça. Se pudesse me mover, morderia seus dedos até desconecta-los das mãos que tanto me causaram sofrimento.
— Não me olhe com tanta raiva, já vou explicar tudo para você.
Ele voltou a se afastar de mim. Mais uma vez, não pude enxergá-lo. Escutei o som dos sapatos dele enquanto andava por cima de algo molhado. Com facilidade, conclui que ele pisava em cima do rastro de sangue que a luta tinha deixado.
Som de metal sendo arrastado e então, o doutor voltou a surgir, com uma cadeira nas mãos. Ele sentou no banco e mais uma vez, levou as mãos ao meu rosto, virando minha cabeça para o lado, de forma que fiquei o encarando.
A todo instante, tentava me mover, testava se os efeitos da sustância misteriosa tinham saído do meu corpo. Mas não conseguia. Nenhum músculo me obedecia e permanecia incapaz de falar.
— Primeiro, fique tranquila que eu não vou atrás dos seus amigos — Meu coração gelou ao ouvir aquilo. — Não importa se eles vão fugir ou não, eu só precisava chamar a sua atenção.
Se eu já sentia raiva antes, depois do que ele falou, meu corpo inteiro explodiu com chamas de ódio. Meus olhos ardiam e eu tinha certeza que estavam negros, mas o doutor não demonstrava medo, pelo contrário, ele parecia admirado.
Meu organismo ardia de raiva e ele estava lá, tranquilo, sorridente.
Scott tinha sido sequestrado por minha causa. Óbvio que esse pensamento já tinha passado por minha cabeça, porém, ter essa confirmação era pior do que só pensar. Scott foi pego para chamar minha atenção.
Meus amigos só estavam sofrendo aquilo por minha causa. Stiles estava sofrendo aquilo por minha culpa.
Com muito, muito esforço, abri os lábios dormentes. Tentei forçar minha voz para fora, porém, nenhum som saiu. Nada. Nem sequer um grunhido. Eu estava totalmente muda.
— Agora que o plano deu certo, nada mais importa, querida. Por isso eu deixei que você matasse tanta gente aqui e não fiz nada para impedir. — Ele não podia estar falando a verdade. Não era possível que ele tinha deixado aquilo acontecer. — Até se você me matar, não vai ter mais importância. Nada que faça vai impedir que tudo dê certo como eu queria.
Eu não entendia o que ele dizia, mas tinha certeza de que seria bem pior quando entendesse. Não queria continuar ouvindo ele falar. Mesmo com todas minhas dúvidas, mesmo com a eterna pergunta que me atormentava, eu não estava preparada para a verdade.
“Qual foi o propósito de fazerem tudo aquilo comigo? ” Era a dúvida que me perseguia desde o momento que fui liberta da Eichen. Porém, tinha medo de que a resposta fosse pior do que a imaginação macabra que surgia enquanto eu tentava discernir o porquê mereci tanto sofrimento.
— Finalmente chegou a hora de você entender tudo, minha querida. — Ele suspirou no meio da fala, quase como se estivesse emocionado com o que estava preste a dizer. — Primeiro, você precisa saber que seus amigos só a salvaram porque eu quis. Deixei que isso acontecesse.
O único movimento que pude fazer foi arregalar os olhos. Não queria acreditar naquilo. Não podia!
— Se eu quisesse que ainda estivesse presa, eles jamais conseguiram salvar você. Então, dei um jeito de facilitar as coisas para que eles a encontrassem e achassem que conseguiram a resgatar porque eram bons o suficiente para isso. Mas eu não parei de cuidar de você, Lydia. O tempo todo eu estava a vigiando.
Não. Não. Não! Impossível!
— Você conheceu a Carol, não foi? Uma moça bonita de cabelos cacheados.
Ele parou por um momento de falar e foi o suficiente para minha mente trabalhar, fazendo com que lembrasse da moça que ficava no apartamento em frente ao meu e do Stiles. A mulher do mesmo andar que o nosso, a que costurou o ombro do Stiles depois que eu o ataquei.
Lembrei do ciúme que senti da mulher e das poucas vezes que encontrei com ela enquanto saia com Stiles para algum lugar. Poucos esbarrões que pareciam só coincidência.
— Ela trabalha comigo, ficou de olho em vocês e sempre me informava sobre seu avanço. — Enquanto ouvia, tive a sensação de que mesmo se eu pudesse me mover, não conseguiria pelo espanto, pelo terror que me dominava. — Você não achou que estava escondida com seu namoradinho, não é?
Mesmo com a voz melosa, o deboche invadiu a voz do doutor. Meu estomago borbulhava de horror, enjoo, mas meus músculos continuavam imóveis. Eu não podia acreditar naquilo que ele falava.
Eu nunca estive segura, nunca estive escondida. O tempo todo ele sabia onde eu estava! Onde Stiles estava! Nós estávamos sendo vigiados, controlados. Achava que estava livre, porém, na verdade, nunca me libertei do inferno.
Eles controlavam minha vida. Até mesmo a minha fuga. Tudo!
— Desculpe por enganar você, Lydia. Mas é que nada funcionaria se soubesse que estava sendo seguida. — Ele continuou falando e a cada segundo, eu me sentia mais indefesa, perdida e com mais raiva. — Eu deixei seus amigos buscarem por você por dois motivos...
