Angel of Light
24 Vinte e Quatro
Notas iniciais
Stephen havia notado que as suas mãos estavam frias quando chegou em casa. Ele não viu algo azul, algo novo e algo emprestado, só a viu deitada na cama. Não queria ter que contar a ele sobre as suas desconfianças, não ainda. Desconfiar de um mestre do Kamar-Taj lhe parecia uma ideia tão descabida que guardou somente para si.
A segunda semana de Stephen no trabalho passou até rapidamente e ele ainda não contava muitas coisas, dizia que não queria levar trabalho para casa. Podia sentir nele uma energia estranha, de desconforto. Ele estava na metade da terceira semana e o período probatório dele estava acabando, logo ele assumiria de vez a emergência do Metro-General Hospital.
O livro de receitas de Kippur precisava ser atualizado com urgência, não sabia como fazer a sangria de uma galinha depois de depená-la. Galinhas já estavam prontas no mercado, era só escolher uma e o resto era resolvido em casa. Respirou fundo e colocou a galinha que comprou congelada no vinagre para tirar o cheiro forte, só não sabia o que era pior: o cheiro da galinha ou o cheiro do vinagre que Domenico deixou no Sanctum. Fez o creme azedo e o resto dos temperos deu um jeito de conseguir. Depois de retirar do vinagre, inventou uma receita nova para temperar o frango e deixar marinar, uns vinte minutos antes de assá-lo seria ideal.
O cheiro estava ótimo e isso tinha gosto de paprikash. Se lembrou de quando Visão tentou fazê-lo, antes de tudo acontecer. Quando provou, aquilo poderia ser qualquer coisa menos paprikash. Nesse momento se odiou por ter feito o que fez com ele, manipulou a Joia da Mente para enganar os sensores e se fazer ser esquecer que tinha estado na Torre dos Vingadores.
Ouviu de longe a campainha tocar. A campainha nunca tocava. A campainha do Sanctum soar significava problemas e queria estar bem longe deles. A pessoa que estava na rua era insistente, tocou mais algumas vezes. O Kamar-Taj sempre estará lá para os que precisarem, se lembrou de te ouvido isso de Stephen uma vez. Soava como um filme que tinha visto e os Sanctums eram extensões do Kamar-Taj. Alguém precisava de ajuda e estava sozinha.
Tomou coragem e deixou a colher de madeira que estava usando na bancada, em cima da proteção plástica, e foi atender a porta. No seu trajeto até a porta, foi sendo tomada pela mesma impaciência que estava brincando com o botão lá fora. Pelo olho mágico, viu a silhueta de uma mulher bem vestida. Estranhou e muito receber uma visita assim. Abriu a porta e a mulher lhe sorriu não tão amavelmente.
“Residência do Dr. e Sra. Strange?”, ela perguntou.
“Sim, pois não?”, respondeu.
“Sou Eleanor Janise, do Departamento de Imigração Americana. Sou assistente social e fui designada para o seu caso. Você deve ser Wanda Strange, muito prazer em conhece-la”, a mulher falou quase sem pausa para respirar. “Posso entrar?”
“Ah, sim, claro. É um prazer conhece-la também. Fique à vontade”, disse.
“Casa interessante”, ela disse olhando para cima e admirando a decoração do Sanctum de Nova York. “Essa casa sempre esteve aqui e eu nunca soube direito o que era. O que é isso aqui?”
Não poderia falar das relíquias ou da magia, pessoas normais não estavam acostumadas com isso. Não poderia levar a mulher para o andar superior logo, não, ela veria o que não deveria. Tinha jurado que não faria mais isso depois de Visão, mas não poderia arriscar nada. Enquanto a mulher andava lentamente na frente, movimentou os seus dedos perto da cabeça dela e a névoa escarlate entrou pelos ouvidos, ela veria aquilo como uma casa normal, nenhum resquício mágico se faria ser visto.
“É como se fosse um museu, não sei dizer. Vocês recebem escolas aqui? Crianças adorariam ver todas essas coisas”, ela continuou. Não era um bom momento para dizer que aquilo não era um local para crianças. “Há quanto tempo vocês moram aqui?”
“Se importa se conversarmos na cozinha? Está cedo ainda, mas eu estou com o almoço encaminhado, daqui a pouco algo pode queimar”, pediu desajeitada.
“Ah, sem problemas, adoro ver comidas sendo preparadas, faz eu meu lembrar da minha infância em Nebraska”, Eleanor riu.
“Nebraska? A família de Stephen é de lá, Imperial”, disse se recordando.
“Ah, sim, isso consta na ficha de vocês. E você é de Starigrado, nordeste da Sérvia”, confirmou com a cabeça à contragosto, Stargrado ou Cidade Velha, era a capital de Sokovia agora. “Mas eu ainda quero saber há quanto tempo moram aqui”.
