Notas iniciais
Demoray, mas chegay, monamús!!!! Gentes, meu papain estava hospitalizado, precisou passar por uma cirurgia, mas já se recupera bem, por isso a minha ausência durante esse tempo todo, eu que estou tomando conta desse jovem senhor que já está até carregando o nosso doguinho mesmo sob ordens médicas de não fazer esforço algum :v Em minha defesa, esse capítulo já estava pronto, eu só não estava conseguido postar XD Agradecimentos a Lidia Albano e Tharine Lillena Veiga pelos comentários no capítulo anterior ♥ Sem mais delongas, aproveitem esse presentão de Natal adiantado com esse super crossover com Burn Around Me!

Stephen coçou a barba do quase cavanhaque, estava prestes a fazer algo que poderia mudar as suas próprias concepções sobre o continuum espaço-tempo, fora que isso parecia uma coisa bem estúpida a se fazer. Passou os dedos trêmulos mais uma vez pelo pergaminho antigo e escrito em inglês antigo, conferiu e assumiu que o ritual não precisava de nenhuma modificação.

Camomila. Velas azuis. Ópio. Tigela de casca de coco seco. Fios de cabelo da pessoa envolvida. Lhe parecia ser uma receita para combinar o mau ao grotesco.

Entrou na dispensa da cozinha do Sanctum e se sentou no chão. Conjurou sete velas azuis com as mãos mais trêmulas que o normal e as levitou para que ficassem perfeitamente encaixadas ao seu redor. Conjurou uma tigela de coco seco, pegou na prateleira de baixo um pouco de camomila que estava guardando para os chás e conseguiu uma ampola de Tramal no carrinho de emergência do hospital, teria que servir. Misturou todos os ingredientes na vasilha, acendeu os pavios azuis nas velas, riscou um fósforo e pegou um tufo de cabelos de Wanda que estava na escova de cabelos ao seu lado. Jogou o tufo com os outros ingredientes e viu aquilo tudo queimar, mas para dar certo, precisaria consumir inclusive a tigela. Observou a chama formada após a primeira explosão azul brilhante se apagar e as chamas das velas se apagaram uma a uma até estar completamente no escuro. Existiam maneiras mais protegidas de adentrar o Limbo dos Sonhos, mas eles requeriam certo nível de consciência, então esse feitiço poderia ser uma saída de emergência.

“Da luz às trevas, da calma ao caos, espero conseguir encontrar sonhos bons ou sonhos maus”, disse as palavras que havia decorado do pergaminho. Nada muito animador, continuava no escuro completo. “Da luz às trevas, da calma ao caso, espero conseguir encontrar sonhos bons ou sonhos maus”, repetiu.

Uma chama azulada voltou a surgir, ela se alastrou por onde estava e começou a consumir todo o piso para depois subir e queimar as prateleiras e o forro de madeira, mas em nenhum momento sentiu o calor que deveria provir das chamas. Estava acontecendo. E então elas pararam finalmente.

Ouviu a porta da dispensa se abrir lentamente como em filme de terror. Era madrugada, se recordou, e se lembrou da primeira vez que isso aconteceu, logo quando Wanda chegou para ser sua aprendiz no Sanctum. Verificou no seu bolso e sentiu o seu anel de acesso ali. Wanda ficaria com muita raiva se um dia descobrisse, mas precisava saber o que estava acontecendo com eles no Sanctum. Se levantou e andou lentamente até aporta semiaberta à sua frente. Tocou a maçaneta antiga e a sentiu gelada, respirou fundo e saiu; ao passo que colocou os pés para fora do cubículo que guardava as suas comidas e panelas, percebia como tudo por ali já não era mais o mesmo. Não mais estava na sua cozinha onde passavam mais tempo do que nos outros cômodos.

Conhecia esse corredor de portas vermelhas e cristaleiras antigas com itens que faziam parte do passado da sua Wanda, já havia estado lá muitas vezes e acessá-lo era mais fácil quando a pessoa estava ciente do que estava acontecendo. Antes havia imaginado que estava em maus lençóis, mas agora tinha plena certeza dos problemas que isso poderia acarretar.

