Angel

5 Capítulo 4 - O leilão


Notas iniciais
Opa! O-PA! O QUE É ISSO, DARKY?!?! O QUE FAZ AQUI TÃO CEDO?! SIIIIM~! Sou eu postando um capítulo em tempo record, muahaha! Acreditem, mal tenho dormido nessas últimas semanas, pra demorar menos nos capítulos e não perder o pique (afinal eu só estou podendo escrever na parte da noite /sad). Não prometo (mais uma vez) postar rápido os capítulos, mas já dá pra ver que estou me esforçando, né? x------x Quero agradecer por todos que estão acompanhando a fic até aqui, seus lindos lindos lindos! Vocês me animam a me empenhar mais! E agradecer, principalmente, ao meu namorado/noivo/marido/por aí vai, Kuririn, que sempre revisa meus capítulos, dá um jeitinho nos meus textos e, dessa vez, até contribuiu com uma idéia, hahaha. É isso, galera, tenham uma ótima leitura. Darky desliga e manda flores. x*

Kanda buscou pela taça de vinho que deixara no parapeito; precisava molhar a garganta. Deu apenas mais um gole e entregou a taça a Roselia ao seu lado. Ele não sabia se era pelo estômago vazio ou pelo nervosismo, mas o segundo gole do vinho o deixou enjoado. Roselia pegou a própria taça sem nada dizer, virando o seu conteúdo em poucos segundos.

– Então, vamos começar a trabalhar. — disse mais para si do que para Kanda, que não conseguiu prestar atenção. Roselia deixou a taça vazia na mesa de centro enquanto terminava de esvaziar a outra. Kanda se manteve fixado nas cortinas vermelhas, ansioso para que se abrissem de uma vez.

Os segundos se tornaram horas, Kanda podia ter certeza disso. E aquelas cortinas, quando finalmente começaram a se mover, levaram mais tempo ainda para abrir. Mas era hora do show. A mulher ruiva que se revelou atrás do pesado tecido tinha diante de si um pedestal com um microfone bem antigo. Seu vestido azul, de decote gritante, alcançava o piso de madeira e os cabelos com ondas perfeitas haviam sido presos num rabo-de-cavalo lateral.

Ela bateu levemente no microfone com a ponta do dedo indicador, certificando-se de que este estava funcionando direito. Limpou a garganta e deu uma breve olhada nas platéias de baixo e de cima.

– Uma maravilhosa noite a todos. — ela cumprimentou num tom carinhoso, quase como se fosse íntima de todos os presentes. — Sei que pode ter sido um pouco ousado tê-los chamado essa noite... Nossa querida cidade está passando por graves problemas de uns tempos para cá, é verdade. Hoje, por exemplo, foi um dia aterrorizante para todos nós! Mas eu realmente precisava que os senhores viessem. Então não vamos temer, certo? Não aqui, não agora. Pois aqui não há espaço para os problemas lá de fora. Aqui é o lugar onde todos podem relaxar na companhia de minhas lindas meninas! Portanto, vamos ao que interessa? Essa noite é uma noite muito especial. É com enorme prazer que hoje realizo um leilão único. Um leilão que vai decidir quem será o novo "monsieur" de uma criatura pura e magnífica!

Mme. Collet falava demais, e nenhuma de suas palavras em francês fazia sentido à Kanda. Ele procurou Roselia com o olhar rapidamente, mas antes que tivesse chance de mandá-la traduzir, a jovem se debruçou de volta no parapeito. Roselia não precisou pensar muito para soltar tudo em inglês para o exorcista; ela estava acostumada com clientes estrangeiros. Kanda a ouviu com toda a atenção possível, porém pensou não ter entendido uma parte.

– Como assim, um novo "senhor"? — perguntou sem quase esperar Roselia terminar a tradução.

– Ora, o novo dono. — ela respondeu como se não fosse nada. Mas para Kanda, que demorou a digerir o que ouvira, era um mundo caindo em suas costas. Sua mente se encheu com aquela pequena palavra: "dono". Ele custou a acreditar nos próprios ouvidos, se recusando a entender o que aquilo significava. O significado era mais do que claro. Fleur fora de outro homem antes daquele leilão — ou outros, até mesmo. Kanda apertou os punhos, sentindo a cabeça girar. A culpa se alastrou por seu corpo na mesma hora.

– Senhor...? — Roselia o chamou, tentando imaginar o que havia dito de errado. Talvez a madame o tivesse enganado sobre a pureza da garota. Kanda sentiu dificuldade em encontrar a própria voz, que, quando saiu, soou completamente sombria.

– Está prestando atenção no lugar errado, sua madame voltou a falar.

Roselia desviou o olhar de volta ao palco o mais rápido possível.

– Hoje, sim, tenho algo que nenhum ser humano jamais sonhou em pôr as mãos. — Mme. Collet apontou para a platéia de baixo, de maneira dramática. Em seguida, ergueu o dedo aos de cima. — Eu tratei de prepará-los, não? Um anjo. Um lindo e verdadeiro anjo! Não acreditam, posso imaginar? Pois, lhes digo, posso provar! Ah, se posso.

Enquanto Roselia traduzia em tempo real, Kanda nem sequer sentiu as unhas começarem a se enterrar na pele. Um burburinho tomava conta do andar de baixo e Mme. Collet assistia àquilo com prazer em seu sorriso ganancioso.

– Tragam a menina aqui. — disse para alguém na coxia, tirando o microfone do pedestal e andando alguns passos para o lado.

Kanda prendeu a respiração instantaneamente. Lá estava ela, mais brilhante do que nunca debaixo daquele holofote amarelo. Fleur vinha acompanhada de dois homens negros e musculosos — um com volumosos dreads presos num rabo-de-cavalo e o outro de cabelo baixo-, que não faziam questão de segurá-la. Ela estava descalça, usando um vestido branco simples e solto, de alças e rendas, mas tão curto que boa parte de suas pernas estavam à mostra. Kanda viu que, ao andar, Fleur segurava o vestido pela barra para que este não subisse. Trazia uma expressão constrangida no rosto baixo que fez o sangue de Kanda ferver de raiva. As pessoas no grande salão exclamaram surpresas ao baterem os olhos em suas asas.

– Isso, venha, minha querida. — Mme. Collet a incentivou, estendendo uma mão para ela. Fleur recebeu aquela mão, sem tirar a outra do vestido, dando um passo à frente no palco. — Não precisa ficar tímida.

Kanda não entendia como Fleur fora parar naquele lugar. Ou porque permanecera. Algo não se encaixava naquele quebra-cabeças tão confuso. Afinal, ela poderia fugir dali na hora que quisesse, como fugira dele pela manhã. O exorcista se perguntou por quanto tempo Fleur estivera no bordel, já que passaram tantos anos separados, e o que a prendia ao lugar ele. Um aperto no peito lhe fazia pensar no pior.

