Aniquila-me
22 Frágil
Notas iniciais
Stiles Stilinski
— Lydia, você acredita que a pizza já chegou? Eles são rápidos mesmo! — Eu gritei animado, depois de ter colocado a embalagem da pizza na mesa e fui em direção ao banheiro, pretendendo massagear o cabelo de Lydia como prometi.
Foi aí que percebi que não ouvia mais o barulho de água caindo. Ela já tinha acabado o banho?
E então, um som conhecido de choro atingiu meus ouvidos. Fui a passos largos até o quarto dela, preocupado, com o coração pulsando na cabeça.
O que eu vi fez minha respiração parar. Meu coração afundou no peito e fui atingido por uma dor agonizante. Lydia, minha Lydia, estava nua, agachada no chão, em frente ao espelho, chorando desesperadamente.
Ela olhava para si mesma, parecendo sem forças para sustentar o próprio corpo. Uma de suas mãos apertava as pernas, a outra esmagava os seios perfeitos com uma violência exagerada e depois, passava a mão sobre o rosto, como se não aceitasse o que via.
Fiquei paralisado por vários instantes, minhas pernas pareciam grudadas no chão. Eu não suportava vê-la assim.
— Anjo, o que aconteceu?
Com medo que ela se assustasse com minha aproximação, andei devagar, trêmulo, sem saber se ela permitiria meu contato.
— Não me chama de anjo! — A voz dela saiu sofrida, atordoada.
Devagar, com cuidado, me abaixei ao seu lado. Ela recuou, assustada e cobriu os seios com os braços, o movimento fez com que ela caísse desajeitada no chão, novamente tentei me aproximar, para ajudá-la, mas Lydia sentou depressa, se afastando e cruzando as pernas, como se temesse que eu tentasse olhar sua intimidade.
— Lydia, ei, calma. Eu estou olhando para seu rosto, só para seu rosto. — Falei com firmeza e ela arfou, desorientada, conferindo se o que eu dizia era verdade. Seus olhos encontraram os meus e isso pareceu deixa-la mais calma. — Posso me aproximar? Posso tocar no seu braço?
Ela não respondeu, continuou parada no lugar, ainda chorando. Fui me arrastando até Lydia, consegui tocar em seu cotovelo e dessa vez, ela não recuou.
— O que aconteceu? Fala para mim, por que está chorando, anjo? Allison está falando com você?
— Eu não sou um anjo. — Foi a única coisa que ela murmurou. Esperei em silêncio que ela conseguisse se acalmar o bastante para falar novamente. — Allison não está aqui, eu estou sozinha.
Percebi que era melhor continuar em silêncio, então permaneci naquela tortura, a vendo chorar, encarando somente seus olhos verdes para que ela se sentisse segura, percebesse que não ia me aproveitar da situação para olhar seu corpo.
— Por que você nunca disse que eu estou horrível? — O absurdo que saiu daqueles lábios grossos foi tão grande, que fiquei sem reação.
— Horrível? Do que você está falando?
Ela desviou o olhar, balançando a cabeça, olhando para si mesma e fazendo um bico involuntário na boca.
— Eu sou horrível, meu corpo é horrível. Eles tinham razão de dizer o quanto sou feia, que ninguém jamais... — A voz dela engasgou de um jeito doloroso e quando entendi que o porquê ela chorava, eu mesmo tive vontade de chorar. Senti meus olhos serem preenchidos por lágrimas.
Por isso ela estava em frente ao espelho.
— Anjo. — Chamei baixinho, mas ela me ignorou, voltando a falar em meio ao choro.
— Você deve sentir nojo de mim, se eu tivesse me olhado no espelho antes, nunca teria deixado você me ajudar no banho, desculpa por ter que ver isso!
— Anjo.
— Eu nem me reconheço mais, por que eles fizeram isso comigo? Eu não reconheço meu próprio corpo! Queria poder arrancar essa pele, destruir esse rosto.
— Anjo, me escuta, por favor. — Eu estava tão horrorizado com a brutalidade que ela falava sobre si mesma, que me sentia sem forças para tornar minha voz audível.
