Angelina, Ana E Anorexia.
1 Cidade nova, problemas antigos.
Eram quase oito da manhã, o despertador verde-lima não parava de tocar, mas Angel não tinha ânimo pra mover a mão para desliga-lo; Ela só queria fechar os olhos e retornar para o seu tão amado sono, mas não deu, porque antes de pensar em dormir, seu irmão Kaio, que tem apenas nove anos, entrou no quarto gritando, jogando coisas pra cima e pulando em sua cama, o que foi motivo suficiente pra causar uma erupção de raiva na garota.
— MÃE, EU VOU MATAR ESSE MOLEQUE!!!
Ao ouvir os gritos o menino partiu em disparada e aos risos. Sua tarefa estava concluída. A Angelina estava furiosa.
Estavam na cidade a apenas uma semana, e tudo ainda estava uma bagunça. Aquela era a oitava vez que a família estava se mudando, e como em todas as outras vezes, tudo o que Angel precisava, era entrar e sair da escola sem ser notada.
Desde a morte do marido em um acidente de carro, Agnetha vinha tentando o possível pra criar seus filhos, mas ela deixava a desejar muitas vezes, principalmente quando o assunto era sua filha. Elas mal conversavam, e isso fazia falta, afinal, a filha iria completar seus dezessete anos, e precisava de uma "tutora" pra lhe explicar coisas sobre a vida, porém, Angelina não deixava a mãe se aproximar de nenhuma maneira.
A mulher olhava o seu vizinho Mike cortar a grama, até se dar conta de que já estavam atrasados.
— Angel! Kaio! Desçam! Precisamos ir. — Chamou a mãe.
— Precisamos ir? — Retrucou Kaio, fazendo cara de pena.
— Sim, precisamos. Cadê sua irmã? ANGELINA!
— JÁ VAI! Droga! Eu posso ao menos me arrumar direito? Que saco! — Bradou a menina, enquanto descia as escadas usando suas roupas super folgadas.
Já havia um tempo, que Agnetha tinha notado que sua filha andava meio estranha. Ela vestia umas roupas largas, e inventava muitas desculpas pra não ir a praia ou tomar um banho de piscina. Mantinha seu quarto sempre trancado a chaves e tratava ela mesma da limpeza dele. Aquilo era estranho, claro, mas a mãe tentava entender e já havia desistido de pressionar a filha para se cuidar mais, até porque a própria Agnetha também passou por isso na adolescência.
Já estavam dentro do carro, quando a mãe exitou por um instante. Ela travou o corpo, como sempre fazia, e ficou pensando se dava continuidade a aquele ritual, que um dia matou seu marido. As dores ainda estava presente no peito dela, e infelizmente, a saudade era quase insuportável. Não havia um só dia, em que a mulher lembrasse e se perguntasse "como seria?". Pé no acelerador, mãos no volante e lá vamos nós.
Angel estava na oitava série do ensino fundamental e morria de vergonha quando passava pra ir pra classe e todos a olhavam como se perguntassem: "O que ela está fazendo lá? Já é tão velha.", mas o fato é que mesmo estando dois anos atrasada — devido as constantes mudanças de cidade-, ela até gostava de sua turma. Contanto que ninguém tentasse fazer contato, ela estaria bem.
Era terça feira, e todos estavam pedindo que toda aquela droga de dia acabasse logo. Dali a duas horas teria aula de educação física, e Angel não sabia mais o que fazer, porque não poderia colocar o uniforme. Estava se sentindo gorda, apesar de estar pesando 41 Kg; não comia a três dias, e mesmo assim, o seu peso a incomodava.
Não tinha feito amizade com ninguém ainda, porque todos eram muito desinteressantes, e ela não via razões pra se socializar; porém, no ginásio de esportes, todos têm que se comunicar, e isso era um problema iminente para a garota.
O horário havia batido, e todos se arrastaram em marche lenta até os vestiários; estava prontos pra se trocar, e nada animados para fazer as aulas.
Angel entrou no banheiro feminino e haviam quatro garotas da sua turma conversando, mas pararam quando ela entrou. Uma das meninas, a Ana Clara, se aproximou e Angel recuou como se fosse dar meia volta e sair dali correndo. Estava acuada, mas não tinha escolha, a ter que conversar.
— Oi... Ange... Angelina! É esse teu nome, né?!
— É sim.
— Bonito nome, Angelina. Então, você é nova aqui em Brokenhills?
— Sou sim. Minha mãe é médica, e por isso mudamos muito. Ela não tem um local fixo de trabalho.
— Poxa, que legal. Sua mãe é uma médica. Deve ser legal ser filha de médica. Minha mãe é dona de um salão de beleza e meu pai é policial. E o seu pai? Faz o quê?
— Bom... meu pai faleceu.
— Ohh, nossa. Me perdoe por ter tocado nesse assunto.
— Sem problemas. Já me acostumei. É... vou... vou trocar de roupa.
— Ok. Também vou. O Sr. Biggles deve estar uma fera.
As quatro meninas saíram do banheiro; Angelina sentou no chão e respirou fundo. Essa tinha sido por pouco, mas ela se saíra bem. Pelo menos não ficou parecendo uma palerma enquanto conversava com Ana.
Ana Clara tem dezesseis anos também, mas cursa a oitava série porque ficou um período de dois anos sem estudar, devido ao tratamento de um câncer no sistema linfático.
Quando entrou na quadra, todos pararam e olharam pra Angelina, e ela jurava ser pelo atraso, mas nem se deu conta de que pela primeira vez em anos, as suas pernas haviam sido descobertas, deixando a amostra, sua magreza e brancura extrema.
Risos e cochichos ecoavam pela quadra. Até o professor Biggles não conteve o espanto. Era como se aquela aluna tivesse vindo de outro planeta. Seus braços e pernas reluziam de tão brancos, e só agora o resto do corpo contrastava com seu rosto magro e pálido também.
Angel ficou parada por pouco menos de um minuto, mas pareceu uma eternidade. Ela tinha em mente, que o motivo dos olhares, risos e cochichos era seu "peso excessivo", e virando devagar, Angel começou a correr em direção a porta de saída. Os olhos castanhos inundavam seu rosto com as lágrimas, enquanto ela pensava que poderia ter emagrecido ao menos uns dois quilos a mais. Ela só queria sair dali.
Angelina entrou em casa correndo e enxugando as lágrimas, e Agnetha correu pra ver o que era, mas recebeu a porta na cara. Ela não abriria a porta, mas Agnetha precisava saber o que tinha acontecido.
Dentro do quarto, Angel andava devagar em direção ao closet, e abrindo uma gaveta, puxou uma caixa e tirou sua tampa, parando pra analisar suas maiores amigas. Sentou-se no chão, e fio por fio, foi talhando o braço. A carne fatiada, escorria o sangue vermelho e quente, e isso aquecia o coração da menina. Ela só queria que o dia (e a vida) acabasse.
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