Angel

3 Capítulo 2 - O abismo dentro dela


Notas iniciais
Tá, galerinha, demorei demais pra lançar esse capítulo também. Mas vou contar uma historinha~ Algumas coisinhas mudaram e agora eu tenho a ajuda de um grande amigo. Ele agora está como Co-Autor e revisava o que lancei até agora. Como eu não sou muito boa com descrições e tudo mais, eu comecei a ficar insatisfeita com o andamento da fic. Então ele está me fazendo o seguinte favor: me ajuda a descrever certos lugares e situações (além de ainda ser meu querido "editor"). Espero que gostem, e não vou mais prometer prazos. Só posso prometer tentar não me enrolar de novo. Darky desliga. x*

Todos pararam seus afazeres quando sentiram a ameaça praticamente bater à porta. Com o barulho ensurdecedor do lado de fora e o estremecimento do edifício, algumas das meninas entraram em pânico e correram para se esconder ou saber o que estava acontecendo. Até mesmo os seguranças que ajudavam Mme. Collet a manter a ordem no bordel levaram um tremendo susto.

Um deles, Edmond, que estava de prontidão do lado de fora guardando a saída dos fundos, adentrou a cozinha como um tufão. Tossia exasperado e, entre uma tosse e outra, xingava quase sem voz, trazendo um dos braços colados ao rosto para proteger os olhos e as narinas. A camisa social branca e as calças pretas estavam totalmente sujas e ele precisou chutar a porta atrás de si às pressas, pois toda a poeira estava invadindo a cozinha ampla e rústica.

– Que porra é essa?! — vociferou com a voz grave arranhando a garganta. Os olhos lacrimejavam e o ato de respirar fazia sua garganta arder, o que o deixava ainda mais furioso.

Edmond era um homem alto e troncudo de aproximadamente trinta e seis anos que encarava todos com olhos estreitos e intimidadores. Possuía barba por fazer e sobrancelhas escuras que contrastavam bem com a pele branca, mas mantinha a cabeça sempre raspada. Edmond não era um homem feio, porém era, de longe, o segurança mais odiado por todas as moças do bordel, graças à sua personalidade extremamente vulgar e abusiva.

O segurança não poupava olhares sujos a nenhuma das meninas, falava de maneira grosseira e geralmente as intimidava com gestos obscenos. Mas isso não era tudo. Aliás, era o de menos. Edmond sempre escolhia uma vítima para assediar. Incontáveis vezes, ele se aproveitou das novatas sob o pretexto de prepará-las para os clientes negociados por Mme. Collet. A cafetina, por sua vez, fazia vista grossa diante das noitadas de Edmond. Por ser um de seus mais antigos funcionários, ela havia assentido à escolha de receber um salário mais baixo em troca do direito de usufruir dos serviços de qualquer garota que ele quisesse – desde que ela não estivesse ocupada.

Mme. Collet só não o deixava tocar em seu precioso trunfo: Fleur. A menina era a única que não podia ser levada para a cama por Edmond, já que era a favorita de um rico marquês que pagava a Collet o suficiente para merecer a exclusividade de Fleur — até os Akumas começarem a atacar. Isso deixava Edmond possesso. Ele a conhecia desde que ela chegara àquele lugar, ainda criança. Como nunca possuiu o menor pudor, o homem se interessou pela menina logo que a viu. Foi decepcionante saber que não poderia pôr em prática nenhum de seus devaneios libidinosos com a pequena.

Socando a comprida mesa de madeira onde as moças faziam suas refeições diárias, Edmond piscou os olhos irritados compulsivamente até conseguir enxergar melhor e se deparou com duas jovens assustadas encarando-o.

A diferença de idade entre ambas era de apenas três anos. A mais velha, de vinte e três, possuía bonitos olhos cor de mel e longos cabelos castanhos – tão cheios e cacheados que lembravam discretamente as jubas de um leão. Era magra, como a maioria de suas colegas, com seios de tamanho razoável, mas dona de um quadril generoso. O vestido verde escuro e surrado era a roupa que ela geralmente usava para fazer suas tarefas dentro do bordel – como cozinhar, limpar, etc.

