Angelic Novel
2 Just Normal
Notas iniciais
—Annabel! Acorde!
Abri meus olhos preguiçosamente me deparando com minha mãe me sacudindo e gritando.
—O que foi? — falei meio zonza.
—Você vai chegar atrasada!
—Ok, ok...
Levantei e fui me arrumar. Eram 6h45min, eu tinha tempo de sobra. Vesti o uniforme do meu novo colégio, que era muito bonitinho. Era composto por uma camisete branca com o emblema do colégio Phoenix Gold no lado esquerdo do peito, e uma saia rodada xadrez nas cores laranja e preto, além de um casaco laranja, não obrigatório, para usar nos dias frios, que era o caso hoje. E é claro, a gravatinha da mesma cor da saia.
Fiz minha higiene, calcei meus sapatos e me olhei no espelho. Meu cabelo estava bonito, mas meu rosto estava pálido. Talvez por causa daquele sonho esquisito. Mas que diabos foi aquele sonho?
—Vamos Annabel, eu te levo.
Assenti. Peguei minha bolsa e a segui minha mãe, tentando não pensar naquele sonho. Hoje ia ser o meu primeiro dia na escola, e o primeiro dia de trabalho da minha mãe, desde que o papai morreu (o que nos obrigou a voltar para nossa antiga cidade, Santa Lúcia, RS).
Durante a ida não trocamos nenhuma palavra, o que me deixou frustrada já que isso deixava que meus pensamentos ficassem livres para voar a coisas que eu não queria pensar.
Fitei minha mãe. Demonstrava um pouco de nervosismo, já que fazia muito tempo que ela não exercia sua profissão (ela era corretora da empresa Mirim de Almeida que vendiam imóveis de luxo). Era raro vê-la demonstrar alguma emoção que não fosse angústia, tristeza ou dor.
Ela amava o papai demais, eram almas gêmeas. Qualquer um poderia ver o amor estampado em todos seus gestos, olhares. Arrancá-lo tão brutalmente dela foi um golpe fatal em seu coração. O único motivo dela não ter desistido ainda, sou eu.
O que faz tudo piorar pra mim, já que foi tudo minha culpa.
—Chegamos. Boa sorte no seu primeiro dia, meu anjo.
Disse ela me tirando do meu conflito interior.
—Boa sorte no seu também, mamãe.
Ela depositou um beijo na minha testa e saí do carro acenando para ela, enquanto partia.
Olhei para os portões da escola e suspirei. Provavelmente, iria acabar revendo alguns amigos da minha antiga escola, já que a maioria iria vir pra esse colégio. Estava com saudades, mas reencontro são sempre chatos. Tinha três melhores amigos: Sarah, Bárbara e Nick. Desde o pré-escolar éramos inseparáveis. Queria tanto poder vê-los.
Mas isso fica pra depois, pois estava um pouco atrasada. Olhei meu relógio de pulso que meu pai havia me dado antes de falecer e vi que ainda tinha alguns minutinhos de liberdade. suspirei novamente, olhei para o céu, e adentrei os portões do colégio com o pensamento:
“Que alguém aí em cima me ajude”
********
Cheguei bem a tempo de escolher um bom lugar. Sentei na penúltima carteira da fila da janela, tinha uma ótima vista e ainda me escondia um pouco dos olhos dos professores, caso eu tirasse um cochilo. Pelo visto, a maioria dos alunos da minha classe eram certinhos, pois quase ninguém quis sentar-se no fundão. Se pelo menos meus amigos estivessem aqui, eles preencheriam as carteiras vazias ao meu redor. Assim que todos se sentaram o professor entrou.
—Olá alunos. Meu nome é Romeu, e eu serei seu professor de física.
Ele se virou para escrever seu nome, e as garotas suspiraram. É ele era gatinho. Tinha cabelos castanhos e um pouco de barba, seus olhos eram cor de mel e usava óculos. Parecia ser bem jovem.
—Agora eu gostaria de saber o nome de vocês. Quero que, um de cada vez, diga seu nome e...
‘’Toc-toc-toc ‘’
— Desculpe interromper professor Romeu. Aluna atrasada. – disse a diretora.
—Tudo bem, estava começando as apresentações. Entre garotinha, e pode se sentar – fez uma pausa para procurar um lugar – ali na fila da janela, na antepenúltima carteira.
