Angel of Light
34 Trinta e Quatro
Notas iniciais
Era alta madrugada. Black estava dormindo aconchegado em Wanda e fazia pequenos ruídos, parecia que estava sonhando. Riu do cachorro, era realmente filho de Wanda. E o seu filho estava crescendo nela. Só um, não dois.
Era isso que a Anciã queria que soubesse, que o futuro era subjetivo, passível de mudanças? Desde que a levou ao médico se sentiu assim, como se toda a expectativa criada por um vislumbre do Olho de Agamotto tivesse sido quebrada quando viu os dois traços no palitinho. Havia uma pessoa para conversar isso, mas duvidava que ele estivesse acordado em plena madrugada.
Olhou novamente para Wanda e viu que ela dormia profundamente um sono sem sonhos, tomada pelo cansaço. Muitas coisas a estavam deixando inquieta e essa inquietude a deixava exausta. Na noite em que Rodrick Errol-Wing morreu, algo mudou dentro dela, só não sabia identificar o que poderia ser. Tampouco deveria entrar na cabeça dela agora, se mexesse na completa inconsciência da sua esposa as consequências poderiam ser catastróficas.
Se levantou da cama e notou logo olhar de soslaio de Black: ele parecia calmo e, com ele calmo, poderia executar o seu plano sem problemas. O cão dava indícios de que sabia o que faria.
“Eu vou a um lugar, não conte à sua mãe que eu saí. Prometo não demorar”, sussurrou ao animal. Black tornou a fechar os olhos escuros e agora descansava novamente.
O seu anel estava posto no criado-mudo junto do seu celular e o relógio que Wanda lhe deu no Natal. Pegou o celular e colocou no bolso do pijama, pôs o anel nos dedos e caminhou com cuidado até abrir a porta do quarto e fechá-la atrás de si. O que faria não poderia ser feito com Wanda no mesmo ambiente.
Flexionou um cotovelo e com o outro braço, girou os dedos nas mãos para abrir um portal. Precisava de um conselho, precisava do seu irmão.
O portal se abriu do mesmo modo como da última vez, no mesmo ponto, inclusive, e se fechou tão logo que passou por ele. As luzes da fazenda estavam acesas e isso significava que não acordaria Victor. Tinha lembranças boas daquele alpendre, mas as que ele beijava Wanda eram as melhores. Fez os seus passos até o pé da escada frontal e começou a subir, não demorando muito para que conseguisse ouvir os passos pesados nas tábuas frouxas dentro do imóvel.
A porta no alto passando o um metro e meio da varanda se abriu e revelou o seu irmão vestindo um pijama parecido com o seu. O rosto dele tinha um riso contido e uma garrafa de uísque era abraçada pelos dedos de Victor com dois copos na outra mão, isso fazia uma imagem diferente do que pensava do seu irmão mais novo.
“Achei que não me procuraria mais, garoto de Nova York”, Victor ergueu uma sobrancelha e se sentou nos degraus da escada. Se serviu um pouco do uísque e lhe ofereceu a garrafa para que fizesse o mesmo. “Você não vai se sentar?”
Se sentou e finalmente colocou dois dedos do líquido no seu copo. Havia um silêncio constrangedor entre eles, havia se afastado um pouco novamente, desde o ocorrido no Natal com os fogos de artifício e as meninas. Isso e o hospital.
“Me desculpe por não ter aparecido nos últimos meses, houveram complicações e eu não queria que vocês fizessem parte disso”, foi a única coisa que pensou e foi a mais sincera também.
“Sabe, quando o seu irmão mais velho faz parte de um culto, é de se esperar que talvez possa acontecer alguma coisa com ele. Da próxima vez eu quero que você me ligue para dizer se está tudo bem com você, se você está vivo. A Wanda avisar que está viva também está valendo”, ele finalizou bebendo um pouco do uísque.
“Desde quando você é o mais responsável aqui?”, riu.
“Desde que eu tenho mais filhos que você”, ele entrou na sua.
“Como estão as meninas? Elas precisam de alguma coisa?”, perguntou para fugir do tópico central da sua visita.
“Elas estão bem, perguntam pela Wanda o tempo todo e estamos vendo a possibilidade de levarmos as duas para conhecerem Nova York nas férias de verão. Elas também perguntam sobre você, sobre o que você faz na cidade grande como a Donna diz. Seria um dia e tanto se elas resolvessem chamar você para o Dia das Profissões na escola”. Gostou de saber do apreço das pequenas por ele e por Wanda, era tão reconfortante ser genuinamente querido. “Mas não foi por isso que você veio aqui. O que aconteceu para você voltar para casa no meio da noite e durante a semana?”