— O que você vai dizer, Stiles? Vai mentir ou concordar comigo? — Ela parecia envergonhada, humilhada, tentando novamente se afastar de mim, escondendo o corpo, dobrando as pernas até seus joelhos cobrirem os seios. — É por isso que você não olha para mim, é por isso que você não quer me ajudar no banho. Você a olha com tanto desejo...
— Quem? — Perguntei, confuso, percebendo a frustração em sua voz falha.
— Malia, eu vi como você a olhava, como você a deseja. Quando vocês dois estavam no sofá, o seu rosto... — Ela parou de falar, arfando, as bochechas coradas, o rosto repleto de lágrimas, a boca inchada.
— Lydia, foi por isso que você a atacou? Você tem ciúmes de mim? Por que diabos você teria ciúmes de mim? — Eu não sabia o que dizer, como raciocinar, queria ser capaz de invadir sua mente atormentada para entender seus pensamentos.
— Stiles, ninguém nunca mais vai me olhar como você olhou para ela. — Não conseguia acreditar no que ouvia; Lydia estava completamente insegura, frágil. — Não bastava eles me enlouquecerem, eles destruíram meu corpo.
— L-Lydia...
— Toda vez que Kevin me tocava, que me violentava, fazia uma marca no meu corpo, dizendo que era para eu me lembrar dele, dizendo que nenhum homem jamais tocaria em mim. — Fui preenchido por um ódio que fez meu rosto arder, minhas mãos tremerem e Lydia continuou a desabafar. — Eu nem sei se conseguiria fazer sexo novamente, se deixaria alguém encostar em mim, mas mesmo que eu quisesse, ninguém teria coragem, ninguém teria vontade de olhar para meu corpo.
Não suportei, comecei a chorar com ela, em silêncio, sentindo as lágrimas de dor, ódio e frustração caírem em minha pele.
— Eles me destruíram. Nem você suporta olhar meu corpo, só agora entendi o nojo que deve sentir, eu nunca mais vou ser como Malia, nunca mais alguém vai me olhar com admiração. — Ela lamentou mais uma vez e se calou.
Minhas mãos tremiam quando segurei seu rosto, apertei os dedos contra suas bochechas, a fiz olhar para mim.
— Lydia, você não precisa esconder seu corpo perto de mim, está tudo bem, relaxa. — Ela, novamente, negou com a cabeça, tentando fugir do meu toque. — Você acha mesmo que eu não a desejo? Acha mesmo que eu não olho seu corpo por sentir nojo?
Em outra situação, jamais teria coragem de dizer as palavras que saíram da minha boca, mas a dor dela, era a minha dor, que esmagava meus ossos; eu não podia suportar vê-la assim, por isso, não consegui sentir vergonha, nem hesitei ao falar. Estava dominado pela dor que ela sentia.
— Lydia, eu sou apaixonado por você desde a terceira série, eu ainda sou apaixonado por você. — Ao falar, percebi o quanto aquelas palavras saíram verdadeiras, seguras. — E a primeira coisa que me fez olhar para você, foi a sua beleza. Meu Deus, Lydia! Você é tão linda!
Ela abriu a boca, como se fosse falar, mas saiu apenas um arquejo de seus lábios e seus músculos finalmente cederam, ela parou de tentar fugir, parou de tentar esconder o corpo.
— Eu não olho para você, não olho para o seu corpo, porque tenho medo que se assuste, porque não quero me aproveitar de você. — Tentava explicar o melhor que podia, derramando as palavras, tentando mostrar minha sinceridade. — Lydia, eu tenho desejo acumulado por você há anos, sempre tentei imaginar como o seu corpo...
— E aí você encontrou essa coisa repugnante. — Ela acrescentou baixo, como se tivesse a certeza de aquelas seriam as minhas próximas palavras.