– Surpresos? Pois é, como não ficariam? Agora me digam, não é uma criaturinha simplesmente "angelical"? Hahahahaha~ — Mme. Collet brincou, num falso bom humor, enquanto Roselia traduzia apenas mecanicamente. — Que tal dar uma voltinha, meu bem?

Fleur hesitou por um segundo, olhando para todos aqueles homens, com o rosto rubro de vergonha. Contudo, o olhar insistente da madame a fez agir. A jovem deu um giro lento, de ombros encolhidos. Talvez fosse impressão, mas Kanda pensou ter visto seu corpo tremer levemente. Os homens do andar de baixo aplaudiram, incrédulos. Alguns assobiaram, levianos. Fleur se encolheu mais ainda ao voltar para a posição inicial, baixando o rosto e fechando os olhos com força.

– Linda, não é mesmo? Eu sei, fui eu quem a encontrou. — se gabou, orgulhosa de si. — Porém... é claro que devem achar que isso não passa de uma fantasia muito bem montada. Eu lhes garanto, essas asas são totalmente reais! Rapazes, uma demonstraçãozinha, por favor.

Mme. Collet estalou os dedos duas vezes e os dois homens, que haviam ficado mais atrás no palco, se aproximaram. Fleur se sobressaltou quando um deles segurou seu braço e o outro puxou uma das asas para cima. Ainda no susto, Fleur fez as asas se agitarem para que a soltassem. A comoção foi geral e Mme. Collet precisou pedir silêncio aos demais.

– Mantenham a calma! Eu sei que é incrível. Agora imaginem poder tocar nessa belezinha? Poderiam pagar qualquer preço?! Não?! Então eu tenho mais uma coisa para lhes mostrar, meus senhores. Prestem bastante atenção agora. O canivete, por favor. — a madame usava agora um tom misterioso. Mas Kanda não precisou ouvir à tradução para saber o que vinha em seguida. O instrumento que fora entregue à madame tornava as coisas bastante óbvias e apenas imaginar a cena fez Kanda ter vontade de pular naquele palco e arrancar Fleur dali — depois de poder exterminar todos aqueles vermes. Mas não, Kanda não podia se precipitar. Ele teria que levar aquele plano até o final.

Ao ver o canivete na mão de Mme. Collet — e sem fazer idéia de que aquilo faria parte do show –, Fleur tentou se afastar. A mulher já previa isso. Por esse motivo, os homens não perderam tempo, agarrando um braço de Fleur cada um. O jovem anjo se debateu apenas o suficiente para perceber que não havia escapatória. E Mme. Collet esperou pacientemente, acionando a lâmina por um botão na lateral do objeto.

– M-Mme.... Por favor... — Fleur sussurrou chorosa.

– Não se preocupe, querida, não vai doer tanto assim. — a madame suspirou tranquilizadora, mas só soava ainda mais assustadora para Fleur, que cerrou os olhos enquanto um dos homens esticava seu braço. Mme. Collet voltou a falar com a plateia calada de pasmo. — E se eu lhes disser que não são apenas as asas que esse anjinho tem de especial?

Mme. Collet arrastou cada palavra, afim de prolongar a sensação de enfiar a lâmina no antebraço de Fleur e rasgá-lo até chegar ao pulso. A jovem tentou segurar os gemidos altos de dor no início, mordendo os lábios com força. Mas a madame não era nada delicada e Fleur não pôde se manter parada ou calada. Ela tentou se soltar novamente, apesar da força dos homens, e um grito doloroso se soltou da garganta. A platéia assistiu ao sofrimento da menina em choque, quase hipnotizada pelo líquido vermelho que escorria profuso do ferimento.

Com os olhos vidrados e sufocado de ódio, Kanda tapou a boca com uma das mãos, enquanto batia com o punho da outra no parapeito da sacada.

– Mulher maldita... — rosnou rouco, não se importando com Roselia. Esta o observou, aturdida e temerosa por aquele olhar tão feroz. Afastou-se um passo, preferindo não perguntar a razão daquela reação.

– Ora, ora... Talvez tenha doído um pouco mais do que eu previ, me desculpe. — Mme. Collet sorriu cínica, jogando o canivete manchado para longe. Os gritos de Fleur diminuíram de tom até voltarem a ser só gemidos. Não conseguiu impedir a voz, mas foi capaz de segurar as lágrimas nos olhos marejados. — Agora, não precisam fazer essa cara ou ter pena dessa pobre criança. Ela sente dor agora, mas isso não dura muito tempo. Seu braço logo voltará ao que era antes.

A madame não mentia. Pois, diante de dezenas de olhares intrigados, o ferimento começou a se fechar até sobrar apenas a pele alva novamente. Mme. Collet bebia cada reação, fosse ela exagerada ou contida. Fleur ainda não se atrevia a abrir os olhos — mesmo depois de ter os braços liberados, ela apenas uniu as mãos diante do peito. Sujou seu vestido branco com o sangue que restava morno no antebraço, mas ninguém ligou.

– Estão assustados? Talvez Deus me castigue...? Hahaha, mas é claro que não! Deus virou a cara para esse pequeno anjo caído. Nada do que fizerem será considerado no juízo final. E com um ser que se recupera a todo tempo, qualquer fantasia pode ser posta em prática. — o tom da mulher era bastante sugestivo, todos entendiam muito bem o que ela queria dizer. Kanda entendia melhor do que gostaria. Ele não poderia agüentar assistir àquela loucura por mais tempo — o nó em sua garganta se apertava a cada palavra de Mme. Collet.

Esta bateu palmas duas vezes antes de continuar.

– É demonstração suficiente! Estou louca para começar esse leilão! Vamos, tirem-na daqui.

Com um movimento de mãos da madame, os dois homens guiaram Fleur para fora do palco sem hesitar. A mulher, por sua vez, ergueu os braços de maneira bastante teatral e as luzes dos camarotes se acenderam, alarmando Kanda. Ele se afastou alguns passos para longe do parapeito, a fim de que Mme. Collet não tentasse pôr os olhos nele. Roselia travara no lugar, tentando se mover o mínimo possível para não alarmar o estranho "cliente".

– Eu sei que cada um de vocês aqui gostaria de poder ter uma noite com a menina. Ainda mais ser o exclusivo dela... Mas ela só será de quem puder pagar quanto ela vale, lamento, senhores. — disse para os de baixo, tristonha, ouvindo alguns dos homens lamentarem não ter dinheiro. — Vejamos, os senhores de cima sabem as regras: o valor investido aqui cobre apenas a exclusividade do pequeno anjo. O que significa que vocês precisam continuar pagando uma pequena quantia todo mês para que a exclusividade permaneça válida. Pagando todo mês, não há limitação de uso. Vocês podem vir quando quiserem, e usarem a menina da maneira que bem preferirem.

