Angel of Light
23 Vinte e Três
Notas iniciais
Não contou nada para Stephen quando ele chegou em casa sobre a visita surpresa do Mestre dos Brinquedos ou para Wong sobre o sumiço do livro. Quando perguntada sobre o volume, mentiu dizendo que estava trancado no criado-mudo ao lado da sua cama. Não se sentia bem mentido para o seu amigo, mas também não conseguiria explicar para ele como um livro daquele tamanho havia sido roubado bem embaixo do seu nariz de dentro de casa. Stephen e Wong não eram cegos, eles deviam ter notado a sua súbita ansiedade quando chegaram para jantar.
A receita da massa das panquecas que havia pegado da internet estava bastante defasada quanto às quantidades das medidas, quase que a mistura empelotou e não tinha tempo e nem ingredientes para repetir. Mesmo sendo sábado, Stephen logo sairia para trabalhar e se pegou sendo tão caseira quando a sua mão quando ainda era jovem e viva, fazendo o café da manhã do seu pai antes que ele fosse trabalhar e aprontando a ela e Pietro para a escola. Estavam começando a se entender não só dentro dos lençóis, contudo, tinha medo que todo esse entendimento desandasse depois quando não ficassem mais tanto tempo juntos. Gostava de ser afoita a ele à noite assim como ele também gostava de fazer o mesmo.
Os discos de massa foram postos nos pratos com as frutas vermelhas que comprou no mercado no dia anterior e o mel artificial tinha um gosto estranho também. Encheu a sua caneca de café e leite e provou. Estava bom o suficiente. Planejava fazer um bolo de chocolate para comerem depois do jantar assistindo a reprise a temporada atual de Grey’s Anatomy. A dispensa cheia lhe permitia criar e agora tinha um acesso ilimitado a internet, as coisas começavam a funcionar na cidade e logo mais poderia se considerar uma habitante de Nova York que era normal e podia ficar na varanda de casa sem correr riscos.
Se sentou à mesa e esperou por Stephen. Ter o livro roubado no seu turno não facilitou o seu sono depois que Stephen tocou o seu corpo todo antes dele mesmo conseguir dormir. Esperou, ele logo apareceu na cozinha.
Stephen estava elegante, vestido em terno e gravata e um sapato social que sabia que depois precisaria ser trocado por um par de tênis. O beijo dele no seu rosto veio e uma mão boba no seu seio direito por dentro do pijama largo veio junto depois que ele acariciou o seu ombro.
“Eu não sei se isso tudo está bom, mas o café pelo menos sim”, disse a ele.
“Você deveria parar de se preocupar com isso, você não é tão má cozinheira assim”, ele piscou enquanto cortava a massa das panquecas e as melecava com aquela coisa estranha e sem sabor. “Está faltando um pouco de açúcar, só isso”, ele riu.
“Você vai comer assim mesmo”, riu junto dele.
“Eu sei que não é o melhor arranjo, mas o Dr. Murdock fará o possível para que tudo aconteça o mais rápido. Eu imagino como deva ser para você ficar aqui sozinha o dia todo”, ele falou enquanto bebia o café.
“Wong me faz companhia e tenho os meus estudos, não preciso de muito. Nunca precisei de muito”, a sua sinceridade o cortava às vezes.
Eram de mundos totalmente opostos e mesmo assim acabaram ali, juntos. Tantas coisas que só vira o nome para ambos e conseguiam se fazer entender quando estavam juntos. Como não haviam conversado muito sobre o primeiro dia no trabalho, agora parecia um momento oportuno para tais novidades. Queria saber como ele fazia o seu trabalho, como ele salvava a vida das pessoas. Tantas curiosidades a serem sanadas que não sabia por onde começar.
“O que você fez de bom essa semana?”, perguntou e Stephen a olhou, ele ergueu as sobrancelhas com a menção do acontecido à noite. “No seu trabalho. Não conversamos sobre isso durante a semana”, reforçou.
“Eu nunca tive com quem dividir essas coisas, isso ainda é novidade para mim”, ele admitiu, levantou os olhos e entendeu no seu rosto que queria mais. “Rostos novos, rostos antigos. Gente que não pode pagar assistência médica sendo atendida, gente idiota tentando roubar comprimidos no corredor, os meus subordinados sendo idiotas. Me reabituei o mais rápido do que imaginava”.
“E... Christine Palmer... você a viu por lá?”, garfou um morango junto de um pedaço da panqueca. Levou a sua caneca aos lábios novamente e quase se engasgou quando notou Stephen com a sobrancelha levantada.
“Por que perguntou isso?”, ele questionou desconfiado.
“Ahm... curiosidade... eu acho”, confessou. O tempo não estava quente lá fora e dentro da cozinha estava agradável, não sabia o porquê de estar com tanto calor.
“Você está com ciúmes”, ouviu.
Stephen não perguntou, ele afirmou. Podia se considerar uma pessoa que tinha os sentimentos muito aflorados, todos eles, então não havia considerado o seu desconforto no fato de ele ter voltado ao trabalho como médico como ciúmes de Christine Palmer. Sabia que ele poderia esbarrar nela sem querer por lá e isso a deixava apreensiva. Se lembrava do término dele e em como Stephen não a deu direito de fala... tinha medo de que ela falasse, ele acreditasse e tudo isso acabasse.
