Angel Devil
4 Não seja uma galinha medrosa.
Notas iniciais
Melinda faça isso! Melinda faça aquilo! Melinda pegue isso! Melinda pegue aquilo! Melinda. Melinda. Melinda...
Eu não tive paz nenhum segundo desde que pisei no Fórum da Igreja, parece que ninguém mais consegue fazer as coisas sozinho, pois a cobaia finalmente tinha chegado para servi-los. Por que não aproveitar?
A Igreja era pura movimentação — carregando e descarregando caixas — para a comemoração do dia do Santo Antonio que acontecera na sexta e no sábado a noite. Eu tive que bolar tudo, dar tarefas, explicar onde as coisas devem ou não ficar; tema, barraquinhas, brincadeiras, enfeites, comidas típicas...Enfim, tudo. E o que não falta era espaço, o pátio em volta da Igreja é imenso, ou seja, muito trabalho para só três dias. Já passo adivinhar que não vou aproveitar nada disso, mas pelo menos serviu para me distrair um pouco. É por isso que eu fazia ''com todo prazer''.
– Melinda tem que pendurar aqueles cartazes ainda. Mandei encomendar umas faixas indicando cada barraquinha. Mas preciso de você para isso — a última no dia á dizer o que devo fazer foi a Freira Marlene, digamos assim: ela é a chefe dos pinguis.
– Tá, Irmã. Vou procurar uma escada e perdi para o Jacky pendurar os cartazes e as faixas nas árvores. E as encomendas, deu tudo certo?
– A confeiteira ligou agorinha mesmo. Por isso vir atrás de você também.
– Aconteceu alguma coisa? — limpei minha mão suja de tinta no avental vermelho e me virei para ela preocupada.
– Nada que podemos fazer. Mas ela disse que o forno esta no concerto até hoje e não sabe se ficara pronto até sexta feira. — o jeito tranqüilidade da Irmã fez meus nervos aumentar ainda mais. Levantei do chão agitada, segurando-me para não rosnar na frente dela.
– O serviço já esta pago! O dever dela é fazer e não ficar ligando para nos incomodar com isso. Tem que dar um jeito....
– Acalme-se, minha linda. Daremos um jeito. Hoje você não parou, deve estar cansada — observou. Ela estava certa. — Deseja alguma coisa?
Ponderei por cima da sua pergunta, com medo de deixar nas mãos dos outros, mas acabei cedendo. Não vou consegui terminar o que esta programado para hoje, tornando minha dor de cabeça ainda pior.
– Vou acabar de pintar isso daqui e depois iria procurar o Jacky...Irmã, você pode fazer isso por mim?
– Nem precisava pedir — respondeu com seu sorriso aconchegante de idosa. É impossível descer todo meu veneno para cima dessas mulheres, porem, tem umas aqui que eu desejei enfiar o pincel goela abaixo, como a bronzeada saltitante vindo na minha direção com pompons.
– Não ficaram lindos? — balançou aquele monte de tirinhas rosas na minha cara sorridente.
– Alice...Tenho que acabar de fazer essa placa ainda hoje e você esta ai fazendo...Pompons! Com os papeis que deveriam ser usados para as bandeirinhas?
– Ai larga de ser tão responsável! Eu já fiz as bandeirinhas! — me criticou com aquele jeitinho metidinho e revirou os olhos, porque estou cansando sua beleza californiana, é o que sempre diz. Eu também revirei os olhos, porque ela esta ‘’cansando’’ meus limites.
– Ficaram lindos. Combina com você — mentir, voltando ao meu trabalho já que a Irmã Marlene se foi.
– Caramba! Queria ter sua inteligência! Como você sabe que em ouros país comemora o dia do Santo assim?
– Pesquisando no Google — era o obvio.
Voltei molhar o pincel na tinta de cor viva e concentrei na letra R.
– Ah, tá...– ALICE! O QUE VOCÊ ESTA FAZENDO AI? — ao mesmo tempo as duas melhores amigas e minhas perseguidoras disseram juntas.
– Vendo Melinda esbanjar sua criatividade escrevendo em português — respondeu a bronzeada A enquanto a B se aproximava. As duas começaram tagarelar sobre tudo, de menos os serviços que ainda faltam, atras de mim. Só que dessa vez fui interrompida pelo meu celular vibrando de repente no bolso de atrás. Estranhei. Não poderia ser minha família, Francisca sabia que estou na Igreja e John a essa hora deveria esta trancando em alguma reunião da empresa...Eu só recebo ligações deles.
'' Amanhã espero você às 9 na Praia.
Não se preocupe Freira, não é um encontro.
*emoticon*
Obs: não seja uma galinha medrosa. ''
Meu peito vibrou. Mordi meu lábio fortemente de olhos arregalados enquanto relia aquilo umas 34876902 vezes, querendo provar a mim mesma que não estou delirando. Não resta duvidas quem é o autor disso, ele já estava nos meus pensamentos, como uma masturbação mental: quanto mais penso mais gosto. Então, fingi que não me lembro seria patético. Quer dizer, patético mesmo é o emoticon da galinha cacarejando e um balão em cima dizendo: EU NÃO QUERO! EU NÃO QUERO!, e batia as azas freneticamente com os bicos e olhos arregalados.