A mais nova, por outro lado, possuía olhos e cabelos negros como a noite – estes cortados bem curtos e extremamente lisos. Era a mais magra de todas, sem qualquer tipo de curva – a ponto de ser confundida com uma adolescente de quatorze anos. Ela se escondia atrás da mais velha, agarrada a ela enquanto beirava as lágrimas.

– O que estão olhando, suas putas?! — Edmond bateu na mesa uma segunda vez, vendo as duas garotas se sobressaltarem.

Ambas desviaram os olhares — a mais nova assustada demais, e a mais velha apenas habituada às grosserias do homem. Edmond olhou em volta à procura da pia, encontrando-a a poucos centímetros das moças. Com um gesto das mãos, mandou as duas se afastarem dali e abriu a torneira.

– Anice, você não é necessária aqui. Vá procurar o que fazer lá em cima ou qualquer outra merda, que eu não quero te ouvir chiando perto de mim! — Edmond reclamou enquanto lavava o rosto e os braços. — E você, Nia, me arrume algo para secar. Agora!

A jovem de cabelos curtos hesitou em soltar a companheira, mas não quis arcar com as conseqüências. Assentindo levemente, Anice correu para fora da cozinha. Nia pôde vê-la afastar as lágrimas que lutavam para cair antes de desaparecer de seu campo de visão. A morena bufou e pegou da bancada um pedaço esfarrapado de pano, que Edmond puxou bruscamente.

– Você é um monstro, Edmond... Não vê que a garota tá morrendo de medo? Isso foi uma explosão, algo muito ruim tá acontecendo lá fora. E perto daqui! — Nia repreendeu o segurança, sem o menor receio de sofrer represálias. Sua voz macia e rouca não escondia nem um pouco a hostilidade. — Será que nem mesmo numa situação dessas você--? Ah--!

Edmond interrompeu Nia com um puxão em seus fartos cabelos castanhos, colocando-a cara a cara com ele.

– Eu tô pouco me fodendo se Anice, ou você, ou qualquer uma das outras piranhas daqui está borrando as calças ou não. — ciciou entre dentes. — Esses ataques já tão me rendendo muita dor de cabeça pra eu ter que me preocupar com vocês. Então, Nia, minha querida.... Não me provoque.

Como boa orgulhosa que era, Nia já tinha uma resposta preparada na ponta da língua, as bochechas corando de raiva. Porém, sua voz morreu na garganta quando ouviram Mme. Collet gritar da escada, no andar de cima, seguida por um tropel de passos na direção da cozinha.

– Garota burra!! Se algum exorcista vir você, não venha tentar se esconder atrás de mim, ouviu?!

E logo Fleur apareceu correndo pela cozinha, ignorando completamente o que Mme. Collet dissera. Nia se adiantou após soltar-se de Edmond, que afrouxou o aperto com a distração. A jovem segurou Fleur pelas mãos e a fez parar. Então, deslocou as mãos ao rosto de loira, unindo suas testas e olhando direto nos olhos azuis dela. Sua expressão já não era de raiva, mas sim de preocupação.

– Fleur?! O que tá acontecendo? Por que a Mme. está gritando?! — Nia sussurrou de forma gentil.

– Nia, minha amiga... São os Akumas, eles estão atacando de novo. — Fleur explicou em voz baixa rapidamente e se afastou de Nia com um abraço. — Reúna as meninas e tentem encontrar um lugar seguro lá embaixo. Em hipótese alguma se aproximem das janelas, ok?

– Mas, Fleur, ir lá fora é perigoso! — Nia fez menção de correr atrás dela, mas Fleur se virou com um sorriso tão meigo no rosto que a deixou rubra no mesmo instante.

– Não tem importância. Se chegarem até aqui, todas vocês correrão risco e eu não quero isso. Eu sei me cuidar, lembra? Volto assim que der um fim nessa bagunça, eu prometo. – disse Fleur em tom de quem consola.

