Angel
2 Capítulo 1 - O abismo dentro dele
Notas iniciais
Eu sei que se decidiram acompanhar esta fic, provavelmente estão querendo me jogar muitos tomates pela demora horrorosa até lançar esse capítulo, né? Me desculpem, mesmo, pela falta de responsabilidade. Maaaaaaaaaaaas~ lhes informo, por meio desta nota, que vou me comprometer mais com a fanfic. E que vou demorar menos - bem menos, espero - a lançar novos capítulos.
Beeeeeeeijos, e Darky desliga! x*
Itália – Dias atuais – Manhã.
Os primeiros raios de sol se esticavam lentamente sobre os edifícios de Martel, na Itália, iluminando todo o local graciosamente. Mais uma manhã começava, desta vez tranqüila. Enquanto muitos acordavam com o começar do dia, alguns outros sequer haviam dormido.
Era o caso de Kanda, que se preparava para deixar a Itália sob as ordens de Komui Lee, pronto para cumprir uma nova missão no sul da França.
Allen Walker, o exorcista novato que fora designado para acompanhar Kanda no caso do “Fantasma de Martel”, já havia voltado para a sede da Ordem Negra, levando com ele a Innocence que encontraram durante a missão. Para Kanda, isso era ótimo. Pois desde que vira o jovem pela primeira vez, soubera que jamais conseguiria se dar bem com ele. Allen Walker tinha o poder de irritá-lo mais do que qualquer outra coisa. Além disso, Kanda sempre preferira cumprir missões sozinho. Não gostava de trabalhar em equipe e não tinha a menor paciência com quem fosse.
Por isso, junto de um Finder¹, Kanda embarcava em um trem rumo à Menton, cidade próxima da divisa com a Itália, onde diversos Akumas haviam sido vistos.
“Os Finders que foram enviados para investigar não sabem o que está causando essa comoção na cidade, mas, ao que parece, estão à procura de alguma coisa” Komui informara.
“Obviamente deve ser uma Innocence” Kanda rebateu indiferente.
“Foi o que todos pensamos, mas recebi informações de que esses Akumas estão sendo eliminados. Apenas uma Innocence não faria isso.”
“Um compatível...”
“Exato, é o mais provável. Os Finders ainda não encontraram a pessoa que está exterminando os Akumas, então pode ser qualquer um na cidade. Bom, conto com você. Boa sorte com a missão, haha.” Komui se despediu simpático.
Kanda respirou fundo ao lembrar-se da conversa que tivera com o Supervisor pelo telefone. Quando os Finders fariam um trabalho decente, afinal? O rapaz se perguntava, contrariado. Como alguém elimina Akumas em uma cidade pequena como Menton e ninguém vê ou sabe de nada?
Eram perguntas que, apesar de irritá-lo, não faziam qualquer diferença. De uma forma ou de outra teria que cumprir a missão, como sempre fizera naqueles nove anos em que trabalhara como exorcista. O que a Ordem fazia ou o mandava fazer não tinha importância.
Nada importava, de fato. Nada importava desde que ele fosse capaz de encontrar “aquela pessoa”.
Kanda chegou à sua cabine e entrou sem fazer cerimônias, deixando o Finder no corredor. Sentou-se perto da janela e observou distraído à paisagem do lado de fora do trem, esta passava tão rápido por seus olhos que se tornavam apenas borrões coloridos. Sempre que saía em missão, não podia deixar de imaginar se encontraria finalmente quem procurava. E uma vez que começava a pensar naquilo, um filme de lembranças o impedia de pensar em qualquer outra coisa.
O que acontecera nove anos antes, no 6º Laboratório, uma tragédia que o marcaria para o resto de sua vida. O dia em que conseguira perder tudo o que tinha de uma só vez, e que descobrira tudo sobre quem era de verdade.
Um gosto amargo se instalou em sua boca quando lembrou-se de seus antigos amigos de infância. Sentia falta dos dois e dos dias que passaram juntos. Apesar de terem ficado juntos por tão pouco tempo, haviam criado um vínculo tão forte que era até difícil de ser explicado. Mas agora Alma estava morto e Fleur, desaparecida.
