Notas iniciais
Quando decidi que queria escrever sobre Amanda, prendi-me à minha cama pela indisposição e tinha a coberta posta até o pescoço. Eu não sabia se deveria começar com uma pequena autobiografia ou algum “tudo começou em uma noite quente de verão”. Na realidade, o que me forçou a escrever fora uma necessidade de deixar registradas minhas impressões e sentimentos que, de outra maneira, se perderiam para sempre. Poderia então muito bem, relatar sem preâmbulos literários se não sentisse culpa por tratar de minha história com Amanda de forma tão leviana.
Conheci Amanda em meio à um período agitado de minha vida, quando descia a rua todas as noites para me encontrar com Julien e os outros. Festas, música alta e gente escorada na parede, sempre de porre ou viajando. O barato era ver que nunca sabíamos ao certo quem morava aonde, pois sempre aparecia gente nova que simplesmente decidia passar a noite. Se o anfitrião recusasse, era considerado quadrado e discretamente afastado da turma. Amanda me fora apresentada, em uma dessas comunhões, por alguém que não me lembro mais o nome, com a desculpa de que ela gostaria de formar uma banda comigo. Já tinha me aposentado da guitarra há milênios e aquela menina nunca comentaria comigo sobre tocarmos em conjunto, então acho que foi algum ardil combinado. De qualquer maneira, eu pude notar de imediato que Amanda gostava de se desligar da vida para suas fantasias. Era uma alma rara e maravilhosa, havia estudado em colégios católicos e era apaixonada por livros de romance puristas desde os dez anos de idade. Tinha uma predileção por um vocabulário diferenciado, palavras que caíram em desuso e citações que ninguém conhecia e lhe concediam a autoria. Eu ainda estava para conhecer todo o seu lado mais problemático. Quando muito, ela ainda apenas se mostrava extremamente ansiosa e tinha dificuldades para se inteirar dos assuntos do grupo. Para impressionar os outros, eu tentava mostrar orientação e expressar minhas ideias com clareza, mesmo quando o assunto era completamente insignificante. De alguma maneira, acabamos nos vendo discutindo o sobrenatural e as experiências que tivemos. Depois de permanecer de boca fechada o tempo inteiro, Amanda de repente solta uma das suas – Vamos falar de outra coisa, por favor? – E então todos os outros, que estavam empolgadíssimos com a conversa, olhavam-na incrédulos. Mas acredito que, no fundo, também ficaram curiosos e perplexos com sua personalidade, e pouco faltava para que ficassem encantados. Ao menos, assim acontecera comigo, e não há razão para acreditar que seria diferente com eles.
É importante avisar, no mínimo, que sou uma mulher. Me chamam Caroline, e todos os amigos de Julien eram legais comigo, ao ponto de me darem a chance de viver às custas deles se assim eu quisesse. A vida era boa e eu era jovem. Aproveitei da exclusão de Amanda nos assuntos do grupinho para leva-la comigo à outro cômodo e conversarmos melhor. Ela começou a explodir, falando sem parar, criticando seus pais e falando que gostaria de morar em Berlim. Queria desabafar e me fez sua válvula de escape. Entendi que ela morava com a mãe e tinha sérios problemas familiares. – Acontece nas melhores famílias. – Eu tentei descontrair, com aquela frase clichê dos cinemas, mas ela não deu muita importância. Bem ou mal, eu reencontraria Amanda em outras dessas festas e nos aproximaríamos muito rápido por conta de sua vontade de me fazer seu padre de confissões. No terceiro encontro ao acaso, tomei a providência de manter contato por telefone, exatamente quando já sentia vontade de me afastar dos colegas de Julien e daquelas amizades que já haviam desvanecido.
Enquanto ainda não tinha coragem suficiente para convidá-la para sair, começamos uma brincadeira de trocar telefonemas fingindo ser pessoas famosas. No caso, famosas, mas não populares, sempre éramos grandes escritores, governantes do passado ou até mesmo deuses de mil mitologias. Certo dia, Nyx me telefonou perguntando por seus filhos, e Jack Kerouac me contava suas fantasias alucinatórias e de quando viajava pelos EUA pedindo carona. Dias depois, ela pegou a mania de descrever as pinturas à óleo que decoravam os cômodos de seu apartamento. Ela me ensinou que eram idiotas e reducionistas aqueles que pregavam que as imagens eram superiores às palavras. Provavelmente, nada que meus olhos pudessem captar seria mais bonito que experimentar a visão de Amanda sobre a paisagem pintada. Quis que ela se demorasse nas descrições e usasse o maior número de palavras possível, que seriam como música aos meus ouvidos. Não apenas descrevia o cenário, mas me dizia o que aqueles elementos evocavam em sua lembrança e as impressões que tinha ao se deparar com as figuras. Um dia ela me contaria sobre um retrato em seu quarto. – Algo nas maçãs do rosto dessa moça, no brilho em seus olhos, me lembra muito você, Caroline. – A comparação era o de menos, o que me deixara em estado de completa felicidade fora saber que meu rosto ainda permanecia bem guardado na memória de Amanda. Só quando me dei conta de que minha alegria era exagerada, me convenci de que estava apaixonada. Irônico que apenas depois dessa resolução as noites se tornaram insones e, de repente, passei muito mais tempo pensando nela. Muitas vezes, tinha meu rosto afundado de lado sobre o travesseiro de penas, deixando apenas um olho aberto, fixo no telefone, à espera de um chamado de Nyx, a guardiã da noite. Ainda que ainda não pudesse rever a beleza de seu corpo, sem reservas atribuía ao meu amor por ela a capacidade de encontrar beleza em qualquer coisa que atravessasse meu caminho. Se uma leitura me era tocante, uma construção me era nostálgica, ou mesmo quando me via capaz de demonstrar um mínimo de compaixão por um estranho, tinha de ser por eu amar Amanda. Ela era, para mim, a única justificativa para que eu sentisse empatia por qualquer alma no planeta.
