As pessoas sempre se interessam em saber o que fazem nos nossos sonhos quando sonhamos com elas. Talvez seja uma vontade de descobrir como são vistas aos nossos olhos. Amanda insistia para que eu fosse lírica e recitasse meu devaneio para ela. Não sabia que eu não era nada poética como ela? Quem sabe traduzisse meus sentimentos fortíssimos e exacerbados como dons de poetisa e ao invés de poesia pura e abstrata. Nada de bonito, apenas havia fantasiado que ela se tornara muda para sempre e ia embora para bem longe, e ela acabou levando pelo lado pessoal. Ei, não é como se eu pudesse escolher o que sonhar? Talvez tivesse sido melhor inventar algo diferente e mentir mesmo. De qualquer modo, uma recapitulação rápida; Amanda e eu nos encontrávamos quase exclusivamente em minha casa, já que ela não parecia interessada em nenhum programa da cidade. Sempre ansiosa, às vezes mostrava uma explicável alegria esfuziante, mas ao contrário, na maior parte do tempo vivia entediada de morte. Não podia fazer muito para ajudá-la, já que nunca cedia para me dizer o que queria. Se eu não descobrisse sozinha, a culpa seria minha. O piano era cada vez menos usado e Amanda começava a passar mais tempo escorada, estirada, estendida, esticada em um canto qualquer olhando para o teto. Não duvidava que conhecesse cada azulejo da cozinha. Pensando melhor, não conhecia. O tédio de Amanda era despendido em devaneios internos, completamente ignorantes à realidade.

Nosso relógio biológico era uma bagunça e dormíamos mais do que deveríamos para nosso próprio bem. Muitas vezes, ela passava a noite em minha casa, mas nem sempre queria se deitar comigo. Chegou a filar alguns livros de minha estante, começando por um calhamaço do Proust, que logo desistiu. Denso demais, escolheu mal para quem perdera o hábito da leitura fazia muito tempo. – Estou tendo problemas com meu limite de atenção de mosca, Caroline. – Para ela, eu era sempre Caroline. Acho que não se sentia confortável com abreviações ou apelidos. Mas era verdade que andava bastante distraída, já que mudava de assunto quando tentava puxar uma conversa, me ignorando, sabe-se lá se de propósito ou não. Certo dia, ela me apareceu com um maço de cigarros do tipo fortíssimo. Mesmo sabendo que eu não fumava, me ofereceu um e forçou uma careta surpresa quando recusei. Linda Patética. Ela queria se esconder em uma superfície de mulher antipática e cheia de vícios, tudo depois de um maldito filme que recomendei à ela na maior inocência. Não demorou muito para que começassem as frases de efeito, fingido desdém e falsa frieza. – Qual é a sua idade mental? – Briguei, perdendo a paciência com ela. Partiu para cima de mim com toda a sua fúria e quase me quebrou o pescoço. Amanda já não era mais a mesma.

A pequena problemática também nutria algumas manias excêntricas. Por exemplo, às vezes se incomodava por me encontrar no caminho ou no cômodo (De minha casa!) onde gostaria de ficar sozinha. Cantava algumas músicas nos corredores também, o que não era assim um hábito ruim. Ganhara uns cacoetes; roer as unhas, coçar os cotovelos, morder o indicador, sentar em estranhas posições e caminhar como se estivesse dançando. Me era especialmente atraente quando eu a encontrava de costas, mexendo nas mechas loiras meio descoloridas ou arranhando sua pele branquinha de leve. Mesmo o mínimo contato em seu corpo sensível podia fazer surgir efêmeras manchas rosadas. Nunca soube se aquilo era uma espécie de doença, então me sentia um pouco estranha por me deixar atrair pelas manchinhas. Enfim, ela mantinha-se de pé, perdida em pensamentos, até que eu a laçasse em meus braços e pressionasse forte seu corpo contra o meu. Deixava escapar um sutilíssimo engasgo assustado, sem retribuir meu abraço, mas também sem me rejeitar. Nessas horas, eu costumava proferir algumas palavras supostamente bonitas e com sorte a faziam sorrir. Outras vezes, Amanda me magoava com algum comentário aleatório. – Acho que tudo o que eu gostaria agora era de uma japonesinha para mim. Caroline prefere as pretas, não é? – Risível. De onde ela havia tirado aquela ideia? Fazia apenas para me provocar, ou por tédio? Meu amor era como aquele amor infantil do colégio primário. “Gosto desse, Amanda gosta daquele.” Enquanto amasse Amanda, as outras pessoas estariam por demais distantes para pensar muito nelas, quanto mais para uma aproximação íntima. Além disso, nunca senti atração por negras, preferindo sempre as que possuíam um rosto luminoso e meio rosado. Já Amanda, dizia preocupar-se mais com os olhares duros, corpos rígidos, do que qualquer outra coisa. Gostava de dureza, o que me deixava um pouco triste por conta de minha carne macia. Mas estou me demorando demais nesse assunto quando há outros pontos importantes para escrever.