Desviou os olhos da paisagem e olhou para baixo por um segundo.
Uma linda flor de lótus se abria bem no canto da janela, chamando sua atenção. Ele a observou com um olhar distante, quase triste. Pegou-a em sua mão e a apertou com força, aproximando-a de seu rosto para sentir um cheiro que não existia. Afinal aquela flor era apenas uma ilusão. Largou a flor, que se desfez em diversas pétalas diante de seus olhos.
Então recostou-se no assento da cabine. Tentaria descansar um pouco antes de chegar à Menton. Em alguns minutos, seu corpo relaxou, sentindo a inércia tomar conta. Esta veio acompanhada da escuridão, que envolveu Kanda gentilmente para seu sono.
~~~
Kanda não tem certeza de como vai parar no meio daquela escuridão, pois apenas dá-se conta do que está fazendo após longos minutos de caminhada. Está à procura da fonte de um choro baixinho e contido, mas que consegue distinguir com precisão.
É Fleur quem está chorando.
Diante do breu e das condições improváveis nas quais se encontra, o rapaz não demora a concluir que tudo não passa de um sonho ou, na pior das hipóteses, um pesadelo. Porém, ainda que já tivesse conhecimento disso, sente a preocupação e a saudade falarem mais alto, e continua a buscar pela menina.
O lugar nada mais é do que um espaço amplo e negro, totalmente vazio, de forma que Kanda passa a se questionar se é ele quem não consegue enxergar. Ergue as mãos para tatear algum obstáculo que por ventura pudesse aparecer em seu caminho, mas nada encontra. Então, ele decide chamá-la.
- Fleur...? – sua voz ecoa pelo espaço sem fim até perder-se por completo. O choro parece ser interrompido de repente, como se a menina o tivesse segurado para não ser descoberta.
Kanda respira fundo.
- Pode aparecer, Fleur... Não vou brigar com você.
O rapaz a ouve fungar baixinho, mas antes que pudesse chamá-la novamente o cenário torna-se cinzento e Kanda vê-se cercado por paredes de pedra. Reconhece o lugar como sendo um corredor qualquer do 6º Laboratório.
Contudo, logo o local em que está já não tem relevância.
À sua frente, a menina de cabelos loiros está sentada no chão, enquanto esconde seu rosto nos joelhos e os abraça. Seus ombros magros são sacudidos por eventuais soluços calados e, por algum motivo, a cena diante de Kanda lhe parece familiar.
Kanda aproxima-se de Fleur com cautela, não quer assustá-la.
- Aí está você... – ele diz. – Por que está chorando?
E toca seu braço gentilmente.
É quando percebe que sua mão é a mão de uma criança, o que dá ao sonho algum sentido, afinal. O sonho, na verdade, é uma lembrança distorcida daquela época perdida, e faz com que Kanda sinta uma estranha nostalgia.
Fleur estremece ao seu toque, mas não levanta o rosto para encará-lo, apenas continua conter seu choro. O rapaz, agora na forma de menino, senta-se de pernas cruzadas diante dela.
- Olhe para mim. – Kanda pede com suavidade na voz, porém tudo que Fleur lhe oferece como resposta é um aceno negativo com a cabeça.
Ele se cala por um segundo, buscando de alguma maneira pensar em como fazer Fleur falar.
- Sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe...?
Fleur assente devagar em meio a um soluço.
- Somos amigos, não somos?
Ela assente mais uma vez.
- Então me diga... O que fizeram com você? – Kanda pergunta paciente, esperando que, dessa vez, Fleur esteja disposta a responder com palavras.
Leva um tempo até que ela obtenha a coragem necessária para erguer o rosto um pouco que seja. Ainda assim, mantém os olhos fixos no alto de seus joelhos.
- Eles... eles me puniram... porque eu falhei de novo... – Fleur tenta explicar com um fio de voz, soltando as mãos dos joelhos e mostrando-as à Kanda.
As palmas são de um intenso vermelho, e onde bolhas não se destacam, a pele está aberta. Kanda pode ver claramente a carne exposta das mãos de Fleur e faz uma careta dolorida ao pensar na dor que deve estar sentindo naquele exato momento. Ele pega as mãos da menina com cuidado, pelas costas destas.
