Angel

4 Capítulo 3 - O abismo entre eles


Notas iniciais
Olha só quem voltooooooooooou~ 8D Pois é, meus amores, eu demorei de novo... Eu realmente peço perdão por isso, pois sou muito enrolada com tarefas. Esse capítulo foi um pouco difícil de escrever eu eu travei algumas vezes nele. Espero do fundo do coração que gostem. Ele está bem recheado dessa vez, para os que amam um longo capítulo, então aproveitem! Obrigada a todos por terem lido até aqui, e por não terem desistido de mim. Amo vocês. Darky desliga.

Kanda observou o Akuma cair sobre uma pilha de escombros, levantando poeira para todos os lados. Se permitiu virar o rosto na direção de Fleur por apenas um breve instante, para avaliar os estragos feitos a ela. Mas a grande verdade era que Kanda precisava se certificar de que Fleur permanecia ali. Felizmente ela estava exatamente no mesmo lugar de antes, desacordada e ferida. No fundo de sua raiva e indignação, Kanda sentiu-se aliviado.

O som de pedaços de concreto batendo no chão varreu qualquer coisa da mente do espadachim, que se preparou para a batalha com seu semblante mais ameaçador. Virou-se de volta devagar, enquanto estudava o Akuma levantar. Apesar do doloroso golpe recebido e de apertar uma das mãos sobre a barriga, este trazia um debochado sorriso ao aproximar-se alguns passos.

– Não pensei que a Ordem enviaria um de seus bichinhos tão rápido a uma cidade como essa. Isso atrapalha meus planos. — o Akuma parou assim que terminou a frase.

– Tsc. Sejam quais forem as ordens que recebeu, não vai cumpri-las. — Kanda respondeu ríspido, a mão apertando o cabo de sua katana com força.

O sorriso do Akuma desapareceu aos poucos, dando lugar apenas ao desprezo.

– Latir desse jeito não vai te salvar, exorcista...

Dito isso, o Akuma começou a se transformar.

Kanda assistiu com repulsa quando a pele humana do Akuma começou a inchar e se deformar, como que feita de borracha derretida. O monstro foi mudando de cor lentamente até alcançar um cinza pálido e mortiço. Cresceu por pelo menos mais um metro, e o corpo voltou a modelar-se de forma sinistra. Os braços esticaram-se até os dedos – agora cheios de garras – roçarem no chão, e as pernas afinaram. Do dorso inchado e desnudo, uma enorme boca, cheia de dentes afiados, se abriu revelando uma língua desproporcional, que se desenrolou para fora pingando saliva. Por fim, a cabeça pequena que se equilibrava sobre o pescoço comprido trazia uma máscara vitoriana sem expressão.

Em cerca de meio minuto, o Akuma já estava em sua forma original. Sua única vestimenta sendo um colar de babados coloridos que carregava no pescoço – as cores intensas destoavam completamente do cinza doente. Kanda esboçou uma careta enquanto estalava a língua entre os dentes.

Ele não quis esperar mais, não tinha tempo de ser tão cauteloso – e nem cabeça para isso. O sangue corria descontrolado pelo seu corpo, e Kanda tinha pressa de tocar em Fleur. Por esse motivo, no instante seguinte, Kanda já havia preparado a Mugen, correndo na direção do Nível 2 sem esperar qualquer reação.

Contudo, algo estranho aconteceu justo quando a lâmina de Kanda estava a poucos centímetros de retalhar o Akuma de cima a baixo. Uma mudança na pressão do ar e foi como se Kanda tivesse sido atingido por um tufão. A ventania que se chocou com ele o jogou para trás, quase no mesmo local em que antes estava. Graças a seu bom eixo, foi capaz de recuperar o equilíbrio antes de fazer o pouso de emergência no chão. A franja bagunçou com a lufada repentina de vento, atrapalhando um pouco a visão. Kanda sacudiu a cabeça para tirar o cabelo dos olhos, indagando o que fora aquilo.

Sem ter sequer movido um músculo, o Akuma continuou agitando lentamente a língua de um lado para o outro. Como se não pudesse irritar Kanda ainda mais, começou a rir com desdém.

– O que foi, exorcista? — perguntou com uma voz gorgolejante, como se engasgasse cada palavra. — Você não ia me matar com essa espada? Hu hu hu hu... Pois vou te contar um segredinho: você não irá se aproximar de mim se eu não quiser.

Kanda ouviu calado, procurando analisar suas opções. Enquanto isso, o Akuma prosseguiu.

– Está vendo alguém por perto? Não, claro que não está... Mas isso é porque eu devorei todos que estavam nessa praça!

Um calafrio percorreu a espinha do espadachim.

– Hu hu, isso mesmo~ Suguei todos! Faz parte da minha habilidade: sugar e soprar as pessoas. Portanto, sou eu quem controla seus movimentos, exorcista!! — com o avanço de sua explicação, o Akuma pareceu se empolgar cada vez mais, a ponto de soltar uma terrível gargalhada.

Kanda sentiu a urgência de sair dali. Se continuasse entre Fleur e o Akuma, Kanda poria a vida da jovem ainda mais em risco. Com os olhos, traçou uma rota de fuga. Caso atraísse o Akuma para o lado oposto, talvez Fleur estivesse a salvo. Então aproveitando que o Akuma ainda se perdia em risos, o exorcista deu o primeiro passo.

Correu em disparada pela direita do Akuma com a Mugen diante de seu rosto. O monstro nem mesmo notou que aquilo era só um plano para afastá-lo da menina. Assim que se posicionou, quase às costas do Akuma, Kanda anunciou.

– Ichigen! Kaichu!!

Seus Vermes do Limbo investiram contra o Akuma, que interrompeu a gargalhada e se virou de chofre. Mais uma vez, o vento forte demais impossibilitou o golpe de ser efetivo o bastante. Porém, um dos Vermes foi capaz de atravessar a barreira e atingir o Akuma de raspão no ombro esquerdo, arrancando-lhe um pedaço. Com um ganido furioso, ele cambaleou dois passos para trás.

– Maldito! Maldito!! Eu vou matar você! Você e essa prostituta que veio salvar!!

Kanda enrubesceu de raiva instantaneamente.

– Do que foi que a chamou...? — perguntou com frieza.

Mas não houve tempo para respostas. Kanda sentiu-se ser arrastado por algo mais forte que ele, o Akuma estava puxando o ar, puxando-o para si. E para sua infelicidade, escapar não seria fácil. Firmar os pés no chão menos ainda.