“Eu? Ciúmes? Não é isso, é só...”, não conseguiu terminar.
“Curiosidade? Wanda, os talheres lavados estão dançando em cima da pia”, se virou e viu as facas levitando junto dos garfos e colheres através de uma energia escarlate. “Você está com ciúmes de Christine”, ele riu. “Glenda vai gostar de saber disso”.
“Não tem graça! A única pessoa que eu me senti assim foi o meu irmão e, bom, Pietro se foi”, ouviu quando o metal dos talheres bateu no metal da pia.
“Christine Palmer está grávida e bem relacionada com Nick West, diga-se de passagem. Eu encontrei com ela no primeiro dia e não a vi mais depois disso. Acabou. Você deveria se preocupar menos com Christine e mais com o que você anda lendo nos jornais. Eu achei os seus recortes de jornal dentro do seu caderno”, o tom da voz de Stephen não era muito receptivo. “O que você está pensando que pode ser?”
“Ainda não tenho certeza”, vacilou. “Estou tentando achar alguma brecha nas minhas pesquisas”.
“Não se meta em confusão, lembre-se do que o Dr. Murdock disse. Fique quietinha em casa, estudando, e nada de ruim vai acontecer”, ele disse deixando a caneca na mesa e se levantando para sair. “A propósito, vista algo novo, algo emprestado e algo azul hoje à noite. Eu andei vendo que você tem tudo isso na sua gaveta de calcinhas”, Stephen piscou e riu. Andou até aonde estava sentada e se apoiou com uma mão na mesa e outra na sua cadeira. “Você disse que estava esquecendo as reminiscências do passado para seguir em frente, então esqueça as minhas reminiscências. Deixe isso lá e isso não poderá voltar. Até o jantar”.
Stephen beijou o seu rosto de mordeu levemente o seu pescoço depois. Tinha feito um bom trabalho escondendo a sua mordida com maquiagem.
O sorriso do seu próprio rosto sumiu ao se lembrar de novo do livro e esse tormento não passaria tão cedo.
[...]
O pátio do Kamar-Taj estava com o céu nublado e logo teriam que entrar para o jantar. Acompanharia Wong na refeição, mas queria esperar por Stephen para fazer isso com ele já que estavam passando pouco tempo juntos. Antes de pensar em ir ao Sanctum teria que passar na biblioteca na surdina para ver se tinha mais alguma outra literatura sobre demonologia que ainda não havia lido.
O cheiro dos temperos de Kippur se fazia presente e adorava quando ele fazia o esmurrado de beterraba com leite doce para a sua sobremesa. Domenico se sentou ao seu lado com o prato cheio e estava com saudades do amigo.
“Você ficou tanto tempo fora que perdeu tanta coisa, Wanda! Melk me deixou abrir um portal sozinho para que praticasse, mas tive algumas dificuldades para voltar para o Kamar-Taj, doze minutos dentro da Dimensão Espelhada sem ser ouvido são aterrorizantes. Só que eu quero que me conte o que aconteceu com você para sumir, ainda não esqueci do Mestre Strange sendo rude”.
“Peço desculpas em nome dele, Stephen não teve muito tato com as palavras”, não disse mais nada, ainda estava pisando em ovos sobre contar ou não a todos sobre ela e Stephen.
“E não pense que eu não andei percebendo você e ele juntos, ele não apareceria com um relógio novo do nada sem ter dinheiro”, ele riu. “Quando aconteceu?”
“Antes do Natal, eu passei um tempo na casa do irmão dele me escondendo depois da notícia no Bulletin. Eu não sei o que aconteceu, só... aconteceu”, confessou.
“Eu já tinha notado que vocês dois tem uma aura bastante... sexual. Tinha tensão em vocês, que bom que estão resolvendo isso juntos. Estão namorando oficialmente?”, ele perguntou.
Puxou de dentro do moletom o fino cordão com o anel e mostrou ao amigo. Ele gesticulou se estavam noivos. Negou. O abraço de Domenico na sua cintura a deixou um pouco constrangida no momento, ainda estava se acostumando com as aproximações de todos por agora e estava sendo cautelosa.
“Eu devo chamar você de Strange agora? Acho que isso vai gerar um pouco de confusão com dois Mestre Strange aqui se aconteceu”, ele riu em silêncio e deu uma colherada na sopa de entulho.
“Eu não pensei muito nisso, na hora, mas quis. A certidão de casamento vai chegar essa semana, aí serei oficialmente Wanda Strange”, suspirou.
“Você está toda apaixonada, eu gosto dessa Wanda”, Domenico continuou rindo. “Kippur fez beterrabas com leite doce, consegui surrupiar um pouco para você comer comigo já que a esposa do Mestre do Sanctum de Nova York gosta”, ele piscou.
“Não é comum que os mestres se casem? Eu meio que vejo alguns aqui praticando o celibato”, olhou pelas mesas. Sim, haviam alguns que saíam à noite para uma casa de prazer na cidade, mas na generalidade eles contraíam votos de castidade.