A cada informação, Kanda sentia mais nojo do lugar, imaginando como aquilo podia soar normal ao público. "Isso é loucura..." pensou perplexo em meio ao ódio.

– Por não ser a primeira vez dela, fiz o favor de baixar o preço. O valor mínimo será de quinze mil e duzentos francos¹. Uma pechincha. Todos vão entrar na brincadeira?

Roselia hesitou ao se virar para Kanda, que fora se sentar no divã.

– Sr. Wright, o senhor vai participar..? — ela perguntou com a voz um tanto trêmula de nervosismo. Kanda apenas acenou positivamente com a cabeça, de braços apoiados sobre as pernas e ombros curvados. Ele viu Roselia tirar um lenço de seda de dentro do decote e agitá-lo com força do lado de fora da sacada. Como ela, outras moças fizeram o mesmo em outros camarotes. Mme. Collet sorriu satisfeita.

– Muito bem, todos vão brincar! Mas quinze mil e duzentos ainda é tão pouco... Quem quer tornar a competição um pouco mais interessante? Alguém sugere uma nova quantia?

– Vinte e cinco mil francos!! — uma garota gritou da sacada vizinha, entusiasmada. Quando Roselia repassou a quantia para Kanda, este franziu o cenho.

– Eu aumento para cento e cinqüenta mil francos. — ele disse sem se abalar. Não tinha todo aquele dinheiro na hora, mas não se importava. Kanda não pretendia pagar de verdade, apenas convencer Fleur de que ele não era falso e arrancá-la dali. Iria vencer aquele leilão. Roselia deixou o queixo cair pelo valor tão alto em tão pouco tempo, mas não questionou. Sacudindo o lenço mais uma vez, enquanto a madame voltava a perguntar quem dava mais, Roselia encheu os pulmões de ar e bradou o valor oferecido.

Mme. Collet precisou de um segundo para entender o que ouvira, e logo soltou uma gargalhada histérica.

– Parece que alguém quer acabar logo com a concorrência! O que acham? Alguém cobre esse valor? — ouve um clamor de surpresa, tanto dos homens de baixo, quanto dos convidados de cima. Não passavam de sussurros, mas juntos tomavam conta do salão.

Kanda pensou ter vencido, pela hesitação dos demais — e pela falta de experiência em eventos como aquele. Porém as coisas nunca eram tão fáceis. No fundo do salão, o último camarote. Uma jovem de pequena estatura — que parecia demais com uma criança — acenou com o próprio lenço.

– Duzentos e setenta mil e quinhentos francos, madame!! — a voz infantil encheu o lugar e os ouvidos da mulher, como sinos de felicidade. Roselia virou para trás, informando Kanda.

– Maravilhoso! Realmente, é uma chance que não se pode deixar passar! Quem cobre o valor? Não é possível que esse leilão dure tão pouco!

– Mande subir para quatrocentos e cinqüenta mil e setecentos francos. — Kanda se levantou e deu a volta no divã, incapaz de ficar parado no lugar. Roselia assentiu e gritou.

O exorcista não podia acreditar como um homem conseguia gastar tanto dinheiro Ele mesmo nunca precisara de dinheiro — nunca andava com uma moeda sequer. Como só saía para missões, e era quase sempre acompanhado por um Finder, Kanda não tinha despesa nenhuma para pagar. E como era um exorcista, Kanda conseguia gratuidade em muitos estebelecimentos e conduções nos países da Europa em que a Ordem Negra exercia influência. Era, sim, muito irresponsável da parte dele, mas Kanda era teimoso o suficiente para acreditar que não precisava de um tostão para se virar fora da Sede.

– Ainda estou achando os senhores comedidos demais... Estamos falando de um anjo!! É só isso que pretendem pagar por ele?! — Mme. Collet provocava no palco, ao perceber que os outros convidados recuavam.

– Novecentos e dez mil e quatrocentos! — era a voz de criança de novo. Kanda estalou a língua entre os dentes quando descobriu quanto fora colocado em jogo.

– Um milhão e duzentos, esse cara não vai ganhar! — o rapaz disparou, nervoso. Roselia repassou à madame, que sorria de orelha a orelha.

Alguém se interessara bastante por Fleur, a ponto de gastar rios de dinheiro. Kanda o amaldiçoou internamente. Quem quer que fosse o homem, Kanda não permitiria que botasse as mãos em Fleur. Não permitiria que mais ninguém o fizesse.

Kanda achou que a quantia fosse suficiente para refrear os ânimos do concorrente. No entanto, ele cobriu a proposta do rapaz sem precisar pensar duas vezes, lançando um número ainda mais ousado.

– Dois milhões. — o público não pôde ficar calado, muito menos Mme. Collet.

– Ora essa, estou gostando bastante desse embate! — suspirou com uma das mãos na cintura. Kanda estava perdendo a paciência. — Será que devo fechar em dois milhões? Alguém dá mais que isso?

– Dois milhões e quinhentos, garota, vamos. — Kanda apressou Roselia num tom firme. Quanto mais o outro pretendia gastar naquele leilão? Como alguém seria capaz de pagar tanto dinheiro para satisfazer seus próprios desejos sexuais? Kanda teve um arrepio, só de pensar na imundície que ele pretendia fazer com a menina. Quis tirar as cenas criadas por sua mente, que começavam a grudar de maneira maldosa, torturando-o. Antes mesmo de dar chance de Mme. Collet voltar a falar, Kanda desistiu de ficar naquele joguinho de quem fala o número maior. Ele correu para o parapeito da sacada sem pensar direito e gritou com todo o ar que tinha nos pulmões.

– CINCO MILHÕES!!

O silêncio se fez no salão, nem mesmo Mme. Collet acreditava. Não só pelo valor, mas também pelo rapaz se revelar. Os leilões não eram corriqueiros no bordel. Contudo, nas raras vezes que estes ocorriam, eram as moças que tratavam de anunciar o valor dos clientes. Naqueles anos todos, Mme. Collet nunca vira um cliente se erguer com aquele ímpeto — ainda mais em inglês.

Kanda arfava tão pesado — com o rosto rubro de ódio -, e o silêncio era tão mortal, que tinha a impressão de poder ser ouvido do outro lado da França. A surpresa fora tanta que todos demoraram alguns segundos para se recuperar. Mme. Collet tomou a frente, deslocando a mão livre para cima dos olhos, tentando tapar a luz do holofote para ver melhor o andar de cima.

– Vejam só... um rosto novo. E bem jovem, diga-se de passagem. Isso me deixa bastante curiosa... — o que a madame disse fez Kanda gelar, pois ela falara na mesma língua que ele, com o mesmo sotaque arranhado de Roselia. "Péssima hora para perder a cabeça, seu estúpido", foi a primeira coisa em que ele pensou. Para a sorte do exorcista, porém, Mme. Collet não prestou real atenção nesse detalhe. Ela apenas se importava com os cinco milhões oferecidos naquele momento. Ela voltou a falar para o público em sua língua nativa. — Cinco milhões de francos... não é pouca coisa! Acredito que esse seja o último lance da noite. O senhor do fundo vai cobrir o valor?

