Angel of Light
5 Cinco
Notas iniciais
Wong gostava de chocolate. E foi justamente o aroma que sentiu quando entrou no Sanctum de Nova York. Aroma de bolo de chocolate fresco, assando no forno. Não sabia que Stephen sabia cozinhar estranhou. Andou devagar até a cozinha no piso térreo e viu Wanda Maximoff cozinhando. Pensou muito se deveria ou não entrar lá. Olhou por cima do ombro e nem sinal de Stephen. Ah, como ansiou pela tigela que estava em cima da pia, adorava o contato infantil de raspar as sobras do bolo. Parecia que ela agora estava fazendo a cobertura. Entrou devagar e antes que pudesse dar mais um passo, foi notado.
“Você sabia que eu tenho uma percepção extra-sensorial elevada, mestre Wong?”, ouviu a garota dizer.
“Peço perdão, Maximoff. Mas senti o cheiro do bolo e fui trazido para cá, foi como magia”, se explicou.
“Eu não sabia como agradecer a ajuda que vocês me ofereceram. Steve pediu para o Thor pedir, mas vocês aceitaram. Eu era muito nova quando a minha família morreu, mas a minha mãe sempre disse que bolo de chocolate é sempre um bom agradecimento”, ouviu Wanda dizer enquanto ainda mexia uma colher de madeira em uma panela. “Fiz a mesma coisa para Steve e Sam quando me senti melhor na sede dos Novos Vingadores”.
“Sábia mulher a sua mãe, Natalya”, Wong conseguiu dar com a língua nos dentes.
“Como sabe que minha mãe se chamava Natalya?”
“Há coisas sobre você na internet. Eu estava lendo as notícias enquanto ouvia a minha playlist motivacional noturna quando li sobre o acontecido em Lagos, Nigéria. Me pareceu bastante tendencioso citarem os seus pais, Natalya e Erik Maximoff, não?”, tentou contornar, mas achou que ela não se deu por vencida. “Não acredito que você seja perigosa, só acredito que não teve tempo de controlar o que aconteceu com você”.
“Talvez”, Wanda respondeu. “Stephen vai demorar? Esse bolo é para ele também”. Wanda tirou um bolo em forma circular do forno, desenformando-o em um prato. “Eu estava apenas esperando a cobertura ficar pronta para poder desenformar. Acha que o mestre Strange gosta de chocolate?”
“Não tenho muita certeza se ele gosta de doces, mas eu como a parte dele, sem problemas. Eu tinha vindo chamar você para comermos no Kamar-Taj, Kippur faz algumas coisas sokovianas, ele meditou muitos anos nos altos montes da Sokovia, no norte do país. Então, vamos?”
“Eu também tinha feito o jantar”, ela falou sem graça.
Já passavam das nove da noite e Stephen não estava no Sanctum nem no Kamar-Taj, então não sabia aonde ele poderia ter se metido. Também já tinha passado da hora do jantar, mas viu que Wanda tinha passado o dia na biblioteca estudando astronomia. Esperou mais alguns minutos e se passou uma hora. Às dez e nada de Stephen Strange.
“Acho que vou comer com você. A minha mãe dizia que eu só podia comer a sobremesa se jantasse, o que temos para jantar?”
“Frango ao molho paprikash. É a única coisa que sei fazer”.
“Você ficou órfã muito cedo, então?”, perguntou.
“Aos dez anos. O prédio que eu vivia com a minha família foi bombardeado. Meus pais morreram na hora, mas Pietro e eu ficamos presos nos escombros junto com uma bomba por dois dias. A qualquer momento aquilo ia detonar”, percebeu Wanda tensa, logo as janelas da cozinha se abriram sozinhas e se fecharam batendo nas cortinas.
“Pelo que Stephen disse, aqueles Vingadores são como se fossem uma família para você. Inclusive os filhos do Gavião Arqueiro. No Kamar-Taj também somos uma família, Wanda, sabe que pode contar conosco para o que precisar”.
Se serviu, comeu, ouviu Wanda contar mais um pouco de como foi depois que os pais faleceram. Ela parecia tão fragilizada, então não podia esperar mais sobre ela não conseguir controlar o que sabia fazer. Os anos nas ruas a deixaram dura, outrora teria sido uma adulta completamente diferente.
E nada de Stephen.