Ao tentar um passo para trás, Kanda perdeu a estabilidade e vacilou. Seu corpo foi puxado com ainda mais velocidade ao cair de costas. Era a chance que o Akuma precisava. Este ergueu os braços, esperando ansiosamente que a presa caísse em suas garras e já podendo sentir a vitória próxima.

Mas Kanda jamais deixaria que um Nível 2 o derrotasse de maneira tão simplória.

Ele calculou o momento certo de atacar e quando já estava bem perto de ser pego, sorriu com arrogante triunfo.

– He. Akuma estúpido... Ichigen! Kaichu!!

Cego que estava de ódio, o Akuma não previu sua própria vulnerabilidade. Os Vermes do Limbo fizeram seu caminho sem qualquer bloqueio, mirando a enorme boca aberta e dilacerando o Akuma de dentro para fora. Ele urrou em sua morte, sem ter como se defender. Kanda, ainda no chão, já não era puxado e assistiu com prazer o inimigo ser destruído.

Em questão de segundos, o Akuma desapareceu, dando lugar a um pesado silêncio. Durara muito menos tempo do que Kanda achou que poderia durar, e se surpreendeu pela rapidez da batalha.

No entanto, ele logo voltou à realidade. Levantando-se num pulo, o rapaz buscou a menina loira com o olhar. Não teve coragem de correr até ela, pois ainda não acreditava em tamanha coincidência. Um passo de cada vez, contido, cauteloso. E a cada passo, pediu involuntariamente que aquilo não fosse uma armadilha – Kanda não conseguia mais raciocinar direito.

Parou diante do corpo virado de bruços, com o peito pesado e a respiração difícil. Ela parecia uma linda boneca de porcelana, frágil e angustiada num sono forçado. Kanda hesitou mais alguns segundos. Engoliu seco.

– Fleur... — conseguiu dizer num fio rouco de voz, sentiu os lábios tremerem.

Finalmente, ajoelhou-se ao lado dela, largando a Mugen próxima aos desgrenhados cabelos dourados. De repente, foi invadido por flashs do sonho que tivera mais cedo e tudo pareceu se encaixar como se aquele sonho tivesse sido um aviso, uma premonição. Nunca fora de acreditar nessas besteiras, mas daquela vez, sentiu-se tentado. Receou tocá-la, só que a urgência de sentir a pele macia em contato com seus dedos calejados falou mais alto.

Com a ponta dos dedos, afastou as mechas do rosto manchado de sangue já seco. Sua mão se demorou nas bochechas descoradas da jovem. O rosto era morno, real. Um nó se formou na garganta de Kanda. Ele a virou, constatando os danos feitos ao vestido branco e os pontos da pele alva à mostra. Não podia deixá-la descoberta daquele jeito.

Kanda desabotoou seu manto e o despiu com um movimento dos braços. Em seguida, o jogou por cima de Fleur com cuidado, não se importando com o próprio dorso nu. Então seus olhos pousaram no machucado feito na testa dela. Não era algo grave, não para ela, e o corte estava quase fechado.

“Os poderes de cura da Angel...” pensou em pura nostalgia. Funcionavam quase como o seu selo, mas não eram artificiais, nem tão pouco sujeitos a falha.

Kanda respirou fundo. Queria que ela acordasse logo, que o visse, que falasse com ele. Mas a jovem estava tão exausta... E não acordaria antes de o lugar começar a pulular de curiosos e autoridades. O exorcista teria que intervir.

Já que Angel demoraria muito para recuperar as energias e ferimentos de Fleur, Kanda decidiu acelerar o processo. Mordendo um dos polegares com força o suficiente para fazê-lo sangrar, ele o esfregou carinhosamente sobre o ferimento do anjo. O efeito foi instantâneo. Como se levasse um leve choque, Fleur arqueou as costas e o corte se fechou por completo. Fleur não se sentiria nova em folha com a pouca quantidade de sangue, mas poderia acordar agora sem muitos problemas.

– Fleur...? — Kanda chamou, sem conseguir deixar a voz firme como pretendia. Seu coração pulsava a mil, não podia evitar. — Vamos, acorda...

Levou um tempo para arrancar alguma reação dela, mas após alguns chamados e sutis sacudidelas, Fleur moveu-se incomodada. Kanda a ouviu murmurar, ainda entorpecida. E quando ela abriu os olhos, foi como voltar no tempo. Aquele azul brilhante e cristalino em nada mudara.

Confusa e sonolenta, a primeira coisa que Fleur encontrou foi o olhar perdido do exorcista. Aquela negritude melancólica e vazia... Já havia visto olhos negros como aqueles muitos anos atrás, olhos que ela amara com todas as suas forças. Sentiu uma profunda dor no peito ao se lembrar do pequeno companheiro de infância, franzindo as sobrancelhas sem acreditar no que via. Ela se sentou devagar, sem conseguir desviar o olhar sobre Kanda, e o manto escorregou em seu colo. Não se lembrava dos Akumas, da destruição, da batalha. Fleur apenas conseguia se concentrar no rapaz diante dela. Kanda, por sua vez, perdera a voz, esperando nervoso pelo que Fleur teria a dizer. Mas a loira parecia tão sem palavras quanto ele.

Os orbes azuis enfim se arriscaram a passear pelos cabelos — igualmente negros e brilhantes. Foram descendo, reconhecendo cada traço, seguindo o rabo-de-cavalo até o final. Até paralisarem no desenho localizado no peito de Kanda, próximo ao seu coração. Conhecia aquela tatuagem tão bem quanto os olhos que a encaravam.

Havia alguma coisa errada, aquilo não podia estar acontecendo. Pois Fleur sabia que aquele não podia ser o menino de nove anos atrás. O que acontecera a ele era algo que a assombrava ainda nos dias atuais. Jamais esqueceria a época que fora a mais escura e, ao mesmo tempo, mais feliz de sua vida. Com a mente ainda anuviada e os olhos ainda presos à tatuagem, Fleur estendeu uma das mãos na direção de Kanda. As pontas dos dedos tocaram o desenho, encontrando o peito firme. Ambos prenderam o ar ao mesmo tempo, sem notar.

Então Fleur encostou a palma da mão na tatuagem. O coração de Kanda batia tão forte e tão rápido ao toque que era como se a jovem pudesse segurá-lo a qualquer momento. Mesmo Fleur sentia o seu apertando a garganta.

– Isso é impossível... — sussurrou num francês impecável, à beira das lágrimas.

Kanda não entendeu. As poucas palavras aprendidas em francês no passado haviam sido esquecidas muitos anos antes. Ele levou a mão à de Fleur lentamente para não assustá-la e a segurou. Percebeu que ela enrijeceu o corpo, porém ela nada disse. Fleur apenas fechou os olhos, sem saber o que fazer ou dizer.