Kanda aproveitou o desvio de atenção para voltar à segurança do camarote, suando frio. Ainda temia que Mme. Collet desse alguma relevância ao fato de não conhecê-lo, e isso poderia atrapalhar os planos. Mas Kanda se equivocara nesse sentido, pois devia se preocupar antes com uma pessoa que esquecera.

– Você mentiu... — Roselia o encarou de olhos estreitos e punhos fechados. — Você não conhece a madame coisa nenhuma!

Kanda hesitou na resposta, sendo pego de surpresa totalmente.

– ... Espera. Posso explicar. — ele amansou a voz e ergueu as palmas das mãos devagar, receando que Roselia fizesse um escândalo desnecessário.

– Como soube desse leilão?! Você não é um cliente de verdade, é? Melhor explicar log--!

– Preciso ver a Fleur! — Kanda interrompeu de pronto, fazendo o rosto da moça se contorcer em confusão.

– Como sabe o nome dela? — perguntou a ele, completamente desconfiada.

– Sou um velho amigo, a reencontrei essa manhã. — Kanda suspirou, largando as mãos ao lado do corpo.

– Foi ela quem te contou? — Roselia não achou que fosse mentira dessa vez, pois as reações violentas de Kanda encaixavam com aquela informação.

O rapaz meneou a cabeça.

– Ela fugiu de mim. Descobri o leilão por acaso, enquanto a procurava.

– Você... é da Ordem? — Roselia começava a ligar os pontos, sem conseguir ter certeza ainda.

– ... Sim. Mas eu juro que só quero conversar com ela. Esse leilão era a minha chance. — Kanda achou melhor mentir um pouco sobre sua real intenção.

Mas a breve conversa foi cortada pela voz eufórica da madame — Roselia parou de ouvir Kanda para entender o que a patroa dizia.

– Muito bem! Este leilão está encerrado em cinco milhões de francos! — ela comemorou. — O senhor vencedor pode aguardar onde está, terei o prazer de ir até seu camarote. Aos que perderam, não fiquem chateados. Ainda tenho muitas meninas que serão do agrado dos senhores. Aproveitem o resto da noite!

Com isso, Mme. Collet devolveu o microfone ao pedestal e se retirou do palco, sumindo dentro da coxia com seu andar imponente. Roselia ainda encarava o palco com um olhar distante, pensativo. Kanda quis saber o que a mulher dissera, e se a moça diante dele o acusaria ou não. Antes de abrir a boca, porém, Roselia se virou para ele de braços cruzados. O exorcista esperou mais um segundo, estudando sua expressão enigmática. Ao fundo, alguém fazia a música voltar a tocar.

– Parece que conseguiu o direito de se encontrar com o anjo. — disse num sorriso de desdém e jogando seu lenço sobre o divã. — E a Mme. Collet está vindo para cá.

Kanda sentiu a adrenalina subir dos pés à cabeça, era como jogar roleta russa. Pois de nada adiantaria ter passado pelo leilão se "morresse" ali, tão perto de falar com Fleur.

– Vai me entregar para a sua madame? — quis saber de uma vez.

Roselia deu de ombros, algo que Kanda não esperava.

– Hmm, eu não me importo com o que faz com a Fleur. Se quiser arrastá-la de volta à Ordem Negra, é um favor que me faz.

Kanda não entendeu o que Roselia quisera dizer com aquilo, como se achasse impossível alguém querer se ver livre de Fleur. Algo no tom de voz da moça indicava que falava a verdade e realmente não dava a mínima. Roselia sorriu ao perceber a dúvida no rosto de Kanda.

– Minha vida já era difícil o bastante antes dessa garota chegar. E depois só piorou. Leve-a embora, nem que seja carregada.

De sobrancelhas franzidas, Kanda não sabia se devia ter raiva ou ser grato. Não fez comentários, apenas assentiu. No entanto, Roselia levantou outra questão com a qual Kanda não havia contado.

– Tem o dinheiro para pagar, não tem? — perguntou enquanto já se encaminhava à porta. Kanda demorou a falar, o que a fez concluir bem rápido qual seria a resposta. — A madame não ficará feliz se você a tiver enganado.

– Não tenho como andar com cinco milhões dentro do bolso.

– Mas pode adiantar uma parte da quantia, se quiser mesmo ver Fleur. Do contrário, terá que conversar com os seguranças. — ela ergueu uma das sobrancelhas, como se fosse a coisa mais óbvia a se pensar. — Não tem dinheiro nenhum com você?

– É claro que tenho, mas não chega perto de cinco milhões. — Kanda bufou, impaciente.

Roselia parou para pensar. Próxima ao cabideiro, a moça estendeu o braço para pegar a cartola que ali descansara. Virou-a em sua mão, e teve uma idéia.

– Pois eu sugiro que use esse seu belo casaco e bela cartola como garantias. Pela aparência, eles valem uma boa grana. Deve segurar as pontas até você sumir daqui.. — ela disse ao entregar a cartola para Kanda.

– Eu preciso fazer algo antes...

Kanda aceitara a idéia de Roselia e concordava que podia ser a única solução. Podia também se desfazer dos acessórios e ouro e prata, e do cajado ornado de pedras preciosas — esquecido próximo ao divã desde que chegara ao camarote. Mas ele não podia simplesmente entregar o casaco à madame e deixar a Mugen exposta. Precisou ser rápido. Puxou seu golem de dentro do casaco e o enfiou no bolso da calça. Depois despiu-se do casaco para ajeitar sua Innocence dentro da blusa social pela lateral, com metade da bainha presa por dentro da calça pelo cinto. Roselia assistiu à cena com curiosidade, entendendo que Kanda era um exorcista. Ele vestiu o casaco novamente.

– Wright não passou de um nome falso, não é? — a moça perguntou, por fim. — Como se chama de verdade?

Mas o rapaz apenas sorriu para ela, um sorriso quase imperceptível, de sentido implícito. Não deu tempo de formar qualquer resposta. Uma firme batida na porta de madeira interrompeu a conversa ali. Era a madame, que sequer esperara ser convidada a entrar.

– Vamos ver quem é o rapaz! — ela entrou com a voz cantada, seguida de perto pelos dois seguranças negros tão calados quanto estátuas. Kanda mudou bruscamente de atitude, se fechando numa expressão carrancuda e antipática. A mulher parou diante dele, observando-o com interesse. E, sem se dar ao trabalho de olhar para Roselia, ela começou. — Obrigada, Roselia, meu docinho. Você não é mais necessária aqui.