“Stephen mora há quase dois anos e eu, quatro meses”, disse.
“Se casaram logo, tão depressa. Está à espera?”, Eleanor perguntou enquanto entravam na cozinha.
“Não, não estou à espera”, corou violentamente e usou o vapor da panela como desculpa para estar vermelha. Não era por ter se casado jovem que já havia engravidado de Stephen. Tinham hábitos perigosos, mas não, tinha certeza de que não estava esperando um filho dele, era cedo demais. “E não pretendemos filhos para tão cedo”.
“De que cor é a escova de dentes dele?”, ela soltou.
Estranhou a pergunta, mas respondeu. “É azul”, disse.
“E qual o nome da irmã dele?”, ouviu a pergunta. Seria assim mesmo? Dr. Murdock não disse nada sobre como esse processo realmente seria, só tinha uma vaga ideia pela dramaturgia americana.
“Donna, dois anos mais jovem. Ela... faleceu cedo, antes de Stephen vir para Nova York”, disse desconfortável.
“Uma triste história, então. Como se sente com ele voltando ao trabalho?”
“Eu... não sei, é o trabalho dele. Ele é médico, ajuda as pessoas. Eu gosto quando ele ajuda as pessoas”, assumiu.
Mexeu mais um pouco o molho do frango e pegou uma grande pinça de metal para começar a arrumar a carne na assadeira. Ajeitou os cortes lado a lado e sabia que em meia hora conseguiria deixá-los bonitos e comestíveis. O arroz com vegetais já estava na metade caminho e era estranho cozinhar com alguém lhe observando que não fosse Stephen ou Wong. Ligou o forno e deixou pré-aquecer.
“Sra. Strange, na sua ficha consta que a sua família era composta de seu pai, Erik Maximoff, a sua mãe era Natalya Maximoff e o seu irmão gêmeo falecido, Pietro. Há algum outro parente na Sérvia que possamos contatar?”
Engoliu a seco, isso estava ficando pessoal demais. “O meu tio Django já é falecido, ele era irmão da minha mãe. Morreu em um acidente de carro. Não tenho mais ninguém, só Stephen”.
Até o momento não tinha surgido o assunto sobre o ocorrido com os Vingadores e o incidente da RAFT. Viu há alguns dias no jornal que Tony Stark estava ao lado do Homem-Aranha. A parceria deles parecia sólida, mais sólida que a amizade que ele tinha que nutrir por Steve. Ficou com raiva quando viu, mas era de se esperar.
Colocou a assadeira no forno e agora só teria que esperar, estava quase tudo pronto.
“Como eu sou descuidada, você aceita um chá, sra. Janise?”, perguntou.
“Com esse frio lá fora, algo quente é bem recebido”, Eleanor disse.
Havia água quente em uma garrafa térmica e tratou de busca-la para despejar o conteúdo em uma pequena jarra de vidro transparente que comprou de Stépfan. Colocou as folhas de hortelã frescas em uma rede fina dentro da jarra para apurar aos poucos.
“Você e o Dr. Strange pretendem continuar morando em Nova York no decorrer dos anos?”, ela perguntou.
Se sentou de frente para a assistente social e estava começando a se sentir desconfortável com tantas perguntas. Eleanor Janise estava procurando por um furo na sua história, sentia isso.
“Pretendemos, amamos Nova York. Ele há mais tempo que eu, claro”, respondeu à mulher.
“Oh, que aroma delicioso. Você coloca ervas no seu assado de frango?”.
“Sim, eu sempre busco as mais frescas. Stépfan, um senhor que vende cafés aqui perto, também vende algumas ervas frescas, costumamos comprar dele”, disse.
“Com certeza falarei com ele sobre isso também”, Eleanor disse anotando algo em uma agenda de couro marrom. “Você costuma ver o seu marido em ambiente de trabalho?”
“Sim”, disse antes de pensar. Costumava ver o trabalho de Stephen no Sanctum e no Kamar-Taj, não no hospital. Tinha uma leve noção de onde ficava o Metro-General, sabia que conseguiria chegar lá sem problemas. “Hoje é quarta-feira, às quartas...”
“Vestimos rosa?”, ela piscou. “Desculpe, eu não resisti à referência”.
“Às quartas eu levo o almoço dele”, completou a sua mentira.
“Isso é realmente afetuoso, posso acompanha-la hoje?”, ela perguntou.
“Sim, com toda certeza”, disse sorrindo falsamente.
Agora não tinha como voltar atrás, ela iria atrás dos seus passos até o Metro-General e torcia para que Stephen comprasse a mentira junto dela.
[...]
Não gostava das quartas-feiras, era um dia extremamente ambulatorial e fazer isso era um convite aos vírus de influenza, ser contaminado e ficar gripado era não poder ir para a cama com Wanda e não... passava essa carga aos seus internos.