– Ei... — decidiu chamá-la. — Olha pra mim.

Ele falava inglês, Fleur entendeu perfeitamente. No entanto, algo nela mudou. Talvez a névoa em seus pensamentos estivesse se dispersando finalmente, trazendo assim, todas as lembranças de volta. Nada se encaixava. O que acontecera então ao Nível 2 que a atacou? Fora derrotado por aquele rapaz? Um estremecimento interior revirou seu estômago. Fleur abriu os olhos hesitante, afim de fazer as perguntas necessárias – por mais que isso viesse a estragar aquele breve e confuso sonho. Porém, aos abri-los, o manto negro em seu colo chamou sua atenção.

Com a mão livre, a jovem puxou o pesado tecido para cima, estudando-o curiosa. Ao erguê-lo, porém, constatou com terror do que se tratava. Kanda estranhou quando a expressão de Fleur tornou-se quase hostil ao encontrar a Rose Croix em seu manto. Estava prestes a perguntar qual era o problema, mas Fleur retraiu a mão com violência, fazendo com que Kanda a soltasse. Fleur levantou-se de um salto, afastando-se um passo do rapaz.

– A Ordem... — ela rosnou com rubor nas faces, sacudindo o manto na frente do rosto. Falou em inglês, apesar do forte sotaque. — A Ordem Negra! Você é da Ordem Negra! Você é um exorcista!!

Fleur se alterou conforme cuspiu as palavras, jogando o manto em cima de Kanda. Este pegou sua espada e se ergueu devagar, completamente perdido. Já Fleur entendia muito bem – ou pensava entender. Um truque da Ordem, óbvio. Aquilo tudo não passava de um truque para levá-la de volta. E Fleur quase se deixara cair na armadilha. Isso a fez ter raiva de sua ingenuidade.

– Vocês não vão me levar! Me recuso a pôr os pés naquele lugar imundo novamente!

Kanda franziu o cenho, perturbado. Jamais esperaria por uma reação daquele tipo, muito menos imaginaria que Fleur pudesse explodir daquela maneira. Quanto o tempo poderia tê-los afastado, quanto Fleur teria mudado? O exorcista sentiu-se fraco, impotente. Tinha a mais absoluta certeza de que a loira o havia reconhecido segundos atrás.

– Mas, Fleur... eu sou... — Kanda procurou falar, mas só pareceu piorar as coisas. Cada passo que ele dava na direção dela, era mais um que ela recuava.

– Você é só mais um exorcista! E eu não confio em você! Não acredito em nada do que diz, não chegue perto de mim!!! — Fleur gritou uma última vez, virando as costas para começar a correr.

Desesperado em vê-la fugir, Kanda encheu os pulmões de ar.

– EU SOU YU KANDA! — ele esbravejou, tão rubro quanto Fleur.

A voz que ressoou pela ampla praça fez a jovem parar de repente. O nome a pegara de surpresa. De costas para Kanda, Fleur cerrou os punhos e os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto sujo. Como não houve resposta, e Fleur parecia ter concedido um minuto de sua atenção ao rapaz, Kanda tornou a falar.

– Eu sou o Yu Kanda... de nove anos atrás. O Yu do Laboratório 6, projeto de Segundo Exorcista. — amansou a voz enquanto desabafava. — Não é possível que não se lembre mais de mim... Olhe bem pra mim, sou eu!

Fleur demorou a reagir. Hesitou incontáveis segundos antes de se mover mais uma vez. Mas quando se virou, o olhar era severo, quase enojado. Ela meneou a cabeça sem parar de fuzilar Kanda com os olhos, e ele sentiu-se péssimo por isso.

– Não ouse dizer o nome dele na minha frente... VOCÊ NÃO MERECE DIZER O NOME DELE, SEU MALDITO!!

Kanda ergueu as sobrancelhas, indignado.

– O quê?! Fleur, eu sou –!!

– YU ESTÁ MORTO! — Fleur bateu o pé com força no chão, fora de si. — MORTO, OUVIU?!! E FOI A ORDEM NEGRA QUEM O MATOU!! ELA O TIROU DE MIM!! E VOCÊ... VOCÊ É SÓ MAIS UMA MENTIRA INVENTADA PELA ORDEM!!

Foi a vez de Kanda paralisar. Fleur estava certa, a Ordem matara Kanda. O que ela não sabia, porém, era que ele havia retornado, acordando horas depois de ter sido desligado. Ele não podia culpá-la por não acreditar...

– N-não.... Não, não, Fleur... Eu estou vivo, eu voltei! Precisa me ouvir, eu posso te explicar tudo! — ele tentou uma última vez, pondo-se a correr até ela para impedi-la. — Por favor, não vá! Fleur!

Só que Fleur já não ouvia. A dor, a raiva e a frustração a incapacitaram de permanecer ali. Ela não conseguia ouvir mais nada que viesse dele. E por esse motivo, antes que Kanda a alcançasse, Fleur se impulsionou ao ar e levantou vôo com o que restava da energia de sua Innocence.

– Não, Fleur! FLEUR!! — de nada adiantou gritar ou correr, pois Kanda sabia que perdera sua chance. Fleur não estava mais à vista quando ele conseguiu subir no edifício mais próximo.

Pôs-se a correr na direção que Fleur fora, pulando de prédio em prédio, telhado em telhado. Buscava-a com o olhar em cada beco e rua, porém Menton era um verdadeiro labirinto. Kanda estava ofegante, mas não pelo esforço. Era como perder Fleur outra vez, e ele não fazia idéia de como a encontraria. Contudo, Kanda jamais se deixaria desistir uma segunda vez.

Nem que tivesse de virar aquela cidade de cabeça para baixo, Kanda a encontraria. E a faria ouvi-lo.

De repente, uma voz que vinha de cima o surpreendeu. Era seu golem, que o rodeava insistente. O pequeno bichinho era programado para acompanhar o exorcista para onde quer que ele fosse, e executava várias tarefas. Entre elas — e principalmente — estava a função de se comunicar com outros membros da Ordem, como um rádio. Kanda o usava a tanto tempo que às vezes esquecia de sua existência.

– Sr. Kanda! Responda! — era o Finder que Kanda deixara logo que pulou do trem. — Os ataques parecem ter cessado, o senhor está me ouvindo?

Kanda bufou irritado, aquele Finder era lento demais. Claro, não era culpa dele, pois ele era apenas um humano comum. Mas Kanda não se importava com isso.

