Animals - Eren Jaeger
2 Profundo
Notas iniciais
Melissa demorou um pouco mais que o esperado para chegar em casa, mas não havia nada que pudesse se fazer em relação a isso. Quando chegou no casarão, teve a leve impressão que ainda estava na chuva, as goteiras daquela antiga mansão aumentavam com o passar dos dias e a jovem sentia que a qualquer momento o telhado iria desabar em sua cabeça. Como estava acostumada com aquela situação, havia vários baldes debaixo dos furos do teto, evitando que a água caísse no chão.
A morena passou por eles com cuidado e subiu as escadas até o seu quarto, o único lugar — quase — seguro da casa. Deixou o grande animal sobre o desgastado carpete que havia no quarto, de frente para a lareira e quando viu suas mãos sujas de sangue, teve a certeza que o pobre cão estava machucado. Seus pais eram médicos, ou melhor, cirurgiões, então sabia pelo menos o básico dos primeiros socorros. Logo saiu correndo para o banheiro, depois voltando para o quarto e deixando uma pequena maleta no chão; foi para o andar de baixo e voltou o mais rápido que podia, com as mãos cheias de lenha e acendeu a lareira.
"Tudo bem, vamos começar logo com isso"
Fez carinho na cabeça do animal, vendo como a respiração dele estava rápida demais e sem mais demora alguma, começou a tratar o grande cão negro.
— O que diabos aconteceu com você, hein?
A Lashes suspirou, passou quase uma hora para tratá-lo. Eram cortes profundos e sabia que o seu curativo era apenas temporário, teria que levá-lo ao um veterinário o mais rápido possível, mas era tarde da noite e a chuva não colaborou muito com a situação.
— Quem é o desgraçado que teria coragem de machucar um animal? Juro que o matarei. — falou sozinha, de novo.
A respiração do cachorro estava regular, se acalmou, mas ainda estava dormindo. A jovem ainda parecia preocupada com a condição do "pequeno" animal que resgatou, então ficou até altas horas da noite o monitorando e caiu no sono que nem viu. No dia seguinte, acordou com o despertador tocando e deu um salto da cama, sentindo seu corpo doer em seguida.
"Droga, devo ter dormido de mal jeito!"
Colocou a mão em sua nuca e suspirou, olhando em seguida para o animal no chão, que ainda estava na mesma posição que na noite passada. Melissa foi até o animal e abaixou-se, verificando como ele estava e que deveria levá-lo ao veterinário logo.
— Jean que me perdoe, mas ele vai ter que segurar as pontas para mim hoje, apenas por um instante.
Já conseguia escutar os gritos do rapaz, entretanto, não havia nada que ela pudesse fazer, afinal, aquele pobre animal estava dependendo de sua ajuda agora. Respirando fundo, verificou as feridas do cão, contudo, se surpreendeu em seguida.
— O quê?!
Não havia nada. Não havia quase nada, apenas arranhões. A Lashes não era maluca, ela sabia que na noite anterior, quando o tratou, o estado dele era crítico e os cortes que sofreu eram profundos demais!
— Não pode ser… isso… Eu estava imaginando?
Obviamente ela estava cansada, foi trabalhar e depois para a faculdade, em seguida atravessou uma tempestade com um animal em seu colo. Poderia ser que os ferimentos foram frutos de sua imaginação? Isso era mais aceitável que aquelas feridas terem se curado da noite para o dia. Se continuasse assim, daqui a pouco estaria vendo assombrações.
— Bom… pelo menos você está bem, certo? — disse a jovem, fazendo carinho na cabeça do cachorro e vendo ele abrir os olhos em seguida. — Ei, como você está? Espero que esteja bem.
Sorriu genuinamente para aquela grande bola de pelos, enquanto o animal a olhava sem fazer nenhum movimento.
— Não precisa ter medo, eu não irei te machucar. — Melissa continuou com o carinho, só que mais suave. — Te encontrei machucado ontem, no meio da chuva, mas agora está tudo bem.
Enquanto conversava sozinha com o cão, seu despertador tocou mais uma vez e ela suspirou, não podia mais enrolar, isto é, se não quisesse chegar atrasada para o trabalho.
— Fique aqui, tudo bem? Preciso trabalhar, mas volto na hora do almoço para trazer algo para você.
A morena levantou-se, indo em direção ao banheiro e começando sua rotina diária, só que dessa vez com um novo inquilino em sua casa. Quando saiu para o trabalho, o animal não se mexia e isso partia o coração da moça, afinal, imaginava que ele teria medo que ela fizesse mal a ele.
(...)
— Aliás, consegui um filho.
