Aquele poderia ser o pior dia de toda a minha vida. Não. Aquele era o pior dia de toda a minha vida. Meu mal humor estava no auge. Uma prova disso, era a força com que eu bati a porta do meu armário. Demétria arregalou seus olhos castanhos claros para mim.

"Calma, Rocky.", ela me alertou. A encarei com um olhar assassino que a fez recuar. "Não desconte a sua raiva no armário, ele não tem culpa de nada."

"Tem razão"., concordei. "A culpa é da minha mãe.", explodi de novo e soquei o armário. Demétria recuou mais uma vez. Algumas pessoas pararam para ver o que estava acontecendo. Quando viram que era apenas mais uma pessoa socando o armário, continuaram o seu caminho. Eu não era o tipo de pessoas que as pessoas prestavam muita atenção. "Onde ela estava com a cabeça quando resolveu namorar esse cara?"

"Sua mãe tem direito a uma segunda chance , Rocky.", Demétria me repreendeu. Rolei meus olhos, mesmo sabendo que era verdade. "Além disso, não vai ser tão ruim assim passar um tempo com ela e o namorado."

"Se fossem só eles, eu estava bem," admiti. Um segundo depois de me imaginar segurando vela deles, me arrependi das palavras. Balancei a cabeça continuando. "Não estava tão bem, mas seria melhor. O problemas é que vou ter que aguentar um bando de nerd e feios."

"Pensei que ia passar as férias na casa do namorado da sua mãe, não em um clube de xadrez.", ela riu. A empurrei em direção a saída e me peguei sorrindo junto.

"Nesse momento, estou quase implorando pelo clube de xadrez.", soltei o ar, enquanto caminhava para casa. Fiz uma careta com esse pensamento. Minha casa tinha que ser tão perto da escola? "Os nerd feios, são os filhos do cara."

"Ah", ela disse, me entendendo. Então sorriu, como se fosse a coisa mais boba do mundo. "Você consegue aguentar um ou dois pirralhos."

"O problema é que não são um ou dois.", disse parando para encará-la. "São seis filhos."

Demétria parou com os olhos arregalados, então começou a rir. Esse riso eu não acompanhei porque sabia que ela estava rindo de mim. Saí andando na frente, batendo o pé com raiva. Escutei o som de seus tênis batendo contra o chão, conforme ela corria para me alcançar. Mesmo sendo três anos mais velha que eu, Demétria ainda era mais baixa, o que fazia mais lenta.

"Desculpe, Rocky.", ela disse ainda rindo. Bufei e continuei andando frente. Finalmente ela parou de rir e se forçou a ficar séria. "Do mesmo jeito, ainda acho que você deveria pegar leve com sua mãe e o namorado dela."

"Eu pego leve"

Ela voltou a rir, mas dessa vez, era um riso irônico. Eu tinha que concordar com ela. Eu nunca pegava leve. Demétria balançou os cabelos castanhos recém tingidos. Com certeza ela estava tendo o mesmo pensamento que eu.

Eu faria aquela viagem ser um inferno.

Mas, ao chegar em casa e ver minha sorridente mãe terminar de fazer as malas, não pude deixar de me sentir egoísta. Ela nem me viu chegando enquanto verificava se tudo estava ali. Pela quantidade de malas, me perguntei se iríamos passar as férias ou o restante da vida com o namorado dela. Ela sorriu quando me viu parada na porta a encarando.

"Entre, garota.", ela disse e sorriu. Nunca tinha visto os olhos de minha mãe brilharem tanto. "Ainda falta a sua mala."

"O quê?", perguntei espantada.

Jurava que no meio daquela bagunça tinha, pelo menos, algumas roupas minha enroladas na fronha, mas parecia que eu estava enganada. Minha empatia foi embora. Os olhos castanhos escuros de minha mãe se estreitaram. Ela me conhecia melhor que ninguém. De algum jeito ela já suspeitava que não iria sem uma pequena guerra. Abri a boca para dizer mais alguma coisa, quando ela me cortou.

"Se você não se arrumar rápido, irá viajar de uniforme."

O tom duro que ela usou, não me deu a possibilidade de pensar que ela estava blefando. Sem mais nenhuma palavra, subi para o meu quarto. Peguei do meu armário uma mala antiga e comecei a tacar roupas lá dentro. Já sabia que essa férias seriam uma droga. Puxei uma roupa e me enfiei no banheiro para terminar de me arrumar.