Em meu esforço para me mover, para gritar, consegui soltar um pequeno grunhido. O som saiu baixo, sufocado, no entanto, ainda assim, chamou atenção o suficiente do doutor para que ele parasse de falar.
— Você é mesmo formidável, Lydia. Já está conseguindo vencer os efeitos do remédio! — Ele sorriu e suspirou. — Daqui a pouco dou outra dose para você.
Foi aí que eu percebi o erro que tinha cometido. Eu tinha que lutar em silencio, recuperar o controle do meu corpo sem demonstrar. Se ele continuasse dando outras doses para mim, jamais ia me recuperar o suficiente para atacar.
Precisava fingir que ainda estava totalmente sobre o controle do remédio até, finalmente, criar forças para matá-lo. Precisava ser forte o suficiente para isso.
— Como eu estava dizendo, tive dois motivos. O primeiro foi que você estava muito fraca, magra, enlouquecendo... — Ele parou de falar, parecendo pensativo e logo depois, direcionou um meio sorriso para mim. — Eu devia ter tido mais cuidado para você não chegar naquele estado. — E então, ele balançou os ombros, como se aquilo não fosse nada demais. — Mas para evoluir você, deixá-la mais forte, poderosa, era preciso que passasse por situações de estresse.
Situações de estresse. Era assim que aquele monstro tinha coragem de descrever o que eu passei ali no inferno. A privação de comida e higiene, tortura, estupro. Ele chamava de estresse, as coisas que tinham destruído minha vida. Destruíram minha sanidade.
— Você estava muito mal e eu precisava que ficasse saudável de novo, como está agora. Além de que, depois eu descobri que Kevin era estéril. — Pontadas de dor espetaram minha mente enquanto digeria aquelas palavras. — Eu deixava ele se divertir com você na esperança de que quando eu parasse de medicá-la, ele pudesse engravidá-la. Mas o infeliz é estéril!
Não!
A voz em minha cabeça voltou a berrar. Estalando meus ouvidos, perfurando minha mente. Tudo que eu enxergava pareceu girar. A tontura entorpeceu meus sentidos, me tornando ainda mais vulnerável.
Lembrei da época no inferno em que percebi que parei de menstruar e de como o doutor dizia que eu não podia engravidar na hora errada, para não atrapalhar os procedimentos a base de tortura.
O doutor queria que eu engravidasse. Queria que Kevin me engravidasse no momento que ele quisesse e o que estragou isso foi descobrir que o estuprador maldito era estéril. Mas então.... Esse era o plano!
— Sim, Lydia. Você está grávida! É isso que eu acabei de ver e comemorei.
Ele sorriu e o meu mundo voltou a girar, a despencar.
O gelado que tinha sentido em minha barriga passou a fazer sentido. Era um gel. Ele tinha feito uma ultrassonografia em mim! E eu estava grávida. Grávida do Stiles.
— Esse bebê vai ser uma espécie avançada. Bem mais forte qualquer outra banshee! Eu fiz de tudo para preparar sua gravidez e sabia que fora daqui você tinha muita chance de melhorar, voltar ao peso ideal, a ter saúde. — Ele sorria e eu sentia meus órgãos derretendo. — Também, sabia que gostava do Stiles e ele de você e que o Stilinski era saudável o suficiente para poder gerar bons filhos.
O doutor continuou a falar. Eu escutei algumas partes, no entanto, não conseguia mais compreender as palavras. Toda minha consciência, toda força, estava voltada a descoberta de que eu carregava um pequeno ser dentro de mim.
— Eu sei que você quer me matar, Lydia, mas agora, mesmo que consiga, não me importo, porque o que eu mais queria deu certo. — Tudo estava vermelho diante dos meus olhos. Enxergava tudo através do ódio. — Você está gerando uma espécie evoluída e sei que jamais vai ter coragem de abortar essa criança.
Ele continuou a falar. Deu detalhes sobre como manipulou minha vida, como planejou a gravidez, como mudou meu corpo para transformar um feto em um bebê poderoso.
Ele planejou tudo, destruiu minha vida para realizar seus desejos doentios. Meu corpo estava diferente e nem eu mesma entendia a extensão disso. O bebê que crescia em mim seria diferente de alguma forma e eu não fazia ideia de como poderia ser.
E foi assim que mais uma vez, o ódio me libertou. Toda dor acumulada dentro de mim, o desespero por fugir e para encontrar Stiles, saber se ele estava bem, todas as emoções negativas se uniram em meu organismo.
Além disso, muito além de tudo de ruim que dominava minha alma, consumia minha mente e devorava meu coração, o que me deu mais força foi pensar na vida que estava dentro de mim. Na vida que dependia do meu bem-estar para continuar forte, para crescer.
Antes, tinha o conforto de saber que Stiles tinha mais chances do que eu de sair daquele inferno. Porém, no momento que descobri o que habitava meu ventre, me dei conta de que minha salvação iria também, salvar outra vida de conhecer aquele lugar horrendo.
Então, com uma força inimaginável, eu consegui abrir a boca e despejar o som que estava entalado em minha garganta. Gritei com toda minha força, derramando meu fôlego através da potência da minha voz.
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