Aniquila-me
16 Espiar
Notas iniciais
A segunda semana com Stiles passou muito mais rápido do que a primeira.
— Lydia, fica calma, não tem nada de mais.
— Se ela tentar me atacar eu juro que...
— Ninguém vai atacar ninguém! Lembra que você concordou com isso!
Suspirei e concordei com a cabeça, aflita. Stiles não sabia, mas Allison estava ao meu lado, com a sobrancelha erguida e a expressão debochada.
— Olha só como você está, Lydia. Não dá nem para acreditar que é a mesma garota de três semanas atrás! — A voz da caçadora era irônica, fazendo com que eu revirasse os olhos. — Antes estava toda decidida que ia se proteger, que ninguém nunca mais a machucaria, mas bastou ficar limpa e colocar uma roupa descente que já está toda amiguinha do humano imbecil.
Olhei para mim mesma; eu vestia uma calça larga, um casaco de moletom cinza e os pés descalços. Eu me sentia melhor daquela forma, cobrindo todo meu corpo miserável para que quando Malia chegasse, não visse as milhares de cicatrizes, e para tentar, inutilmente, disfarçar o quando ainda estava magra.
— Não vai mudar nada para você, se não quiser nem olhar para a cara dela está tudo bem. — Stiles repetiu a mesma frase que disse a semana inteira. — Malia só veio me ver e pronto.
— Nada vai mudar exceto o fato que você vai ficar com ela o dia todo. — Não contive as palavras sussurradas e rezei para que ele não escutasse.
— Lydia. — Ele esperou que eu encarasse a sua expressão debochada para falar. — Eu sou todo seu.
Xinguei a mim mesma por ele ter escutado e Allison bufou, irritada. Ela andava muito entediada nos últimos dias, o que a deixava extremamente impaciente e irritante, mas, pelo menos, ela não estava provocando crises em mim; ela falava, reclamava, porém, convivia comigo sem atrapalhar meu cotidiano, ao ponto de eu conseguir esconde-la de Stiles.
Ele não precisava saber a frequência que eu a via.
— Já está com ciúmes do cara que a abandonou? Você esquece rápido as coisas. — Allison disse áspera, se jogando no sofá e encarando Stiles com maldade.
— Cala a boca. — Sussurrei.
— Claro, não vou atrapalhar a sua conversa com ele. — E novamente ela debochou, estava prestes a rebater quando eu vi a expressão confusa de Stiles.
— Você disse alguma coisa?
— Não! — Respondi rápido demais, mas nem tive tempo para pensar em dar uma desculpa para ele quando alguém bateu na porta da sala.
— Deve ser ela! — Stiles quase gritou, animado, um sorriso imenso cobrindo o rosto e correu até a porta.
Engoli em seco, sentindo minhas mãos suando. Allison sorriu, como se estivesse prestes a ganhar algum entretenimento, e a ansiedade me consumiu.
Eu não me sentia confortável com muita gente perto de mim, talvez pelo tempo que passei em repleta reclusão, então Stiles e Allison eram muito mais do que eu podia suportar. Só ao pensar que Malia ficaria com a gente, me dava agonia. Recusava até mesmo a sair de casa, pois não me sentia pronta para encarar a vida exterior, muito menos conviver, mesmo que por pouco tempo, com mais uma pessoa.
Stiles abriu a porta com uma euforia excessiva e logo se jogou contra a mulher. Esperei, impaciente, vendo somente os braços bronzeados de Malia envolvendo as costas do humano com força.
— Eu estava com tanta saudade. — Foi o que ele disse, sem desgrudar dela.
— Também estava, humano imbecil.
Quando o abraço eterno cessou, Malia me encarou com extrema curiosidade. O cabelo estava bem mais curto do que eu me lembrava e mais escuro, mas continuava com o mesmo olhar selvagem e atento.
— Ei, Lydia. — Ela cumprimentou, desajeitada, acenando.
— Oi. — Disse a contragosto, analisando suas pernas expostas no short curto. Ela era linda ao ponto de incomodar.
— Por que a gente não mata ela? — Allison, perguntou tranquilamente, como se falasse de algo sem relevância.
— Porque não, eu já expliquei para você, Allison! — Só percebi que não tinha sussurrado, quando vi a expressão assustada de Stiles e Malia.