Engoliu a seco e seguiu o seu caminho. O corredor parecia mais escuro e mais comprido agora. Havia um candelabro com velas curtas pousado em um aparador de madeira entre duas fotografias de família. Tocou a peça antiga e sentiu a fuligem que encobria o metal. Na fotografia à esquerda estava a família dela, a família sokoviana e um casal que pensou ser os pais dela e de Pietro Maximoff; já a fotografia à direita, estava ela com os Vingadores, inclusive aqueles que não eram Vingadores verdadeiros como o Scott Lang e o irresponsável do Danny Rand. Ao subir um pouco mais as chamas das velas parcialmente consumidas até ver a base de uma moldura na parece, então subiu a luz mais um pouco e a viu ali, ao lado dele em um quadro na parede, como na fotografia que haviam tirado juntos depois do casamento em Las Vegas. Bom, o seu ego se elevou com isso, era prova de que de fato era maior do que qualquer pretendente que ela tivesse tido.

O papel de parede disposto, vermelho escuro e aveludado na maioria das vezes, começava a descascar e sentia o cheiro de fumaça. Um corredor arruinado poderia significar que ali estava uma mente arruinada. Mas isso não era por conta da depressão e estresse pós-traumático que ela sofria, o corredor nunca antes havia estado assim apesar das condições de Wanda. Definitivamente, isso era causado por um fator externo e nem precisava ser muito inteligente para saber disso. Um mal-estar se formou no seu estômago, estava conseguindo imaginar isso muito mais rápido do que pensou, então já poderia supor que era uma influência externa extremamente poderosa pois conseguiu driblar o caos interior de Wanda com facilidade, inclusive. Não era um bom momento para se desesperar, só que estava ficando ligeiramente desesperado. Engoliu a seco e seguiu o seu caminho.

“Ding, dong, a bruxa está morta...”, ouviu um sussurro no escuro.

Estava no Limbo dos Sonhos, esse tipo de coisa acontecia por lá, precisava se lembrar disso, talvez fossem os psicopompos e essas coisas do Além que lá habitavam.

“Qual bruxa?”, ouviu de novo e dessa vez reconheceu como uma voz melodiosa que ouviu na mente de Wanda após o incidente anterior, o que desencadeou as suas desconfianças.

“A bruxa estranha”, quando as chamas das velas no candelabro se apagaram, se recordou de que música era essa. Oz não era muito a sua praia quando era criança. Sentiu um vento gélido passar pela sua pessoa, então a única luz do ambiente se tornou a fresta iluminada de uma porta alguns metros à frente.

“Se eu morrer no limbo da Wanda, ela vai obliterar o meu espírito, eu não duvido de mais nada depois do Rodrick”, respirou fundo e andou lentamente seguindo a luz.

Tocou a porta e sentia que era nova devido o aspecto limpo nos seus dedos. Uma lembrança nova? Talvez fosse uma porta que já pertencesse ao filho deles já que ele era algo novo na vida deles. Ao abrir com cautela, percebeu a luz forte dentro e notou como a porta tinha uma cor esbranquiçada, não avermelhada como todas as portas do corredor. Não sabia de onde vinha a luz dentro daquele cômodo, mas sabia que era algo surreal quando viu um corredor de espelhos dentro da porta branca. Não era como a dimensão espelhada, era um corredor literalmente feito de espelhos por todos os quatro lados e, assim como o de Wanda, era extenso.

Estava começando a se arrepender de ter feito o que fez com o Olho de Agamotto. Um arrependimento que veio tarde demais e continuava concordando que os avisos deveriam vir antes dos rituais começarem.

Tocou o espelho ao seu lado e se sentiu entrando por ele como se fosse água, mas uma água que não o molhava já que quando tirava a sua mão, ela retornava seca. Brincou com esse efeito enquanto caminhava pelo corredor espelhado. Não sabia o que era isso, mas era diferente de Wanda, sabia bem. Um corredor com portas significa memórias que uma pessoa fazia questão de não deixar tão aparentes assim, mas um corredor espelhado significava que uma pessoa se via o tempo inteiro nas suas próprias memórias e não as temia. Parou ao conseguir enxergar por dentre uma fresta de uma memória. Se poderia colocar uma mão, poderia se colocar dentro dessa lembrança.

“O que você esconde, Wanda?”, se perguntou sentindo entrar no espelho tal como acontecia no portal entre o Sanctum e o Kamar-Taj.