– Demorou demais para chegar. A batalha acabou, por hora. — o exorcista disparou. — Não podemos perder tempo, eu encontrei o tal compatível. E não é "o", é "a". Uma jovem, de cabelos loiros... e asas.

– Asas, senhor?! — o Finder perguntou do outro lado, incrédulo.

– Sim, asas! Como um anjo, seu idiota!! — Kanda esbravejou com completa impaciência. — Revire a cidade ao avesso se for preciso, mas a encontre!! Eu vou continuar na busca, reúna qualquer tipo de informação que puder conseguir e me avise assim que tiver uma pista.

– C-claro, senhor, imediamente! — disse o Finder envergonhado. — E o senhor descobriu seu nome?

Kanda hesitou num suspiro.

– ... Fleur. — e desligou.

~~~

Fleur corria pelos becos e passagens o máximo que suas pernas aguentavam. Depois de voar para longe do exorcista que dizia ser o Yu que ela conhecera, suas asas perderam a força e deixaram de sustentá-la no ar. Se viu obrigada a pousar e percorrer o resto do caminho a pé. Mas ela estava em prantos, soluçando e se chocando às coisas que os olhos turvos não deixavam enxergar direito.

Com o silêncio feito sobre a cidade, os curiosos começaram a abrir as janelas ou sair hesitantes de suas casas. Exclamavam surpresos e maravilhados quando viam Fleur passar por eles como um tufão. Alguns até tentaram segurá-la para se certificar de que ela era ou não um anjo de verdade. Porém Fleur não parou por nada, se desvencilhando de cada mão com fortes puxões e gritos desesperados.

Assustados, alguns se afastavam e desistiam, vencidos pela incredulidade. Outros simplesmente se agarravam à idéia de que Deus havia lhes enviado um anjo e que fora por aquele motivo que os ataques cessaram. Enquanto isso, Fleur só queria fugir. Fugir de tudo e de todos, esconder-se no canto mais remoto para nunca mais ter que encarar o mundo.

Os pensamentos estavam tão embolados na mente da jovem que ela achou poder explodir a qualquer momento. A sensação de familiaridade e nostalgia com aquele rapaz. A frustração por saber que ele era falso. A dor por saber que seu amado Yu jamais voltaria. Até mesmo o assédio cego daquelas pessoas, e Mme. Collet que não pensava em outra coisa que não fosse vendê-la a qualquer um.

Fleur sentiu vontade de desaparecer como havia muito não sentia. Era como voltar aos seus dias mais obscuros, de maneira ainda mais intensa. A fuga incessante e desesperada a fez cair em um beco sem saída, onde homens e mulheres exaltados a encurralaram.

– Um anjo! Um anjo de verdade! — gritaram alguns.

– Veio para a nossa salvação! É o juízo final! — gritaram outros.

– Não!! É um milagre!!!

Não pouparam esforços para tocar naquele ser divino e aterrorizado. E se aglomeravam uns nos outros, fechando todo o beco. Fleur se encolheu contra o muro, sem conseguir falar de tão ofegante. Porém as pessoas se aproximaram demais, tocando-a e puxando-a pelos braços, cabelos e asas. Fleur tentou gritar, a estavam machucando.

Era como falar com um monte de lunáticos. As vozes agitadas se atropelavam umas nas outras, assim como as pessoas e Fleur não era capaz de se fazer ouvir.

Ar. Precisava urgentemente de ar.

Prevendo o perigo que a compatível corria, Angel agiu por conta própria, se manifestando numa explosão de luz que fez todos se afastarem com gritos e mãos nos olhos. Fleur precisou de menos de um segundo para se recompor. Olhou em volta, para as pessoas momentaneamente cegas, e ergueu-se de um pulo para voltar a correr. Era sua chance de escapar.

Faltava muito pouco para chegar ao bordel, Fleur só precisava forçar as pernas por mais uma ou duas ruelas. O final do caminho não poderia parecer tão tortuoso, porém a menina enfim avistou o beco certo. Aos tropeços atrapalhados, Fleur se enfiou no beco. Ainda podia ouvir as vozes por perto, mas conseguira despistá-las de forma que não souberam dizer para onde o anjo havia ido.

Mais alguns passos, a mão trêmula na maçaneta, a porta se abrindo com violência, Fleur caindo de joelhos no piso frio de pedra. Para sua surpresa — e infelicidade -, aguardavam por seu retorno na cozinha. Sem que a deixassem respirar aliviada, mãos fortes a seguraram pelos braços e a puxaram para cima, fazendo-a ficar de pé. A respiração de Fleur ainda estava pesada, e os olhos, turvos. Mas pôde ver muito bem Mme. Collet diante dela com seu falso ar preocupado. Não teve vontade de saber quem a sustentava para não voltar a cair.

– Pois veja só o trapo que você virou! — ela soltou, Fleur tinha certeza de que quase podia ver um sorriso. — A cidade se tornou uma completa bagunça! Mas, ora essa, você nos salvou mesmo...

– Mme.... — a jovem loira suspirou, derrotada. Mesmo depois de tudo que teve de passar, era como se Fleur nada tivesse feito. Mme. Collet não se importava de verdade com seu estado.

– Shh... Minha querida, não precisa se esforçar mais. — Mme. Collet ergueu o rosto de Fleur pelo queixo. — Afinal, temos uma longa noite pela frente. Ainda há muitos preparativos a fazer.

Fleur cerrou os olhos. Suas lágrimas haviam secado logo depois de fugir dos fanáticos, e ela se sentia tão exausta naquele instante que não possuía força nem mesmo para voltar a chorar. Queria desaparecer, apenas desaparecer.

– Nia!! Venha já aqui! — o grito rude a sobressaltou, arrancando-a de seus lamentos interiores. A mulher de cabelos cheios apareceu de imediato, como se esperasse ser chamada a qualquer momento. Ela correu para Fleur e em meio a uma exclamação de horror, avaliou seu estado. Mme. Collet se afastou das duas, como se tivesse nojo. — Prepare a água para a garota, e ajude-a a se lavar. Ela poderá descansar quando acabar, precisa estar inteira para o leilão. Louis, carregue-a até o quarto de banho.

Então era Louis quem a tinha nos braços, Fleur pensou anuveada. Menos mal. Louis era outro segurança do bordel, mas era do tipo calado e frio. Não se envolvia com nenhuma das mulheres e mal se dirigia a elas. Fleur ouvia as moças cochicharem de vez em quando, elas o chamavam de "A Parede". Tratava-se de um homem jovem, com uma expressão em branco. Cabelos catanho-claros, face lisa, pele branca e olhar carrancudo, de um cinza esverdeado. Era alto sim, como uma parede, mas Fleur tinha certeza de que o chamavam assim pela postura.

O segurança assentiu para a Mme. e começou a levar o anjo para fora da cozinha. Não esperava Fleur firmar os pés lentos, o que a fez ser arrastada pelo velho casarão. Nia acompanhava ao lado dos dois, nervosa. Com palavras suaves e sinceras, buscou tranquilizar a loira.

– Vou cuidar de você, vai ficar tudo bem agora....

Fleur quis dizer que não iria. Que o dia havia sido um desastre desde a primeira hora até agora e que o pior ainda estava por vir. Quis contar sobre o que havia ocorrido na batalha, que fora salva por um exorcista. Que fora encontrada pela Ordem. Mas tudo aquilo lhe proporcionava tanto desânimo que não encontrou voz para falar. Preferiu não responder e se trancar com seu silêncio.

Quando chegaram ao banheiro, Nia pegou Fleur das mãos de Louis e fechou a porta, sentando-a no chão.

– Só espere mais um pouquinho, ok? Está ferida? — Nia tocou onde havia sangue seco delicadamente. Fleur meneou a cabeça devagar e Nia a deixou, apressando-se para ligar a água. Todos sabiam que as asas da menina não eram apenas anomalias genéticas. Tinham ciência de seus poderes e habilidades especiais. Mas mesmo que Fleur pudesse se recuperar sozinha, Nia se preocupava.

Aos olhos de Nia, Fleur era um anjo de verdade. Um ser divino que conseguira trazer um pouco de luz à sua vida dura. Fazia o que estava a seu alcance para defendê-la ou protegê-la, mas muitas vezes não conseguia ajudar como queria. Nia amava Fleur, e podia dizer com certeza que ela era a única coisa que lhe era preciosa naquele mundo. As duas se tornaram boas amigas desde o dia da chegada de Fleur ao bordel.

Nia sempre ouvia histórias de como Fleur chegara àquele lugar, sabia de todos os medos e pesares da jovem amiga. Era a única que a conhecia de verdade, até o mais oculto segredo. Por essa razão, a falta de palavras de Fleur lhe preocupou. Poderia ser só o cansaço, ou o maldito leilão que a estivesse abatendo. No entanto, Nia sentia que poderia ser outra coisa.

– Ouvimos as explosões. — ela começou. — Havia muitos lá fora, não é...? Ainda bem que voltou segura para casa.

Nia esperava conseguir alguma dica do que Fleur poderia estar pensando. Olhou por cima dos ombros, enquanto enchia a banheira e a viu abraçar as pernas com um olhar perdido. Nia soube que a loira escondia algo, de fato.

– Fleur... minha querida... — Nia se aproximou devagar e abaixou-se em frente a ela. Passou as mãos nos cabelos claros emaranhados, um movimento completamente gentil e carinhoso. — Há muitas coisas nessa sua cabecinha agora... Não quer dividi-las?

Fleur ponderou por um longo minuto se falava ou não, tratando-se de Nia, ela não sossegaria até saber. A morena esperou pacientemente.

– ... A Ordem Negra me encontrou. Mandaram um exorcista igual a ele. — a voz era tão baixa e triste que Nia precisou se esforçar para ouvir. — Pensaram que poderiam me confundir... mas eu sei que não passa de um truque.

Nia sabia muito bem de quem Fleur estava falando. Sentia o peito apertar, portanto.

– O menino....?

Fleur assentiu devagar.

– Está mais alto, mais velho. Me chamou pelo nome. Mas não era ele. Não tem como ser ele.... não tem, né...? — e escondeu o rosto, confusa demais para dar qualquer certeza a sua voz. Bem que ela gostaria que ele fosse real, isso estava claro. Porém Nia nada podia fazer com relação a isso. Sem pedir permissão, deu um abraço apertado na companheira.

– Acalme esse coração... Deixá-la confusa é tudo o que a Ordem mais quer. E você já tem problemas demais aqui para ficar se incomodando com aqueles miseráveis. — Nia disse, comedida. — Venha, vamos tirar a sujeira desse corpo. Você precisa dormir um pouco antes de começarmos a te arrumar...

Fleur permitiu ser ajudada e encaminhada à banheira cheia. Sabia que não devia pensar, mas também sabia que não conseguiria deixar aqueles olhos negros de lado.