Antes, porém, dela alcançar a porta dos fundos, Edmond começou a gargalhar, batendo palmas e recostando na pia com um ar debochado.

– Nosso anjinho protetor... Tão preocupado com a nossa segurança, pronto pra se arriscar por nós. — Fleur não esboçou reação às palavras do homem, então este prosseguiu. — Quisera eu que pudesse se arriscar na minha cama também.

Fleur hesitou por um instante, com a mão pressionando a maçaneta.

– … Essa é justamente a única coisa que você pode fazer, não é, Edmond? Querer. – e, sem sequer ver o sorriso do segurança transformar-se numa dura linha, Fleur se esgueirou pela porta.

Do lado de fora, a poeira que se levantara incapacitava a visão de qualquer um. Mas, mais que isso, queimava os olhos, as narinas e os pulmões, de tão densa. Fleur tossiu ao sair pelos fundos do bordel, vendo-se num beco estreito e mal iluminado. Protegeu o nariz e a boca com o dorso de uma das mãos, tentando respirar. Concluiu que, se a poeira chegara até aquele ponto mais afastado, com certeza o foco da explosão estaria um verdadeiro caos. Precisava dispersar aquela poeira – do contrário, não seria capaz de lutar.

Talvez conseguisse fazer isso acionando sua Innocence, pensou. Dois ou três golpes seriam o suficiente para limpar a visão da área.

– … Angel. – Fleur sussurrou assim que pôs os pés para fora do beco.

Em resposta a seu chamado, as asas da jovem instantaneamente dobraram de tamanho e se iluminaram por um tênue brilho dourado. O mesmo aconteceu com seus olhos, que, de saídos de um azul cristalino, tornaram-se puramente brilhantes. Seus longos cabelos loiros e seu vestido branco aberto nas costas esvoaçaram quando ela levantou vôo num único impulso.

~~~

Seguindo apressado pelos trilhos que ligavam a cidade italiana de Ventimiglia à cidade francesa de Menton – onde se encontrava seu “alvo” -, Kanda era guiado até o túnel que dividia as duas cidades, a reta final do percurso. Levou vinte e três minutos, como previra, para encarar o novo ambiente com seu golem comunicador sobrevoando sua cabeça. Menton se abria diante de seus olhos de forma ampla, mas ao mesmo tempo modesta.

O que o rapaz reparou primeiro foi na vasta praia de areia cinzenta — que mais se parecia com terra batida – e repleta de cascalhos da mesma cor, que se estendia por toda a extremidade da cidade à sua esquerda. Apesar da aparência pouco paradisíaca, o mar que avançava e recuava tranqüilamente sobre a areia era de um intenso e límpido azul. Este refletia graciosamente os raios de sol e um céu quase sem nuvens. Cercando alguns pontos da praia, havia um gigantesco porto, com as mais variadas embarcações atracadas.

Porém, o olhar estreito de Kanda não se deteve por muito tempo na paisagem.

Como se esperasse apenas pelo surgimento do exorcista para ser ativada, uma chuva de projéteis negros voou em sua direção, forçando-o a recuar com um salto e sacar sua Mugen.

Kanda alisou a lâmina negra da katana com os dedos indicador e médio da mão esquerda. Conforme a pele tocava o metal, a cor da lâmina ia se alterando lentamente do preto para o prateado.

– Ichigen! Kaichu!! — uniu um movimento no outro, mirando os três Akumas de nível um, e golpeou horizontalmente o ar, de forma que seus Vermes do Limbo atingiram os alvos de uma só vez.

O fio do corte produziu uma espessa aura prateada em pleno ar, que imediatamente se deformou como se ele tivesse atirado um balde de tinta sobre uma superfície sólida. Tão instantaneamente quanto se deformara, a aura tomou a forma de uma porção de criaturas semelhantes a uma grande colméia, pontilhada de vermelho em toda sua extensão. Mostrando presas afiadas, os Vermes do Limbo avançaram contra os Akumas, abocanhando alguns e atravessando outros com suas protuberâncias externas.

Os Akumas foram exterminados no mesmo instante, mas Kanda se viu obrigado a desviar de mais e mais projéteis. Estava cercado por, pelo menos, mais quinze Akumas de nível um. “Tsc, de onde estão vindo tantos Akumas?!” Kanda se perguntou, irritado, tendo pouquíssimo tempo de traçar um plano.

Agiu por instinto, desviando sem problemas dos excessivos ataques, e voltou a atacar. Conforme destruía um por um, mais dois ou três surgiam por detrás dos edifícios ou vindos da própria praia de cascalhos. Kanda levaria alguns minutos até acabar com todos aqueles Akumas, por mais que quisesse terminar logo o serviço.

