Angústia Eterna Dos Que Vivem Nas Trevas
3 Brain Damage
Não deveria ter demorado tanto para continuar a escrever minha história com Amanda. Agora me sinto um pouco emocionalmente distante para poder fazer um relato envolvente o bastante. Talvez algumas doses da safra de 26 ajude. Deveria ser guardado para ocasiões especiais, mas demorei um pouco para me dar conta de que essas ditas ocasiões não existem na minha vida.
Tudo começou quando reencontrei Julien, que das últimas vezes em que o vi estava sempre caindo de porre e agora jurava ter enjoado daquilo. Depois de um pouco de conversa fiada e histórias da carrocinha, ele começa a bancar o arrogante para cima de mim sem razão aparente. Parecia querer ser o candango felizardo que finalmente ganharia o título de novo Bob Dylan. Seus movimentos eram rígidos como se estivesse nervoso e as criancices costumeiras pararam misteriosamente, tinha o olhar cadavérico que só mostrava enquanto drogado. Começou a discursar uma história esquisita onde apanhava da mãe, da prima e das irmãs no decorrer de sua infância. Parece que passava muito tempo nos acampamentos do colégio. Quando afinal falou de suas investidas infrutíferas em suas paixonites platônicas, entendi onde ele queria chegar. — Burroughs estava certo quando disse que as mulheres são o grande vírus da natureza e precisam ser erradicadas. — ele disse. A partir de então, ele nutria um grande ódio por todo o sexo feminino. Alguns meses mais tarde, eu ficaria sabendo por boatos, ele descolaria uma namorada séria, mas seria um travesti.
Preocupava-me que Amanda não se importasse em dar chá de sumiço por semanas à fio. Ela decidiu aparecer no fim de setembro com uma Borgonha tinto que conseguiu com um tal de Frank Adddams, nome com estranhíssimo excesso de d’s. Eu pensei se tratar de um nome artístico, mas por outro lado não haveria razão para o sujeito preferir ser chamado de Kerouac. De qualquer maneira, Amanda nem mesmo tocou na bebida e agia toda fria como já era mania. Eu tinha que me alegrar com sequer um “querida” empregado nas suas frases. O erro maior ainda era querer compensar sua falta de afeto com o meu próprio carinho para ela. Curava meus medos e presságios com um exagero de desvelo e carícias para ela. – Eu casaria com você todos os dias da minha vida. – E não era recusa que eu recebia, mas olhares de quem nem mesmo sabe onde está no planeta. Nessas horas, o que eu mais temia era que ela não fosse uma mulher difícil, mas tivesse o cérebro se deteriorando por conta de alguma doença.
Em outra época, saí à noite com uma moça linda de doença rara. Alguma coisa a ver com falta de cálcio em seus ossos, como se eles não pudessem absorver proteína. Ela me dizia que os médicos não lhe deram muito tempo de vida; quando o cenário agravasse, teriam de amputar seus braços, e um tempo depois, as pernas. A imagem menos embaçada que tenho dela é de seu sobretudo mais escuro que o céu na noite em que caminhávamos. Seu nome, apagou-se com o tempo. Uns passeios depois, nunca mais a vi.
O primeiro strike foi quando Amanda chorou. Eu vivia como um Da Vinci, em mil invencionices que não serviam para o meu tempo e já me seriam inúteis no futuro. O café normalmente me ajudaria a manter a calma; eu fazia uso de uma cafeteira especial do tipo cara que me dava a opção de uns sabores mais, nomeados por italianos. Assim como as bebidas, eu guardei por muito tempo essas receitas para visitas e dias especiais, mas agora gastava todos os sabores compulsivamente. Enfim, já estou fugindo muito do fio da meada para contextualizar meu estado mental. É uma história sobre Amanda, NÃO sobre mim! Depois de muito pose coldbitch, achei Amanda se derretendo em lágrimas arrastando-se no sofá como um gato. Quando me viu, levou um susto digno da criança que é pega mexendo no pote de açúcar. Esguichou um espirro nos meus olhos, que não soube dizer se foi proposital. Desferiu um tapa bem forte na minha mão quando tentei tocar seu ombro, e me fuzilava com os olhos. Naquela noite, ela iria embora sem dizer nada e passaria a ignorar minhas ligações por pelo menos um mês. Consegui persuadi-la a reconsiderar quando, cansada de esperar, praticamente invadi sua casa para exigir explicações. Disse apenas que não suportava que eu a tivesse visto fraquejar e por isso queria me deixar, ainda que no fim, houvesse mudado de ideia. Foi a primeira vez em que quaaase terminamos tudo, se é que tínhamos alguma coisa. Não é que o amor não fosse o bastante ou servisse para me fazer sofrer, havia uma diferença filosófica. Amor é a melhor coisa que existe nesse mundo. Mas talvez por isso mesmo, a realidade não seja boa o bastante para concretizá-lo com sucesso. O samsara irá esmagar, o caos irá distorcer e ele será gerado nas mais tristes condições sem qualquer expectativa de sobrevivência. Mas quando experimentado, nos renderá flashes de uma dimensão acima e de utópica glória. A mão do Deus que não existe bem à nossa frente. Esse amor ainda será maior que o mundo em que vivemos.