~~~

As horas passaram devagar. Devagar demais para Kanda, que procurou em toda a cidade até anoitecer.

Esteve a ponto de encontrá-la poucos minutos após ter desaparecido nos becos, mas perdera seu rastro mais uma vez. Vira os poderes de Angel se manifestarem a alguns metros dali e se pôs a correr feito louco. Porém não encontrou mais do que um bando de civis confusos ao chegar. Interrogou poucas pessoas, tentando descobrir para onde Fleur fora. Não respondiam nada que fizesse sentido ao rapaz, e ele já estava impaciente o suficiente.

Viram e tocaram no anjo, mas não conseguiram ver para onde fugira. De qualquer forma, Kanda não entendia uma palavra de frânces e precisou recorrer ao Finder. Ele voltou para os telhados e contactou o homem. A cada minuto mais irritado, Kanda mandou o Finder investigar por aquela área o máximo que desse. Na cidade, os focos das explosões já contavam com autoridades e ajuda médica, para resolver a confusão e salvar os feridos. Kanda voltou a correr e assim foi pelo resto do dia, sem o menor sucesso.

O Finder investigou o local onde Kanda estivera. Descobriu coisas interessantes, mas que ainda não eram suficientes para precisar o paradeiro da compatível. Na esperança de que o anjo saísse de sua toca, o Finder permaneceu naquela região, rondando e observando, procurando qualquer movimento suspeito. Tentou entrar em contato com os outros dois Finders que foram à cidade antes dele, mas nenhum dos dois respondia. Logo assumiu que poderiam estar mortos.

Nada encontrou até anoitecer, nem nos becos, nem na rua principal. Decidira procurar um lugar onde pudessem passar a noite, e já contactava Kanda para tentar persuadi-lo — por mais que tivesse certeza de não ser capaz disso. Contudo, antes mesmo de completar a conexão, o Finder ouviu algo que o fez parar no meio da rua. Ao prestar mais atenção, se viu diante de um edifício que não era muito alto, mas parecia bastante largo. Não possuía qualquer janela no primeiro andar, e apenas uma porta comum acusava sua entrada.