– O QUE? — gritei sussurrando, se é que isso faz sentido.
Pensei ter deixado as coisas bem claras entre nós. E a pior parte é que eu não fiquei com raiva dele ter violado minha regra, a verdade é que me segurei para não sorri de orelha á orelha, no meio do patio da Igreja FELIZ.
Entrei num transe estranho, paradinha no mesmo lugar como se qualquer movimento entrega-se a estranha felicidade no meu coração pulsando forte como uma adolescente no pico da puberdade: ELE NÃO SE ESQUECEU MIM! ELE LEMBRA DE MIM! EU RECEBI UMA MENSAGEM DELE!
– Que loucura... — voltei a sussurrar depois de engolir uma piscina de saliva que formou na minha boca aberta.
Tentei fazer meus pensamentos voltarem como estava á alguns segundos atras, já conformados que eu nunca mais o viria novamente. Nem o loiro insado. E me obriguei tomar uma decisão: "Eu não vou. Muito menos não vou responder esta mensagem boba." — pensei, agindo com a medrosa que ele insinuou.
Até parece!
Mal pensei nisso um certo sentimento se apoderou de mim em forma de pergunta: Outra chance jogada fora?
Lembro muito bem que passei a metade da noite em claro, revirando tudo o que aconteceu comigo em poucas horas naquele carro, e conclui como Brian seria a escolha perfeita para começar a viver por mim mesma. Era minha chance de mudar, uma chance de realmente ter um vida e conhecer pessoas de verdade.
O aparelho na minha mão passou a pesar de um modo sobrenatural, eu quase ouvir dele um pedido de retorno. Realmente é loucura.
– O que tanto você olha nesse celular? Tá esperando alguém ligar, é? — Bia, a bronzeada B, perguntou de supetão, quase tirando os olhos para fora pra ver.
Como se eu estivesse escondendo uma arma, coloquei as mãos para trás e escorreguei o celular para dentro do meu bolso, enquanto seus olhos curiosos me acompanhavam.
– Não.
Elas trocaram olhares entre si, mas acabaram dando de ombros, recordando que eu não sou muito detalhista nas conversas. Recomeçaram a tagarelar de onde pararam, eu finalmente pode respira melhor...Quero dizer, nada estava melhor. O que veio a seguir foi um desastre total, eu não conseguia concentrar no trabalho, mal ouvia o que os outros me diziam, deixando-os no vacuo, com os pensamentos longe. Eu só sabia pensar naquela mensagem.
Brian Haner.
– Ah cara, agora só nos resta esperar até amanha. Você podia ter pedido uma resposta — Jimmy sugeriu, curioso feito eu.
– Eu não cara! A mensagem já esta de bom tamanho. Se ela quiser vir bom, se não...Tanto faz.
Ele não botou muita fé nas minhas palavras, eu sabia pelo olhar estupido que me deu ao dizer: – Então ta — balançando os ombros.
Eu bufei para o volante, sentindo uma certa ironia na sua voz também, mas preferi não falar neste assunto mais. Já é dificil admitir o que fiz para aquela garota, imagina ficar implorando uma resposta...Não mesmo.
Mas Jimmy do jeito que é, não consegue ficar em silêncio por muito tempo. Seu jeito elétrico não deixava, então recomeçou encher meu saco: — Posso falar o que penso?
Ergui a sobrancelha, não entendendo porque diabos perguntar, ele falaria de qualquer forma.
– Vá em frente.
– Penso que ela é uma puta loira linda e você esta interessado nela desde o colegial, mas só começou a ceder agora porque conseguiu uma chance indispensável. Traduzindo: Acho que tem mais um candidato a coleira — a medida que dizia se ajeitou do banco, ficando o mais longe que conseguiu de mim, esprimindo suas costas na porta.
– Não sou o Matt-candidato-a-coleira Jimmy! — quase gritei dando-lhe um soco no ombro. Ele riu e reclamou de dor ao mesmo tempo. — Não fala merda!
– Ok. Ok. Ok. OK. Você esta certo – cedeu não querendo apanhar mais. Ele não é um covarde, mas inteligente o suficiente pra saber quem apanharia aqui se continuasse buzinando essa merda no meu ouvido.
Eu continuei dirigindo com uma expressão dura. Jimmy não era o motivo, Melinda ainda existia em primeiro lugar, o que estava fazendo odiar mim mesmo.
Aqueles anos no Ocean me deram a maior parte da merda da reputação que eu tenho nessa cidade, com certeza ela sabia com que esta se metendo, então me leva acreditar que Mel...Melinda não vai porra nenhuma, se for esperta. E por mim esta tudo bem. Não, não esta. Tomara que ela não seja esperta.
