Angel of Light
3 Três
Notas iniciais
Stephen se perguntou por um bom tempo sobre o porquê de não ser chamado antes para ver a garota Maximoff. Ainda sentia a vibração da palma da mão dela na sua e as possibilidades para o futuro não eram boas. Viu o caos se instalando na Terra e viu que se não ajudasse, ela poderia mudar profundamente tudo aquilo que era conhecido. Talvez ela não tivesse sentido a vibração e o lampejo do que o mundo poderia ou não esperar dela.
Tomou chá e isso não fez com que a situação parecesse mais fácil. Steve Rogers tentava acalmar a todo o momento o que quer que ela estivesse sentindo assim como o tal Clint Barton o olhava com certa desconfiança.
“Bem, senhores, foi uma boa recepção. Espero que as suas malas já estejam prontas, srta. Maximoff, precisamos ir”, falou em um tom de certa pressão para que não se demorassem ali.
Viu a garota sair e não tardou muito para que voltasse com apenas uma bolsa de viagem. Franziu o cenho e deixou que ela se despedisse de todos que estavam ali. Steve Rogers a entregou um envelope pardo e não sabia o que aquilo poderia ser. Ganhou presentes de outros e logo a acompanhou para fora, indo em direção ao portal que ainda estava aberto e seguro.
Passaram por ele e logo se viu de volta ao Sanctum de Nova York com Wong o esperando com expressão de desaprovação.
“Você não devia ter deixado um portal aberto por tanto tempo, Stephen”, ele disse.
“Desculpe, Sia”, retrucou. Wong continuava sem lhe responder. “Ah, qual é, você deve saber quem é a Sia. I’m gonna swing from the chandelier, from the chanderlier. Ela sabe quem é a Sia, não sabe?”, olhou para Maximoff e ela também parecia não saber. “Francamente, vocês não ouvem música?”
“Quem é ela, Stephen?”
“Wong, esta é Wanda Maximoff, minha nova aprendiz. Wanda, este é Wong, bibliotecário do Kamar-Taj e meu amigo”. Viu Wanda assentir e não saber mais o que fazer. “Aqui, essas chaves são do seu quarto. Ele fica no corredor à direita, última porta à esquerda. Pode subir, depois encontro você”.
A garota foi subindo e Wong continuava lá, esperando uma explicação.
“Sua primeira aprendiz, você quis dizer”, Wong confrontou.
“Ela não precisa saber disso. Eles precisavam de mim, ela precisava de aprendizagem”, disse enquanto materializava um bule de chá e duas canecas.
“Você não faz nada sem que isso lhe dê alguma vantagem”, Wong continuou.
“Por que vocês sempre acham que eu tenho alguma intenção escondida? Isso me ofende tão profundamente, Wong”. Não disse nada e sabia que ele só voltaria para o Kamar-Taj depois de ouvir uma versão contundente do que ele mesmo pretendia. “Está bem, certo, que seja. Eu vi que poderia aprender com ela mesmo ela sendo tão diferente de mim. Diferente, mas igual a nós. Wanda Maximoff pode aprender aqui, contudo, eu posso aprender muito mais com ela”, se serviu do chá e o adoçou com mel.
“Cientificamente, você pensa? Que nem quando você era médico?”, o ouviu perguntar.
“Francamente, Wong, até você? Eu ainda sou médico, ainda tenho licença para clinicar e operar apesar de as minhas mãos não me deixarem. E sim, posso estudar Wanda, como as habilidades dela funcionam de verdade apesar de eu já ter visto algumas vezes na internet”, confessou. “Eu senti algo diferente quando toquei a mão dela quando nos cumprimentamos, uma vibração. Não tive um vislumbre completo, mas enxerguei algumas possibilidades do que viria a acontecer caso ela não tivesse controle do que pode fazer. Podemos dizer que eu precisava ajudar esta moça”.
“Tão altruísta, você, Stephen. Só espero que nada dê errado nessa sua nova invenção. Leve-a ao Kamar-Taj para iniciar os ensinamentos amanhã, lá será um lugar mais seguro para ela aprender o que ela é? Com certeza não é alguém com inclinação natural para a magia”.
“Aí você se engana, meu caro Sherlock. Wanda tem inclinação para as artes místicas. No que vi de vislumbre, algumas coisas desconexas passaram pela minha cabeça e vi um nome, Natalya Maximoff. Uma bruxa sokoviana extremamente talentosa, vi o progresso dela nos pergaminhos. Lá também dizia que ela havia fugido com um homem e foram viver na Sokovia, no interior do país. Nada acontece por acaso, Wong, entenda isso”, disse.
Viu Wong passar pela porta e depois ela se fechou. Terminou o seu chá e refez o processo agora levitando uma bandeja até o quarto que tinha destinado à garota. Subiu as escadas e andou até lá, a última porta à esquerda.
Viu a porta entreaberta e espiou pela fresta que ela estava sentada na cama, mexendo nas suas coisas e observando uma foto que parecia antiga. Murmurava algo pois via os lábios se mexendo, mas não conseguia ouvir nada. Bateu na porta e a viu surpresa por ter sido interrompida em seu momento tão íntimo, mais íntimo até do que se a tivesse pego nua ou algo assim.
[...]
Wanda olhava com carinho para a única foto que sobrou de quem era antes disso tudo acontecer. Era uma em que ela e Pietro não deviam ter mais que sete anos e sorriam para os pais. Era Natal e estavam na rua vendo as luzes piscando nas árvores. Ouviu uma batida na porta e saiu da sua bolha assustada com o contato.
“Posso entrar, srta. Maximoff?”, a voz de Stephen veio do outro lado da porta. Não queria vê-lo, não queria ver ninguém. Agora estava por si só e era difícil encarar isso sozinha mesmo sabendo que era para o seu bem.