Era um quarto. O cheiro de mofo que aquele lugar tinha era intenso e se imaginava se quem morasse ali tinha uma saúde muito boa para não se deixar afetar tanto por aquilo. Havia uma toalha de banho molhada e uma das camas e um colchão desarrumado no chão. Nas paredes haviam pôsteres de bandas do leste europeu, algumas fotos presas com fita adesiva transparente, roupas amontoadas em cadeiras... pela janela, observou o queria uma vista de Starigrado, Sokovia. Parecia ser o quarto de Wanda no orfanato que ela havia ficado até a maioridade com irmão, se lembrava disso quando conversaram uma vez na casa de Victor. As coisas estavam ficando muito interessantes a partir de agora.

Tocou um porta-retratos na mesinha de cabeceira ao lado da outra cama. Reconheceu Wanda, reconheceu Pietro Maximoff de um dos arquivos disponibilizados para consulta pública após a queda da cidade em Sokovia. A outra garota... não sabia o que pensar direito, mas era certo que estava assustado com a tamanha semelhança que ela possuía com os gêmeos. Se duvidasse, em uma outra vida poderia ter sido uma aparentada deles.

Rodou os olhos por entre as paredes e quarta, a que havia usado para entrar, estava mostrando uma garota. Os olhos tinham a mesma cor dos de Pietro e sabia que os dele eram diferentes dos de Wanda, que possuía um tom cinzento único capaz de confundir entre os tons de verde e azul. Olhou para a foto na mesa e olhou para a garota. Mais uma vez naquela noite, estava prestes a fazer uma coisa bem maluca.

Andou até a parede e passou a sua mão pelo espelho até alcançar a garota do outro lado. Agarrou o braço dela e a puxou para dentro. Ouviu o gemido reclamador parecido com o de Wanda e notou que ela desviou o olhar para que não visse o seu rosto ou para não encarar quem quer que estivesse se metendo ali. Aos poucos, depois de passado um momento de susto, ela pareceu reconhecer alguma coisa ali pelo modo como pigarreou.

“O que faz aqui, garota? Qual o seu nome?”, perguntou a ela e recebeu um olhar estranho em troca. Não entendia como, mas essa garota... era parecida demais com Wanda para que ignorasse a existência exata dela nesse plano que estavam. “Qual o seu nome?”

“Luna, mas... O que o senhor faz aqui, doutor?”, ela o conhecia?

“Sobrenome?”, preferiu se garantir.

“Maximoff”, a garota respondera com certa apatia.

Encarou-a por alguns instantes, tinha curiosidade sobre quem ela poderia dizer ser. A garota que se apresentou como Luna o estava fazendo ficar incrivelmente confuso e percebia que ela estava ficando aborrecida pelo modo como começou a se afastar, então movimentou os seus dedos e algumas faíscas alaranjadas se formaram para segurá-la.

“Maximoff. Eu não vou te machucar, está bem? Só quero conversar. Você pode fazer isso, pode conversar comigo?”

A ouviu respirar fundo e, hesitantemente, assentiu, fazendo parecer que declinar esse pedido fosse uma hipótese a ser considerada. “O que o senhor faz aqui, doutor? Quer dizer...”

“Eu faço as perguntas primeiro”, interrompeu a garota. “Disse que seu sobrenome é Maximoff, não é? Quem é sua família?”, perguntou desconfiado, meio que já imaginava a resposta.

“Sou irmã da Wanda e do Pietro, que é falecido, mas.... O senhor já sabe disso”, ela riu um pouco.

“Irmã?”, perguntou tentando não soar tão incrédulo quanto estava.

“Wanda e Pietro são gêmeos, eu sou mais nova do que eles.... nossos pais morreram quando eu era bem pequena e depois disso moramos em Sokovia com nossos tios, Django e Marya”, ela contou. “Tia Marya devia estar fazendo café quando passei naquele corredor de espelhos”.

“Corredor de espelhos?”, engoliu a seco.

“É... Mas que lugar é esse?”.

“É chamado de Limbo dos Sonhos. Tem pedaços das suas memórias passando por todos os lados, sem que você note. Os seus sonhos vêm daqui, na verdade. Mistura de memórias antigas e recentes”, explicou tal como havia aprendido nos pergaminhos.

“Então... eu estou sonhando?”.

“Está, mas eu não, antes que pergunte de novo, estou nos sonhos da Wanda por.... razões pessoais”, deu de ombros.

“Você quase nunca a chama pelo primeiro nome”, notou como ela franziu as sobrancelhas, estranhando chamar Wanda, a sua própria esposa, pelo nome. “E nem entraria na cabeça dela por.... o que está fazendo aqui?”, ela perguntou, encarando-o num misto de seriedade e confusão. “Mas.... é estranho”.