~~~

Quando Fleur ganhou altura o bastante, parou acima da massa cinzenta para avaliar a situação. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi um conjunto de edifícios em pedaços, muito próximos dali. O pouco que restara deles, parcialmente encoberto pela poeira, estava em chamas.

Menton, apesar de não ser uma cidade grande, era constituída de diversos prédios, colados uns aos outros. Ainda assim, era uma cidade que equilibrava muito bem o ambiente urbano com o rural; com exceção da área comercial, todas as ruas eram arborizadas, de modo que um incêndio se alastraria pela grama e árvores com muito mais rapidez que do que aconteceria numa urbe tradicional, erguida sobre concreto puro. Enquanto isso, a gritaria desesperada e desordenada servia de trilha sonora à catástrofe.

Fleur logo se pôs a pensar nas pessoas que deviam estar no meio dos escombros e do fogo, franzindo as sobrancelhas, penalizada. Caso os Akumas realmente estivessem ali somente para caçar a jovem, como Mme. Collet dissera mais cedo, a culpa de envolver pessoas inocentes a consumiria. Porém, Fleur não se permitiria perder mais tempo se lamentando – ainda que estivesse à beira das lágrimas -; tinha que destruir os Akumas o mais rápido possível.

Já não importava mais se ela estava em evidência ali no alto. Qualquer um poderia vê-la claramente e isso até deixava a jovem receosa. Mas, ainda que fosse descoberta por algum cão da Ordem ou vista por qualquer outro aproveitador, Fleur decidiu deixar todos esses pensamentos de lado e batalhar. Nenhuma de suas opções era boa, de qualquer jeito.

Com um sonoro suspiro, Fleur sacudiu a cabeça e buscou se concentrar no que devia fazer. Em seguida, ergueu as mãos diante do corpo, como se estivesse se preparando para atirar uma flecha imaginária. Suas mãos se tornaram incandescentes como suas asas, da ponta dos dedos até os pulsos. O brilho dourado ficava mais denso a cada segundo, até tomar a forma de luvas curtas e delicadas, que possuíam em suas barras o que pareciam pequenas penas.

Fleur puxou a flecha invisível num gesto elegante enquanto mirava cuidadosamente no ponto em que a poeira mais se acumulava. Lentamente, um feixe de luz seguiu o movimento da mão que estava pronta para atirar, se reunindo até parecer tão sólido quanto uma flecha de verdade.

– Reminiscence.

A voz suave soprou o comando ao vento, disparando a flecha luminosa. Esta, por sua vez, traçou sua trajetória ao centro da poeira. A cada metro de distância que cobria, a flecha tornava-se maior e mais rápida, de maneira que a pressão exercida por ela repeliu uma parte considerável da nuvem cinza abaixo dela. Por onde a flecha passava, um rastro de miúdas partículas cintilantes era deixado para trás, caindo do céu como uma chuva de faíscas.

Fleur não precisou se preocupar se o golpe atingiria alguma pessoa ou não. Uma Innocence jamais feriria um humano comum. Apenas matéria negra – material maligno usado pelo Conde do Milênio para criar Akumas -, poderia ser destruída pelas habilidades da Innocence.

A loira lançou mais duas flechas em seguida.

Mas, sem esperar – e em resposta aos ataques do anjo -, um grande projétil escuro zuniu próximo a ela, assustando-a na hora. Foi quando a poeira finalmente se dissipou e Fleur pôde avistar quem atirara... ou o que.