Kanda não se importa se está sonhando ou não, pois seu peito se enche de um ódio denso e sufocante. Lembra-se então muito bem daquela ocasião e do por que Fleur ter sido punida.
- Tentaram fazer com que você trouxesse outro exorcista de volta à vida. – Kanda supôs.
- E eu... não consegui... – Fleur completa. – Eles não entendem que está fora do meu alcance! Quantos monstros terei que criar a cada vez que o processo der errado?! Dessa forma, estou me tornando tão terrível quanto o Conde do Milênio!
Ela altera a voz, erguendo o rosto pela primeira vez desde que Kanda chegara. Seu rosto está rosado e manchado de lágrimas. Kanda a deixa desabafar.
- Isso é muito cruel, eu não quero me tornar um monstro como o Conde e seus Akumas! Seria muito melhor se eu simplesmente desaparecesse, ninguém precisaria sofrer se fosse assim!
- Fleur, você jamais se tornará como o Conde! – Kanda larga as mãos dela e segura seu rosto para que ela olhe para ele. – Você é pura! É doce, é gentil! E isso não vai mudar, nunca. Não pense em uma coisa dessas, por mais chateada que esteja!
A menina cerra os olhos, incapaz de sustentar o olhar de Kanda.
- Se você sumisse, o que seria de mim? E de Alma? O que seria de nós sem você? – Kanda pergunta num tom mais suave. – Fleur, você é a nossa única luz nesse lugar. Não pense nem por um segundo em sumir das nossas vidas, ouviu? Não suma... da minha vida...
Suas palavras soam estranhamente irônicas aos seus ouvidos. Afinal, ter dito aquilo se provara inútil no fim das contas, uma vez que, no presente, Fleur já não existia mais. Por esse motivo suas palavras escapam quase como um apelo contra o inevitável. Kanda sente um aperto na garganta ao dar-se conta disso.
Diante dele, a menina baixa o rosto. Logo Kanda pode sentir lágrimas escorrerem por entre os dedos. Fleur voltara a chorar.
Ela ergue as mãos feridas e toca as de Kanda sem parecer se importar com a dor. Seus polegares se movem num carinho sutil. Um sorriso terno se forma em seus lábios apesar do pranto.
- Sou mesmo tão importante, Yu...? – indaga distante, com a voz inundada numa profunda tristeza. – Sou mesmo tão importante para você...?
A expressão de Kanda suaviza-se, e ele aproxima o rosto do de Fleur sem cerimônias, encostando sua testa na dela enquanto encara seus olhos fechados.
- Mas é claro que é, baka... É o que tenho de mais importante desde o dia em que te vi pela primeira vez. – ele sussurra sem pensar, e as palavras apenas saem de seus lábios sem o menor controle.
Ouvir a si mesmo o faz corar, mas ele não tem a mínima vontade de se afastar da menina. Ela abre os olhos, e Kanda sente a ameaça de se perder no meio de todo aquele azul. Contudo, não consegue desviar o olhar, e continua prisioneiro da inocência da menina.
Fleur, por sua vez, continua sorrindo com toda sua ternura. Porém, o que ela diz em seguida contrasta completamente com sua expressão.
- Se sou tão importante, Yu... por que não vem me procurar...? – a pergunta pega Kanda totalmente desprevenido, mas o faz perceber que o sonho está mudando de rumo.
O garoto não sabe o que responder por longos segundos, desorientado. Ele franze o cenho, vendo o sorriso de Fleur tornar-se triste lentamente. Por mais que não passe de um sonho, como Kanda poderia dizer a Fleur que, todo esse tempo, ele buscara por outra pessoa? E que, por essa razão, não fora atrás dela?
- M-mas... você está bem aqui. Está bem diante de meus olhos, Fleur. – ele tenta despistá-la, gaguejando levemente.