Roselia assentiu, obediente. Não olhou para ninguém ao pedir licença e sair. Kanda quis agradecer, nem que fosse com um singelo "obrigado", mas não podia atiçar ainda mais a curiosidade de Mme. Collet. Sentiu-se um tanto mal pela rapidez com que a moça fora dispensada, como se fosse descartável ou coisa parecida. Mme. Collet sorriu, levando uma mão ao próprio queixo. O rapaz sustentou seu olhar.

– É mais jovem do que pude ver lá de baixo. E ainda é bonito... Isso é muito interessante. — ela disse tranquilamente. — Possuo muitos clientes de fora, mas você não é um deles. Então, sem querer ser rude, como ficou sabendo de meu leilão? E qual seria o seu nome?

Hesitar diante daquela mulher de presença tão marcante seria o mesmo que entregar a própria cabeça — mas nada garantia que o rapaz conseguiria ludibriá-la como fizera com Roselia. Por sorte, encontrar uma resposta não foi complicado.

– Sr. Wright, madame. Sou um colecionador de artigos... bem peculiares, eu diria. Gosto de viajar e caçar novas peças para a minha coleção. Por acaso estava em Menton, quando um de meus criados ouviu sobre seu anjo. — apesar de bem articulado, Kanda fez questão de ser seco. Se impressionou com a própria criatividade e talento espontâneo para a mentira. Mesmo assim, se sentia um idiota com a história. — Achei que não faria mal conferir. E realmente, me deixou de queixo caído.

Mme. Collet assentiu, parecendo satisfeita.

– É verdade, mandei algumas meninas ficarem na porta... Como pude esquecer disso? Essa minha cabeça já não é tão boa quanto antigamente. — ela brincou, na vã tentativa de amaciar Kanda. — Fico feliz que tenha gostado da atração da noite. Estou certa de que não serão cinco milhões mal gastos.

– Tenho apenas uma pergunta a fazer, antes de tratarmos do pagamento. — Kanda franzia o cenho, precisando eliminar a dúvida, mas sabendo que não ia gostar do que ia ouvir. — Sou novo aqui, não entendo desse negócio de exclusividade. Se serei o novo "senhor" da garota, quero saber quantos a tiveram antes de mim.

A madame riu, abanando as mãos para que Kanda relaxasse. Ela buscou explicar da forma mais resumida possível.

– Não precisa se preocupar com isso. A menina teve apenas um dono antes do senhor, pode acreditar em mim. Ele pagou por ela por anos, mas parou de mandar o dinheiro tem alguns meses. E eu não podia segurar um investimento tão alto, não é mesmo?

Kanda engoliu a vontade de estrangular a mulher ali mesmo. Anos. Fleur estivera ali por anos. E não era mais que um produto. O exorcista teve que limpar a garganta antes de voltar a falar.

– Posso... aceitar isso. E a verei ainda essa noite, eu suponho. — não, ele não podia aceitar. Quanto mais se aproximava de Fleur, mais urgente se tornava a necessidade de vê-la.

Mme. Collet formou uma expressão sentida.

– Veja bem, não estou duvidando do senhor, mas todo cuidado é pouco, não? Que garantias tenho de que irá pagar, uma vez que usar a garota? — perguntou sem demonstrar desconfiança, embora Kanda sentisse que os seguranças atrás dela o observavam, atentos.

– Pode ficar com o que tenho aqui. Tenho certeza de que valem o bastante para pagar minha primeira noite com ela. — Kanda o disse enquanto tirava o casaco mais uma vez, estendendo-o à mulher. — Há dinheiro dentro do casaco. E posso lhe dar a cartola e os adereços. Quanto ao resto do valor, dou minha palavra de que verá o que é seu até o final dessa semana.

Fez-se um minuto de silêncio, enquanto Mme. Collet avaliava os itens e decidia o que podia ser feito. Kanda apenas queria que ela aceitasse logo — assim podia dar adeus a toda a quinquilharia inútil e seguir com a última fase de seu plano. Finalmente, Mme. Collet virou-se para os seguranças e deu o sinal positivo com a cabeça, cruzando os braços. O segurança de dreads pegou o casaco das mãos de Kanda.

– Posso quebrar esse galho. Pude notar o quanto quer ver o anjo de perto. Mas não abuse de minha generosidade. Não quero ter que fazer meus seguranças cobrarem o que é meu.

Kanda não precisou responder, entendia perfeitamente o sentido daquele aviso. Impaciente, ele entregou a cartola, retirou as pulseiras caras e retornou ao divã para buscar o cajado. Quando terminou, restaram apenas a blusa social, calça e sapatos, e a pulseira de miçangas — que não valiam absolutamente nada para Mme. Collet. Os itens ficaram com os seguranças, e Mme. Collet sorria como se tudo corresse da maneira que ela desejava.

– Se estamos entendidos, pode me seguir. O levarei ao quarto mais adequado, onde poderá aguardar a chegada de sua pequena aquisição. Tive o cuidado de prepará-la especialmente para essa ocasião.

Sem acrescentar mais nada, Mme. Collet dispensou os homens com um sinal de mãos — que saíram antes dela. Kanda puxou o máximo de ar que seus pulmões aguentavam. No entanto, aquilo não conseguiu acalmá-lo nem um pouco. Seguiu Mme. Collet, contando os passos que acabavam com a distância entre os velhos amigos de infância. Kanda só era capaz de pensar no forte desejo de não estragar tudo depois de chegar tão longe.

Mal notou que entrara pela porta solitária — oposta aos camarotes -, se separando dos seguranças, mas se mantendo junto da mulher. O novo corredor encarpetado de vermelho lhe era indiferente. Havia quartos dos dois lados do corredor — dos quais gemidos voluptuosos se faziam ouvir. Alguns estavam com a porta aberta, possibilitando ver as orgias que lá aconteciam. Kanda não quis olhar e ignorou o quanto pôde a explosão de sons. Pensou com tristeza no quanto Fleur destoava daquele ambiente.

Os quartos foram se separando cada vez mais um do outro, à medida que a madame guiava Kanda. Até que ela parou diante de uma porta fechada, no fundo do corredor. De dentro do decote, Mme. Collet retirou uma chave prateada, com a qual abriu a porta, e a entregou ao rapaz.

– Espero que sua noite seja a mais agradável possível. — a madame suspirou. — A menina logo estará aqui, então o senhor pode entrar e ficar confortável. Ah, e caso se interesse, o nome dela é Fleur. Faça bom proveito.

Com isso, Mme. Collet se despediu com um aceno, deixando Kanda para trás no corredor. Ele estalou a língua entre os dentes, finalmente podendo ficar sozinho e respirar. Acendeu a luz ao entrar no quarto e fechou a porta atrás de si. E agora o quê? O que diria para Fleur? Como a faria ouvir?