Havia uma criatura enorme e redonda flutuando alguns metros abaixo de onde Fleur estava, próxima aos prédios brutalmente destruídos. Possuía elevações pelo corpo com crateras nas pontas, o que lhe dava a aparência de um balão com vários canhões sobressalentes.

Fleur reconheceu o Akuma de nível 1; era exatamente igual aos diversos outros que destruíra em segredo nas noites anteriores. Vinha em sua direção lentamente, flutuando, enquanto sua máscara inexpressiva lhe provocava arrepios. Então, uma das crateras do Akuma brilhou. Ao ver que ele preparava um novo ataque, a jovem forçou suas asas e mudou de direção.

Fleur voltou a atirar mais flechas, dessa vez direto na máscara do Akuma. Este, que era lento demais para desviar, fora atingido em cheio várias vezes. O estrago causado foi notável e ele explodiu, soltando seu gás venenoso, que se espalhou pelo local, formando uma nuvem fatal. Contudo, aquele havia sido apenas o início do problema. Outra explosão pegou Fleur desprevenida. E mais outra. E mais outra. Cada uma num ponto diferente de Menton, mas estranhamente próximas.

Quantos Akumas invadiram essa cidade...?” Fleur pensou, angustiada.

Ela seguiu a sudoeste de onde estava, em direção à Biblioteca Nacional, no centro de Menton.

~~~

Kanda ouviu as explosões seqüenciais, o que era um sinal claro de que precisava se apressar. Conseguira reduzir o exército de Akumas pela metade, porém não fora o suficiente para conseguir escapar daquele lugar. Era como se os Akumas fossem mandados aos montes de propósito para atrasá-lo.

O Conde não queria que a Ordem chegasse a tempo de salvar a cidade? Não, não podia tratar-se apenas da destruição de uma cidade litorânea francesa. O Conde não queria que Kanda se aproximasse do compatível daquela cidade. Não queria que Kanda chegasse a tempo de salvá-lo.

Amaldiçoando o Conde e seus Akumas, Kanda avançou. Não ia esperar que mais Akumas aparecessem naquela praia. Seguiria ao centro de Menton, foco das explosões, e se concentraria em eliminar os Akumas que aparecessem pelo caminho.

~~~

As flechas de Fleur reluziam a cada ataque, sempre que cruzavam com um ou outro Akuma. Ela encontrava-se, então, na praça central, mas tudo parecia estranhamente quieto. Os escombros da Biblioteca Nacional estavam espalhados pelos arredores, junto de mais alguns prédios em torno da praça. No entanto, a jovem não via vivalma sequer. Fosse correndo, fosse no chão, não havia ninguém naquele lugar.

Abismada, Fleur resolveu descer ao solo e verificar mais de perto.

Pousou delicadamente no gramado, olhando em volta de si à procura de quem quer que fosse, em vão. “Não é possível...” ela pensou, desconfiada. “Como centenas de pessoas desapareceriam assim, de repente?” Então escutou. Além do crepitar das chamas das explosões, algo como um zumbido demorado e constante se fez ouvir, cada vez mais alto. O som fez o sangue de Fleur gelar; no fundo ela sabia de onde vinha.

Não demorou para que o primeiro Akuma despontasse lentamente do alto de um edifício próximo. E então mais outro.... e mais outro. Cinco, dez, vinte e cinco, mais de cinqüenta. Fleur logo perdera a conta de quantos Akumas haviam acabado de encontrá-la. Nunca lutara com tantos ao mesmo tempo, será que daria conta? Precisava descobrir se não quisesse ser morta.

Com certa dificuldade, a jovem desviou da tempestade de tiros que avançou contra ela sem aviso e investiu contra quantos Akumas o número de suas flechas permitiu. Impulsionou-se ao céu novamente. O gás denso subiu conforme os Akumas explodiram, mas eram tantos que o ele não se dispersaria tão rapidamente quanto antes. Fleur precisava tomar cuidado para não mergulhar naquela nuvem arroxeada enquanto fugia da enxurrada de projéteis.

