Anel Dos Seis
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Capítulo 9
Pai,
Não sei se você ainda está com raiva por eu não ter ido a sua casa nessas férias. Mas espero que me entenda. Eu preciso que você me entenda. Desde que você e a mamãe se separaram, eu quase nunca vi um sorriso verdadeiro nos lábios dela. Não, esqueça essa última frase. Eu não vi um sorriso verdadeiro nela.
Não, até Leonardo aparecer. Não vou dizer que ele é a minha primeira opção de namorado ideal para a mamãe, mas é uma ótima opção. Ele a fez sorrir novamente. E eu não pude negar a ela quando me pediu para ir com ela nessa viagem. Afinal, tinha que conhecer meu talvez futuro padrasto. Mas, o que eu quis dizer nesse e-mail é: espero que me entenda e que não esteja chateado comigo.
Rocky.
Reli meu e-mail recém escrito algumas vezes antes de apertar o botão de enviar. Abaixei a cabeça, passando os dedos pelos nós dos meus cabelos. Cocei os olhos. Nem parecia que toda aquela loucura só havia acontecido a dois dias atrás. Eu nem acreditava que estava acontecendo ainda. Olhei na direção da cama e vi algo que me fez sorrir.
Felipe dormindo parecia uma pessoa normal. Alguns de seus fios loiros estavam jogados em seu rosto, levemente corado. O peito subindo e descendo lentamente. Meu sorriso cresceu ainda mais. Só naqueles curtos momentos, ele realmente parecia ter 17 anos.
Meu sorriso diminuiu quando meu olhar cruzou com uma pequena marca em seu lábio. Ele e Gustavo deveriam ter brigado de novo. Seria a quinta vez desde que eu sabia de toda a verdade. Eu estava ficando cansada de ficar separando. Claro, ás vezes que eles brigavam na minha frente. Segurei a vontade de acordá-lo e voltei a olhar para meu notbook.
Quando tive certeza que o arrependimento não bateria em mim, me levantei e fui tomar banho. Estava decidida. Hoje tiraria Felipe de casa. Talvez nós pudéssemos dar uma volta pro algum shopping, ou ir ao parque de diversão. Aquela casa estava me deixando mal humorada. A tensão tocava os pêlos dos meus braços e os fazia se arrepiar. Parecia que cada Glen analisava os meus movimentos, esperando que eu finalmente pudesse decidir o que faria com o anel.
Na verdade, eu não sabia o que iria fazer com o anel. Tinha uma parte de mim que queria entregá-lo aos Glen, para que eles pudessem destruí-lo. Mas aquilo só iria funcionar se Felipe concordasse em ajudar. Além disso, a próxima lua cheia só seria dali a uma semana e meia. Eu tinha bastante tempo. Então, tinha a coisa com Felipe e as lembranças do seu avô. Sim, esse anel era a lembrança que mais se refletia nele, mas ele teria que ser amaldiçoado com uma vida solitária por causa de lembranças?
Saí do banheiro secando meus cabelos na toalha e vestindo a camisa do Green Day que Demétria tinha me dado de aniversário. Coloquei um short jeans escuro e me sentei na penteadeira. Peguei a escova e comecei a pentear o meu cabelo. Fiz uma maquiagem básica e terminei de me arrumar.
Olhei para Felipe mais uma vez e suspirei. Ele continuava dormindo. Antes que eu pudesse me conter, andei até a beirada da cama e me ajoelhei ao lado do rosto dele. Mais uma vez me impressionei pelo fato dele parecer tão jovem. Levantei a mão para tirar alguns fios de cabelos que estavam em seu rosto, mas recolhi a mão com medo de acordá-lo.
Mordi o lábio e balancei a cabeça, me levantando e respirando fundo. Era incrível o poder de atração que esse garoto tinha posto em mim. Como prova disso, não consegui me segurar muito tempo longe dele e voltei a me ajoelhar do seu lado. Fiquei olhando para o seu rosto, tentando ver o garoto que a dois dias atrás estava sendo acusado de ser traidor e me contou a história da maldição de sua família.
Minha mão se levantou mais uma vez, e antes que eu pudesse me segurar de verdade, meus dedos tocaram os fios loiros de Felipe. Eram tão macios que eu poderia confundí-lo com fios de ouro. Tirando o cabelo da frente, pude estudar melhor o seu rosto. As maçãs do rosto destacadas pelo tom avermelhado em seu rosto. E os lábios... tão tentadores. Quando dei por mim, estava me aproximando dele. Minha boca formigava e minhas mãos estava suadas.