Wanda serviu uma fatia generosa do bolo de chocolate para ele e uma para si, assim comeram depois de tudo e os pratos se lavaram sozinhos já que eram o aparelho de cozinha de Madame Freinet, mas não contaria a ela. Ela sabia fazer um bolo bom, macio e não afirmava isso só por ela ser mulher. Bolos de chocolate são mágicos. Mais mágicos que a própria magia. A ouviu se despedir e subir para o seu quarto e esperaria Stephen chegar.
Já passava das onze e meia quando ele passou pela porta da frente do Sanctum. Vestia um smoking preto e os cabelos estavam penteados meticulosamente. Sorria como poucas vezes o viu sorrindo. Se bem que, achava que o tinha visto sorrir pouco. Demorou um pouco até que ele se desse conta de que estava sendo aguardado.
“Boa noite, Stephen”, disse.
“Fergie, boa noite”, ele respondeu. Estava sóbrio, mas com cara de quem já tinha tomado um gole e outros de álcool. Achava que Stephen mexia no seu iPod para saber tudo o que tocava nele. Permaneceria inabalável. “Aonde foi? Deixou o Sanctum sozinho por mais de seis horas”.
“Saí com Christine Palmer. Acho que estamos finalmente nos entendendo”, ele passou a mão nos cabelos. “Fomos a um jantar do Metro-General juntos mesmo eu achando que aquilo é o fim de linha para mim. Mas não se preocupe, Wanda estava aqui”.
“Wanda Maximoff começou a treinar hoje, isso porque ela ainda está na parte teórica. Ela cozinhou em agradecimento. Não parava de olhar no relógio para ver se você já estaria chegando. Trate-a com mais respeito, Stephen, tenho certeza de que ela terá um papel importante na sua vida”.
Se recolheu de volta para a biblioteca e deixou a dúvida pairando no ar sobre a cabeça de Stephen Strange. Abriu o computador e escolheu as músicas que ouviria na Jam Session da semana. Fergalicious o fez lembrar do bolo de chocolate de Wanda, então colocou na sua playlist.
Bocejando, Wong desligou tudo e decidiu por tirar um primeiro cochilo ali mesmo, sentia que sempre estava sendo observado no seu quarto.
[...]
Stephen passou um dedo discretamente na calda de chocolate que cobria um bolo do mesmo sabor. Wanda havia feito aquilo para eles, mas preferia acreditar que havia sido para ele. Uma bela lembrança dos tempos que era mimado por todas as mulheres da sua equipe. A noite havia sido excelente, Christine ainda era uma excelente companhia e sentia que dali poderiam seguir pela vida toda. Se sentou na cadeira perto da porta e encarou o bolo de chocolate. Com uma faca conjurada, cortou uma fatia para si e levitou em um prato até onde estava.
Não era católico, mas votava a favor da canonização de Wanda Maximoff como Nossa Senhora dos Bolos de Chocolate.
Começou a se sentir terrível. Não fisicamente, mas o eu seu eu íntimo sentiu um pouco de culpa por ter deixado a garota sozinha para sair com Christine. Não podia ser babá em tempo integral e ela estava segura ali, os encantamentos não deixariam que nada de mal acontecesse.
Repetiu a fatia de bolo e finalmente se sentiu cheio para poder dormir. Saiu da cozinha e subiu em direção ao seu quarto, que era perto do de Wanda para que estivesse perto se acontecesse alguma coisa. Quando passou pela porta dela, ouviu um clique, como se ela estivesse destrancando. Dois passos depois ouviu um leve ranger de porta se abrindo. Se virou de modo dramático e viu a porta entreaberta e se abrindo mais ainda. Isso deveria dizer alguma coisa. Se aproximou com calma forçada e notou as luzes dos abajures do quarto piscando de forma desordenada.
Wanda se remexia na cama, mas não estava deitada nela, estava... flutuando, suspensa no ar a poucos centímetros do colchão. Quando chegou mais perto e tocou o ombro de Wanda, o corpo dela despencou na cama. Ao tocar, teve apenas um pequeno vislumbre do que ela poderia estar sonhando.
Para mim chega!