O lugar lhe parecera suspeito durante o dia, e ao perguntar a alguns moradores, descobriu que se tratava de um famoso bordel da região. De forma alguma o Finder ligaria um anjo a um lugar pecaminoso como aquele, então simplesmente ignorou sua existência. Mas o que ouviu viera de lá, onde duas moças exibiam boa parte de suas peles sem o menor pudor. Uma possuía o cabelo alaranjado, liso e comprido, e o rosto e ombros pintados de sardas. A outra tinha cabelos cheios e castanhos, e um quadril volumoso. Elas entregavam folhetos aos homens que passavam pela porta do bordel, fazendo propaganda sobre alguma atração. A ruiva parecia contente com o trabalho, mas a morena não estava em seu melhor humor.

– O senhor não está interessado em entrar? Teremos uma atração especial hoje. — dizia a ruiva, com uma voz tentadora. — Uma linda jovem, um verdadeiro anjo! O senhor gostaria de conhecer um anjo? Estaremos leiloando um hoje mesmo! O senhor é bem-vindo para assistir, se quiser.

O homem que estava passando não ficou para escutar o resto, e seguiu apressado pela calçada. O Finder, por outro lado, ficou em dúvida. Estaria falando apenas figurativamente? Resolveu arriscar, àquela altura, não tinha nada a perder. Aproximou-se das jovens, que o encararam.

– Olá! Gostaria de participar do nosso leilão especial? — perguntou a ruiva enquanto a morena ia entregar um folheto mecanicamente.

– Na verdade... — começou ele, um pouco constrangido por conversar com as duas. — Ouvi você falar sobre um "anjo". Não estaria falando de um anjo de verdade, com asas e tudo, não é?

A morena o encarou desconfiada na mesma hora, a roupa do Finder lhe fizera algum sentido. Mas a outra abriu um largo sorriso.

– É claro que estamos falando de um anjo de verdade! Se está duvidando, pode entrar e ver por si... — respondeu a ruiva sorridente.

– O senhor não pode entrar. — mas a morena a interrompeu, falando pela primeira vez com sua voz fria. Ela cruzou os braços e prosseguiu. — Ninguém da Ordem Negra é permitido nesse estabelecimento. Não há nada aqui para o senhor.

– Ordem Negra...? — e a ruiva prestou melhor atenção no símbolo do sobretudo do Finder. De olhos arregalados e lábios duros, a garota tornou-se completamente hostil. Com um empurrão, fez o Finder recuar. — Você não é bem vindo! Saia daqui antes que eu chame o segurança!

– Saia de Menton, vocês só trazem problemas à nossa cidade.

Confuso, o Finder não quis discutir. Baixou o rosto, desculpou-se e correu para o beco mais próximo. Ele tinha certeza de que a compatível estaria ali, aquilo não podia ser mera coincidência. Ao se ver sozinho no beco escuro, ele tentou contactar o exorcista novamente. Começou a chamá-lo feito louco.

– Senhor Kanda! Eu a encontrei! A compatível, eu a encontrei! O senhor precisa vir o mais rápido possível!

Não teve que esperar muito pela resposta.

– Onde você está? — Kanda perguntou num tom rouco. O Finder teve a impressão de que o rapaz tentava não mostrar o quanto estava auterado- só não fazia idéia da razão.

– No mesmo lugar de antes, senhor, mas precisei me retirar do local. É um bordel, senhor! A menina está lá dentro, mas não me deixaram entrar. Disseram que a Ordem não é bem vinda. Talvez estejam mantendo a compatível em cativeiro, talvez o Conde esteja por trás disso? Só sei que haverá um leilão, senhor Kanda. Vão leiloar a compatível essa noite!

Kanda, do outro lado da linha, corria de volta sem ter tempo de respirar. Ouvia atentamente, para saber se o Finder não estava se equivocando. Suas palavras lhe rasgaram como uma faca, porque fizeram muitas coisas se encaixarem naquele instante. Kanda apertou ainda mais o passo, chegando ao homem em pouco mais de cinco minutos. Algo lhe dizia que talvez Fleur não estivesse em cativeiro. Não como o Finder pensava.

– Qual é o lugar? — perguntou sem mesmo dar chance de ser cumprimentado.

O Finder descreveu o mais rápido que pôde, sentindo a pressa na voz de Kanda. Parou de falar assim que viu o rapaz tirar o manto da Ordem e lhe entregar.

– Procure um lugar próximo onde passar a noite, e leve isso com você.

– S-senhor Kanda, o senhor não pode entrar sozinho, não sabe falar francês! E o manto? Vai entrar sem...

– Chega! — Kanda ciciou perigosamente. — Você faz perguntas demais. Se a Ordem não é bem vinda, não vou deixar que descubram que sou um exorcista até que seja preciso. Não se preocupe com o manto, tenho idéia do que vou fazer. Agora vá! Entro em contato se tiver problemas.

E, mesmo receoso, o Finder obedeceu, sumindo das vistas de Kanda. Este, por sua vez, passou a mão no rosto sem ter um plano de verdade — apenas queria despistar o outro o quanto antes. Um aroma suave encheu suas narinas de repente, e Kanda fechou os olhos por instinto. Era doce, familiar. Uma voz baixa e distante o assustou, ecoando em sua cabeça.

– Yu.....

Kanda abriu os olhos no susto, arregalando-os em seguida. Era uma figura brilhante e baixinha, de cabelos dourados e sorriso bondoso. Uma ilusão. Uma ilusão de Fleur, abraçada a uma flor de lótus. O rapaz franziu o cenho, chateado.

– Já estou indo te buscar, sua boba... — sussurrou devagar, achando que o maior bobo de todos era ele, por falar com uma imagem que só ele podia ver. A criança não respondeu, mas apontou com uma das mãos para fora do beco. Kanda não entendeu de imediato. No entanto, ao olhar na direção indicada, viu para onde a pequena Fleur apontara.

Um homem de bigode, muito bem vestido, e ar nobre, caminhando na direção de duas jovens moças no fim da ruela — que eram as prostitutas de que o Finder falara. Elas sorriram para ele, e pegaram um pequeno cartão que ele as ofereceu. Uma delas, a ruiva, logo tratou de mostrar o caminho ao homem, que sumiu pela porta atrás delas rapidamente.