Tirou o bolso do pijama cirúrgico o totem que o Mestre dos Brinquedos deixou no Sanctum. Poderia ter confrontado Wanda sobre isso, mas ela não tinha culpa, viu como ela estava quando chegou. Já a tinha visto assustada e só quem fez isso com ela foi Rodrick. Na noite que pediu para ela usar a calcinha rendada azul, ela também estava estranha e não insistiu. Para contrariar as defesas do Sanctum, precisava que fosse alguém de dentro dele e as suas desconfianças se deitavam em Rodrick.
Pelo que leu na biblioteca, não era comum que um Dividido estudasse artes místicas, a maioria deles somente queria viver escondida já que nunca morreriam. Se eles não morreriam, não poderiam ser vistos dentro de uma sociedade tão tecnológica. Passou a considerar a decisão de Rodrick pelo Kamar-Taj, nunca reclamariam que ele não envelheceria.
O seu estômago roncou um pouco e estava morrendo de fome, tinha saído sem tomar café da manhã pois ligaram em caráter de urgência, precisavam de uma consulta em neurologia para uma criança pequena. Tinha ficado de assistir à cirurgia de dentro da sala, mas precisava comer antes que desmaiasse de fome.
Deixou a prancheta metálica no balcão da Emergência e notou a silhueta de Wanda do lado de fora das janelas de vidro com uma companhia feminina. Ela entrou com uma sacola de papel nas mãos e foi sendo seguida.
“Bom dia”, ela disse.
“Bom dia...?”, respondeu. “Quem é a sua amiga?”, estranhou.
“Sou Eleanor Janise, Dr. Strange, do Departamento de Imigração Americana, muito prazer em conhece-lo. Está entregue, Sra. Strange, que bom que não quebrou o seu hábito. Nos vemos logo, Dr, Strange”, a mulher loira saiu de perto de Wanda.
“Ela apareceu do nada, me desculpe”, Wanda comprimiu os olhos quando percebeu que tinha levantado as sobrancelhas para a situação no aguardo de uma explicação plausível. “O Dr. Murdock disse que poderíamos receber visitas assim. Ela é assistente social, só isso”.
“Ah, sim, me lembrei. Mas o que você está fazendo aqui? Estou em horário de trabalho”, riu. “Você veio fazer uma interpretação ao vivo de Grey’s Anatomy? Aqui não é permitida essas saliências todas nas salas de conforto médico”, riu.
“Talvez, mas não. Ela não me deixava em paz, chegou quando eu estava fazendo o almoço e me encheu de perguntas. Eu menti dizendo que às quartas trazia o seu almoço e ela fez questão de me acompanhar para saber que eu não estava mentindo. Provavelmente vai confirmar as nossas versões sobre o nosso casamento”, Wanda não se importou muito.
“Então você não veio fazer como em Grey’s Anatomy, mas trouxe almoço? Você é o meu arauto de boa sorte, Wanda”, falou depois que pegou das mãos dela a sacola de papel pardo. “Você... quer almoçar comigo aqui? O refeitório não é restrito”.
“Pode ser. Você não vai ficar envergonhado da sua esposa ter trazido a sua comida e ficar para ver se você comeu tudo?”, sentiu a ironia divertida na voz dela.
“Não, é comida. Sempre ficamos felizes quando comemos e eu estou muito triste, estou com fome”, disse.
“Oh, claro, consigo sentir a sua tristeza”, ouviu.
Acompanhou Wanda com a mão nas costas dela para guia-la até o refeitório do hospital. Olhou no seu relógio de pulso novo, cortesia da garota, e viu que era quase o horário que Christine e Nick iam almoçar juntos. Hoje teria a sua própria companhia para o almoço e isso junto de comida caseira sérvia e a cara de Nick West ao ser passado para trás formavam uma tríade de poder inigualável que agora possuiria por alguns minutos.
Os olhares das enfermeiras e de alguns outros colegas fizeram do momento algo desconfortável. Não era todo dia que era visto com alguém e achava que eles sabiam quem era Wanda. Escolheu uma mesa no canto e a guiou até lá.
“Você pode pegar pratos e talheres? Eu ainda não confio muito em fazer isso com tanta gente me olhando”.
As suas mãos continuavam tremendo, não queria dar a eles o gosto da sua derrota, dar a sua assinatura trêmula já era o bastante e não passaria por mais. Comprou dois sucos de morango em garrafinhas e pegou os canudos, se isso caísse, poderia disfarçar com um tropeço singelo.
Se sentou de frente para Wanda e começou a desempacotar os potes de vidro. Pela coloração, aquilo parecia frango paprikash, mas também tinha arroz com vegetais cozidos e uma salada de folhas. Ela tinha pensado em tudo. Comeria isso quando chegasse em casa, mas estava tudo tão quentinho e fresco... serviu o seu prato o aroma das ervas finas chegou às suas narinas para lhe acentuar a fome.