Viu uma cena rápida de Wanda ajoelhada no chão, com as mãos na cabeça e cotovelos apoiados nos joelhos. Alguma coisa a tinha desestruturado completamente e a fez entrar em estado de frenesi tão intenso. Respirou ofegante depois que percebeu que aquela era e não era Wanda. Ela parecia diferente, mais velha, vestia roupas que definitivamente o fariam sonhar com elas justamente por serem sensualizadas em demasia.
Aquilo parecia um pesadelo. Wanda estava acordada e olhando para ele assustada.
“Eu não sei o que eu vi”, ela falou primeiro.
“Nem eu, mas vamos descobrir juntos. Foi só um sonho ruim, volte a dormir, é imprescindível que esteja descansada para os seus estudos da teoria, senão você não vai ter um bom rendimento”, disse.
“Eu tenho medo”, Wanda confessou.
“De quê?”
“De dormir e ver isso mais uma vez, eu não sei o que eu vejo. Eu só vejo a mim mesma e uma onda de destruição. Você não sabe o que eu daria para não precisar ver essas coisas”.
Percebeu que Wanda estava fragilizada por isso e sentindo um pouco de vergonha por ter tido um pesadelo na sua segunda noite ali. Era estranho pedir para passar a noite ali. Se passasse, veria com os seus olhos como isso acontecia. Mas ela era uma mulher, não parecia certo. Não era certo fazer isso se não era nada dela, muito menos sem o seu consentimento. Nada além de tutor. Todo mundo merecia um afago quando isso acontecia, só que ainda não eram íntimos o suficiente para que tirasse os fios de cabelo suados do rosto de Wanda. O máximo que fez foi tocar a mão dela rápida e discretamente, numa tentativa de conforto desajeitada.
“O meu quarto fica ao lado do seu, basta você bater na parede se alguma coisa acontecer”, falou, a soltou e a deixou para que pudesse se recompor.
“Deixe essa luz acesa”, ouviu Wanda dizer enquanto tocava o interruptor que ligava o abajur.
“Claro”, foi a única coisa que conseguiu dizer.
Fechou a porta e sentiu um leve arrepio de frio, como se uma leve corrente de ar estivesse no ambiente. Nenhuma janela estava aberta. Desconfiado, tateou algumas cortinas para ver se estava realmente sozinho. Algo no seu íntimo dizia que não.
Agitou os dedos um pouco tremulantes e um chicote de energia surgiu, laranja. Falou algumas palavras em hindi e chicoteou o chão, fazendo com que o assoalho tremesse e voltasse para o lugar. Os aparadores balançaram e nada pareceu estar ali apesar da sua má impressão. Fez o mesmo com as paredes e nada. O teto também.
Desistiu. Entrou no seu quarto e começou a tirar a roupa de gala. Nada lhe tirava a sensação de que estava sendo observado.
[...]
Loki estava há horas sentado na sua poltrona no quarto do apartamento que Thor havia pegado emprestado com Erik Selvig por algumas semanas. De frente para ele estava o seu orbe de cristal asgardiano, vendo as interações de Wanda e Stephen, o seu caal favorito.
Confessava a si mesmo que não era exatamente o tipo de interação que queria que eles tivessem. Precisava dar um jeito na namorada médica dele e isso precisaria ser rápido. Os seus planos não poderiam ser atrasados. Eles precisavam ficar juntos, logo precisava fazer isso acontecer o mais rápido possível e sem que parecesse um feitiço de amor dos livros que leu na biblioteca de Odin.
Fechou os olhos e massageou as têmporas, estava há tempo demais olhando aquilo. Com um estalar de dedos a imagem saiu do quarto de Stephen Strange e foi para o de Wanda. Ela olhava para o teto do quarto. A ideia do bolo de chocolate havia sido boa, então só precisou usar de leve persuasão para que ela ficasse um pouco ansiosa para ver o Doutor Estranho. Tinha exagerado um pouco no fato de ela olhar no relógio quase que o tempo todo. Ela estava realmente ansiosa para vê-lo, de verdade. Era como se ela já estivesse começando a sentir pelo menos uma atração física por ele? Talvez.
Eles dois... era para acontecer. Verdadeiramente. Que mal havia em dar uma ajudinha no processo?
Reparou bem na imagem que se formou no orbe quando aproximou a janela dela. A lua estava cheia e o final do ano estava chegando em Midgard. Era novembro, o penúltimo mês antes de o ano deles acabar.
Tinha todo o tempo do mundo para fazer o futuro dos dois acontecer.
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