Aniquila-me
15 Loucura e sanidade
Notas iniciais
— Eu vou tirar as chaves de todos os cômodos e você não pode fechar mais nenhuma porta, nem mesmo encostar. — Foi o que Stiles disse quando me colocou na cama, agachado ao meu lado, falando como se brigasse com uma criança. — Se você encostar uma porta que seja, eu juro que vou quebrar uma por uma.
Fiz uma careta, mas não neguei, ainda me sentia culpada por ter atacado Stiles e ele recusou todas as minhas tentativas de pedir desculpas, então não podia reclamar da única coisa que exigia.
— Não quero correr o risco de você se trancar novamente e me dar esse susto.
— D-desculpa, eu...
— Eu que fui irresponsável, Lydia e já disse milhares de vezes que não tem o porquê se desculpar.
— Eu tentei mata-lo.
— Só porque eu dormi na hora errada e a chamei de um apelido estúpido.
Estremeci, lembrando de sua voz proferindo “princesa” e ele suspirou, apoiando os cotovelos no colchão, perto do meu corpo.
— Você sabe que está comigo para não ter que fazer nenhum tratamento psiquiátrico ou algo do tipo. — Concordei lentamente com a cabeça, desconfiada. — Então eu preciso que você me deixe ajuda-la, Lydia. Nessa primeira semana quis deixa-la em paz, mas você precisa começar a se abrir comigo.
Não falei nada, apenas demonstrei minha dúvida com a expressão.
— Você tem várias crises de choro, Lydia. Ouve e fala com a Allison com frequência e eu sei que é impossível esquecer o que aconteceu com você lá.
— O que você quer que eu faça?
— Que fale sobre o que a incomoda, fale o que fizeram com você.
Foi automático, só em pensar em dizer minhas humilhações, senti as lágrimas preenchendo meus olhos e molhando meu rosto. Neguei com a cabeça, aflita.
— Não.
— Lydia, olha para mim. — A sua voz mansa, me fez encara-lo. — Você não pode aguentar tudo isso sozinha, só tenta se esforçar por favor, mesmo que eu arrume um psicólogo, não vai poder falar nada que envolva o sobrenatural, mas comigo você pode dizer qualquer coisa.
— Eu não consigo falar.
— Sei que é difícil, Lydia, mas é para o seu bem.
— Não. — Todo bem-estar que eu estava sentindo, se esvaiu, sendo substituído por lembranças macabras.
Stiles fez uma coisa que eu não esperava, ele subiu na cama, deitou ao meu lado, tomando um grande espaço no colchão. Eu me retesei, assustada, pensei na possibilidade de empurra-lo, mas não resisti quando seu braço magro envolveu minha cintura e me apertou de maneira confortável, a sensação era boa.
Ele me ajeitou em seu peito, começou a mexer no meu cabelo e me deixou completamente aconchegada, encolhida contra seu corpo macio.
— O que você acha de jogarmos ? — Mesmo chorando, me espremendo contra ele, fiquei curiosa com sua fala.
— Que jogo? — Minha voz estava completamente rouca.
— Você faz qualquer pergunta para mim, sobre qualquer coisa e eu prometo responder e dizer a verdade, depois eu pergunto para você e vice-versa.
— Esse é um péssimo jogo, Stiles. — Murmurei, sabendo que ele disse aquilo só para eu me abrir como queria.
— Mas aposto que você tem perguntas para mim. — Ele sorria e eu suspirei, parando de chorar de forma repentina. — Vamos lá, Lydia. Pergunta o que quiser.
— Você disse que eu era a última Banshee. — Disse insegura, lembrando da nossa última conversa.
— Isso não é uma pergunta. — Ele fez uma expressão provocativa e eu me ajeitei na cama, afundando a cabeça no seu peito, de um jeito que consegui analisar melhor o seu rosto.
— Como assim eu sou a última Banshee? — Ele riu nasalado e novamente me surpreendi com aquele garoto.
Eu tinha acabado de tentar mata-lo, tinha uma ferida recém costurada no ombro e eu percebia que ele escondia a dor, contudo, ainda assim, mesmo morando com uma louca que dependia completamente dele, Stiles ria e sorria, me provocava estupidamente e parecia sempre cheio de uma esperança inacreditável.
— Eu fiquei meio obcecado quando você sumiu. — Sua voz ficou mais séria, mas a expressão era tranquila. — Pesquisei muita coisa, estudei muito sobre seres sobrenaturais, achei milhares de livros e o Deaton me ajudou também.
— Estudou sobre Banshee. — Conclui e ele me apertou com firmeza.
— É uma espécie raríssima e não existe uma forma de contaminar os outros como é com um lobisomem. — Ele falava com calma, olhando profundamente nos meus olhos. — É transmitida apenas de geração em geração, vem de famílias especificas.
— Minha avó era uma. — Sussurrei, estremecendo ao lembrar que minha avó passou pela Eichen House.
— Sim, o gene já estava na sua família, mas isso não quer dizer que em todas as gerações os dons vão se manifestar. A sua mãe, por exemplo, nunca nem soube sobre Banshee e talvez, se você não tivesse sido mordida por Peter, seus poderes não aflorariam.
— Isso não explica porque eu sou a última Banshee.