Contudo, eram Akumas demais para uma só garota. E logo Fleur começou a sentir o fôlego se esgotar. O primeiro descuido foi devido ao cansaço, quando não conseguiu desviar a tempo de um projétil que atingiu um edifício ao seu lado. Ela foi jogada longe pela pressão do ar, batendo com força em uma varanda destruída. Mais explosões aconteceram ao seu redor, enquanto ela caía no chão em meio ao gás tóxico. Escombros caíram sobre ela.

Fleur reagiu o mais rápido que conseguiu, mas isso apenas a salvou de ser morta instantaneamente. Erguendo uma das flechas para um enorme bloco de concreto que ia cair sobre ela, Fleur fez com que este se desfizesse o suficiente para reduzir os estragos em seu próprio corpo. Não conseguiu impedir, porém, que um dos pedaços batesse em sua cabeça, abrindo a pele na altura da sobrancelha.

Ficou atordoada assim que sentiu o impacto e a dor lancinante que invadiu sua testa. Mas o que mais a atordoou foi o gás que a envolvia, queimando seus pulmões, envenenando-os. Quase não conseguiu desviar, aos tropeços, de um novo projétil. Este a pegou na mesma armadilha, e Fleur foi lançada ao ar como uma boneca de pano velha.

Girando no ar, a jovem mal conseguiu se recobrar. Obrigou as asas a carregarem-na para o mais alto possível, afastando-se dos Akumas restantes. Seu vestido branco estava rasgado, expondo as áreas mais atingidas de seu corpo, como suas pernas e costelas. O sangue quente, que escapava em abundância do ferimento em sua sobrancelha esquerda, manchava seu rosto de vermelho e atrapalhava sua visão. Apesar de terem sido bastante reduzidos, os Akumas não haviam dado trégua.

A jovem arfava pesadamente, enquanto vislumbrava mais Akumas se aglomerando à sua volta. Começou a se convencer de que não sairia viva de lá.

– Preciso agüentar... só mais um pouco... – a jovem murmurou para si, preparando-se para um novo embate. Não podia continuar com aquilo. Matar os Akumas um por um, além de estar tomando o seu tempo, estava consumindo toda sua energia.

Fleur tocou a testa ferida, onde o sangue ainda escorria. A dor pulsava e se alastrava, mas ela tentou secar o sangue para enxergar melhor. Ela buscou calcular o número aproximado dos Akumas que a cercavam. Talvez pudesse usar mais força em um ataque poderoso o suficiente para varrer todos eles de uma só vez. Era a única esperança que tinha naquele momento, teria de arriscar.

– Já está mais do que na hora de terminar com essa história... – disse num só fôlego, a voz saindo como um sussurro.

Perdeu altitude aos poucos, sendo envolvida lentamente por um globo translúcido e dourado. O gás, lá embaixo, se afastou ao entrar em contato com a luz, não sendo capaz de penetrá-la. Fleur tocou o chão mais uma vez, com a mesma sutileza de antes. Os Akumas voltaram a circundá-la, cada vez mais próximos.

Fleur fechou os olhos, puxando o máximo de ar que seus pulmões lhe permitiam de uma só vez. Abaixo dela, um imenso círculo dourado se formou, com complexos símbolos e adornos partindo da extremidade até se encontrarem no centro, onde a jovem estava.

– Redemption Cycle.

À simples menção daquelas duas palavras, os adornos do círculo se ergueram do solo como lanças, a uma altura surpreendente. Todos os Akumas ao redor receberam o golpe em cheio, não conseguindo escapar graças à velocidade deste. Eles explodiram em mil pedaços, caindo em volta da jovem e soltando seu gás venenoso.

A jovem soltou o ar, e o globo se desfez em faíscas. Ela caiu de joelhos em meio ao gás, tapando o nariz e a boca enquanto tossia excessivamente. Estava tão exausta que era incapaz de manter ativada sua Innocence por mais tempo e era incapaz de sequer manter-se de pé.

Tentou não respirar o gás que feria seus pulmões e suas narinas, e irritava seus olhos e sua garganta. Contudo, não havia como não respirá-lo, pois estava ainda mais ofegante que antes. Sua visão começou a ficar turva e um zumbido alto em seus ouvidos sugeriu que estava a ponto de perder a consciência.