“Comum não é, mas não é proibido. Seria a mesma coisa que perguntar como ocorre a manutenção da população de K’un-Lun”, ouviu.
“O que é K’un-Lun?”
“Uma cidade mística, uma das Sete Capitais dos Céus. É uma dimensão do multiverso, mas o acesso é remoto e só se pode fazer isso a cada quinze anos. Nunca fui lá, mas já ouvi falar”, ele continuou comendo.
Pegou das mãos dele a tigela com a sua sobremesa e tirou um pouco com a colher de madeira. Era um purê de beterraba só que doce e Kippur sabia como fazer isso. Se deliciou mais um pouco até ver um homem alto entrar no salão.
Rodrick estava vestido de maneira civil e os cabelos estavam molhados. Não chovia lá fora, talvez ele tivesse entrado pelo que sobrou do Sanctum de Londres. Engoliu a seco e percebeu a desaceleração dos passos dele até que ele chegasse na mesa aonde estavam.
“Melk sabe que você anda se misturando com ela?”, ouviu a voz de Rodrick perguntar a Dom, se sentiu ultrajada com o linguajar dele.
“Melk não decide com quem eu faço amizades, eu decido. Você está atrapalhando o nosso jantar”, o seu amigo retrucou.
“Quando ela fizer algo contra vocês, vocês verão que o Kamar-Taj cometeu um grande erro ao aceita-la”, Rodrick disse superior.
“Erro por erro, então eles também erraram com você”, percebia a coisa ficando séria.
Rodrick não se deu ao trabalho de responder, ele se aproximou o suficiente de onde estava e tocou o seu rosto. “Somos crias de erros, criança, a diferença é que o seu lugar não é aqui”.
“Se o dela não é, por que o seu seria, então?”, Dom perguntou.
Não conseguiu responder, viu algo nos olhos de Rodrick que a paralisou. Sentiu medo quando o olhou e frio quando foi tocada. A sua respiração se tornou gelada e tossiu um pouco depois que ele se foi para o quarto. Viu um pedaço de pergaminho cair das vestes dele e pegou do chão. Estava amarelado pelo tempo e parecia com o número de uma página em inglês. Conseguiu ler as palavras Lúcifer, meio e Lon antes do rasgo.
Depois disso não conseguiria mais comer ou vestir algo azul, algo emprestado e algo novo, não tinha... clima para isso. Era como se algo a prendesse no lugar para que não confrontasse o homem. Quando sentiu que conseguia respirar direito, expirou e viu um leve vapor saindo por entre os seus lábios. Não conhecia Rodrick, não sabia que tipo de coisas ele poderia fazer e nem se era essa a magia que ele manipulava.
“As suas mãos estão frias, o que ele fez com você?”, as mãos de Domenico tocaram as suas. “Rodrick está passando dos limites, não estou reconhecendo-o”.
“Ele nem sempre foi assim?”, perguntou.
“Ele era amigo de Mordo, ambos eram aprendizes da Anciã quando Kaecellius se rebelou com Dormammu. Kaecellius morreu, Dormammu foi derrotado por Stephen e Mordo sumiu. Quando os meus pais morreram e eu vim para cá, pude escolher com quem treinaria e comecei com Rodrick, ele me ensinou muito do que sei hoje. Mas as coisas mudaram de uns tempos para cá, ele anda muito estranho”, Dom deu de ombros.
“Eu acho que já vou, Stephen daqui a pouco vai chegar do trabalho e eu quero dormir cedo”, disse.
“Dormir cedo? Sabe, Wanda, eu não nasci ontem”, Dom piscou. “Só se lembre de trancar a porta para que não recebam visitas indesejadas durante as suas atividades noturnas”, ele riu.
“Você não presta”, admitiu rindo.
“E você gosta de mim mesmo assim. Tenha uma excelente noite, Maximoff”, ele falou.
“É Strange agora”, retrucou ao amigo.
“Pode ser, mas você sempre vai ser Maximoff para mim”.
Sorriu para o amigo e seguiu o seu rumo para a biblioteca, tinha que passar por lá até ir para o Sanctum. Tinha um vazio no seu estômago por mentir para Wong sobre o livro e não sabia por onde começar a procurar. Passou os dedos pela estante de demonologia e um encadernado lhe chamou a atenção.
Quando tocou, sentiu uma queimação nos seus dedos em azul gelo. O livro não saiu do lugar e pela lombada reconheceu o volume. Se apavorou, o livro que estava estudando estava de volta à biblioteca e não queria sair do lugar. A sua respiração ficou mais acelerada ao perceber que o Mestre dos Brinquedos era alguém de dentro do Kamar-Taj e desconfiava de quem fosse.
[...]
Rodrick atrapalhou os seus planos de ver Stephen e Wanda durante a noite, que vergonha para ele, mas tinha lhe dado um motivo para que o pacto deles continuasse firme e forte. O viu matar mais do que pretendiam e temia que ele saísse de controle. Loki era venerado como um deus em Midgard e tinha poderes quase ilimitados, contudo, Rodrick era um tipo de diferente de criatura.
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