“Rocky Days. Desça aqui agora.”
O grito ecoou pela casa como vindo de um megafone. Felipe abriu seus olhos, alarmado e me viu a poucos centímetros dele. Demorou um ou dois segundos, mas o choque de ter sido pega feito algo que não deveria me tomou e eu dei um salto para trás. Felipe passou a mão por seu cabelos e se sentou na cama.
“O que você estava fazendo, Rocky?”
“Eu-eu”, gaguejei procurando uma resposta não muito estúpida para a sua pergunta. Mas, eu não conseguia responder aquilo nem para mim mesma. Afinal, o que eu estava fazendo? “Eu só queria ver se você estava mesmo dormindo ou se estava me vendo nua quando saí do banheiro”
Felipe estreitou os olhos verdes para mim, não acreditando muito no que eu estava dizendo. Na verdade, eu quase me dei um soco pela desculpa ridícula que tinha saído de minha boca. Eu já havia sido melhor com desculpas. Senti minhas bochechas corando, enquanto um pequeno sorriso sonolento crescia nos lábios de Felipe.
“Você iria me beijar?”, ele perguntou sem hesitar.
Abaixei os olhos, ainda mais constrangida. Afinal, sim, eu iria beijá-lo, diabos. Nunca tive vergonha em tomar uma iniciativa com um garoto. Mas, era com garotos normais. Garotos que não tinham poderes especiais e nem que conseguiam mexer comigo de um jeito que eu pensei que fosse impossível. Quase balancei a cabeça, tão clichê. Antes que eu tivesse a chance de respondi, escutei meu nome ser chamado mais uma vez.
“Rocky Days”
Dessa vez, prestei mais atenção a voz, até que a reconheci. Franzi o cenho, duvidando um pouco da minha mente. Aquele ponto e eu estava ficando maluca? Balancei a cabeça e passei os dedos por meus cachos. Eu tinha certeza que era quem eu pensava que era. Felipe ficou me observando, até que eu desviei os meus olhos dos seus e fui até a porta.
“Quem é?”, ele perguntou.
Incrivelmente, ele estava me seguindo.
“Minha amiga.”, eu respondi sorrindo.
Cheguei até a beira da escada e olhei para baixo. Meu sorriso aumentou quando percebi que não estava totalmente maluca e que Demétria realmente estava ali. E ruiva. Levantei minhas sobrancelhas, surpresa. E quando ela focou aqueles grandes olhos castanhos em mim e gritou meu nome de alegria, não pude deixar de rir.
Desci as escadas rapidamente. Meus braços formigando por um abraço dela. Senti o olhar de Felipe queimando em minhas costas, mas o ignorei. Sabia que os outros irmãos Glen estavam ali, mas preferi esquecê-los por tempo. Quando senti Demi me abraçando, me senti em casa novamente.
“Seu cabelo...”, deixei a frase em aberto, não sabendo como finalizá-la. “está vermelho”
“Mentira?”, ela disse com sarcasmo na voz. “Pensei que tinha passado do tom e tinha ficado loira.”, ela revirou os olhos. Então, riu e me abraçou de novo. “Eles são realmente uns gatos.”, ela sussurrou em meu ouvido. Fiquei tensa. Lembrei-me da super audição deles. “Principalmente aquele loiro de olhos verdes.”
Me afastei dela.
“Quem?”, perguntei, mas sem som, apenas mexendo os lábios.
Demétria olhou para trás, apontando com os olhos para Rafael. Ele sorria na direção da minha amiga, com suas malas na mão. Eu suspirei aliviada. Por um segundo pensei que ela estivesse falando de Felipe. Olhei por cima dos ombros para ele, e percebi que o mesmo sorriso manhoso ainda estava lá. Voltei a olhar para minha amiga rapidamente. A lembrança do quase beijo ainda queimava na minha mente.
“Então, onde é o meu quarto?”, Demi perguntou.
Eu sorri, porque não estava mais sozinha.
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“Então, qual é a sua com esse Felipe Glen?”
Parei de amarrar o meu biquíni e olhei para Demétria que terminava de arrumar o seu longo cabelo ruivo. Eu tinha esquecido como ela pegava as coisas rapidamente. Me senti culpada por um momento por tê-la posto nesta confusão. Mas, eu precisava de alguém naquele momento comigo. E Felipe não seria uma boa opção. Já que parte daquela confusão era culpa dele.