Ela sacudiu a cabeça a fim de manter-se lúcida, pois tinha que sair de perto daquele veneno, mesmo que este já estivesse se dispersando. Fez um tremendo esforço para conseguir levantar-se novamente e todo o lugar pareceu girar. Então, obstinadamente, arriscou o primeiro passo.

No entanto, a gravidade lhe superou e a puxou de volta ao chão.

O ferimento em sua cabeça já não sangrava tanto. A jovem pôs uma das mãos nele para avaliar os danos. Tudo que restava eram os cortes e o sangue, além da roupa em trapos e o mal-estar. Ao que parecia, a cidade fora finalmente deixada em paz.

Quando a jovem relaxou e fechou os olhos, porém, uma voz masculina repleta de malícia a alarmou.

– O que é isso? Vai descansar assim tão cedo, anjinho?

A jovem abriu os olhos de súbito, buscando a fonte daquela voz. Não levou muito tempo até ouvir passos pesados aproximando-se dela. Ela tentou se erguer, mas o máximo que conseguiu foi apoiar-se nos braços trêmulos de esforço. Era um homem alto e comum, um francês de cabelos castanhos e barba por fazer.

– Então alguns “Nível 1” são o suficiente para te deixar nesse estado? Tsc, tsc, tsc...– ele provocou, um sorriso de escárnio brotando em seu rosto. – E eu? Não tenho o direito de me divertir um pouco com você?

O homem parou ao lado da jovem e a chutou em um dos ombros para que voltasse a cair deitada. Ela soltou uma exclamação abafada, mas não teve como impedi-lo de forma alguma. Não conseguiu ver seu rosto com maiores detalhes, pois o homem parou contra a luz do sol, então ela voltou a fechar os olhos, incomodada com a claridade.

– P-por favor... Me deixe em paz... – ela pediu debilmente com a voz rouca.

O sorriso do homem tornou-se doentio.

– Que bonitinha, está pedindo “por favor”. – ele caçoou. – Mas, sabe... Eu não vim até aqui para voltar de mãos abanando. E o Conde é muito exigente, não posso voltar sem antes ter feito meu serviço...

Ele abaixou-se, tocando os cabelos sujos e desgrenhados da jovem suavemente até chegar em seu rosto, onde sua mão se demorou. O homem ficou a estudar cada centímetro do corpo dela; ver seu corpo descuidadamente exposto por aquelas roupas rasgadas o excitava.

– Você é uma menina linda. E, certamente, muito gentil e amável. É o tipo de garota que eu gosto... Huhuhu... – sussurrou de um jeito lúbrico que assombrou a jovem. Ela sabia exatamente o que ele pretendia fazer com ela; convivia de perto com aquele tipo de nojeira todos os dias.

A jovem afastou a mão do homem bruscamente, entre-abrindo os olhos.

– Vá embora... – ela balbuciou, mas tudo começou a escurecer, apesar da luz intensa que batia em sua face. – Quem é você, afinal?

O homem segurou os braços da jovem quando ela tentou resistir. Juntou seus pulsos um sobre o outro e os prendeu acima de sua cabeça com uma só mão. Fleur gritou, assustada.

– Ora, eu sou um Akuma. Mas não daquele tipinho retardado que estava te atacando agora a pouco. Eu tenho plena consciência de tudo que eu faço. Eu sou um “Nível 2”. – o homem explicou em meio aos gritos. – Shh, shh, shh.... Fique tranqüila... Vou te proporcionar alguma diversão antes de te matar. E nem vou precisar me transformar completamente, o que acha?

– M-me larga...!! – com o que restara de suas forças, a jovem retraiu um dos pés e o afundou no peito do Akuma. O impacto foi suficiente para fazer com que ele a largasse e caísse para trás, sentado.