Kanda observou o quarto sem janelas. Era mais amplo do que imaginava que seria e também mais claro. O primeiro de poucos móveis que enxergou foi a cama de casal. Pudera, ela se encontrava bem no centro do cômodo. As paredes eram pintadas de salmão, quase rosado, com as roupas de cama combinando com os tons. Era um quarto sutil demais, quase como se não fizesse parte do bordel. "Combina com Fleur", Kanda se pegou refletindo. Viu, ao lado da porta, um criado-mudo de madeira, onde jogou a chave. Uma porta na parede da direita devia ser o banheiro e, no lado oposto, uma mesa com duas cadeiras apenas ocupava o espaço. Mais uma bandeja com uma garrafa de vinho e taças sobre esta, desta vez com um abridor próximo.

No provável pouco tempo que possuia antes da chegada de Fleur, Kanda tirou a katana de dentro da roupa e a jogou sobre a cama. Em seguida, puxou o golem e o ligou para se comunicar rapidamente com o Finder. O homem atendeu no primeiro toque; estivera esperando o contato desde que se separaram.

– Senhor! Algum problema?!

– Não, só precisava informar que não precisa me esperar essa noite. Está tudo sob controle. — o exorcista avisou, apressado. — Se tudo der certo, logo teremos a compatível.

Kanda desligou sem esperar a resposta e depositou o golem junto à chave. Soltou um suspiro distraído, olhando para as próprias mãos. Agora que ele estava ali, só queria que Fleur entrasse logo por aquela porta. As mãos tremiam levemente, e Kanda já não aguentava sentir o coração pular de maneira tão frenética. Mal lembrava qual fora a última vez que se sentira assim, mas era algo que trazia vida ao seu corpo. Por outro lado, também se sentia exausto. Não dormia direito havia dois ou três dias, e a correria que tivera de enfrentar desde que chegara a Menton não ajudara. Mesmo assim, era bem capaz de ter que passar mais uma noite em claro.

Uma fraca batida na porta o deixou em pânico. Ainda não fazia idéia de qual seria o próximo passo a dar e, nem que ficasse a noite inteira naquele quarto esperando, Kanda conseguiria descobrir uma solução adequada. O corpo agiu sem dar tempo ao cérebro; Kanda se escondeu atrás da porta.

Como não houve resposta por parte do rapaz, a maçaneta girou devagar. A silhueta franzina despontou da abertura, indecisa. Kanda esperou mais um pouco, sem dar um pio.

– A-ahn... C-com licença...? — Fleur disse em francês, mas era claro o seu completo constrangimento. Quando, por fim, Fleur entrou no quarto e fechou a porta, Kanda a pegou pelo braço e a puxou para si, fazendo com que ela parasse de costas para ele. Enquanto uma das mãos tapava a sua boca, a outra envolvia sua cintura na intenção de prender seus braços. Fleur teve seus gritos abafados, e Kanda sentiu as asas da jovem se agitarem contra seu peito.

No entanto, Kanda a segurava firme, impedindo que Fleur se soltasse. A força dele não era como a de um humanos comum.

– Shh, shh! Eu não vou machucar você! — Kanda disse em meio as sacodidelas. — Por favor, me escuta...

Aquela voz, aquele idioma. Fleur congelou na mesma hora, aterrorizada com como o exorcista havia chegado ali. Imaginou as mais diversas possibilidades, mas a que mais se fixou em sua cabeça foi a de Mme. Collet ter cedido a algum acordo. Kanda relaxou um pouco quando Fleur parou de se mover, mas ainda a sentia tremer levemente colada ao seu corpo.

– Não quis te assustar tanto, eu juro. Mas eu já não sabia o que fazer pra você ouvir o que tenho a dizer. — ele suavizou a voz, falando quase rente ao ouvido da loira. Ela se arrepiou com a voz madura, fechando os olhos e tentando controlar a respiração partida. — Não vou te obrigar a voltar para a Ordem se não quiser. Só prometa que vai me deixar falar.

Fleur assentiu rapidamente, Kanda baixou a guarda. Ele, no entanto, não devia tê-lo feito, pois Fleur não o aceitaria tão fácil. A menina lançou a cabeça para a frente rápido demais, Kanda não pôde prever que ela estava apenas tomando impulso para acertá-lo com uma forte cabeçada que o atingiu direto no nariz. Atordoado com a dor, o exorcista soltou Fleur e depositou as mãos no nariz dolorido com um gemido. Ela aproveitou a deixa para se virar e agarrar na maçaneta, mas Kanda já estava alerta.

O rapaz se jogou para a frente da porta e a bloqueou com o peso do próprio corpo, estirando uma das mãos para afastar Fleur da maçaneta. Kanda tentava conter o sangue que escorria de seu nariz com a outra mão. Fleur deu dois passos para trás, arfando. "Que traiçoeira..." ele teve que reconhecer. No fundo, estava até um pouco orgulhoso por vê-la saber se defender.

– Droga, isso dói... — resmungou fanho, colocando o nariz quebrado no lugar. Diante dos olhos de Fleur, uma espécie de choque envolveu a face de Kanda, curando o machucado. Ela franziu as sobrancelhas, mas nada disse. Kanda secou o sangue restante com as costas das mãos e voltou a encarar a garota. Agora podia ver que trocara o vestido. Fleur vestia uma longa camisola branca, quase transparente a quem olhasse com mais atenção. Kanda tentou não reparar. — Desde quando você quebra uma promessa...?

– Pare de agir como se me conhecesse de verdade. — Fleur rebateu, de olhos em chamas.

Kanda suspirou, cansado, franzindo o cenho como Fleur.

– O que você não entende é que eu conheço. Ou, pelo menos, conhecia, há nove anos atrás. Antes... de tudo mudar...

– Pára com isso! Eu sei o que eu vi naquele dia! Eu sei o quanto tive que chorar naquele dia! Vocês da Ordem são realmente muito estúpidos se acham que vou cair nessa, por mais que eu queira o Yu de volta! — o sotaque forte de Fleur se fazia difícil de entender por esta atropelar as palavras. Kanda se esforçou para entender cada letra.

– EU sou o Yu, baka kotori! Quantas vezes preciso dizer? — Kanda elevou a voz e a expressão de Fleur amoleceu por um segundo pela menção de seu antigo apelido. — Não me pergunte o que aconteceu antes de eu ser apagado, porque eu não consigo me lembrar direito! Eu não sei bem o que viu naquele dia. Só sei que morri, mas acordei horas depois. E que, quando acordei, Alma havia destruído tudo e você não estava em lugar nenhum!

– Isso é impossível! Você não faz idéia do quanto eu tentei trazê-lo de volta. Yu não acordava por nada! Alma enlouqueceu pelo que a Ordem fez! Tudo virou de cabeça para baixo de um dia para o outro! Eu perdi tudo por causa da Ordem, tudo! — as lágrimas voltaram a se formar nos olhos sofridos, pela mera recordação do incidente. — Você não vai me enganar, mesmo que pareça tanto com ele.