“Eu não tenho nada com ele.”, eu disse. Demétria me encarou pelo espelho. Desviei o olhar. “Ele é bonito, mas não rolou nada entre nós dois.”
“Por que eu sinto um tom de AINDA no ar?”, ela disse rindo. Então se levantou e andou até a janela. Eu sabia o que ela estava vendo. Os cinco irmãos Glen na piscina. Tinha quase certeza que Felipe estava sentado na árvore, apenas observando. “Eu vi o jeito que vocês dois se olharam. Se você não tivesse me dito que ainda não rolou nada, eu teria dito que estão quase namorando.”, ela se virou para mim e levantou uma sobrancelha. “Ele sabe que você é virgem?”
“Demétria”, gritei, envergonhada.
“O que foi?”, ela perguntou se fazendo de inocente.
“Não tenho que ficar espalhando a minha vida sexual – ou a falta dela – por aí.”, estalei a língua e cruzei os braços. “Você conta para todos os seus namorados com quantos caras você dormiu?”
Demi levantou as mãos em sinal de desistência.
“Ok. Não está mais aqui quem falou.”, ela suspirou e passou os dedos por seus cachos. “Vamos para a piscina. Me lembre de agradecer a sua mãe pela ótima escolha de namorado que ela teve.”
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Demétria olhava para o jardim dos Glen com a mesma admiração que eu tive no primeiro dia ali. Nem parecia que tinha quase uma semana que minha mãe tinha me enfiado naquela loucura. Fiz uma nota mental de ligar para ela mais tarde para ver se estava tudo bem. Talvez conversasse com Leonardo sobre tudo o que estava acontecendo. Afinal, eram os seus filhos que estavam quase se matando por causa do anel.
“Você está distante de novo”
Pisquei algumas vezes antes de focar em Demétria.
“Hum, foi mal”, fiz um sinal vago com a mão. “É que eu não estou muito afim de ir para a piscina hoje. Mas não quero te prender em casa. Pode ir.”, adicionei apressada, antes que ela me matasse. “Rafael é um ótimo nadador.”
Demétria abriu e fechou a boca como um peixe. Eu sabia que tinha jogado a isca certa, quando seus olhos brilharam e focaram na piscina atrás de mim. Então ela voltou a me encarar e levantou o dedo em sinal de aviso. Eu sabia que não iria escapar tão fácil.
“Você vai me contar o que está te incomodando quando eu voltar, escutou, Rocky.”, ela afirmou antes de virar as costas e marchar até a beirada da piscina, colocou o seu sorriso encantador e começou a conversar com os outros Glen.
Suspirei, aliviada e me encostei na árvore. Cruzei os braços e vi a facilidade de Demi em flertar com Rafael. E como ele respondia rapidamente. Sorri. Realmente estava sentindo falta daquele tipo de normalidade perto de mim. Comecei a relaxar, quando escutei um galho se estalando atrás de mim e um baque surdo. Revirei os olhos.
“Sua amiga tem uma personalidade forte.”, Felipe disse parando atrás de mim. Sua respiração roçou em meu pescoço e me arrepiou, mas me mantive estática. “E você ainda está me devendo uma resposta.”
“Sim, o céu é realmente azul.”, eu disse gesticulando. “Mas é por causa de um gás...”
Antes que eu pudesse terminar a minha frase, senti seus braços em meus ante braços, me puxando para o outro lado da árvore. Um lado que nenhum dos irmãos Glen conseguiria ver a gente. Meus olhos se arregalaram e minha respiração ficou irregular. Ele me pegou desprevenida. E antes que eu pudesse gritar, ele pôs a mão em minha boca e aproximou nossos rostos.
“Vou te soltar, mas você tem que me prometer que não vai gritar”, ele disse com aquelas esmeraldas olhando no fundo dos meus olhos. Eu respirei por entre os seus dedos e assenti. Ele soltou lentamente. “Boa menina.”
Empurrei sua mão longe de mim.
“Você é louco?”, eu quase gritei, mas controlei a voz. Ele estreitou os olhos. “Se você quer a maldita resposta: Sim, eu iria te beijar. Mas agora eu vejo que seria a coisa mais idiota da minha vida. Afinal, eu estaria me envolvendo com alguém que planeja um futuro solitário.”
Felipe me encarou com os olhos arregalados e a boca aberta, surpreso. Antes que a adrenalina sumisse de vez do meu organismo, virei as costas e saí andando.
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