Fleur tentou usar a distração para se levantar e correr, já que estava cansada e confusa demais para reativar sua Innocence. Porém, de nada adiantou. O Akuma era rápido e esperto, conseguiu derrubar Fleur assim que a mesma se virou. Seu rosto rubro deixou bem clara a raiva que sentia.

– Você.... Vou te fazer sofrer. Muito.

Com isso, agarrou os fartos cabelos da jovem e bateu com sua cabeça no solo. O ferimento abriu ainda mais, espirrando sangue na grama. Fleur desfaleceu na mesma hora.

~~~

A situação estava insustentável. Kanda fora obrigado a recuar diversas vezes graças ao número impossível de Akumas que apareciam sem parar. Para piorar, as ruas de Menton eram completamente confusas e ramificadas. Toda vez que se enfiava em um beco para contra-atacar, acabava mais distante do seu objetivo. A brincadeira estava começando a ficar cansativa.

Sua única referência do alvo que queria alcançar eram as explosões que ouvira ao longe. Mesmo assim, estava levando tempo demais para chegar ao centro. Nem sua velocidade, sua força ou sua resistência, estavam ajudando. Parecia que os Akumas não iam parar de brotar nunca.

Até que algo anormal aconteceu. Os Akumas que o estavam atacando pararam repentinamente de atirar seu projéteis. Pararam e mudaram de direção, todos ao mesmo tempo. Kanda também parou, levemente ofegante e sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. Saltou por cima de uma casa e, de lá, saltou para o alto de um prédio próximo. Observou os Akumas por um instante; algo estava errado.

Estão indo até o compatível...?” Kanda indagou, de sobrancelhas unidas. Se fosse o caso, os Akumas o levariam até quem ele procurava.

Kanda os seguiu, saltando de um telhado a outro. Os Akumas sequer notaram sua presença; o ignoravam completamente. O rapaz apertou o passo, exterminando os Akumas pelos quais passava., mas, de repente, perdeu a concentração.

Um clarão, bem mais à frente, foi tudo que ele conseguiu ver. Um clarão dourado e poderoso, e depois disso, mais nenhum Akuma estava à vista. A fumaça roxa dos Akumas subiu ameaçadora.

– O compatível... — e Kanda forçou as próprias pernas a trabalharem, correndo o máximo que podia.

Não levou muito tempo para chegar ao local, mas o gás não o deixava ver nada, mesmo do alto. Esperou que a fumaça tóxica se dispersasse um pouco, apertando os olhos na tentativa de entrever alguma coisa. Após alguns segundos, pôde enxergar um movimento no gramado da praça central. Havia duas pessoas. Uma delas, caída, indefesa. Uma delas...

– … O quê? — Kanda sussurrou, sem notar que deixara os braços caírem ao redor do corpo.

Quando finalmente pôde ver o que acontecia na praça central, Kanda sentiu o corpo ser tomado por um estranho mal estar, como se tudo ao redor começasse a girar. A garota no chão... era como se mais um de seus devaneios estivesse lhe pregando uma peça. Kanda congelou, incapaz de respirar ou de tirar os olhos da cena. Reconhecia aqueles cabelos, aquela expressão, mas principalmente, aquelas asas. E não acreditava no que seus olhos viam.

O que o fez acordar do próprio torpor fora a voz. Os gritos assustados daquela menina rasgaram qualquer dúvida e fizeram com que o sangue voltasse a pulsar em suas veias.

– Fleur....

Kanda sentiu uma raiva insana tomar conta de si, enquanto se pegava assistindo ao Akuma de nível 2 maltratar a compatível que viera salvar, a menina que tanto amara nove anos antes. Preparando sua Mugen mais uma vez, Kanda investiu sem pensar, a tempo de acertar o Akuma na boca do estômago com o joelho e jogá-lo longe, um instante depois de ele ter agarrado e batido a cabeça de Fleur uma segunda vez contra o chão. Ofegante de ódio, Kanda pousou protetor entre a loira e o Akuma.

– Não vai encostar mais um dedo nela, maldito. Agora você é meu.

Notas finais
Pan pan pan~ É isso. O capítulo 3 já está em andamento, juro. Obrigada por lerem e até a próxima! :D