E para sua surpresa, Fleur meneia a cabeça, sem cortar o contato visual com Kanda. Em seguida, solta as mãos dele de seu rosto e retrai as pernas, para envolver o pescoço do garoto num apertado abraço. “É só um sonho”, Kanda pensa mais uma vez, sabendo que não podia se deixar levar por suas lembranças e saudades.
Mesmo assim, o toque da menina é real demais para ser ignorado. Sua voz é real demais, até mesmo seu doce aroma de baunilha... Kanda percebia então o quanto sentia falta daquela garota, ainda que amasse outra mulher com toda sua alma. Ele retribui o abraço, cerrando os olhos para refrear as lágrimas. Agora já não podia conter o medo de o sonho acabar de uma hora para outra, fazendo-o voltar para uma realidade sem Fleur.
- Tudo bem, Yu... Sei que vai me encontrar... Mais cedo ou mais tarde, né? – Fleur ri baixinho com sua voz doce e melancólica, enquanto Kanda aperta o abraço, receoso de soltá-la. – Sinto sua falta, Yu...
Ele afunda o rosto nos fartos cabelos da garota, puxando o ar com força para sentir o cheiro dela uma última vez.
- E-eu também... kotori²... mais do que você imagina... – a voz de Kanda vacila, e é por muito pouco que o garoto não cai em prantos. – Acho que não agüento mais... apenas sonhar com você...
Lentamente, Fleur se desvencilha do abraço, mudando de forma diante dos olhos de Kanda. Seus traços finos tomam uma repentina maturidade, e Fleur torna-se alguns anos mais velha instantaneamente. Apesar disso, mostra-se tão inocente como quando ainda era uma criança. Kanda a observa atônito.
Ele se pega imaginando se Fleur realmente se tornara tão bela, ou se era apenas obra de seu sonho confuso.
- Estou... muito perto... Yu... — ela diz num suspiro sutil, mas sua voz parece cortada por alguma interferência. — Muito... perto....
Com isso, Fleur se aproxima uma última vez, e Kanda sequer reage ao sentir a jovem selar em seus lábios um beijo de despedida. Kanda decide se mover quando já é tarde. Fleur começara a se desfazer diante dele em minúsculos flocos dourados, que caíam sobre suas pernas.
Ele se levanta, tentando segurá-la, mas o pequeno corpo desaparece por completo. Suas mãos se enchem dó pó dourado e ele as encara desolado. É assim que Kanda percebe que voltara à forma de seus dezoito anos.
- Não... Fleur, não vá.... — Kanda olha ao redor, perturbado. O corredor de pedra também se desfaz, jogando o rapaz de volta à escuridão. — Fleur...?
~~~
- Ei, garota! Será que pode prestar atenção no que estou dizendo? – Mme. Collet ergueu a voz, que ecoou imponente pela saleta. Era uma mulher adulta de cabelos ruivos e maquiagem pesada. Porém a idade que se mostrava em cada ruga não a tornava menos bela ou sedutora.
Ela mantinha os longos cabelos presos por um coque no alto da cabeça, enquanto algumas mechas onduladas caíam por sobre os ombros brancos expostos. E arrastava as barras do vestido bordô e sofisticado pelo assoalho enquanto andava de um lado a outro mordiscando as unhas perfeitas da mesma cor.
Mme. Collet era dona de um popular bordel de Menton e era muito respeitada por todos que a conheciam. Todas as suas “meninas”, como gostava de chamar, eram severamente disciplinadas, mas eram consideradas as melhores de toda a cidade.
Com exceção de uma.
- Já mandei prestar atenção! – Mme. Collet bateu uma das mãos na escrivaninha à sua frente, fazendo a jovem de cabelos loiros se sobressaltar com o estrondo.
Seus olhares se encontraram, e a jovem manteve-se calada. Mme. Collet precisou respirar fundo para acalmar-se.
- Há quantos anos venho te dando abrigo? Nove? Quanto tempo faz que eu venho cuidando de você, te dando o que comer, te dando o que vestir, e principalmente, te escondendo da Ordem? – ela prosseguiu. – Quer que eu a coloque para fora, coisa ingrata?! Quer que eu a entregue de volta à Ordem Negra?!
Pela primeira vez desde que chegara à sala de Mme. Collet, a jovem decidiu falar.