“O quê?”.

“Eu conheço você, mas ao mesmo tempo.... não faço ideia de quem o senhor seja”, ela falou e não pode fazer nada além de comparar ao momento em que Wanda disse que não era o Stephen dela, noites atrás. O que estava acontecendo?

“Sou o Doutor Stephen Strange, Mestre das Artes Místicas e Guardião do Sanctum de Nova York”, disse, fez uma pequena pausa e a encarou. “Sou casado com Wanda Maximoff”, tentou se fazer entender.

A garota o encarou. “O quê?”.

“Ela veio morar no Sanctum para ser minha aprendiz e... nos envolvemos romanticamente”, disse a verdade.

“Por quê?”.

“Por que o quê?”.

“Por que ela foi morar no Sanctum?”.

“Por não controlar bem suas habilidades”, observou a expressão corporal da garota, tanto ele quanto ela não estavam conseguindo se entender. “Eu vou ser honesto com você... estava aqui porque queria provar um ponto. De que mexer com o Olho de Agamotto do modo que eu fiz não traria danos colaterais, mas... eu estava errado, de novo”, admitiu o seu erro pela segunda vez em poucos minutos, um progresso e tanto.

Ela permaneceu em silêncio por alguns momentos. “Desculpe, eu não entendi muito bem”.

“Não importa. O que importa agora, senhorita Maximoff é que isso não pode acontecer”.

“Isso o quê?”.

“Estarmos aqui. Vou provar para você mais um ponto por mais que isso possa doer bastante em você. A Wanda nunca teve uma irmã, porque ela e o Pietro foram colocados num orfanato logo após a morte dos pais”, disse seco e viu quando ela cambaleou um pouco para trás. “Consegue entender, senhorita?”.

“Você está mentindo...”, a incredulidade, mais uma vez, dava as caras nesse momento.

“Não. E nem você está. Porque é verdade, são duas verdades”, comentou. “Essa é a beleza do multiverso, senhorita. Mas isso...”, movimentou o dedo indicador na sua direção e na dela, sinalizando esse pequeno encontro. “Não pode acontecer, não deve”.

A garota chamada Luna respirou fundo e tocou a cabeça, massageando as têmporas, coisa que Wanda também fazia às vezes quando estava confusa demais ou cansada demais. “Não devia ter engolido o analgésico a seco...”, riu de lado por um momento, estavam tão, tão ferrados... os dois, nas duas linhas de tempo que habitavam. Observou-a e ela não parecia ter mais que vinte anos, uma idade bem similar à de Wanda senão igual. Realmente, era a beleza do multiverso. “Doutor...se disse que isso não pode acontecer... então por que está acontecendo?”

“Tem algo utilizando esse caminho, e o deixando aberto toda vez que o faz”, comentou, olhando ao redor brevemente, sentindo o papel de parede do quarto descascar enquanto conversavam. Isso não era bom... “Tem um artefato no Sanctum, eu preciso que você o destrua porque é ele quem mantém a passagem aberta”.

“Qual artefato?”, a garota perguntou.

“É...”, ouviu o grito dela quando se viu engolido por uma névoa escura que aos poucos se revelou ser um tom bastante escuro de vermelho.

Acordou assustado e gritando, sentindo algumas coisas caindo em si ao se debater entre as prateleiras da despensa. Não estava na sua cama. Abriu os olhos ofegante e viu Wanda na sua frente, numa feição que se encontravam misturados preocupação e raiva.

“Aonde você foi?”, ela perguntou. “Eu pensei que você tivesse morrido!”.

“Eu...”.

“Você... você me assustou! Eu acordei e você não estava na cama, aí eu desço e vejo você desmaiado na despensa ao redor de velas azuis, que tipo de ritual você fez?”, o olhar censurador dela o penetrou, mas não podia se trair a ponto de revelar de forma tão irresponsável as suas suspeitas confirmadas de que havia, de fato, feito uma coisa muito errada com o Olho de Agamotto.

Wanda lhe ajudou a levantar e sentiu tudo girando ao seu redor, assim como o mal-estar formado enquanto estava longe também continuava presente no seu corpo. Wong estava atrás dela com uma carranca de quem sabia o que havia feito e protegido o seu segredo para poder gritar com ele à vontade depois.

Por fim, havia funcionado. E agora precisava desfazer o que havia feito, começando pela rede de cabelos.

Notas finais
Me deixem saber se gostaram ♥