Parei um segundo em frente ao espelho, fazendo caretas e dando língua. Exatamente o que eu queria fazer para a minha mãe. Quando meus males já estavam para fora, me pus a começar a me arrumar. Comecei com a maquiagem.

Eu não era o tipo de garota que tinha a pele pálida perfeita, os olhos claros e brilhantes e cabelos lisos e chamativos. Minha pele era morena, por causa da minha mistura. Meu pai era branco e minha mãe era negra. Então, nasci meio termo. Contando com o fato de que eu não era muito fã de praia, me mantive bem firme na minha cor atual de moreno.

Meus cabelos, eram outra mistura. Eles eram cacheados desde a raiz , até as pontas. Isso eu herdei de minha mãe. Mas, a cor escura, era do meu pai. Claro que eu destruí um pouco essa herança com minhas mexas azuis. Meu pai amava minhas mexas tanto quanto meu percing no nariz. Girei a argola preta no meu nariz e sorri. É, eu era rebelde.

Os olhos eram, também uma mistura, além da parte que eu mais gostava do meu rosto. Quem olhasse para ele, via um castanho escuro sem graça. Eu também via isso antigamente. Mas, conforme eu fui crescendo e vendo as maravilhas da maquiagem, percebi que, toda vez que eu cobria meus olhos com cores escuras, ele clareavam até chegar a um tom de castanhos chocolate. Passei o lápis de olhos enquanto observava a mudança de meus olhos. Sorri mais uma vez e vi meu aparelho com borrachinhas roxas.

Terminando de ajeitar o meu cabelo, tirei meu uniforme comecei a por a roupa normal. E pensar que teria que usar aquela roupa por mais um ano. Maldição estar no segundo ano. Desci as escadas cinco minutos depois, carregando minha mala com dificuldade. Minha mãe estava tão distraída no celular que nem se preocupou com sua filha quase tendo uma contusão no ombro. Bati a mala com força no chão e isso chamou atenção o suficiente para que ela me olhasse. Ela olhou para a minha roupa de cima a baixo e sorriu, aprovando.

Isso já era uma boa coisa para o meu humor. Se meu pai me visse com essa roupa, iria pirar. Sua religião dizia que eu era filha do satã. Que fosse. Só porque eu usava uma blusa branca com uma caveira na frente, short preto com uma corrente servindo de cinto, meia calça rasgada nos joelhos e botas de cano médio, no tornozelo. Isso era estilo, não satanismo. Mas até que me vestir desse jeito funcionou para algo. Ele nunca mais tentou me levar para a igreja.

Puxei meu cordão para fora da blusa e segurei o anel pendurado nele por um momento. Os símbolos eram estranhos e fascinantes. No dia em que me dei isso de aniversário, pensei que duraria apenas uma semana até enferrujar, mas durou até hoje. Quase dez meses. Olhei para meu pulso cheio de pulseiras e taxas, e gemi. Estava desacostumada com a ausência do meu relógio. Puxei o celular da minha bolsa e olhei a hora. Parecia que o senhor perfeito estava atrasado.

Ajustei minha bolsa preta ao lado do meu corpo e fui até minha mãe, pronta para tirar sarro, quando uma buzina soou lá fora. Rosnei e bati o pé até a porta. Quase fui derrubada por minha mãe enquanto ela passava correndo em direção ao seu amado. Me segurei para não vomitar enquanto eles se beijavam. Limpei minha garganta, chamando atenção enquanto passava na porta com minha pesada mala.

"Oh, Rocky, me deixe ajudá-la.", o senhor perfeição disse.

Com um sorriso debochado, joguei a mala com força para cima dele com a intenção de vê-lo recuar. Tudo o que ele fez foi segurar a minha mala e sorrir para mim. Filho da mãe. Eu ainda achava que o namorado da minha mãe, não era normal.

Tinha muitas teorias sobre o que ele era, mas eu só pensava comigo mesma. Já cometi o erro de uma vez dividir os meus pensamentos com minha mãe e ela quase dividiu meu rosto com uma porrada. Por isso, eu mantinha o pensamento dele ser mais que um cara perfeito que tinha magicamente entrado na vida da minha mãe, somente para mim.

Havia pesquisado para ver se achava alguma coisa que o incriminasse. Qualquer coisa. Nunca encontrava nada além do óbvio. Rico, seis filhos, viúvo. Tentei relacionar esse sentimento de que havia alguma coisa errada ao fato dele ser viúvo. Nada. Sua mulher morreu de câncer. Do mesmo jeito, ainda tinha alguma coisa estranha com aquele cara. Bufei quando minha mãe começou a dar seus surtos de mulher apaixonada.

