Já passava das quatro da madrugada, e Angel ainda estava deitada no chão do banheiro. Sua dor era imensa. As lágrimas, e o sangue, e até mesmo os cortes, nada disso podia conter a vontade de gritar. Angel conheceu o Cutting* na pré-adolescência, quando todos os fantasmas sociais lhe atormentavam. A garota passava dias sem dormir, e na sua mente de ex criança, surgiam questões sem respostas. Ela chorava, e pedia que se Deus existisse, que arrancasse a sua vida, porque não saberia lidar com o fato de ser diferente das outras garotas, mas nunca ouviu uma resposta.

A pressão de não ser boa o suficiente caia sobre seus ombros todos os dias, e ela não sabia como agir, afinal, não podia sucumbir aos seus medos, mesmo não tendo forças pra lutar contra eles, até que em uma tarde de sábado, enquanto discutia com sua mãe, ela acabou ouvindo a coisa que mais lhe machucara.
— PORQUE VOCÊ É ASSIM? Você não sabe lidar com o fato de não ter tido um pai, sendo que EU fiz de tudo por você. Eu deixei de viver, eu deixei de me divertir. TODOS os dias, TODOS, eu saio por aquela porta, e vou trabalhar para que não lhe falte nada, mas você age como se eu fosse uma péssima pessoa, Angelina. Estou exausta, sabia?! Eu tinha sonhos; sonhos que eu queria que você também tivesse, mas ao invés de querer ser feliz, você prefere se trancar no seu quarto com suas coisas estranhas e manias de gente anormal. Seria melhor nem ter nascido, porque assim nós duas estaríamos livres uma da outra. Quem sabe sem você no meu caminho, eu até tivesse tido a chance de ser feliz?! QUEM SABE?! — Desabafou Agnetha, percebendo logo após, que havia dito uma besteira imensa.
Angelina deixou cair uma lágrima. Ela não podia acreditar em tudo que havia sido dito por sua mãe. Ela queria muito voltar no tempo, e impedir Agnetha de dizer aquilo, mas era tarde.
De volta ao seu quarto, Angelina deixou-se cair no chão do banheiro, e tentava falar, chorar, gritar, raciocinar, mas nada saía, porque a dor entupia sua garganta e lhe privava de uma saída de escape, foi então que ela avistou a lâmina de depilação em cima da pia. Desde aquela tarde, Angelina mudou. Ela agora trazia na pele a marca da dor, e trazia no peito o sufoco de um grito abafado.

Voltando de suas memórias, a garota se recompôs e levantou do chão. A hora havia voado e o sol já estava na janela. Ela não conseguiria mais dormir, então deitou-se na cama e se preparou psicologicamente pra seu dia.

Aquele era um dia pior que os outros, pois Angel não estava nem um pouco afim de ir a escola, mas era obrigada. Desceu as escadas vestindo a farda do colégio, seu tênis cano alto e uma camisa enorme por cima. Aquele era seu uniforme diário. Os cabelos ruivos, sempre estavam levemente bagunçado, e a maquiagem meio pesada dava um contraste perfeito com toda a sua vontade de agarrar Kaio pelo pescoço e arremessa-lo janela a fora. Ela não suportava mais os gritos, as birras e as pirraças do moleque mimado.

- Tchau filha! Mamãe te ama. — Disse Agnetha, enquanto a filha descia do carro.
— Tanto faz. Tchau. — Respondeu Angel, com a cara fechada.

Dentro do colégio, Ana Clara discutia com Kori. Elas eram ex namoradas, mas Kori nunca se acostumou com a separação, e sempre perseguia Ana e quem mais estivesse disposto a se aproximar dela.
— Sai do meu pé. Nossa! — Disse Ana, parando e virando pra Kori.
— Qual o problema? Vamos resolver. Por favor, não posso mais ficar sem você.
— Pensasse nisso antes de me deixar em segundo plano na sua vida. Chega Kori! Chega! Acabou. Por favor, não me peça pra voltar, porque eu não te amo mais. Sinto muito.
— Tudo bem, mas eu acabo com qualquer uma que tentar algo com você. Vou logo avisando. — A garota se virou e saiu do corredor pisando forte. Ela era uma brutamontes. Seu tamanho assustava qualquer um, mas sua inteligência era de dar pena.