A volta ao bar foi um silêncio estranho porque Jimmy estava tão calado feito eu. Isso me deixava meio aéreo. Talvez ele chegou a falar alguma coisa, mas eu não ouvi o suficiente pra ter uma resposta. Estancionei na vaga de sempre vazia a essa hora do dia, então, antes mesmo do carro parar Jimmy pulou para fora, dizendo de repente:– Vai sonhando...Só concordei porque não quero apanhar de um cara que lutou Jiu-Jítsu á toa...- ouvi o idiota me provocar. — BRIAN É O NOVO CANDIDATO A COLEIRA!
Já era. O filho da puta endoidou e saiu gritando para dentro do Bar.
– Vou fazer você engolir essas palavras, palhaço! — fui atrás dele bufando e pronto para enchê-lo de socos.
O avistei parado do outro lado da mesa de sinuca, não sabendo se respirava arfante, pois sabia que ira apanhar, ou se gritava ''Brian é o novo canditado a coleira'', ou se ria. Ficamos rodando a mesa feito imbecis, ao mesmo tempo que ele berrava aquelas merdas sem sentido para quem quiser ouvir, e eu gritava de volta, chamando atenção de todos.
– CALA ESSA DROGA DE BOCA JAMES! E PARA DE SER CRIANÇA E BATE DE FRENTE FEITO HOMEM! — mandei, caindo perfeitamente nas suas graçinhas infantis.
– VOCÊS PRECISAM OUVIR ESTA HISTORIA: AMANHÃ TODOS VÃO CONHECER A FUTURA GATES! ELA...
– SEU FILHO DA PUTA MENTIROSO!
– EUUU QUE SOU MENTIROSO? É ISSO QUE VOCÊ GANHA POR FINGIR QUE NÃO SABIA DO QUE EU ESTAVA FALANDO ANTES! AGORA VOCÊ ACREDITA, NÃO É ZACKY? E MATT, ARRANJEI UM NOVO ALIADO PARA VOCÊ...
– VAI SE FODER!
– POR QUE ESTA TODO ESQUENTADINHO, HEIN GATES? SE NÃO LIGASSE NÃO ESTARIA CORRENDO ATRAS DE MIM...- ele parou para gargalhar mais um pouco da minha cara e conseguiu desviar para a outra ponta da mesa.
Retiro o que eu disse, Jimmy é um completo covarde!
– VOU TE FAZER EM PEDAÇINHOS, EU JURO.
– WOW ISSO É UMA OFENÇA, KEN? SE ALCAMA, A SUA BARBIE VAI ESTAR CONTIGO AMANHÃ...
E assim foi até eu desistir, sendo mais inteligente. Jimmy não ia parar de nos humilhar se eu continuar correndo atrás dele, fazendo um espetáculo constrangedor para todo o pessoal do bar.
– Do que ele esta falando? — Matt perguntou, sorrindo, ainda sobre o efeito das bobeiras do Jimmy.
Tomei a garrafa da sua mão e virei de uma vez — Nada. — e murmurrei depois de uns bons goles. — Coleira porra nenhuma.
– Vamos de vagar Haner, porque isso é meu — pegou a garrafa de volta. — Compre uma para você, folgado.
– Foda-se.
– Futura Gates, hein? — Valary entrou na conversa. — De que garota ele esta falando?
Com um sorriso falso e malicioso me voltei para ela. — De que garota você acha? — isso só serviu para meia duzia de gente nos ouvir. Eles que tirem a conclusão que quiser, fariam isso com uma explicação ou não.
Mas foi aí que fodi com tudo, porque Matt olhava para mim com uma imensa curiosidade. Ele levantou uma sobrancelha, e eu parei de sorri porque teria que explicar para mais um filho da puta qual é o meu problema.
Eu poderia mentir e falar que era uma vadia qualquer daqui, mas ele não acreditaria nessa merda por causa do Jimmy. Então eu só retornei o olhar que ele me deu, como um ''Deixa quieto''. E relutantemente, ele deixou. Porque era assim que a gente funcionava. Mas eu sei que não estou livre dele.
– Hey cara, próxima rodada sou eu — avisei para Johnny, esquecendo do que acabou de acontecer para o bem do fofoqueiro.
Johnny na mesma hora levantou o taco que estava na mão, me oferecendo. – Cansei — disse ele. — Deixo você colocar esses caras no chinelo.
– Claro, claro. Também...
Não foi preciso falar muito, ele me passou também um cigarro e ainda seu isqueiro. Sorri grato. Era tudo que eu precisava no momento. Nicotina.
– Syn, vamos fazer uma aposta?
Jimmy teve a cara de pau de falar comigo. Tirou o boné aba reta do Johnny e colocou na cabeça, parando na minha frente com três nota de 100 dólares nas mãos fingindo ser um Gângster.
– Que aposta?
Eu, como sou um bom amigo, celei a porra da aposta, esperando sinceramente que ele esteja errado sobre tudo que diz. Aquelas notas de 100 dolares serão minhas, é uma promessa.
Notas finais
Até mais ♥
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