— Allison? — O humano perguntou, claramente preocupado, enquanto Malia me encarava como se fosse louca.
— Eu vou deixar vocês sozinhos. — E essa foi a única escapatória que encontrei para correr até meu quarto.
— Pensei que você tivesse dito que ela melhorou, Stiles.
— Acredite, ela está melhor.
Os breves comentários de Stiles e Malia, foram as últimas coisas que ouvi antes de me jogar na cama, os braços trêmulos com um nervosismo desconhecido. Fui obrigada a conter o desejo de fechar a porta, lembrando que aquilo estava proibido depois do último incidente.
Eu prometi que nunca mais fecharia uma porta, nem a encostaria e Stiles prometeu que faria a mesma coisa, por mim.
Allison entrou no quarto pouco depois de mim, com um sorriso torto e se jogou ao meu lado na cama, os olhos brilhando com algum pensamento perverso.
— Agora a Malia tem a confirmação que precisava, para ter a certeza que você é doida.
— Isso tudo é culpa sua!
— Minha culpa? Não sou eu que fico tendo ilusões e falando sozinha.
— Eu odeio você, Allison.
— Preferia o Aiden de volta?
Estremeci, lembrando quando comecei a ver Aiden e de como ele era muito mais violento do que Allison. Ele me fazia ficar berrando e chorando por muito tempo e Merlyn sempre tinha que me sedar para eu calar a boca.
O dia foi um grande vazio, fiz menos coisas que o normal. Fiquei deitada a maior parte do tempo, escutando as risadas altas de Stiles enquanto conversava sem parar com Malia, na sala.
Ele apareceu para me dar comida, perguntou se estava tudo bem e se eu queria ver alguma coisa na televisão, depois sumiu novamente. Como já tinha me dado banho mais cedo, anoiteceu e Stiles continuou em algum canto da casa, conversando alto o suficiente para eu perceber o quanto estavam animados e aparentemente, com novidades para contar.
— Desculpa, eu a deixei sozinha. — Quando ele apareceu de noite, tinha uma expressão culpada.
— Tudo bem, você precisava falar com ela. — Murmurei, tentando parecer compreensiva e pensando, internamente, que não fiquei sozinha, já que Allison permaneceu comigo durante todo o tempo.
— Quer dormir? Imaginei que já devia estar com sono.
Concordei com a cabeça e ele deu sorriso torto, sua expressão estava claramente satisfeita. Ele me ajeitou na cama, como de costume e sentou no chão ao meu lado.
Não conversamos, ficamos em silêncio, meu corpo virado para ele, de modo que nos encaramos até que em algum momento, adormeci.
Todas as noites eu tinha pesadelos horrendos e acordava gritando. Naquela noite, tive os mesmos sonhos apavorantes, mas o grito parecia entalado em minha garganta, eu estava muda de pavor.
Sentia o suor pegajoso na testa, minhas mãos tremiam, um arrepio passava por minha coluna e lágrimas despencavam de meus olhos sem nenhum tipo de autorização.
Stiles. Eu precisava dele, todas as noites ele conseguia me consolar e fazer com que eu voltasse a dormir, contudo, com minha garganta seca, não conseguia gritar e implorar por sua companhia.
Fiquei de pé, mesmo sem força e cambaleei com dificuldade até seu quarto, sabendo que já era de madrugada. Acendi a luz, mas ele não estava lá. Confusa, me escorando nas paredes, fui até a direção da sala.
Antes mesmo de chegar no cômodo, escutei o timbre de Stiles, a voz grave arrastada, proferindo sons baixos e incoerentes. Aquele som delicioso fez com que eu andasse mais devagar, sem querer interromper aquela sonoridade desconhecida que preencheu meu corpo com um tremor involuntário.
E então, quando escutei um arquejo feminino, seguido de um gemido, comecei a raciocinar lentamente o que estava acontecendo. Mesmo assim, tomada pela curiosidade, parei no corredor que dava para a sala e coloquei a ponta da cabeça para fora, mantendo o corpo escondido e olhos livres para espiar.
Eles estavam no sofá, conseguia ver as costas nuas da Malia se movimentando em um ritmo lento, para cima e para baixo. O quadril bronzeado rebolava e as mãos pálidas de Stiles guiavam esses movimentos, agarrando com força a cintura fina dela.
Fale com o autor