Viu as estáticas vermelhas na sua mão e mirou na porta para abri-la.
“Wanda”.
“Como disse?”, ele perguntou.
“Wanda. Meu nome é Wanda. Todos me chamaram muito de Srta. Maximoff nos últimos tempos. Eles não foram exatamente gentis”, respondeu se lembrando do que aconteceu em RAFT e dos agentes que que lhe induziram a uma rajada de energia, a mesma que foi a sua sentença a uma camisa de força somada a uma coleira de choques.
“Para você é só Stephen, então. Você entende por que está aqui?”
“Para eu aprender a me controlar e não machucar mais as pessoas. Mas eu não posso controlar o que elas sentem, só o que eu sinto. Eu achei que só isso seria necessário, mas acho que não contaram a você o que houve com um dos irmãos de T’Challa, Jakarra”, lhe doía somente pensar no garoto e na falta de cuidado que tinha tido com ele.
Jakarra era o filho caçula do falecido Rei T’Chaka. Shuri era a filha do meio e T’Challa era o mais velho, o herdeiro. Jakarra tinha a sua idade e tinham ido passear perto de uma das cachoeiras que rodeavam a Grande Pantera. Um deslize que o garoto teve e ele quase perdeu a vida caindo no Fosso Sem Fim. Foi rápida o suficiente para pegá-lo e trazê-lo de volta, mas não sem serem atacados por uma pantera negra que conseguiu morder e ferir seriamente Jakarra. Até hoje ainda estava no hospital por causa de danos permanentes na musculatura da coxa. Se Wanda não quisesse conhecer as belezas naturais de Wakanda com o príncipe, nada disso teria acontecido.
“Certamente não me contaram, mas você pode me contar. Um dia, claro. Existe alguma pergunta que você queira fazer?”, sentiu a curiosidade dele ao lhe perguntar disso.
“Depois do que a HIDRA fez comigo, acho que posso acreditar em qualquer coisa que você tenha a me ensinar”, respondeu franca.
“Começaremos o nosso treinamento amanhã cedo, às oito. Vou leva-la para conhecer o Kamar-Taj, lá você pode ter acesso a tudo e mais. Agora descanse, durma. Medite se puder”, o viu deixar a bandeja com o chá finalmente no criado-mudo vazio. “Ah, isso é para você”, Stephen lhe entregou um cartão com algo escrito, lhe parecia ser Agamotto
“O que é isso? Um mantra ou algo do tipo?”, perguntou.
“Não, Agamotto foi o primeiro Mago Supremo da Terra. Essa é a senha do Wi-Fi, eu mandei instalar essa semana”, ele riu. “Boa Noite, Wanda”.
Stephen saiu do seu quarto com a capa lhe dando um ar místico. Se levantou, fechou a porta e correu até a sua bolsa para começar a desfazer as malas. Ficaria ali um bom tempo então não tinha sentido algum continuar com as suas coisas guardadas. Colocou todas suas roupas dentro da cômoda que ficava perto da porta e nem ocuparam todas as gavetas. Deixou um par de chinelos perto da cama e suas botas ao lado da cômoda. Seus itens de higiene ficaram no nécessaire preto meticulosamente arrumado com as suas maquiagens.
Tomou banho, escovou os dentes, colocou pijamas confortáveis e se cobriu com a manta quentinha que estava na cama. Olhou para o teto durante alguns minutos, pensando no que viria a seguir e de como tinha medo que Tony Stark descobrisse que estava em Nova York, lhe arrancasse do Sanctum Sanctorum e lhe devolvesse para a RAFT com direito a todos os apetrechos que estava familiarizada e mais. Imaginou que eles agora lhe colocariam uma venda e uma focinheira, deixando que lhe tratassem pior do que a um animal.
Fechou os olhos e repetiu mentalmente o que disse a si mesma enquanto atravessava o portal de Wakanda para lá. Eu não posso controlar o medo das pessoas, só o meu próprio medo, e é por isso que eu preciso aprender: para controlar o meu medo de machucar as pessoas.
Lembrou de Pietro e das brincadeiras que faziam quando eram crianças, sobre como brincavam com gravetos dizendo que eram mágicos e que salvariam o mundo das forças malignas e de extraterrestres invasores. Nunca imaginou que seria exatamente isso que faria um dia.
[...]
Observava em silêncio tudo o que acontecia. O homem estava no seu quarto mexendo naquele relógio estúpido e a garota estava se revirando na cama, inquietos os dois.
Há tempos não pregava peças assim e seria interessante bancar o cupido para eles, seria divertido. Ele possuindo a Joia do Tempo e ela tendo controle sobre a Joia da Mente, poderia conseguir mais do que qualquer outro jamais conseguiu. As crianças deles seriam as mais poderosas do universo, filhos da Feiticeira Escarlate e do Mago Supremo da Terra. Bom, futuro Mago Supremo da Terra com um empurrãozinho seu, obviamente. Os filhos que teriam seriam tão poderosos que seriam de grande valor para si, pensou.
Se reclinou na sua cadeira e continuou observando os dois pelo orbe de cristal e sorriu. A Joia do Espaço ainda lhe era importante, mas o Tempo lhe parecia bem mais atrativo. Poderia modificar todo o universo a seu bel-prazer se a tivesse em mãos, desejava-a tão avidamente.
Nova York parecia tão pequena com tanta gente diferente que não passava de mais um entre muitos. Bufou e levantou uma sobrancelha, chegando perto do lugar de onde observava tudo e tocou o orbe liberando uma faísca azulada que logo foi sentida pelos dois que agora dormiam.
“Que a nossa diversão comece agora”, falou rindo divertido.
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