Jean cuspiu todo o café de sua boca com as palavras de Melissa, o copo em sua mão quase caiu no chão e ele rapidamente o deixou no balcão, enquanto olhava para a garota com uma face assustada.
— Você o quê?!
— Consegui um filho. — repetiu ela, antes de perceber que suas palavras foram mal interpretadas por ele. — Achei um cachorro e trouxe para casa.
O rosto pálido do homem ganhou cor novamente, suspirando aliviado com a explicação dela e em seguida começou a limpar sua boca com um lenço. Estavam prestes a começar a trabalhar, o Kirschtein comprou um café a caminho do trabalho para não perder tempo comendo em casa.
— Então conseguiu um cachorro para guardar aquelas ruínas? Bem típico de bruxas.
— Ruínas vai ser seu rosto quando minha mão pousar nele!
Jean riu, a casa em que sua amiga vivia estava caindo aos pedaços e não podia negar que a cada dia se preocupava em saber se o teto tinha desabado na cabeça dela ou não.
— Mas é como eu já falei: — Ele voltou a tomar o café. — Pode vir morar comigo.
É uma proposta que ele vinha fazendo há algum tempo, sempre lembrando que a casa dele sempre estaria de portas abertas para ela.
— Espaço é de menos, colocamos suas coisas em qualquer lugar e vamos nos virando.
Melissa não pôde deixar de sorrir, pois não importava se a situação de Jean era ruim ou não, ele sempre daria um jeito de ajudá-la. Ela era muito agradecida pelo amigo que tinha, era apenas ele, mas valia mais que centenas de pessoas juntas.
— Não se preocupe, vou ajeitando tudo aos poucos e quem sabe não será você quem virá morar comigo! — disse ela, confiante.
— Então eu estaria acabado! Iria dormir com um olho aberto e outro fechado, afinal, eu preciso ficar acordado para fugir quando o teto cair.
Ambos riram, fazendo piada com a desgraça de cada um era divertido, algo apenas entre eles.
— Jean. — Ela o chamou antes de começar a trabalhar. — Me avise se precisar de qualquer coisa, vamos dar um jeito.
O rapaz acenou com a cabeça e sorriu, assim terminou seu café e também iniciou seu trabalho, seria mais um dia agitado. Embora ambos fossem afogados em seus deveres e muitas vezes não tivessem tempo nem para eles mesmos, a conexão que tinham era algo lindo que supera isso; melhores amigos e irmãos, sempre podiam contar um com o outro. No futuro, o que aconteceria com esse par de jovens?
(...)
O tempo passou e a hora do almoço chegou, Melissa não ligou muito para o que iria comer e apenas comprou alguns pães doce, enquanto corria para sua casa com uma sacola de ração em mãos. Sua prioridade no momento era o animal, não podia deixá-lo com fome, por isso iria saltar o seu horário de descanso para deixar comida para ele.
Quando chegou em sua casa, subiu as escadas e o encontrou no mesmo lugar, entretanto, estava sentado de frente para a lareira.
— Oh, ainda está aí? Eu trouxe ração! — exclamou ela, tentando chamar a atenção no animal, mas ele nem a olhava.
A jovem foi para o andar de baixo, pegou uma vasilha e despejou um pouco da ração dentro e em seguida voltou para o quarto. Cautelosamente, deixou a comida ao lado dele.
— Agora vá, coma.
O cão virou a cabeça para ela e depois para a comida, depois voltou a olhar para a frente, como se estivesse negando aquilo. Melissa sentiu-se confusa, por acaso ele não estava com fome? Havia o encontrado inconsciente e com alguns machucados "leves", então tinha certeza que ele estaria faminto.
— Você não gosta? Ah… O que eu faço então? Não sei o que deveria te dar… — falou consigo mesma, pensando em algo para dar para aquela bola de pelos negra.
Pensativa, notou que ele olhou para ela e depois para o pão doce em seu bolso, será possível que ele queira isso? Ficou na dúvida, tinha medo de dar o pão e ele passar mal depois, entretanto, era a única coisa que tinha e que ele parecia querer.
— Apenas hoje, certo?
Pegou a massa e deixou no chão, onde o animal cheirou e depois mordeu, fazendo-a sorrir e instintivamente, fazer carinho na cabeça dele. O cão parou por alguns segundos, seu corpo travou com o toque dela e apenas voltou a se mexer quando ela tirou a mão de perto dele.
— Céus, está na hora de voltar! Comporte-se, voltarei mais tarde.
Ela correu, iria se atrasar. Enquanto Melissa voltava para o trabalho, o grande cachorro que trouxe consigo, na noite chuvosa, olhava fixamente para a lareira com aqueles olhos negros e profundos, como se estivesse pensando em algo complicado; se alguém o visse, certamente se assustaria.
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