A grande ironia de Amanda, que me ensinou muito sobre a forma de amar de algumas pessoas; não se derretia por carinhos alheios, mas às vezes tinha até certa urgência para desabar todo o amor que tinha sobre mim. Era uma válvula de escape, exatamente como os desabafos que fazia. Nesses dias especiais, seria um anjo e me estenderia mil tapetes vermelhos, e apenas naquelas noites, se deitaria comigo. E era um tanto estranho, porque ela tinha convulsões esquisitas antes que eu a tocasse. Então, quando tudo terminasse, fazendo real o clichê, acenderia um cigarro e seu sangue era então frio como o de uma cobra mais uma vez. Nunca precisava amar quando se sentia amada. A alma de minha amada alterava-se entre águas tumultuosas e cristalinas com assustadora facilidade, e tudo o que eu podia pensar era que minha disposição e coragem estavam sendo testadas. A ideia de ser desafiada fazia com que minha admiração crescesse conforme a relação tornava-se mais e mais perigosa. Ela era capaz das maiores provas de carinho e crueldade para a mesma pessoa; eu.

Impresso como uma fotografia em minha mente; o dia em que Amanda berrava desvairada que iria queimar toda a minha casa. Aproximava perigosamente o maçarico da estante de livros e acabei tendo de lutar com ela para impedi-la. A loira contorceu-se em volta de meu corpo e me tocava como se quisesse transformar a briga em ato sexual. Suas emoções desprendiam-se em total descontrole. Enlouquecida, puxava os próprios cabelos e dizia ser Deus.

Ainda no mesmo dia, minha pequena diaba apagou o ocorrido de sua memória e agiu como se nada tivesse acontecido, me tratando como rainha. Como estava sedenta de sua atenção, aceitei e fingi que deixar minha casa inteira em chamas não era lá um assunto de grande importância. Os beijos no sofá não duraram tanto quanto eu gostaria, ela disse que devia voltar para casa cuidar das plantas e de gatos que eu nem sabia da existência. Eu lhe disse que ela deveria mesmo ir embora, mas ela acabou mudando de ideia. Ela achou divertida a situação:

– Não é engraçado que você tente me convencer a não fazer o que você realmente queria que eu fizesse?

– Por que essa cara? – Ela parecia um palhaço de circo fazendo graça.

– Nada, Caroline. Apenas uma ironia. Parecia cômico na minha cabeça.

Por mais que eu soubesse que meus sentimentos para Amanda eram dos mais utópicos e puros, não conseguia me imaginar envelhecendo ao seu lado, trabalhando para sustentar nossa casa e jardim. Queria tê-la pra mim, mas não sabia exatamente como. Não havia nenhum cenário concebível em que nós duas pudéssemos ficar juntas para sempre. Podia nos ver como um casal fictício permeando romances dos tempos do mal do século; arrancando suspiros de donzelas, gerando ondas de suicídio em massa entre os amantes e fazendo com que mais poetas morressem de tuberculose em suas camas, atrás das cortinas. Resgatei minha guitarra debaixo da cama e rasguei acordes horrendos para Nyx.

Julien ficara sabendo de tudo entre mim e Amanda por meio de fofocas, boatos e tentava me ajudar com conselhos inúteis. – Confie em mim, eu sou experiente. Eu já tive muitas mulheres nessa vida. – Desatei em risos amargos e fui um pouco rude. — Esse é o problema! Se você teve tantas mulheres, como pode ensinar alguma coisa sobre manutenção de um relacionamento? – Mas Julien soube relevar e prometeu me dar apoio quando precisasse. Não era má pessoa, eu pensei que poderia cultivar sua camaradagem com alguns telefonemas aqui e ali.

Garrafas vazias acumulavam água da chuva na minha rua e o cheiro do esgoto escapava. Eu não ganhei experiência com minha própria história, eu sou experiente por resolver problemas dos outros. Mas finalmente, eu entrava no jogo de verdade com Amanda. Deitava sozinha em uma cama de casal, tinha a mente em branco, mas pensava na loucura e nas composições insanas que provavelmente nunca mais escutaria naquele piano.