Aniquila-me
50 Ansiedade
Notas iniciais
Andar era fácil, natural. Um ato comum e impensado, que nunca exigiu nenhum esforço de minhas pernas. Mas isso foi antes de tudo que descobri, de tudo o que aconteceu.
Quando sai da sala pequena suja de sangue, cheia de miolos espalhados pelo chão, percebi como andar se tornou algo difícil, quase impossível. Meus joelhos doíam e os pés tremiam cada vez que pisava no chão.
No entanto, o que tornou o andar algo tão estranho e penoso, não foi a dor em meu corpo ou o sangue grudado em minha pele, nem a destruição a minha volta, mas sim, a consciência de que eu estava mais pesada, carregando algo dentro do ventre.
Grávida.
Grávida.
Grávida.
Tinha tanto o que pensar, tanto para me preocupar e ainda assim, só uma palavra perfurava meus pensamentos. Pensava tanto naquilo, que não conseguia raciocinar direito onde eu estava ou o que tinha feito.
Eu lembrava dos fatos e sabia que estava andando pelos corredores escuros e imensos, no entanto, não conseguia digerir aquele amontoado de informações que tentei absorver em tão pouco tempo.
Scott foi sequestrado por minha causa. Stiles e eu fomos pegos também. Malia e Liam vieram nos ajudar. Matei humanos e lobisomens. Tive que enfrentar o Kevin e o doutor. Fui ferida, mas me curei por causa das modificações em meu corpo. Scott estava quase morto. Stiles estava quase morto.
Por último, eu tinha acabado de descobrir que os planos do doutor deram certo e depois, o matei. Matei com um grito que foi capaz de estourar sua cabeça. Mas dentro de mim, do meu útero, eu carregava o plano da Eichen.
Já não conseguia sentir mais nada. Nem medo, raiva ou dor.
Naquele momento, enquanto me arrastava descalça pelos corredores, eu era como um zumbi sem emoções, sem reações. Sentia meus olhos arregalados e as mãos fechadas em punho, trêmulas e prontas para bater em alguém.
Com os lábios secos e entreabertos, proferia a mesma palavra que cortava minha mente “grávida”. E era só isso que eu ouvia, o som da minha própria voz rouca e insegura.
O lugar que antes parecia estar infestada de pessoas malignas, tinha se transformado em um cemitério silencioso e grotesco. Só havia sangue, pessoas caídas no chão, membros separados do corpo.
Eichen House me destruiu por dentro e por fora. Arrancou minha sanidade e fez com que todo meu corpo sangrasse. Mas então, depois de tanto tempo, eu tinha feito o mesmo que eles fizeram comigo. Fiz com que morressem, sangrassem, fossem destruídos.
O que eu tinha mais medo, o que me trazia as piores lembranças da minha vida, tinha acabado de ser destruído e com isso, perdi os medos que me assombravam.
Não existia mais Eichen House, não existia mais doutor ou Kevin.
A partir dali o único medo que me restava era os relacionados a preocupação com as pessoas que eu amava. Se meus amigos sobrevivessem, se meu namorado sobrevivesse, se meu bebê continuasse seguro em meu ventre, eu seria capaz de enfrentar tudo e a todos.
Andei sem enxergar, sem pensar e então, enquanto olhava para baixo, vendo meus pés se moverem para a frente, percebi que o chão que pisava tinha se tornado branco e gelado.
Ergui a cabeça e notei, finalmente, que tinha ido até o único hospital de Beacon Hills. Várias pessoas, tanto médicos como pacientes, estavam paralisados, me encarando.
Claro que me olhavam! Usava um vestido rasgado, sujo e repleto de sangue. Além de estar descalça e provavelmente, descabelada e com uma expressão violenta.
Impulsei o corpo para frente, aflita e quando cheguei perto do balcão, pronta para falar com uma atendente, senti uma mão em meu ombro. De forma automática, resetei o corpo e virei para trás, me preparando para atacar.
No entanto, me deparei com Melissa, a enfermeira que cuidou de mim, a mãe de Scott. Não precisei perguntar nada a ela, pois o rosto vermelho e os olhos expulsando lágrimas, mostrou que Scott e Stiles já estavam ali.
— Vem comigo. — Falou de um jeito dolorido, penoso. Estremeci e em silêncio, a segui.
**
Os minutos se uniram e formaram horas. As horas se tornaram dias e então, os dias longos, angustiantes, me torturaram ao se acumularem em semanas. Para ser mais exata, três semanas.
Durante todo esse tempo, eu não saí do hospital para nada. Comi a refeição hospitalar, tomei banho lá, dormi nos bancos de espera e em outros dias, no sofá do quarto onde Stiles estava internado.
— Como o Scott está? — Perguntei em um sussurro baixo, observando o rosto de Malia. Ela parecia melhor, havia um pouco mais de vida em seus olhos.