E o que para muitos irá destruir todo meu lirismo acima; digo ainda que o amor entre duas mulheres pode ser o mais sublime de todos. Os dias em que pude melhor tirar proveito disso foram aqueles em que usei o silêncio de Amanda ao meu favor. Me calava também e podíamos nos comunicar o dia inteiro por meio de gestos e acalantos, afagos, meiguices e todo toque que falasse mais do que palavras vãs e conversa fiada que serviria apenas como uma de minhas tentativas desesperadas de preencher o silêncio. Graças ao Deus que não existe, descobri um dia que esse mesmo silêncio me livrava de pretextos e desculpas que eram antes necessárias para me aproximar de Amanda. De alguma forma, ela se tornara mais primitiva. Então apenas a tomava pelo pulso e a conduzia para nossa cama. A cidade atrás da janela soltando fumaça, morrendo. Ela sempre gostou de segurar minha mão de formas inusitadas que a deixasse beijar meus dedos livremente. Mas mesmo o amor subentendido me incomodava. Eu queria me declarar, ter garantias de que ela sabia como eu me sentia, fingindo não saber que minhas expressões não transmitiriam meus sentimentos de qualquer maneira. Minhas palavras eram um desastre no fim das contas. Amanda se levanta e quer passar um tempinho de camisola na janela, aquela vista horrível da rua... Ela fuma um cigarro forte e provavelmente, em sua burrice, acha que me parece mais atraente com ele. Minha visão turva e eu fecho os olhos, sentindo um pouquinho de frio por estar nua no colchão até me cobrir com o lençol até os seios que Amanda deixou vermelhos.
Atravessando o corredor, passávamos uma pela outra caminhando de lado, como um caranguejo. Ri de Amanda quando ela começou a bancar a espertalhona uma vez. Magoada, ela disse que nunca mais me veria e saiu batendo o pé. Não soube se deveria ou não acreditar nela, afinal, já estava me acostumando com aquelas birras e me via desgastada demais para sofrer toda vez que a contrariasse. Simplesmente esperei que ela voltasse atrás, distraindo minha cabeça com filmes americanos. Devo ter chorado uma vez ou duas, apenas. Amanda retornou com presentes para mim, muitos presentes. Acho que ela não tinha muito com o que gastar o dinheiro que arrumava sabe-se lá como.
No dia D, Amanda chorava embaixo da pia do banheiro. Não sentiu-se vulnerável e recebeu minha presença e atenção muito melhor que a última vez. Fui burra e interpretei como um avanço. Ingenuidade. – Eu não te amo, Caroline. Não posso mais continuar com isso. Eu só gostava da ideia de me apaixonar por alguém e convenci a mim mesma de que tinha acontecido. Mas eu não amo ninguém, nem mesmo você, sou incapaz disso. – E agora ela queria que eu a confortasse quando eu mais precisava de um apoio. O melhor que pude fazer foi fugir de minha própria casa e pegar um taxi para bem longe.
Encontrei um parque de diversões fechado. A roda-gigante era linda acesa à luz da noite, todas são. Era o único brinquedo ainda ligado, e eu sentei no banco da praça para admirar. Ninguém mais podia entrar e ainda assim, aquela coisa ainda estava acesa. “Alguém que entende a beleza das rodas-gigantes deve ter deixado assim.” eu pensei. Quando estou triste, busco sensibilidade nas pequenas coisinhas. Quando ficou tarde, voltei para casa, rezando para que Amanda já não se achasse lá. Mas lá estava.
Com o coração pesado, fiz um juramento obviamente falso de que manteríamos uma amizade eterna. Tudo o que ela conseguiu foi me forçar a ir em mais uma das festas enlouquecidas das quais já tinha me afastado. Era suportável manter com Amanda uma conversação, na condição de ter outras pessoas envolvidas. De qualquer maneira, não me lembro muito das conversas. Meu maior interesse foi um vinho encorpado que levaram e acabou rápido demais. Na última reunião, fiquei de olho em uma menininha ruiva, esperando a hora de falar com ela. No fim, ela acabou ficando doente e voltando para casa cedo demais. Essa já era. Ninguém a conhecia ou soube me informar onde a encontraria, além de uma pontada de dor me impedir de investir muito tão cedo. Aos curiosos, nenhum sinal de comportamento ciumento por parte de Amanda. Por capricho do acaso, esbarrei com ela em uma cafeteria certo dia, dois anos depois. Conversa estritamente superficial. Toda a comunicação telepática, mensagem subliminar, almas ligadas, tudo desapareceu. Descoloriu o cabelo, ficou bonita, mas me parecia quase irreconhecível. Chorei naquela noite. Não porque ainda a amava, pelo contrário, era porque nada do que foi significava então qualquer coisa. A história terminava, mas os personagens continuavam. Eu era mais uma pessoa comum que não se importava.
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