Aniquila-me
23 Singular
Notas iniciais
— Eu amo tanto você. — Aquelas palavras, ditas com naturalidade, fizeram minha respiração acelerar.
Não sabia descrever o modo como Stiles me olhava; seus olhos castanhos, úmidos de lágrimas, cheios de uma admiração tão explícita, que era impossível achar que ele estava mentindo. A expressão em seu rosto, a maneira como segurou meu queixo, tudo fazia com que eu acreditasse cegamente que, de alguma forma, aquele garoto me achava linda.
Nós ficamos parados, observando o rosto um do outro. Eu só conseguia pensar no beijo que lhe dei, mas não tinha ideia de quais eram os seus pensamentos.
Eu o beijei, uni nossas bocas, porque não conseguia pensar em outra maneira de mostrar que tinha aprendido a confiar nele, nem sabia como agradecer, como expressar em palavras a importância de tudo o que falou. Além disso, aquela boca rosada, fina, era tão linda, que parecia tentador experimenta-la novamente.
— Não me olha assim. — Ele falou baixinho, desviando o olhar e interrompendo o silêncio.
— Assim como?
Apesar de continuar nua, aquilo não parecia ter importância, pois todas as palavras dele ecoavam em minha mente. “Não existe nenhuma mulher mais bonita, nenhuma mulher mais sexy”, apesar de parecer uma utopia, de alguma forma, eu acreditava e isso tirava meu medo de exposição.
Eu estava nua, mas em frente a um homem que jamais me machucaria, que jamais abusaria de mim e que mesmo como eu estava, tão frágil, tão cheia de marcas, era capaz de me achar linda.
— Como se estivesse me admirando.
— Você é bonito. — Murmurei no mesmo tom baixo que ele falava.
Ele estreitou os olhos como se duvidasse de minhas palavras e franziu a boca.
— Você disse isso lá no hospital, quando teve uma momentânea perda de memória, me chamou de bonito. — Ele riu nasalado, claramente desconfortável.
Balancei os ombros, sem saber o que dizer e percebendo que elogios o deixavam tímido.
— Você tem um péssimo gosto, Lydia Martin.
Aquilo de certa forma me surpreendeu. A beleza de Stiles era tão óbvia para mim que parecia estranho ele discordar.
Será que ele não percebia o quanto seus olhos eram desconcertantes? Como seu nariz empinado era fofo? Como suas mãos grandes eram tentadoras, seus lábios lindos e as pintinhas perfeitas?
Talvez ele tenha se sentido assim quando falei mal de mim mesma.
Depois de mais alguns segundos de silêncio, ele arregalou levemente os olhos ao olhar para baixo, como se tivesse esquecido que eu continuava nua, bem perto dele.
Seus olhos voltaram rapidamente para meu rosto e como sempre acontecia quando ele via meu corpo, suas bochechas estavam ligeiramente coradas.
— Você chegou a tomar banho?
— Não, só me molhei.
Ele suspirou baixinho, negando com a cabeça e levantou, erguendo a mão para me ajudar. Segurei na sua palma e fiquei de pé, ainda zonza pelo efeito de suas palavras sobre mim.
— Vou te ajudar logo no banho, antes que a pizza esfrie.
O banho em si, foi como todos os outros, calmo, relaxante e prazeroso, entretanto eu me sentia diferente, tentando achar em Stiles algo que mostrasse sinal de desejo.
O observei com muita atenção, ansiando entender as reações que ele tinha enquanto segurava minha cintura, me dando equilíbrio e quando me pedia para virar de costas, massageando meu couro cabeludo.
Suas pupilas ficavam dilatadas, as mãos tremiam e o rosto mudava de cor diversas vezes, em um instante ficava pálido como papel e no minuto seguinte, adquiria uma cor vermelha, como se fosse morrer de tanta vergonha. Ele respirava pela boca, lambia os lábios, suas mãos pareciam quentes demais contra minha pele e ainda por cima, falava sozinho várias vezes, mas o som de sua voz era tão baixinho que não conseguia distinguir suas palavras.
Pela primeira vez, aquelas atitudes, que ele sempre teve, pareceram óbvias demonstrações de que ele se sentia atraído por mim. A diferença era que ele não agia como caras normais, como os que eu costumava ficar séculos antes, ele agia como ele mesmo, sendo tão Stiles que me dava vontade de rir.
Stiles, definitivamente, era singular, não tinha como compara-lo a nenhuma pessoa.
— Por que você está com essa carinha de riso? — Ele perguntou após o banho, enquanto íamos para meu quarto.
Neguei com a cabeça, sorrindo minimamente e ele me encarou como se fosse louca, afinal, minutos antes, estava chorando desesperada.
— Eu não sei como você consegue me fazer sorrir, não importa o quanto eu esteja triste. — Ao falar isso, fiz com ele abrisse um sorriso enorme.