Kanda virou-se de volta para o anjinho, mas tudo que restara dele fora a flor de lótus que segurava, agora descansada no chão. Sentiu-se levemente decepcionado, porém uma idéia lhe veio à mente. Talvez aquele homem fosse um convidado especial. Se haveria realmente um leilão, mais convidados especiais estariam por vir, e essa era a deixa de Kanda. O exorcista esperou um pouco, por mais que estivesse tomado de ansiedade. Lamentava não poder chutar aquela porta e arrancar Fleur dali de dentro. Se quisesse fazê-la ouvi-lo, precisava de uma chance sozinho com ela. Se Kanda causasse alguma confusão no bordel, com certeza perderia sua chance. Fleur fugiria novamente.

O tempo parecia não passar para o rapaz, e a rua permanecia quieta. Quanto mais tentava manter a calma, mais nervoso Kanda ficava. Pelo menos uns trinta minutos se arrastaram até que Kanda vislumbrasse o que ele queria: um homem, na casa dos quarenta anos, com um casaco longo e luxuoso de uma cor escura que não conseguia identificar longe da luz, e uma cartola alta sobre a cabeça. Ele vinha a passos lentos, porém bastante confiantes, batendo uma espécie de cajado adornado de pedras preciosas no chão, conforme andava. Era o tipo pomposo demais, e Kanda odiava aquele tipo de gente.

Kanda se preparou como um felino se prepara para atacar a presa. Em silêncio, esperou pacientemente que o homem passasse pela entrada do beco e, antes que este entrasse no campo de visão das mulheres no bordel, pulou às costas dele já com a mão tapando-lhe a boca. Assustado, o homem tentou se debater, deixando cair o seu cajado e a cartola, mas Kanda o segurou com firmeza, puxando-o para o beco em velocidade sobrehumana. O exorcista precisou de apenas um golpe em sua cabeça para desacordá-lo.

Ao depositar o homem no chão sem nenhuma delicadeza, Kanda pôs-se a remexer suas roupas. Encontrou charutos, isqueiro, uma carteira com uma quantia considerável de dinheiro, mas nada de cartão, carta, convite, ou nada que o ligasse àquele bordel. Kanda estalou a língua nos dentes, endireitando a postura e dando um chute leve — porém frustrado — no homem caído. Talvez ele não fosse um convidado, ou talvez aquela história de convidado fosse apenas uma teoria equivocada do rapaz. Contudo, não desmaiara aquele homem em vão. Era um homem bem rico, não havia dúvidas disso. Portanto, haveria de ajudar em alguma coisa.

Kanda respirou fundo e se apressou, precisava pegar emprestadas as roupas do sujeito e tentar a sorte. Despiu-lhe o casaco, a blusa social por baixo e o deixou apenas de calças — tirando-lhe até mesmo os acessórios de ouro. Em seguida, se vestiu com o que coletou, sentindo completamente estúpido com aquele vestuário tão extravagante. Tratou de esconder sua Innocence por dentro do casaco, amarrada no cinto, e o golem voador dentro de um dos bolsos internos. Olhou em volta para ver se não esquecera nada e encontrou a cartola caída junto do cajado mais a frente. Kanda bufou e levou as mãos aos cabelos, puxando o prendedor para deixar o rabo-de-cavalo mais baixo. Só então pegou os objetos restantes.

Dado o passo para fora do beco, Kanda repassou mentalmente o que deveria fazer. Não tinha como traçar um plano real, já que sabia que a maior parte era improviso, mas já buscar possibilidades o deixava mais tranqüilo. Imitou um pouco o jeito de andar do homem que assaltara e caminhou na direção das mulheres num semblante sério. De volta à luz, conseguiu ver que a cor do casaco era de um cinza bem escuro. Quando elas vieram falar com ele, Kanda ergueu uma das mãos e as fez parar.

– Me tragam alguém que fale inglês. — disse simplesmente, como se soubesse exatamente com quem estava falando ou o que estava fazendo. Ambas se entreolharam confusas, mas a morena logo assentiu à ruiva com a cabeça. A ruiva correu para dentro, apressada, enquanto a outra gesticulava para Kanda aguardar um instante. As duas conseguiam identificar a língua, no entanto não sabiam falar uma palavra sequer.

Nia se sentia constrangida sob o olhar impassível daquele estranho rapaz, sem ter idéia de quem ele poderia ser. O silêncio pesado a fazia sentir-se desconfortável, mesmo que ela preferisse não ter que dizer nada. Kanda, por sua vez, apenas prestava atenção nas reações da jovem mulher. Não parecia hostil, pelo contrário. Talvez o pequeno plano de Kanda estivesse começando bem. Não demorou muito para que a ruiva voltasse na companhia de uma mulher loira, um pouco mais velha que as demais — mas nem por isso mais vestida. De maquiagem pesada e seios quase saltando para fora corpete, a loira se adiantou.

– Boa noite, senhor. Pediu por uma intérprete? — ela perguntou com voz macia e sedutora, abrindo os lábios pintados de vermelho num sorriso cheio de malícia. Havia sotaque, mas não era tão carregado quanto o de Fleur, mais cedo. Kanda não imaginou que lhe arrumariam uma prostituta bilingüe. Na realidade, não imaginava que uma prostituta soubesse mais do que a língua nativa. Aquele era um bordel importante, ao que tudo indicava.

– É aqui que acontecerá o leilão, eu suponho. — Kanda respondeu com as duas mãos sobre o cajado. Internamente, toda aquela tralha o irritava. Porém, se precisava jogar o jogo deles... — Espero não ter chegado atrasado.

O sorriso da moça se abriu e ela meneou a cabeça com entusiasmo.

– Oh, claro que não! O senhor veio na hora perfeita, haha. É convidado de Mme. Collet, não? É uma pena ela não poder recebê-lo nesse momento, está ocupada preparando a atração. Sabe como é, né? Mas tudo bem, pois reservamos um lugar especial para o senhor. Venha por aqui, senhor....? — e sua expressão indicou que esperava ouvir o nome de Kanda.

Ele ainda estava guardando o nome da madame que devia ser a dona do lugar quando teve que improvisar pela primeira vez. Um nome, um nome. Pensar rápido, um nome.

– Sr. Wright. — foi o primeiro sobrenome que lhe veio à cabeça, o que lhe soou idiota, já que suas feições eram totalmente orientais. Esperou que a mulher aceitasse e apenas prosseguisse.

– Sr. Wright, é um enorme prazer. Pode me chamar de Roselia... ou Rose, se preferir. — mas o que Kanda realmente preferia era encontrar Fleur logo. Felizmente, a loira nada estranhara. — Enfim! É por aqui.