Kanda meneou a cabeça devagar, tentando encontrar algum jeito de convencê-la. Mesmo ele sentiu vontade de chorar, a garganta apertada num nó que não conseguia engolir. Nunca imaginara que seria tão difícil se reaproximar da velha companheira, e a frustração tomava conta dele.

– Você sabe que sou eu, Fleur... — murmurou sem forças, arriscando um passo na direção do anjo. — Se a Ordem quisesse mesmo te levar de volta, teria feito isso no momento em que você fugiu. Por que não me dá uma chance de provar que sou eu?

Fleur recuou mais dois passos, começando a demonstrar relutância. Fez uma careta penalizada, Kanda via que ela buscava fortemente se ater às próprias convicções. Mas a jovem se desmanchava aos poucos diante dele.

– Fique onde está, seu impostor. .. — pediu, já sem a mesma confiança de antes. — Te dar uma chance é aceitar cair nos braços da Ordem Negra. E isso... isso não posso... Não consigo passar por tudo aquilo de novo.

– Lembra do dia em que nos vimos pela primeira vez? De como Alma te encontrou na Torre e depois me levou até lá? Como eu pareci ter encontrado o sentido da minha vida bem ali, olhando para você? Ou se lembra de como o meu mundo parava quando te ouvia tocar aquele velho piano? Eu sinto tanta falta de te ouvir tocar. Senti tanto a sua falta, Fleur. Alma quis tentar aprender a tocar piano, certa vez.. Você foi tão paciente e amorosa, mas ele era ruim demais. Briguei com ele naquele dia porque queria ouvir você tocar. Apenas você. — havia saudade no tom lento de Kanda. Uma saudade quase palpável, que fora reprimida por muito anos. Fleur tapou os lábios e recuou mais um passo conforme Kanda chegava perto.

– Por favor, pare com isso... — ela choramingou com a voz trêmula.

– Uma vez fomos brincar de se esconder. Acabei tendo que procurar por Alma e por você, nunca tive sorte nesses jogos. Encontrei Alma sem problemas, mas você... você ficou presa dentro de um ármario. Que susto levamos naquele dia. — Kanda prosseguiu, rouco por segurar demais as lágrimas. — Alma e eu nunca havíamos visto o céu. Então você nos mostrava em seus livros, nos ensinava o que aprendia com eles. Falava tão bem do céu que nossa maior vontade era saber como ele era de verdade. Lembro tão bem... Você pintou o teto da sua sala de recreação de azul e fez nuvens brancas para nós dois. Se lembra de como nós três procurávamos figuras naquelas nuvens de tinta? Eu não dizia, mas amava passar o tempo deitado ao lado de vocês, olhando para o teto.

Fleur soluçou de choro, deslocando as mãos aos ouvidos, de olhos cerrados.

– Não quero ouvir isso. Não quero me lembrar disso!

– Por que tem tanto medo de aceitar que estou vivo..? — Kanda perguntou a um passo de Fleur. Ela já não tinha mais para onde correr, suas pernas haviam acabado de encostar na borda da cama. Abrindo os olhos bruscamente, Fleur tentou empurrar Kanda para longe dela.

– Eu não vou aceitar. Não... Se todo esse tempo esteve vivo, qual é o sentido de eu fugir da Ordem e vir parar nesse lugar?! Significa que passamos todo esse tempo longe um do outro e a culpa é minha! — Fleur desabafou. — Não posso acreditar que poderíamos ter ficado juntos todo esse tempo! Não posso acreditar que te deixei sozinho na Ordem, eu... E-e você... Você teria deixado a Ordem, por que não deixou a Ordem Negra?!

Aquelas palavras eram demais para Kanda. Todo o sofrimento, a saudade, o arrependimento. Kanda não conseguiu responder de imediato. Em vez disso, ele levou sua mão ao pulso esquerdo e tirou cuidadosamente dali a pulseira. Suas mãos buscaram as de Fleur com urgência, depositando o pequeno objeto em uma delas sem que a menina entendesse o que ele pretendia. Ele se manteve segurando a mão de Fleur fechada por um instante. Ela fungou, desconfiada, olhando para ele com olhos de dúvida.

– Apenas veja. Se isso não te convencer, prometo que vou embora e nunca mais apareço na sua frente.

Então Kanda a soltou, aguardando uma reação. Fleur apertou o que tinha na mão suavemente antes de abri-la. E, quando a abriu, teve uma surpresa. Seus olhos se arregalaram e suas sobrancelhas se uniram, incrédulas. Os joelhos perderam completamente a estabilidade, Fleur caiu sentada na cama. Com o olhar vidrado na pequena pulseira, as lágrimas começaram a fluir ainda mais grossas. Fleur perdeu a voz, perdeu o orgulho, perdeu a incerteza. Uma profunda tristeza se misturou ao alívio. Os sentimentos se misturavam de tal jeito que a jovem teve a impressão de poder desmaiar a qualquer momento.

As mãos envolveram as pulseira protetoras, trazendo-a para junto do coração agitado. Fleur se encolheu, fechando os olhos como se quisesse parar o mundo ali. Kanda a assistiu, percebendo tarde demais quando as próprias lágrimas começaram a molhar seu rosto marcado de tristeza e esperança.

– Sabe o que é isso? — ele perguntou num sussurro.

O anjo assentiu em meio a soluços. Kanda prosseguiu.

– Crianças são muito inocentes. Mesmo no meio em que vivíamos, não éramos diferente. Certo dia, descobrimos que, quando duas pessoas se amam muito, elas se casam. Se bem me recordo, foi em um dos seus livros de romance e contos de fada... Tivemos uma idéia louca naquele dia. — Kanda contava, no que se ajoelhava entre as pernas de Fleur. — Em uma das muitas vezes em que Alma não estava conosco, nós decidimos que iríamos nos casar. Logo que nos tornássemos exorcistas... Mas não tínhamos um anel, lembra? Então você teve uma idéia, como sempre.

Fleur se encolhia cada vez mais, sacudida pelos soluços excessivos.

– Você costumava brincar de fazer coisas com miçangas, essa foi a solução que encontrou. Fez duas pulseiras para nós, sem que eu soubesse, que serviriam de alianças. A sua coube perfeitamente no seu pulso fino, mas a minha... Bom, você fez a minha muito grande. Ela não coube em mim. — o rapaz se deixou sorrir melancólico entre as palavras. — Você ficou bastante chateada. Quis até fazer outra. Mas eu não quis, pois gostei bastante da primeira. Então...

– ...você me prometeu. Prometeu guardar essa pulseira até ser grande o suficiente... para poder usá-la em seu pulso. — Fleur completou, quase sem conseguir soltar a voz. — Yu... não é mentira mesmo, você... você...