Ela entrou meio acanhada, com passos rápidos e cabisbaixa. Todos deram olhares estranhos para ela, por causa do seu cabelo. Ele era preto, e com mechas amarelas. Eram amarelas mesmo, e não loiras. Parecia estar muito nervosa, como se fosse a primeira vez que ia á um colégio.
—Continuando, quero que digam seus nomes e sua maior qualidade. Pode começar. – olhou para mim.
—Meu nome é Annabel e minha maior qualidade provavelmente seria a ousadia.
—...
—Próxima.
—... Ah. É... Meu nome é Diana e... Bem... Não sei minha maior qualidade.
—Ok.
—Esquisita! –uma engraçadinha da primeira carteira da fila ao lado gritou.
A sala inteira riu, e a Diana se encolheu na carteira. Isso me irrita. E muito.
—Esquisita é você, com essa cara cheia de maquiagem parecendo uma prostituta.
Ela me olhou na hora, com um olhar ameaçador (no qual não me assustou, e sim me divertiu, fazendo-me rir). Continuei, com um sorriso irônico estampado no meu rosto.
—Ou melhor, nem elas fazem isso. Principalmente para vir ao colégio. Você tá mais pra palhaça. – a sala riu novamente.
—Olha quem fala! Sua...
—Já chega vocês duas! Se eu ouvir mais alguma coisa, mando as duas para a diretoria!
—Mas professor, foi ela que... –começou com a voz manhosa.
—Não quero saber! Você vai pedir desculpas a sua colega Diana agora! E você Annabel vai pedir desculpas a sua colega...
—Leila. –disse a palhacinha.
—A sua colega Leila.
—Desculpa Diana. – sua voz parecia sincera, mas seu olhar ameaçador se mantinha.
—Desculpa Leila. –assim como ela, continuei sorrindo quando Romeu deu uma brecha.
—Agora sim, continuemos.
Eu estava prestes a entrar em um tédio profundo, quando um papel normal e um rosa caíram na minha mesa.
Um dizia:
Valeu pela ajuda
=D
E o outro:
Isso não acabou ainda,
É melhor tomar mais cuidado
Com o que diz.
Respondi-os na mesma ordem.
Valeu pela ajuda
=D
Não foi nada :)
Isso não acabou ainda,
É melhor tomar mais cuidado
Com o que diz.
Há, isso foi uma ameaça?
Muito sem graça essa sua piadinha, palhacinha.
Devia voltar a ser prostituta.
Entreguei o papel da Diana pra ela normalmente, ela deu uma risadinha e começou a escrever de novo. Quanto ao outro papel, eu o dobrei até transformá-lo em uma bolinha, e, assim que Romeu se virou, taquei nela. Tentei segurar o riso, mas quando ela leu o bilhete, eu não aguentei e dei uma risadinha.
As outras aulas que se seguiram foram tediosas. Os professores não eram tão legais quanto o Romeu, tanto que nem escutei os nomes. De vez enquanto Diana se virava e nós conversávamos diversas coisas.
No recreio percebi que minha amiga Bárbara era da minha sala. Mas por algum motivo, ela nem me cumprimentou, nem me olhou direito. E ainda esta se sentando com a Leila. O que será que havia acontecido enquanto fui embora? Sinto como se ela fosse uma desconhecida, e que conhecia Diana desde o pré.
‘‘TRIIIM’’
—‘‘Até que enfim!’’ – pensou Annabel, assim que o sinal bateu.
Ela e Diana saíram juntas da escola, tinham combinado de ir embora juntas.
—Ah! Annabel, eu esqueci meu livro na sala de aula. Me espera na entrada da escola, que eu vou correndo lá pegar.
—OK, te espero lá fora.
Ah! Liberdade, finalmente. É eu sentia saudades da escola, mas sinceramente, gosto só de um lado da escola: o lado de fora.
Com esse pensamento, Annabel saiu pelos portões distraidamente e começou a atravessar a rua, sem prestar atenção para o grupo de motoqueiros que estavam por vir. Eles também não pareciam notar Annabel, pois não diminuíram a velocidade, nem buzinaram.
Quando Annabel chegou ao meio da rua e finalmente percebeu o que estava prestes a acontecer, já era tarde demais. O motoqueiro que estava mais a frente liderando o grupo, passou por ela. E o mundo parou.
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