Em partes, não deixava de ser verdade. Pois agora eu corria o risco de cair em depressão ou total apatia caso as coisas não andassem bem entre mim e a garota dos cílios negros e elevados.
Não demorou para que as confissões voltassem, agora via telefone. Eu imaginava os lábios frescos e cabelos loiros frisados de Amanda, cheia de saudades do tempo em que nos víamos pessoalmente. Ela me contou de suas ex-namoradas, o que me incomodou e me deixou contente ao mesmo tempo. Mordi-me de ciúmes com suas descrições excessivamente detalhas que agora se voltavam contra mim, mas ao menos tive certeza de que ela era à fim de garotas. Além disso, não pude evitar me ver curiosa quanto ao seu passado. Afinal, cedo ou tarde, eu teria que acabar descobrindo. Eu era adepta ao pensamento freudiano de enfrentar o passado que me amedronta para assim superá-lo pra sempre, e no final, quem sabe ser capaz de rir do assunto.
A primeira sujeitinha era uma tal de Lana, alguns anos mais nova. Havia algum tipo de compatibilidade astrológica que explicava a relação das duas como um perfeito mundo de sonhos. Viviam em harmonia e criaram o hábito de frequentarem uma igreja positivista juntas. Achavam aquela ideia bem descolada; a arquitetura horrenda e as estátuas de grandes filósofos transparecendo o que elas interpretavam como uma deliciosa heresia. Afinal, passavam a maior parte do tempo declarando amor uma à outra e dialogando (A história tinha potencial para me comover mesmo, se as circunstâncias fossem outras, claro. Pelo menos antes de chegado o final dela). A relação fora afinal vencida pela mais pura realidade; Lana começava a se ocupar e os desencontros se tornavam mais constantes, até que revelou à Amanda que aquilo não daria mais certo. Se ao menos uma das partes fosse obrigada a se mudar para longe, eu consideraria compreensível, pois sabia da angústia de manter uma relação à distância. Mas desistir por causa de simples inconveniência, era para mim uma ideia horrenda que me assustou demais. Eu que nunca havia sofrido uma decepção amorosa ou a abdicação do amor em si, só podia enxergar a decisão de Lana como um crime terrível ao coração.
Quase sem me dar tempo de respirar e absorver a primeira história, Amanda me pressiona ferrenha sua história com uma mulher chamada Patti. Essa era uma senhora obcecada por veludo, pouco dócil e até um tanto exibida, pelo que pude perceber. O namoro era simplificado, material, cru, sexual, terreno, samsara, frívolo, inútil, fútil e tão banal que senti uma pontada no coração por sequer saber que Amanda era capaz de tal afronta. Minha admiração incondicional me obrigava a sofrer por todas as vezes em que, ao meu ver, ela se rebaixava. Era basicamente uma traição, nem que fosse traição aos seus trejeitos ou aos que me fizera pensar que tinha. Um pequeno alívio me incidiu assim que ela confessou atormentar-se por essas duas e todas as amantes passadas.
Abri meu coração e lhe disse que eu era a pessoa certa para fazê-la esquecer o passado e consertar sua vida, nessas mesmíssimas palavras. Perdi a respiração e senti meu corpo formigar por completo até que ela me desse uma resposta, após quase um minuto, mas ela aceitara a proposta com entusiasmo. – Você não sabia que eu também tinha planos para você? – Sorri até doer, mas apesar de tudo ela tinha pressa para desligar o telefone. Vergonha, talvez.
Ela reapareceu para mim ainda mais linda, transparecendo a alma e essas coisas todas. Chegara em minha casa ensopada, trajando uma capa de chuva plástica. Amanda sempre pareceu dissonante, um ponto fora da reta, enquanto estava nas festas de Julien. Mas em minha casa, ela entrava em harmonia; havia espaço para seu barulho nessa composição. Nada aconteceu naquela noite além de um beijo sedento que ela me ofereceu logo na soleira da porta. Ela se deixou atrair pelo piano de armário em minha sala, começando a tocá-lo sem cerimônias. Nesse instante, finalmente me dei conta de sua verdadeira essência:
Sem parcimônia, afundava as teclas mais graves e agudas, capaz de reproduzir as mais cruéis e assombrosas melodias e mesclá-las com docilidade e paixão. O piano furioso explodia em notas ansiosas, lia-se melancolia e ira infinita. Meio louca. Soube que ela seria diferente de qualquer pessoa que já havia conhecido, e que ainda sabia muito pouco sobre Amanda. Ela me usaria para amenizar sua ansiedade e acalmar o coração tumultuoso.
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