Kanda sentiu todo o peso do mundo ser eliminado de seus ombros, ao menos ali, naquela hora.

– Eu tentei te dizer que era eu, não foi, sua boba? — achou graça. Fleur não suportou mais a distância, mesmo sendo tão pouca. Ela se jogou no colo do rapaz, envolvendo-o num abraço que ambos ansiaram por nove longos anos. Kanda caiu sentado no chão, mas não se importou. Ter Fleur em seus braços era, agora, a única coisa em sua cabeça.

Fleur escondeu o rosto vermelho no pescoço de Kanda, apertando-o enquanto chorava copiosamente. Ele, por sua vez, se enterrou em seus cabelos — também chorando, mas de maneira mais contida.

– Yu, m-me perdoa.... por favor, me perdoa... — Kanda mal conseguia entender o que Fleur dizia, pois esta não o soltava por nada.

– Te perdoar pelo quê? Não é você quem tem quer ser perdoada... – resmungou, num muxoxo. Para Kanda, era ele quem precisava de perdão. No entanto, não queria pensar em seus motivos de se sentir culpado enquanto não se separasse de Fleur. Ambos partilhavam da mesma sensação. Era como estar inteiro após viver muitos anos como uma metade. Kanda sentira falta de cada centímetro de Fleur e vice-versa. Por alguma estranha razão, ele se sentia mais próximo dela do que jamais estivera antes.

Perderam a noção de quantos minutos permaneceram abraçados, pois só se soltaram quando os dois conseguiram se acalmar. Fleur deu uma longa fungada, se afastando lentamente. Sentou sobre os joelhos — dessa vez entre as pernas do rapaz. Eles observaram um ao outro, como que hipnotizados. Para Fleur, Kanda havia mudado tanto e não mudado nada ao mesmo tempo. Para Kanda, era exatamente o contrário.

Fleur ainda possuía toda sua candura, mesmo na forma de chorar. Não fosse o fato de ter crescido um bocado, continuaria a mesma criança do passado. Mas não era apenas a altura que mudara nela, Kanda podia perceber: seus olhos tinham um brilho diferente. Tímidos, sim, mas com algo a mais. Algo como desejo e paixão, contidos. Kanda se sentiu tragado por aquele olhar tão cristalino. E se perguntava se Fleur conseguia enxergar nele o mesmo que enxergava nela.

Poucas lágrimas ainda rolavam dos olhos azuis. Kanda sentiu o impulso de secar as bochechas coradas da menina. Contudo, o simples tocar desencadeava vontades muito mais profundas do que o rapaz podia controlar. Algo estava errado. Por mais que tivesse sentido a falta de Fleur todos aqueles anos, Kanda não podia se deixar levar. Mas Fleur crescera e se tornara tão linda... Muito mais do que era quando pequena. Kanda precisava extravasar toda aquela saudade amarga.

Sem raciocinar direito, ele projetou o corpo para mais perto da menina. Secou suas lágrimas carinhosamente e ela aproveitou o afago como se jamais fosse sentir algo parecido. A trajetória de Kanda foi lenta, pois ele tentava resistir ao próprio instinto. No entanto, o rosto já estava perto demais de Fleur. Perto o suficiente para sentirem a respiração um do outro. O corpo pedia por aquele contato, sua boca queria quebrar aquela distância. Desnorteado com o poder que a menina exercia sobre ele, Kanda deixou a mente se tornar um completo fundo negro. Deslocou, finalmente, uma das mãos à nuca de Fleur, trazendo-a para um beijo inundado de uma cobiça inexplicável.

Porém seus lábios não chegaram a se tocar.

A porta escancarada sobressaltou os dois, que se viraram de chofre na direção do som. Era como um encanto que se quebrava de repente. Ambos arregalaram os olhos, sem ter reação de pronto.

– Ah, mas que fofo. Encontrei os pombinhos numa cena tão romântica... — Mme. Collet vinha na direção deles com um andar maldoso e olhar gelado. — Infelizmente, terei de INTERROMPER!

As mãos pesadas puxaram Fleur por suas longas madeixas, fazendo-a gritar e soltar a pulseira no susto. Kanda tentou se erguer num salto, mas a madame enfiou a ponta de seu scarpin nas costelas do rapaz com um forte chute. Ele se curvou de dor, pêgo de surpresa. Pressionou uma das mãos nas costelas feridas e apoiou o corpo com a outra. Fleur girtou mais ainda. Mas Kanda soube que não era apenas por ele ou pelos puxões de cabelo. De olhos fechados, ainda recuperando o fôlego, Kanda teve um péssimo pressentimento.

– POR DEUS, ROSE! — Fleur gritou, aterrorizada. — Mme., o que fizeram com ela?! Como tiveram coragem de fazer isso com ela?!

Kanda se obrigou a entreabrir os olhos para ver o que estava acontecendo. Seus olhos bateram em uma cena que o deixou assombrado.

Enquanto a madame mantinha Fleur de joelhos, dominando-a pelo cabelo, os dois seguranças negros entraram no quarto. Um deles — o de cabelo baixo -, segurava um cacetete de madeira manchado de sangue fresco; o outro trazia Roselia arrastava por um dos braços. Kanda não teria como reconhecer a moça, não fosse pela roupa de antes e por Fleur chamá-la pelo nome. Seu olho direito era uma bola vermelha arroxeada, tão inchada que ameaçava pular para fora da face. Os lábios borrados do batom vermelho que agora se misturava a sangue não ficavam atrás em nível de gravidade. Kanda viu marcas roxas e cortes em abundância, e o braço livre de Roselia estava largado ao lado do corpo em um ângulo muito perturbador.

Fleur não parava de espernear em prantos, tentando alcançar a colega. Irritada, Mme. Collet a sacodia para que ela se controlasse. A mulher se virou para Kanda, encarando-o com soberania.

– Um colecionador, não é mesmo...? — ela debochou, abrindo um sorriso malígno. As palavras saíam lentas, embebidas em veneno. — Você se meteu com a pessoa errada, "cãozinho da Ordem"...

Notas finais
1 - Franco: era a moeda usada pela França (e alguns outros países europeus) antes de ser substituída pelo Euro. A grande verdade é que não sei como é a contagem de valor dessa moeda, então tive que inventar um pouquinho. ~~~ E aí, gostaram? Espero que sim, de coração, mesmo que o início do capítulo tenha sido um pouco parado. e---e" Vou aproveitar esse espacinho final para perguntar outra coisa então... Uma amiga me deu a idéia de criar uma page de facebook. Como eu não tinha o que criar, pensei se seria legal fazer uma page da fic. Para ter um pouco mais de contato com vocês, talvez? O que acham, vocês gostariam? Me respondam, se possível, e até a próxima!