Chegamos ao quarto e ainda sorrindo, olhando para mim, Stiles balançou os ombros antes de falar.
— Eu posso preparar a mesa para a gente comer? — Concordei com a cabeça, sentindo a barriga doer de fome. — Por que você não escolhe uma roupa que se sinta bonita? Mesmo sendo um pijama... — Sua voz morreu antes de voltar a falar. — Talvez isso ajudasse a você se sentir melhor, tem muitas peças aí e você sempre pega as mesmas.
Ele saiu do quarto e eu pensei sobre o que falou. Eu sempre escolhia as maiores calcinhas, que fossem esconder mais o meu corpo, pegava o sutiã mais coberto e usava calças e blusas de moletom, mais uma vez para me cobrir toda.
Fazia isso, porque tinha medo de Stiles e depois de passar tanto tempo sendo humilhada e exposta, queria colocar bastante roupa para me proteger.
— Eu não preciso mais disso. — Murmurei para mim mesma, decidida.
Olhei com cuidado as roupas íntimas e peguei o conjunto que mais me agradou, algo que eu sabia que a antiga Lydia aprovaria.
O conjunto era preto, com renda transparente. O bojo do sutiã, cobria meus seios e o seu formato fazia com eles ficassem empinados e pontudos, já a calcinha era completamente transparente, grossa na altura do quadril e ia diminuindo de tamanho, até ficar levemente enfiada no bumbum.
Aquilo, de fato, fez com que me sentisse bem; atraente e até mesmo mais confiante, apesar de na minha cabeça me perguntar como Stiles tinha tido coragem de comprar um conjunto daqueles como uma opção para eu usar.
Depois, na hora de escolher o pijama, não precisei procurar muito. Vesti uma camisola de tecido leve e transparente, foi simplesmente amor à primeira vista, talvez porque parecia uma camisola que eu tinha antes do inferno.
Ela era curta, batia no alto da coxa e mais transparente do que eu esperava, parecia que eu estava somente com as roupas intimas.
Fiquei insegura, o coração acelerado, me perguntando se não tinha exagerado na escolha e se Stiles não teria uma reação ruim.
— Lydia? Está tudo bem? — Quando Stiles gritou da sala, decidi que era melhor ir antes que ele viesse me ver.
Respirei fundo, tomando coragem e tentando convencer a mim mesma que eu não estava ridícula, tentando ignorar o medo de que Stiles risse de mim e finalmente percebesse que meu corpo é patético.
Sem responder à pergunta de Stiles, sai do quarto com passos rápidos.
— Vamos, você consegue ser a antiga Lydia, pense no que ela faria. — Foi o meu incentivo, pois sabia que em outra época não teria nenhuma insegurança.
Todo o receio, toda a dúvida se eu tinha exagerado, se desfez quando presenciei a reação de Stiles. Ele estava em pé, colocando um refrigerante na mesa, quando me viu.
Ele soltou um palavrão involuntário, me olhou dos pés a cabeça, seu queixo despencou e arfou audivelmente.
— E-eu, v-vamos come-er? — Ele falou visivelmente transtornado, gaguejando.
Concordei, feliz, conseguindo confiança o suficiente para andar com o corpo erguido e sentar na cadeira ao seu lado. Ele me encarava com indiscrição, parecendo nem perceber como me devorava com os olhos.
Não senti medo, não senti vergonha; a sensação de um garoto bonito me olhar daquela forma era reconfortante.
Ele colocou uma fatia grande de pizza em cada prato e serviu o refrigerante. Quando encarei aquela massa quente, escorrendo o queijo pelas bordas e repleto de calabresa, minha atenção se focou no prato e nem mesmo o olhar de Stiles sobre mim conseguiu atrair minha atenção.
Dei uma garfada, colocando um grande pedaço na boca. Quando a gordura entrou em contato com minha língua, fechei os olhos e soltei um suspiro de prazer, eu sentia falta de uma comida nada saudável, que fazia minha boca transmitir ondas de satisfação por todo corpo.
— Você sentia falta disso, né?
Ao escutar a voz de Stiles, abri os olhos e o vi me encarando, com um sorriso enorme. Concordei, ainda mastigando e ele soltou uma pequena risada.
Assim, apesar do momento de dor, terminamos o dia de um jeito tranquilo. Devorando duas enormes pizzas, uma salgada e a outra de chocolate, sorrindo um para o outro como se não existisse problemas em nossas vidas.
Stiles Stilinski não é nenhum ser sobrenatural, mas tem o poder mais fantástico que presenciei: é capaz de achar o melhor em todas situações e consegue me fazer sorrir, mesmo quando eu pensava que não mais teria um momento pleno de real felicidade.
Lá estava eu, com o rosto ainda inchado pelo choro, no entanto me achando bonita, devorando pizzas, sorrindo e sentindo meus lábios formigando, lembrando que a boca fina do menino tinha se espremido contra a minha.
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