— Antigamente, existia uma linhagem de caçadores que exterminavam as famílias que eles suspeitavam carregar o gene de Banshee. Eles conseguiram acabar com praticamente todas as famílias e por isso, passou muitos anos sem que ninguém desenvolvesse os dons, para que os caçadores não descobrissem. — Ele falava sério, a expressão distante como se lembrasse de algo. — Com o tempo, não tinha mais sentido existir esses caçadores e as famílias com esse poder passaram tanto tempo o escondendo que virou só uma lenda, até chegar ao ponto de pouquíssimas sociedades conhecerem a palavra Banshee.
— Isso não faz sentido. Por que caçar Banshee?
— Seu poder não é só prever a morte, Lydia. Você ainda não se desenvolveu completamente, tem mais poder do que pensa, por isso perseguem Banshee. — Ele respirou fundo e demorou alguns minutos para voltar a falar, — Esse doutor, essas pessoas da Eichen House, de alguma forma, conseguiram descobrir essas famílias que carregavam o gene de Banshee sem nem saberem. Foram matando famílias inteiras e acharam que Meredith tinha sido a última, mas por causa dela, descobriram sobre você. A última Banshee viva.
— A Meredith morreu? — Perguntei fraco, lembrando da mulher de cabelo curto e traços firmes. — Se eu morrer, ninguém mais vai ter essa maldição.
— Não é uma maldição, Lydia, mas sim, você é a última com o gene e só vai continuar a espécie se tiver filhos algum dia.
Fiquei em silêncio, absorvendo as informações.
— Está na minha vez, a gente demorou muito na sua pergunta. — Só quando ele falou, com um mini sorriso, lembrei que estávamos em um jogo idiota. — Você lembra de tudo? Sabe, tudo antes daquele hospício.
— Algumas lembranças são confusas, mas eu lembrei de todos assim que os vi. — Respondi lentamente, encarando sua expressão curiosa. — Às vezes eu sonho com alguns detalhes que tinha esquecido, alguns momentos, mas lembro perfeitamente de todos da alcateia, do Benefactor, Nogitsune, Kanima, enfim, dessas coisas. — Ele concordou e eu parei alguns segundos para pensar em uma pergunta. — Você ainda está com a Malia? — A pergunta surgiu na minha boca antes que eu racionasse o quanto ela podia parecer estúpida. Tinha tantas perguntas e algo como aquilo gerou curiosidade em mim.
— Não, eu terminei antes de virmos morar juntos. Por que você fala como se gostasse do doutor?
— Ele só queria cuidar de mim. — A resposta veio rápida e automática, enquanto eu me remexia inquieta, ainda muito próxima dele. — Ele queria que eu desenvolvesse meus dons e explicou que eu precisava aguentar todo sofrimento, era para o meu bem. — Stiles não gostou da minha resposta, fazendo uma careta. — Como vocês conseguiram me tirar daquela cela?
— Kira, Malia, Liam e Scott atacaram todo mundo. As meninas se concentraram nos guardas da frente, Liam ficou com um último segurança no andar que você estava e Scott derrubou todos os reforços, enquanto eu me adiantei e fui procurando você em cada maldita cela. Você realmente me odeia?
Aquela pergunta me pegou desprevenida. Observei a curiosidade em seu rosto, pensei em quantas vezes berrei que o odiava e fugi dele e também em como ele estava cuidando de mim.
— Não, não odeio. Você realmente me ama?
— Se eu não amasse, acha mesmo faria tudo isso por você? É claro que eu amo, você ainda é minha melhor amiga, mesmo que esteja diferente. — “Minha melhor amiga”, algo naquela afirmação não foi o suficiente para mim. — Última pergunta antes de dormir, está tudo bem se a Malia vier aqui semana que vem?
— Por quê? Eu não gosto dela. — Murmurei automaticamente, incomodada.
— Para a gente se ver, mas se você não quiser está tudo bem, eu só... — Ele parou, parecendo pensativo antes de voltar a falar. — Estou com saudades dela, ia ser bom.
Não fazia sentido eu impedir. Talvez eu estivesse sendo estúpida e Allison tivesse razão, que não podia confiar em Stiles e que devia mata-lo, junto com todo o resto da alcateia, mas, mesmo com esse pensamento, eu não estava com Stiles? Eu conversava com ele e naquele momento, estava permitindo que me abraçasse, apreciando o contato, deitada com ele. Que diferença faria dar uma pequena chance para outra pessoa da alcateia?
— Tudo bem, desde que eu não tenha que conversar com ela.
Ele abriu um sorriso enorme, agradeceu, disse que ela só ficaria por um ou dois dias e saiu da cama, voltando a sentar no chão, onde todos os dias ficava até que eu dormisse.
Parte de mim, gritava para eu confiar naquele garoto de pintinhas e ceder a vontade de toca-lo, abraça-lo, de permitir que ele invadisse a minha vida por inteiro e outra parte, gritava que ele só queria me trair, que me abandonaria novamente naquele lugar horrível.
Eu sabia que um desses gritos era o da loucura e o outro, da sanidade, só não sabia distinguir qual deles era o são.
Precisava decidir entre meu instinto e minha melhor amiga morta ou minha esperança e meu antigo melhor amigo.
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