— Ele falou pela primeira vez!
Inclinei os lábios para os lados e percebi que fazia tanto tempo que não sorria, que o movimento pareceu estranho. Era como se os músculos faciais tivessem se esquecido de como era sorrir.
— O que ele disse?
— Malia. — Ao pronunciar o próprio nome, foi a vez da Hale sorrir.
Balancei a cabeça em uma concordância, desfrutando daquele momento de felicidade. A realização muda no rosto de Malia era tão deslumbrante, que ao mesmo tempo, a invejei e me alegrei por ela.
— Stiles vai ficar bem, Lydia. Assim que abrir os olhos, já vai ficar melhor ao ver você.
Ainda parecia estranho ver Malia tentando me dar apoio, consolar, no entanto, ela fazia isso com cada vez mais frequência de acordo com que os dias passavam.
Para completar, ela levou uma mão até a minha, apertando de leve. Era talvez, a quarta vez que segurávamos a mão uma da outra só naquela semana. Já conseguia a chamar de amiga.
— Você vai ver! Daqui umas semanas, já vão voltar a transar como viciados.
Fiquei tão surpresa com aquelas palavras, que arregalei os olhos e arfei alto. Ergui as sobrancelhas enquanto observava Malia da cabeça aos pés, dominada pela confusão e curiosidade.
— Como você...
— Scott me contou em uma ligação. — Explicou com um tom malicioso. Era a primeira vez naquelas semanas em que tínhamos um assunto tão... normal. — Na verdade, Stiles também me contou.
— Ótimo — Foi minha resposta, permitindo que a ironia transbordasse da minha voz.
— Assim que Scott conseguir levantar daquela cama, a primeira coisa que eu vou fazer é dar para ele.
Mesmo sem saber como, consegui ri. Surpreendi-me pelo próprio som descontraído que escapou dos meus pulmões. Foi algo inevitável, espontâneo e preencheu meu corpo de alivio.
— Vocês ainda.... Nunca fizeram isso?! — Permiti que minha curiosidade escapasse, feliz pela descontração da conversa.
— Não! — Malia parecia completamente confortável com o assunto, mesmo sem ter tanta intimidade comigo. Olhava para meus olhos e os ombros estavam relaxados. — Mas ele deve ser bom, não é? Tem que ser! Porque depois de achar que ele ia morrer, eu estou doida para...
— Com certeza ele vai ser bom.
Respondi com tanta segurança, que Malia me olhou com algum questionamento no olhar. No entanto, ela não perguntou nada e eu agradeci internamente por isso.
Não queria dizer que tinha essa certeza porque Allison sempre me dizia, com detalhes, como Scott era bom na cama e a enlouquecia. Falar isso para a Hale seria, no mínimo, constrangedor.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Nós estávamos sentadas nos bancos de espera em um dos intermináveis corredores do hospital. A nossa frente, estavam dois quartos. O da direita, era do Scott e o da esquerda, do Stiles.
Malia interrompeu a calmaria com uma risadinha desavergonhada e satisfeita. Ainda estava desacostumada com aquela atmosfera mais leve, porém, ela tinha razão de estar assim, considerando os avanços de Scott. Eu também tinha motivo, já que Stiles estava se recuperando cada vez mais e só não tinha acordado, porque os médicos o dopavam para que não sentisse dor.
— O que foi? — Perguntei quando ela demorou para explicar o motivo de rir.
— Os garotos ainda estão ferrados, machucados e a gente aqui, falando sobre sexo.
— Você que falou, não eu! — Corrigi de brincadeira, revirando os olhos e erguendo as mãos.
— Vai dizer que também não está ansiosa para transar?
Suspirei e felizmente, não me senti intimidada com a pergunta, ou constrangida. Malia fazia com que de alguma forma, eu me sentisse bem, a vontade. Por isso, sorri de lado.
— Eu nunca neguei. — Foi minha breve resposta.
Acho que Malia ia falar mais alguma coisa, mas se calou quando a porta do quarto de Stiles se abriu. O xerife Stilinski saiu sorrindo de lá, ao seu lado estava o doutor responsável por Stiles.
Automaticamente, fiquei de pé, olhando ansiosa para os dois homens. Antes que qualquer um falasse, vi o Stilinski balançar a cabeça para o doutor, dando algum sinal para ele antes de finalmente, vir até mim.
— Eles vão acordar o Stiles!
— H-hoje?! — Minha voz tremeu. O coração saltou e quase correu até meus pés.
— Tenho certeza que você vai ser a primeira pessoa que ele vai querer ver!
Os olhos claros do xerife estavam cheios de lágrimas e pela primeira vez naquelas semanas, eu tive vontade de chorar de alegria. Não consegui ter nenhuma reação e o homem pareceu perceber isso.