“Isso está com um cheiro delicioso”, disse a ela. Provou o frango e sabia que as mãos de Wanda não lhe desapontavam. “Que tipo de perguntas essa mulher, a assistente social, fez?”
“Algumas normais, outras estranhas, ela só fez o trabalho dela”, notou o desconforto de Wanda.
“Ela fez alguma pergunta muito íntima?”, supôs.
“Ela perguntou se eu estava grávida. Não há muito o que confirmar, não teremos filhos agora. Não é um bom momento para isso”, ela disse.
Se lembrou da madrugada em que usou a Joia do Tempo para ver que tipo de futuro teria com Wanda e os filhos não aconteceriam dali a alguns anos, nisso ela estava certa, mas confessava que teriam tempo de sobra para treinar e decidir.
“Tudo a seu tempo, acho que chegaremos nesse assunto. Nos casamos há o quê, há menos de um mês?”, riu.
“Exatamente”, ela riu junto.
Viu de longe Christine aparecer junto de Nick West, no fundo. A saliência abdominal dela já estava maior e tinham dado o nome de Christian, tinha ouvido as enfermeiras comentarem isso. Bom, ela teria um e ele teria quatro, quem estava por cima agora? Notou Wanda olhar despretensiosamente para os lados, conhecendo o ambiente. O olhar fixo de Wanda se concentrou em Christine Palmer.
“Então ela está grávida de outra pessoa?”, ouviu a pergunta. “Esse foi o motivo de vocês terminarem?”
“Eu nunca fui de me apegar, não queria alguém para me prender”, estava começando a se complicar. “Mas eu tenho algum orgulho e ele ficou ferido”.
“Então estar comigo é se prender, se apegar?”, estava ouvindo e esse caminho levava a uma rua sem saída.
“Não é tão fácil assim entender alguém como eu”, confessou.
“Tomarei como um sim, eu partilho do mesmo orgulho e não quero ferí-lo”, ela falou.
Ficou em silêncio e comeram assim, ignorando os olhares de quem passava. Wanda estava um pouco apreensiva por causa de Christine e Nick ali, era o ciúme dela já bem perceptível quando percebeu alguns fios do cabelo dela levitando. Tocou a mão de Wanda e o fios voltaram ao normal. Já estavam acabando de comer quando o novo Casal Metro-General passou ao seu lado.
“Eu não sabia que a sua aluna poderia vir almoçar com você. Como vai, Wanda?”, Christine perguntou. Estava surpreso de ela ter reconhecido Wanda já que só se viram uma vez.
“Estando com um funcionário do hospital, qualquer pessoa poderia usar a cafeteria do refeitório”, disse simples.
“Você ficou com raiva quando soube de mim e Christine, mas acho que ela que deveria ter ficado com raiva de você e essa garota”, Nick riu um pouco. “Pelo menos eu não vou ser preso por corrupção de menores e pedofilia”.
“O que a idade da minha esposa tem com isso?”, perguntou se fazendo de desentendido. “Eu me casei com Wanda em dezembro, meses depois que eu terminei com você, Christine. A minha vida pessoal não diz respeito aos dois, Wanda é maior de idade e consentânea. Fim de conversa. Agora vão, por favor, eu quero terminar de comer, estou sem disposição para discutir hoje”, implorou.
Viu Wanda um pouco desconsertada à sua frente. O fantasma de um sorriso passou pelos lábios dela ao serem reconhecidos oficialmente como Dr. e Sra. Strange para Christine, o foco do ciúme dela.
“Pronto, agora que isso já aconteceu, semana que vem temos um compromisso. Talvez você precise comprar um vestido de gala para a ocasião”, falou.
“O que?”, ela disse depois de beber um pouco do suco de morango.
“Teremos um baile de arrecadação logo, o hospital precisa de doações para se manter. O conselho ainda gosta de usar o meu nome para conseguir um pouco mais e tenho que estar presente”, respondeu.
“Tipo um baile, baile, e essas coisas?”, ela riu um pouco.
“Sim, só que mais elegante. Por favor não me faça pedir”, olhou nos olhos dela e sabia que logo ela ficaria em silêncio.
Não foi ao seu baile do colégio, estava ocupado demais arrumando as suas coisas para vir para Nova York que sequer convidou uma garota, nem havia uma em especial para se interessar. Era uma experiência relativamente nova para ele, então, também. Poderia fazer como Derek e Addison quando a sobrinha de Richard Webber teve o baile no Seattle Grace
“Está bem, você ganhou dessa vez. Wanda Strange, você gostaria de ir ao baile comigo?”
“Passe para me pegar às oito”, ela respondeu rindo.
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