“Eu estou na metade do caminho para alcançar você”, disse vago. Olhou para o rosto do irmão e o viu confuso. “Amy e Donna vão ganhar um primo ou uma prima”, sorriu de canto enquanto tirava o peso dessas palavras do peito.
“Nossa! Ah, meus parabéns! Eu só não fazia ideia de que vocês estavam tentando, sabe? Isso é uma notícia muito, muito boa”, Victor largou o copo de uísque no degrau da escada e o abraçou calorosamente pelos ombros. Até retribuiu, mas ainda estava bastante confuso sobre o seu sonho e essa situação. “Cadê a sua empolgação, homem? Você será pai daqui a alguns meses!”, ele vibrou.
“Eu tenho medo que algo dê errado, eu tenho uma sensação estranha no peito o tempo todo, uma agonia que eu não sei de onde vem”, confessou e engoliu o resto do uísque no seu copo para se servir de mais.
“Eu não posso fazer nada sobre esse seu sentimento e posso garantir que ele não vai embora tão cedo”, Victor era pai e parecia saber do que sentia, mas somente uma parte disso. “Eu não sei com o que você mexe e tenho medo de perguntar, mas tente não levar tão à sério isso. Tente não sentir isso, elas farejam o medo”.
“Como?”, pigarreou enquanto se servia de mais uísque.
“Você está com medo, você mesmo disse. É fácil ver os outros construindo famílias e isso dando certo, mas quando chega na nossa vez é difícil. Você tem medo de não conseguir, eu acho”.
Tinha medo de abrir o jogo e dizer que tinha visto o seu futuro, mas que agora poderia ignorá-lo já que o tempo muda. Tinha medo de que nada do que planejava agora fosse se concretizar e tinha medo de frustrar Wanda por pensar assim. Estava confuso e isso parecia uma boa palavra para definir como se sentia.
“Eu não sei o que você está pensando, mas viva isso, curta isso, depois você vai sentir saudades desse medo bobo de finalmente ter a sua família. Seja quem Wanda precisa que você seja: um marido, um companheiro, um amante... e agora um pai, o pai do filho ou filha de vocês, alguém que vai trilhar esse caminho junto dela errando e acertando. Em suma, você não pode ter medo, ela precisa de você não importa o que você pense”.
“Você se sentiu assim quando Glenda engravidou de Amy?”, perguntou.
“Eu raspei a cabeça, bebi todas no bar do Earl e acordei pelado perto do lago, com uma insolação medonha e um lagarto me cutucando. Digamos que eu surtei”, ele riu. “Hoje eu rio disso, mas foi terrível saber Glenda e eu seríamos pais tão cedo. Eu estava na faculdade ainda, ela também... foi complicado”, Victor suspirou.
“Mas vocês tiram de letra!”.
“Nem todos os dias são bons, mas você aprende a lidar com eles. Você precisa aprender a lidar, Stephen, e precisa estar lá para Wanda”.
Quando não podia abrir o jogo, as respostas nem sempre vinham do jeito como esperava que viessem. Teria esperado um pouco de objetividade de Victor, mas ele sabia o que dizia e o modo como dizia deveria lhe esclarecer. Contudo, entendeu a mensagem principal que ele quis lhe passar: precisava andar ao lado de Wanda, não atrás ou muito à frente.
[...]
A faxina, como de costume, estava levando mais tempo que imaginava. Também não pensava que contariam com ajuda extra dessa vez, Danny estava fazendo um excelente trabalho para quem não levava o mínimo jeito para tarefas domésticas.
Já havia tirado o pó das prateleiras altas, sempre com cuidado para não escorregar. Não poderia escorregar ou se colocar nessas situações, era o seu pequeno milagre crescendo na sua barriga, não poderia colocá-lo ou coloca-la em risco. Já havia passado o aspirado de pó na escada e agora estava terminando de espanar os livros de feitiços de todas as culturas.
Observou Danny descer da escada para recolocar os livros de volta no lugar e ele não parecia mais o mesmo de quando chegou no Sanctum há semanas atrás. Havia notado que todas as noites ele saía escondido e sempre voltava com um machucado novo no rosto, só esperava que ele não estivesse se metendo nas lutas clandestinas que sabia que existiam. Se elas existiam em Sokovia, por que não existiriam em Nova York, a cidade que nunca dormia?
“Você dormiu bem à noite? Parece cansado”, atiçou levemente.
“Um pouco, ainda não me acostumei com o colchão do quarto. É confortável demais”, Danny se justificou assumindo um tom rosado no rosto. Ele era um garoto, não muito mais velho que ela mesma.
“Se você vai continuar fazendo o que está fazendo, precisa dizer aonde vai todas as noites porque não é comum um hóspede como você aparecer com dinheiro para tomar café da manhã com Stepfán”, insinuou.