- C-claro que não, Mme.! Por favor, não faça isso! – ela pediu nervosamente. – Eu só acho que o “monsieur” não vai gostar de saber o que a senhora está pensando em fazer... Quer dizer, e-eu... nunca fiz isso com outro homem, então...
- Ah... Achou que fosse ser de um homem só, minha querida? Você serve a quem pagar mais por você. – Mme. Collet suavizou a voz, abrindo um falso sorriso materno. – E saiba que o seu “monsieur” nos traiu. Ou vai dizer que não viu os monstros pela cidade? Ele pretende levar você daqui!
As palavras da mulher pareceram não fazer o menor sentido para a jovem.
- Esses monstros são Akumas, Mme.. Como poderiam ter algo a ver com “monsieur”?
- Você é muito inocente, menina... – Mme. Collet riu baixinho. – Mas não importa. Pois ele não é mais seu “monsieur”. Iremos escolher um novo para você. Acredite, não haverá um único homem que não queira torná-la dele para provar do seu fruto esta noite.
A jovem ficou imediatamente rubra.
- Não me acharão estranha por causa de minha... ahn... aparência, Mme.? – ela perguntou, ainda tinha esperança de que Mme. Collet desistisse daquela idéia absurda.
- Ora, como poderiam? Você é linda, é pura, é única! E não lembro de ouvir o seu “monsieur” reclamar, muito pelo contrário. – Mme. Collet se aproximou da jovem, pousando as mãos em seu rosto de menina. – Eu conheço a mente sórdida dos homens. Todos eles possuem suas fantasias... O que não fariam para realizar a fantasia de fazer o que quisessem com um “anjo” como você?
A jovem franziu as sobrancelhas, precisava encontrar um jeito. Abriu a boca para falar, mas a mulher foi mais rápida.
- Tente entender, querida.. Com esses monstros infestando a cidade, os negócios foram prejudicados.
- Eu posso destruir-los! Assim como fiz com os primeiros, posso destruir os que restam e então os negócios voltam a ser como antes! Esse leilão não precisa acontecer! – a jovem buscou argumentar, uma ponta de esperança instalou-se em seu peito.
Contudo, a gargalhada que se seguiu acabou com qualquer esperança que pudesse ter.
- Ficou louca, garota? Isso só irá atrair atenção dos exorcistas! É isso que quer?
- M-mas... Mme. Collet, eu não quero... entregar meu corpo para um homem que eu sequer conheç --!! Ah!
Suas palavras foram interrompidas por um tapa que voou na direção de sua face. Mme. Collet estava de pé diante dela, a boca retorcida em uma expressão de reprovação.
- Tsc, estou começando a perder a paciência com você! Quem disse que me importo com o que você quer? – a mulher vociferou impaciente, agarrando os cabelos loiros da jovem para que ela a encarasse. – Você só está aqui porque eu permito! Acha que eu a vejo como pessoa? Ha! Não seja ingênua! Não pense que, apenas porque deu o que tem aí embaixo para um único homem, você se torna diferente das outras! Eu não te tirei das ruas por ter sentido pena, te tirei das ruas porque sabia que um dia você ainda me traria muito dinheiro! Portanto, essa noite eu irei leiloar você! Do contrário, pode fazer suas malas, pois te chuto direto para Londres! Estamos entendidas agora?!
A jovem cerrou os olhos, procurando segurar as lágrimas da melhor forma que fosse. Prometeu a si mesma ao fugir da Ordem que jamais voltaria àquele inferno. Tudo que ela tinha de mais precioso naquele lugar fora destruído. E ela não agüentaria viver naquele lugar sem “ele”. Por esse motivo, não tinha outra escolha.
Com um mínimo aceno de cabeça, a jovem concordou com o que Mme. Collet lhe impôs, sentindo o coração se despedaçar por dentro.
Mme. Collet sorriu satisfeita e soltou a jovem, afastando-se dela em seguida.
- Ótimo. Agora ponha-se daqui para fora, “meu anjo”. As meninas estarão te esperando para deixá-la magnífica e tentadora.