Quando dei por mim, estava abraçada ao xerife. Ele chorava. Eu também chorava. Não sabia quem tinha iniciado o abraço, se tinha sido eu ou ele, mas não importava.
Aquele toque excessivo de um abraço não me incomodava. Eu já tinha ultrapassado minhas barreias pessoais. O inferno estava destruído. Scott estava bem. Stiles estava bem.
A única coisa que eu ainda não sabia como lidar era com a pequena vida que estava sendo gerada dentro de mim. Ninguém sabia sobre minha gravidez. Não tive coragem de contar e também, não queria que ninguém soubesse antes de Stiles.
Tudo o que eu esperei que acontecesse durante as três semanas, de repente, aconteceu de uma vez só. Entrei no quarto onde Stiles estava, ainda atordoada e vi o médico injetar algo no braço direito do garoto que eu amava.
Stiles ainda estava com uma aparência terrível. A pele coberta por hematomas, o olho muito inchado e além disso, tinha quebrado uma perna e duas costelas. Nos braços, teve que levar alguns pontos e também no rosto, na bochecha direita, onde eu sabia que ficaria uma cicatriz.
Mesmo assim, eu o achava lindo.
— É só aguardar um pouco — Foi a única coisa que escutei o médico dizer.
Ele saiu do quarto e eu fiquei ali, parada, em pé, encarando o corpo ainda inerte de Stiles. Achava que teria que esperar muito e que o tempo passaria lentamente. Porém, os segundos passaram bem rápido.
Em um instante, Stiles parecia estar preso em um sono eterno e no outro, vislumbrei a íris castanha capaz de me deixar insone por meses seguidos. Ele acordou soltando o fôlego de uma vez só através dos lábios finos.
— Stiles!
Stiles olhou para mim. O rosto perdido, os olhos arregalados e assustados. Segurei firme em sua mão gelada e inclinei o corpo para frente, até deixar nossos rostos próximos. Minha respiração estava tão irregular quanto a dele.
— V- você... — Ele se engasgou no meio da frase. Apoiei a outra mão em seu rosto, acariciando a bochecha marcada por hematomas — e-está bem?
— Todo mundo está bem — Respondi, o tranquilizando — Liam nem precisou ficar no hospital e Derek está ajudando o Scott — Assim que disse “Derek”, vi a pergunta nos olhos de Stiles — Derek veio para ajudar na cura do Scott.
Tinha muito para explicar e sabia o quanto Stiles ansiava por aquelas respostas. Mas eu não queria falar nada daquilo. Queria beijá-lo e repetir infinitas vezes o quanto o amava.
Stiles continuou tentando falar e por isso, fiz o enorme esforço de dar as explicações que sabia que ele queria. Enquanto falava, minhas lágrimas caiam sobre o rosto dele e eu fazia o máximo para secá-las de sua pele.
O tempo todo, permanecemos com os rostos próximos e olhos conectados, vidrados um no outro. Falei tudo rápido, ansiosa para saciar logo suas dúvidas. Disse só o principal: que finalmente, policiais tiveram provas o suficiente para fechar a Eichen e que Kevin já estava morto quando invadiram o lugar. Expliquei que matei o doutor e que consegui escapar sozinha e a quanto tempo ele e Scott já estavam no hospital, recebendo tratamento.
— Eu amo você — Disse afobada, assim que terminei minha explicação. Sabia que ele ainda queria saber mais, porém, minha declaração foi o suficiente para que os lábios dele, secos e inchados, formassem um sorriso.
— Eu também amo você, anjo.
Então, em uma sincronia adquirida pela convivência, nós dois falamos ao mesmo tempo, a mesma frase. Eu, com a voz firme e desesperada, ele, com a voz falha, rouca. A fala foi “eu preciso dizer uma coisa”.
— O que acha de falarmos juntos? — Sugeri com algum humor, apesar do nervosismo que exprimia meu coração.
Ele concordou fraco com a cabeça e depois, eu contei baixinho em seu ouvido: um, dois, três. Senti ele estremecer pela aproximação da minha boca em sua orelha. Isso me agradou tanto, que fechei os olhos e apoiei a cabeça em seu ombro, tomando coragem para falar.
— Já! — Disse por impulso, antes que não tivesse mais forças para contar o que precisava.
Deixaria os detalhes para depois, falaria dos planos do doutor depois. Antes, tinha algo bem mais urgente para dizer a ele e foi por isso que nervosa, emocionada, atordoada, finalmente falei:
— Eu estou grávida.
Enquanto pronunciava minha frase, ao mesmo tempo, Stiles revelou o que tinha para dizer. Sua voz insegura, dolorido e fraca, pareceu ser a melhor canção que já tinha ouvido na vida.
— Casa comigo.
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