— E aí, eu vi que era muito mais linda do que poderia imaginar, que seu corpo era inigualável, simétrico, perfeitamente desenhado e que eu, de alguma forma, ia ter que suportar a tortura de ver todos os dias, a mulher sexy que eu sempre amei, sem poder tocar nela, sem poder analisar cada centímetro de sua pele. — Quando vi as bochechas dela corarem, me dei conta do que tinha dito, no entanto, quando pensei em mudar as palavras, percebi que as lágrimas pararam de surgir em seus olhos. — Lydia, eu não ia conseguir ter autocontrole se ficasse olhando para você, não ia conseguir ajuda-la em nada.
— Você só está dizendo isso porque não olhou direito, porque não...
— Lydia, eu sei que você tem uma cicatriz debaixo do seio esquerdo, sei que tem três marcas no abdômen, que ainda tem hematomas nas costas, que sua pele parece que vai quebrar com cada toque, que no seu couro cabeludo tem várias partes falhas, que tem cicatrizes na coxa direita, um machucado na panturrilha esquerda. — Ela arfou baixinho, eu segurei seu rosto com mais força. — E sei, que mesmo assim, não tem nenhum motivo para ficar insegura, nem para invejar o corpo de Malia. Ela é linda, eu sei, mas Lydia, sinceramente, para mim, não existe nenhuma mulher mais bonita, nenhuma mulher mais sexy ou que me atraia mais, que eu deseje mais, do que você.
Ela largou o peso da cabeça sobre minhas mãos e eu acariciei suas bochechas com os polegares, nossos rostos estavam bem próximos, nossos olhos fixos um no outro.
— E Lydia, não importaria se todo seu corpo estivesse deformado, se cada centímetro de sua pele estivesse com marcas, ainda assim, tenho certeza que continuaria achando você a mulher mais linda que eu já vi, porque eu amo você, Lydia. — Respirei fundo, trêmulo, com medo que estivesse falando demais, mas sem conseguir parar. — Eu conheço você e é tão linda por dentro, que deixa o seu exterior mais lindo ainda.
— Stiles. — Ela parecia disposta a dizer alguma coisa, mas desistiu, então apenas meu nome saiu de sua boca.
— Você acredita em mim, acredita no que acabei de falar?
— Acredito que você acha isso, mas não sei como olhar para mim mesma e aceitar. — Minha garganta fechou ao ouvir aquilo e novamente, odiei as pessoas que foram capazes de causar marcas tão profundas em seu psicológico.
— Lydia, eu vou falar todos os dias o quanto é linda, até que você acredite, não importa quanto tempo demore.
Não tive tempo de entender as intenções de Lydia. Assim que prometi faze-la acreditar no quanto era linda, o seu rosto, que já estava próximo do meu, se moveu na minha direção ao ponto dos nossos narizes roçarem.
Incrédulo, fiquei imóvel, paralisado, com os olhos arregalados. A boca grossa atingiu a minha por poucos segundos.
A sensação era indescritível, meu coração batia tão forte que pulsava em meus ouvidos, minhas mãos suavam e parecia que o mundo estava se dissolvendo a nossa volta. Tudo o que eu sentia, tudo o que eu enxergava, era a boca grossa engolindo meus lábios, em um selinho salgado pelo sabor de nossas lágrimas. Nós não nos mexemos, minha boca apenas afundou contra a dela, se perdendo na carne farta dos lábios cheios.
Ela se afastou lentamente, os olhos verdes se abriram e perfuraram minha alma.
— Respira, Stiles.
Só quando ela falou, percebi que o ar estava entalado nos meus pulmões. Respirei em um arquejo desajeitado e em sua boca, surgiu a sugestão de um sorriso.
Continuei daquele jeito, parado, com as mãos suando e tremendo de nervosismo, meu estômago dava saltos dentro do corpo e me perguntava se o beijo não foi um delírio meu. Percebi que apesar de continuar nua, ela não parecia se importar com isso, pelo contrário, parecia completamente relaxada, sem nem perceber a exposição, sentada de frente a mim, com as pernas cruzadas.
— Eu amo tanto você. — Foi a única coisa que pensei em dizer.
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