A jovem levantou-se amuada, a mão fina sobre a maçã do rosto avermelhada.
Ia deixando a sala em silêncio quando aconteceu. Uma explosão ensurdecedora do lado de fora, há muitos metros, mas que fora suficiente para estremecer a estrutura de todo o prédio. As duas na saleta olharam pela janela, completamente aturdidas, porém não havia muito que ver. Uma poeira densa subiu com rapidez, impedindo a visão e sujando os vidros das janelas.
- São eles... Malditos! Estão atacando tão perto daqui! – Mme. Collet bateu mais uma vez na escrivaninha, dessa vez desarrumando o cabelo.
- Se eu não impedi-los, irão nos atacar também. – disse a jovem, uma estranha determinação tomando conta dela. – Eu vou lá fora.
- O quê?! Pois nem pense nisso! Se algum exorcista vir você --!! Ei!
Mme. Collet correu até a jovem, mas seus sapatos de salto não e deixaram chegar a tempo. A loira já se encontrava na metade do corredor.
- Alguém pare essa menina! – a mulher gritou da porta. – Volte aqui, garota! Fleur!!
~~~
- Fleur!! – a voz de Kanda ecoou pela cabine, tão alta que foi capaz de acordá-lo do próprio pesadelo.
O rapaz olhou ao redor sobressaltado, atordoado demais para entender de imediato o que havia acontecido. Voltou a recostar-se no assento da cabine, recuperando o compasso de sua respiração enquanto repassava em sua mente as últimas cenas do que sonhara.
Porém, não conseguiu lembrar-se do que se tratava. Apenas o nome dela pulsava em sua cabeça e ainda parecia ecoar por toda parte, trazendo consigo um terrível aperto no peito.
- Mas que droga... – Kanda reclamou frustrado, secando com as costas da mão o suor gelado em sua testa. Melhor teria sido se não tivesse dormido, ele pensou. Agora ficaria se atormentando com a lembrança da menina pelo resto do dia.
Kanda coçou os olhos, ainda sentindo-se cansado. Em seguida olhou para o lado de fora, perguntando-se se faltava muito para chegar à Menton. Quando decidiu levantar, porém, o Finder que lhe acompanhava bateu à porta da cabine.
- Sr. Kanda? Sr. Kanda. – ele chamou. – Os Finders que foram enviados à Menton acabaram de fazer contato. Disseram que a cidade está sendo atacada em massa! A estação foi destruída, o trem não poderá chegar ao seu destino.
- Tsc... – Kanda não achava que os problemas começariam tão cedo.
Abriu a porta da cabine e saiu para o corredor.
- A quanto tempo estamos de Menton?
- N-não muito, senhor... – o Finder informou. – Aproximadamente uma hora se formos a pé, talvez quarenta ou trinta minutos se nos apressarmos.
- Hm... Então se prepare. – Kanda disse, encaminhando-se à saída do vagão sem esperar pelo Finder. – Assim que esse trem parar, pulamos fora.
E não demorou muito para que isso acontecesse.
Logo sentiram o trem parar lentamente, indicando que este não avançaria mais um centímetro sequer. Era a deixa de Kanda e do Finder. Enquanto os passageiros eram avisados do imprevisto, os dois saltavam para fora do trem.
Kanda não perdeu tempo. Foi só aterrissar que o rapaz se pôs a correr em uma velocidade absurda, deixando o Finder para trás. Se o Finder calculara quarenta ou trinta minutos para chegar à cidade a passos apressados, Kanda tinha certeza de que conseguiria cobrir a distância em vinte minutos ou menos.
Notas finais
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O nome desse Finder é Toma. Ele foi o Finder que acompanhou Allen e Kanda em sua primeira missão juntos. ^^
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2 - Kotori significa "passarinho" em japonês. Kanda costumava chamar Fleur carinhosamente dessa maneira quando ambos eram crianças, por causa das asas da menina.
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E esse foi o primeiro capítulo, gente. Espero que gostem e que leiam, e que se divirtam, e que se emocionem. Essa história tem um lugarzinho muito especial dentro do meu coração. Darky desliga. ♥
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