“Enquanto eu não consigo provar quem eu sou, eu preciso de alguma fonte de renda. Ninguém em Nova York vai com a minha cara e eu já cansei do papo do Stephen de que eu tenho de me arrumar. As pessoas aqui só ligam para as aparências, é irritante”, o agora amigo se justificou.
“Como ficou essa sua história de ter que provar que é Danny Rand?”, perguntou curiosa.
Sabia que Danny era quem era, tinha tido a permissão dele para sentir o que ele sentia, mas era a sua palavra contra a dos outros sobre ele ser o herdeiro da Rand Enterprises. Em uma cidade como Nova York, ele ser confundido com um mendigo era o menor dos problemas dele.
“Aquilo mudou, prosperou. Os Meachum conseguiram fazer com que a Rand crescesse ainda mais”, Danny disse desconfortável. “Eu consegui burlar a segurança do prédio e subi até o andar que ficam os escritórios da direção. Eu vi o Ward e eu vi a Joy, eles não deram a mínima para mim. Me disseram que o pai deles morreu de câncer, como se a gente já não tivesse pesquisado isso. Tudo só fica pior a cada minuto com isso”.
Danny não conseguia provar quem era, mas sabia que ele era dotado de grande compaixão se soubesse acioná-la corretamente. Ele era vaidoso, não muito diferente de Stephen, mas isso não era um problema até o momento.
Tinha ajudado Danny com a internet rápida no dia seguinte à chegada dele no Sanctum. Ele pediu para que procurasse por Danny Rand e viu notícias no Bulletin sobre o acidente de avião que matou os pais dele. Assim como si própria, Danny tinha pesadelos daquele dia do mesmo modo como tinha pesadelos com Sokovia e os bombardeios sérvios com armamento das Indústrias Stark.
O nome Meachum tinha badalado um sino na sua cabeça, conheceu os irmãos no baile beneficente do Metro-General quando foi com Stephen. Não havia gostado dos dois e agora que sabia que eles tinham tomado conta de tudo que era de Danny, gostava muito menos. Sentia que a ligação dele com eles era muito forte, então tudo se desmoronando para ele era difícil de lidar.
“Amanhã é sexta-feira, o que você faz às sextas? Confesso que você tem dormido tanto que nem consegui acompanhar um pouco da rotina do lugar”, Danny desconversou.
“Eu geralmente fico aqui, procuro sair o menos possível, mas amanhã será um dia atribulado. Preciso ir ao médico ver se está tudo bem com o bebê e tenho uma reunião com o meu advogado depois do almoço”, respondeu simples.
“Eu achei que fosse alguma conversa do Dr. Strange para me irritar, mas você realmente está grávida?”, ele perguntou sem jeito.
Riu um pouco e assentiu. “Seis semanas, mas se preferir: um mês e meio. É tudo tão diferente, eu não sinto quase nada ainda. Fora os enjoos, o sono e essa sensibilidade estranha na visão, estou normal. Por que você achou que fosse invenção do Stephen?”, riu novamente.
“Porque ele me mandou ficar longe dos livros dele, das relíquias dele e da esposa dele, enfatizando essa última parte. Obrigado por ser tão gentil comigo, Wanda, Nova York não tem sido exatamente hospitaleira”, Danny tocou a sua mão e lhe ofereceu o melhor sorriso que poderia dar naquela hora.
Ao tocar na mão dele, pôde sentir um pedaço do que ele estava sentindo. Havia arrependimento, medo, desespero, tudo isso contrastando com a falsa calma e serenidade que ele exalava quando meditava.
Havia notado que Stephen não estava na cama algumas noites atrás em um dos momentos em que acordou durante a noite. Black não havia se mexido, então pensou que ele só estivesse no banheiro ou algo assim. Quando acordou na manhã seguinte, havia uma caneca de chá lhe aguardando no criado-mudo, quente, e Stephen estava sentado na beira da cama observando o seu sono. Ele tinha sorrido tão bonito que não se preocupou com o sentimento de confusão e cansaço dele.
Stephen tinha tocado a sua barriga por cima do cobertor e o abaixou, depois levantou a sua blusa de dormir e tocou a pele do seu abdome levemente antes de descer para o baixo ventre. Oi, você aí, eu sou o seu pai e eu vou cuidar de você, ele tinha dito. Foi isso que mudou e fez tudo mudar. Agora estava segura e se sentia em segurança com ele finalmente podendo aproveitar esses momentos com eles.
Olhou para baixo e viu nada, ainda estava lisa e reta e não via a hora de poder ver o seu filho ou filha com Stephen.
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