"Você está tão lindo, Leonardo.", ela pousou a mão no braço dele e deu um sorriso malicioso. Meu Deus, conseguia sentir meu estômago revirando.

Estreitei meus olhos estudando meu padrasto. Os cabelos negros lisos e penteados para trás, sem nenhum fio fora do lugar. Os olhos brilhantes verdes azulados. A pele pálida de um jeito bonito, mas estranho. Mesmo ele sempre afirmando ter 42 anos, eu nunca acreditei. Ele só aparentava ter recém 35. Agora, o observando ali parada, descobri outra coisa.

Leonardo não suava. Quero dizer, não que eu esperasse que ele fosse uma bica humana, mas parado embaixo de um sol forte de blusa de manga, esperava apenas uma gotinha descendo por seu rosto. Ainda mais que ele estava carregando várias malas pesadas. Quando terminou, me encarou com um sorriso bobo, como se pudesse fazer isso o dia todo. Bastardo.

"Entre, querida Rocky.", ele disse abrindo a porta de trás para mim.

Escorreguei para o banco e o vi entrando junto com minha mãe no carro. Bufei mais uma vez e puxei meu MP4 da bolsa, colocando os fones de ouvido e tentando me entreter com a paisagem. Fui puxada para longe , quando senti algo vibrando em minha bolsa. Puxei meu celular e gemi ao ver no visor: Papai.

"Mãe.", chamei, tirando os fones. Ela desviou os olhos de seu príncipe encantado e me encarou. Quando mostrei meu visor, ela fez uma careta. Fiz minha melhor cara de cão que caiu da mudança. "Por Favor, mãe. Só dessa vez."

"Não, Rocky. Você tem que atender e dizer que não vai passar as férias com ele.", ela respondeu firme. Leonardo levantou uma sobrancelha com aquela situação.

Inferno Sangrento, vou ter que atender. Soltei o ar e forcei a voz mais alegre que poderia sair de mim. Vi minha mãe pressionando os lábios juntos, tentando segurar o riso. Dei língua para ela e atendi.

"Hey, Pai."

"Princesa.", ele disse animado. Oh, isso nunca era um bom sinal. "Tudo bem com você?"

"É, claro", respondi rápido. Se o fato de que quebraria seu coração em menos de dois segundos fosse estar bem , eu estava ótima. "Mas, o que fez o senhor me ligar?", mordi o lábio esperando a resposta que eu já sabia. Minha mãe já tinha deixado de me encarar e olhava para a paisagem a frente.

"Queria te perguntar quando posso te buscar?"

Oh, Maldito Sangrento. Fechei meus olhos com força. Eu teria que fazer logo aquilo e parar de tanto enrolar. Mas, ao mesmo tempo que eu queria me livrar desse peso, a culpa ainda tomava conta do meu interior. Abri meus olhos com determinação e fiz as palavras escorrerem para fora de minha boca.

"Pai, eu te amo. Te amo de verdade.", eu comecei cautelosa, mas sem deixar tempo para ele responder de volta. Era como se eu tivesse confessando um assassinato e não dizendo que iria ficar com minha mãe nas férias. "Odeio te negar as coisas, mas vou passar as férias com minha mãe. Talvez quando eu voltar, almoce com você."

Ouvi um momento de silêncio. Minha mãe apertou os lábios juntos, prendendo o riso e eu estreitei os olhos para ela. Eu ali, tentando me livrar do meu e ela rindo de mim. Finalmente, escutei um suspiro vindo do outro lado da linha e meu pai disse.

"Tudo bem.", ele disse um pouco cabisbaixo. Suspirou mais uma vez e eu me senti tentada a dizer que sairia do carro naquele momento e estava indo para a casa dele, mas mordi meus lábios juntos e me impedi. "Até. Te amo."

"Também.", então desliguei.

"Morreu falar isso?", minha mãe disse depois que me joguei no banco de trás do carro com força. Minha vontade foi de mandá-la ir para o inferno, mas me mantive quieta e coloquei os fones de ouvido.

Leonardo falou alguma coisa para mim e sorriu, mas a música já estava ligada no último volume quase me deixando surda ao redor. Apenas assenti e dei um sorriso sarcástico. Quando ele se virou de volta para a estrada, revirei os olhos e comecei a cantarolar baixo em minha mente.

Aquela seria uma longa viagem.