Roselia deu-lhe as costas e seguiu pela portinha. Kanda foi atrás, tomando cuidado para não mostrar toda a sua ansiedade. O corredor no qual se meteram era mal iluminado e comprido, podendo ver apenas uma escada encaracolada ao fim — onde um careca musculoso se prostava. Havia música lá dentro, um tanto abafada. Uma música alegre e dançante, num piano bem agitado. O som vinha de uma porta próxima à escada, à esquerda, que dava para um grande salão. Pela porta aberta, Kanda pôde ver outras mulheres, penduradas em homens não tão bem vestidos — ou seja, ricos. Alguns dançavam e riam, enquanto outros bebiam em mesas redondas espalhadas pelo local. No entanto, Roselia não entrou naquela porta. Ela parou diante do careca na escada e disse umas poucas palavras em francês. Kanda não entendeu o que ela dizia, mas algo no tom de voz dela se tornou desagradável. Ele quase se preocupou.

O careca sorriu e murmurou algo, erguendo uma das mãos para tocar o queixo da mulher. Ela afastou a mão dele com um tapa rápido, que intrigou Kanda, mesmo que este não demonstrasse. Porém isso deixou claro que o tom desagradável era por culpa do homem e não por algum problema. Com mais duas palavras, Roselia fez o careca sair da frente da escada e começou a subir, virando o rosto para o exorcista.

– Espero que o segundo andar seja do seu agrado, Sr. Wright. — ela sorriu mais uma vez, quase parecendo não ter se irritado segundos atrás. — É onde a alta classe fica, para maior conforto.

Kanda não respondeu, apenas continuou a subir as escadas até desembocar em outro corredor — dessa vez mais espaçoso e muito bem iluminado. Este novo corredor percorria o caminho inverso ao de baixo e possuía várias portas do lado direito, enquanto o outro lado possuía apenas uma. Todas estavam fechadas, mas só as da direita possuíam placas que indicavam se o cômodo estava ocupado ou não. Quando Roselia finalmente escolheu uma, na metade do corredor, Kanda descobriu que não se tratavam de cômodos, mas sim camarotes.

Num local mais alto como aquele, o rapaz podia agora ver o pequeno palco disposto no fundo do salão, com grandes cortinas de um vermelho desbotado pelo tempo, mas de glamour próprio. Sobre ele, um pianola¹ tocava sem a ajuda de ninguém — era de onde vinha a música. Já no camarote, havia um divã de estofado verde musgo e madeira escura próximo à sacada; uma mesa de centro pequena, feita do mesmo material; e uma bandeja contendo taças e uma garrafa de vinho tinto já aberto, em cima da mesa; por fim, um cabideiro alto, logo ao lado da porta.

– Fique à vontade, Sr. Wright. Gostaria que eu guardasse seu casaco e sua cartola? — Roselia perguntou, estendendo as mãos. Kanda apenas lhe entregou a cartola, pois o casaco escondia sua Mugen e seu golem. Roselia a pegou e pendurou no cabideiro. Em seguida, se encaminhou ao vinho e o serviu em duas taças. Ficou com uma delas e entregou a outra a Kanda, que agradeceu com um simples aceno de cabeça. — Por que não se senta? Logo o leilão irá começar.

Kanda tentou acalmar os ânimos. Até então, tudo correra bem. O que precisava fazer agora era agir normalmente e esperar a aparição de Fleur. O rapaz não sentou no divã, entretanto. Deu um longo gole na bebida e se aproximou da sacada. Depositando a taça no parapeito, ele se debruçou de leve, com os cotovelos apoiados no mármore. Tentou mostrar-se entretido com o que acontecia no primeiro andar. Se infiltrar não era com ele. Ainda mais em uma situação como aquela. De forma distraída, Kanda começou a mexer nas mãos e estalar os dedos. Dos dedos, passou para a palma das mãos, onde esfregava o polegar sem notar. Foi quando o polegar da mão direita desceu um pouco mais pela mão esquerda, esbarrando em algo que o despertou de seus curtos devaneios.

Olhou para o pulso esquerdo, onde uma pulseira² de miçangas púrpuras descansava devia fazer alguns anos. Uma lembrança quase esquecida se alastrou em sua mente com toda a força, e Kanda não pôde evitar um sorriso carinhoso ao afagar a pulseira.

– O senhor é novo por aqui, não é? — Roselia perguntou como quem não queria nada, sentada no divã enquanto apreciava seu vinho. Kanda controlou um sobressalto — não pelo susto, mas por se esquecer momentaneamente que a moça ainda estava ali.

– ... Sim. É minha primeira vez nesse lugar. — disse sem se virar, pois não queria dar muita chance de Roselia fazer mais perguntas. — Há muito tempo venho devendo uma visita à Mme.... Collet. Achei esse leilão uma ocasião oportuna. E curiosa.

– Hmm.... entendi. Então conhece a madame há muito tempo? Como a conheceu? — Roselia se esticou e deitou sobre o divã. Não que fizesse diferença para ela, mas não gostava de ser ignorada. Tanto que não reparou na breve hesitação de Kanda ao tentar lembrar o nome de Mme. Collet.

– Não é da sua conta. — disparou com antipatia. Roselia não teve reação por um segundo, sem imaginar um corte tão direto. Mas foi só isso, Kanda continuou observando as coisas no primeiro andar, e Roselia preferiu não perguntar mais nada, emburrada.

Passados alguns minutos de puro silêncio, as luzes se apagaram no salão. Apenas o palco brilhava com um holofote amarelado, e até mesmo o pianola parou sua música. Kanda se endireitou e fixou o olhar no palco. Roselia surgiu ao lado dele como um fantasma.

– Até que enfim vai começar... — ela sussurrou de maneira entediada, apoiando-se no parapeito com o rosto apoiado em uma das mãos.

Kanda sentiu o coração querer saltar do peito, a garganta secou de repente. Estava um pouco mais perto de conseguir alcançá-la. E ele esperava que tudo continuasse a dar certo.

Notas finais
1 - Pianola é um piano equipado com dispositivo para executar automaticamente a música, por meio de pedais e alavancas manuais. Segue um vídeo de um pianola tocando. http://www.youtube.com/watch?v=eG-i652novo ~~~ 2 - Pulseira de miçangas: se nunca repararam, Kanda usa uma pulseira de miçangas no pulso esquerdo desde o início do mangá. Aparentemente, essa pulseira não possui relevância para a história original (apesar de Kanda estar sempre com ela), então eu criei um significado para ela na minha fanfic. Aguardem e logo saberão do que se trata. ~~~ Okaaaay, chegamos a mais um fim de capítulo. Mais uma vez, espero que tenham gostado. Não surtem se o próximo capítulo demorar, eu não irei parar de escrever até a fic estar completa. Grande beijos a todos e obrigada! ;*