A poucos metros dali, Angel estava escondida atrás de uma pilastra do corredor. A muito tempo ela ficava observando Ana Clara, e se surpreendia quando pegava a si mesma sorrindo e acompanhando todos os movimentos da morena com os olhos. Ela a havia notado desde o primeiro dia de aula. Seu sorriso era tão encantador, que ela mal podia acreditar que fosse algo humano. Sempre se encantava ao ponto de suspirar, quando Ana colocava o cabelo atrás da orelha para pensar, ou quando ela cantarolava os sucessos do ABBA enquanto respondia as questões de cálculo da aula chata do professor Martins. Tudo naquela garota fazia Angel flutuar da cadeira.

- Oi. Como vai você? — Falou Ana, estendendo a mão pra Angel, que mal notara que a menina havia se aproximado.
- Ahhh... Oi. É, oi. — Respondeu Angel, sorrindo sem graça.
— Então... Angelina, né?!
— Angel, por favor.
— Ah, ok. Então Angel, você está melhor quanto ao que aconteceu ontem?
— Estou sim. Obrigada por perguntar.
— Eu fiquei preocupada com você; até te procurei no colégio, mas disseram que você saiu antes de sua mãe vir lhe buscar.
— Bom, eu não quero falar sobre ontem. Me sinto meio constrangida por ter saído correndo sem motivos.
— Tudo bem. Motivos eu sei que você tem, e eu os respeito. Ok, não vamos falar sobre ontem, então falaremos sobre o quê? Que tal o ABBA*?
— Ai não. Mais uma louca que nasceu na época errada. — Disse a menina, cutucando a nova amiga.
— Como assim mais uma louca? — Respondeu a provocação sorrindo.
— Bom, digamos que minha mãe seja a fã mais maluca que o ABBA já teve o desprazer de ter.
— Sério?! Nossa que perfeito!
— E o pior é que não é só ela. Minha avó, como sempre foi maluca, também era fã do grupo, o que deu origem ao nome da minha mãe, que é Agnetha, em homenagem a uma das vocalistas.
— Tá de brincadeira, né?! É sério?
— Pior que eu não estou. É mais que sério. O mais horrível é aguentar a Agnetha e a Frida, que é minha tia, dançando Mamma Mia no natal.
— Nossa! Sua família deve ser demais. — Falou a menina, gargalhando.

As aulas naquele dia haviam passado rápido. As meninas passaram a manhã juntas, e Angel não podia acreditar no quanto Ana Clara era linda e inteligente. Ela não perdia nenhum movimento, e tentava aproveitar cada segundo com a nova amiga. Tinha medo de que acordasse de repente, no chão do seu banheiro, com o braço ardendo e molhada de sangue e lágrimas.
Uma manhã inteira sem pensamentos ruins. Era isso que o efeito Ana causava; as pessoas que estavam a sua volta, simplesmente se sentiam mais felizes, porque a moça passava uma energia muito boa. Angelina estava tão radiante que parecia outra pessoa. Até sorriu pra alguns colegas de classe, o que era muito incomum.
Quem não estava gostando dessa nova amizade era Kori. Ela passou a manhã inteira observando as duas andarem pra cima e pra baixo. Todas vezes que Angelina e Ana sorria, ela sentia a face arder de raiva. Precisava dar um jeito naquela situação, antes que Clara se apaixonasse pela magricela.

Infelizmente aquela manhã acabou e Angel tinha que voltar pra casa com sua mãe. Ela estava radiante. Seu sorriso deixou Agnetha meio intrigada, afinal, a muito tempo não via a filha sorrir. Olhou a filha cantarolar "Dancing Queen" e sentiu os olhos marejar. Algo havia mudado naquela manhã; algo maravilhoso havia acontecido, mas seu coração de mãe ainda não estava completamente contente. Algo a incomodava, mas ela ignorou e continuou dirigindo e cantarolando junto com a filha.

Notas finais
* O Cutting é definido como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Os atos geralmente têm como intenção o alívio de dores emocionais e em grande parte dos casos, estão associados ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).
* ABBA foi um famoso grupo musical sueco.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.