Anel Dos Seis
11 Capítulo 10
Notas iniciais
A mulher saía do poço.
Seus cabelos escondiam seu rosto. Ela andava arrastando seu corpo pálido e magro para frente. Os negros cabelos estavam molhados e pingavam. A música de suspense fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. O vestido preta da menina também estava molhado e rasgado em algumas partes. Ela se aproximava. A tensão tocou meu corpo. Ela estava cada vez mais perto.
“Droga.”, Demétria sussurrou ao meu lado.
Mesmo na luz fraca, pude ver que o rosto da minha amiga estava ficando pálido. E a minha mão estava doendo com o seu aperto. Por que ela resolveu assistir esse filme se tinha tanto medo? Revirei os olhos. Estávamos sentadas em um amontoado de almofadas na sala de vídeo dos Glen. Putz, aquela casa tinha tudo mesmo. Escutei o som de um telefone tocando, mas não voltei a encarar o filme.
“Você tem 7 dias”, Demi disse com uma voz arrastada e estranha, tentando imitar a personagem do filme.
Se eu não estivesse com os pensamentos tão distantes, poderia até ter rido. A verdade é que eu não gostava de assistir filmes de terror. Eu só precisava ocupar a minha mente mostrar para Demétria que não tinha nada de errado comigo. Mas tinha alguma coisa de errado comigo. Eu não conseguia parar de pensar no jeito como meu coração bateu quando eu estava tão perto de beijar Felipe enquanto ele dormia.
Então minha lembranças se arrastavam para o quintal hoje mais cedo. Mesmo contra a minha vontade, eu me sentia culpada. Não deveria ter tratado Felipe de um jeito tão rude. Segurei o impulso de balançar a cabeça. Claro que deveria ter tratado ele daquele jeito. Ele tinha que saber o que o futuro estava reservando para ele graças aquela decisão idiota de ficar com a maldição só para ele.
Eu queria fazê-lo mudar de ideia, mas o que deveria fazer? Felipe era tão cabeça dura quanto eu. Tão arrogante quanto. Tão irônico quanto. Falar com ele, era como dialogar com um espelho. Então, deveria ser fácil, certo? Só que não. E, além disso...
“Rocky Days, você vai me dizer o que está acontecendo nesse exato momento.”
Tive que piscar algumas vezes para perceber que Demétria tinha pausado o filme e que me encarava com os olhos castanhos matadores. Minha espinha se gelou e minha cabeça demorava a trabalhar em uma boa desculpa. Eu estava tão ferrada. Então, fechei os olhos. Odiava mentir para Demi. Além disso, ela não era a minha melhor amiga? Eu tinha que dividir tudo aquilo com alguém. Mordi o lábio inferior.
“Demétria, você acredita em mágica?”, eu perguntei.
Por alguns segundos, me senti uma garota de 12 anos de idade. Me lembrei de quando eu e Demétria éramos mais novas e fingíamos ser princesas de um castelo encantado. Um pequeno sorriso cresceu em meus lábios. Abri os olhos, apenas para ver os olhos de Demi se suavizando e ela me encarando como se não soubesse a resposta.
Pelo menos ela teve uma reação melhor que a minha.
“Sinceramente, Rocky”, Demétria hesitou e respirou fundo. “Esse papo de mágica é muita loucura.”, ela disse cada palavra com cuidando olhando no fundo dos meus olhos. Eu abaixei os meus olhos negros para minhas mãos e vi meus dedos brincando com a minha camisa. “Mas.”, voltei a para a ruiva. “você é minha melhor amiga. E não importa o que esteja acontecendo, eu acredito em você.”
Eu sorri, por que sabia que Demi estava falando a verdade. Respirei fundo, me ajeitando nas almofadas. Não era coisa tão fácil de se contar. Nem eu sabia por onde começar. Hesitei por uns longos segundos e Demétria aguardou, pacientemente. Coisa que ela não fazia geralmente.
“Sabe, esses filhos do Leonardo não são... pessoas comuns”, eu disse, hesitando. Então peguei o controle e coloquei o filme para continuar. O som abafou algumas de minhas palavras, por isso me aproximei e comecei a sussurrar no ouvido de Demi. “Tudo começou com antepassado deles que se apaixonou por uma bruxa...”
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Eu acordei alarmada. Me sentei rapidamente, passando a mão por minha testa suada. Tentei me orientar do lugar eu estava. Demorou. Mas quando vi a confusão de lençóis aos meus pés, me lembrei que estava no quarto de Felipe. Demétria estava dormindo no quarto de Sophie. Ou eu esperava que ela estivesse dormindo depois da história que eu havia contado sobre os Glen.
Minha garganta reclamou, pedindo água. Me levantei, vestido apenas um blusão preto com o dizer: Seja consciente, escute rock e plante uma árvore. Minha mãe que havia me dado de aniversário. Lembrar disso, quase me fez me dar um soco. Tinha esquecido de ligar para Leonardo. Abri a porta do quarto, olhando para os lados e me certificando que estava tudo limpo. Comecei a descer as escadas na direção da cozinha.
Onde Felipe tinha ido a uma hora dessas? Nós não havíamos nos falado desde hoje cedo no quintal. Quando entrei no quarto para dormir, ele já estava deitado e dormindo. Ou era o que eu achava. Entrei na cozinha, ainda inerte em meus pensamentos e peguei um copo de água, tomando-o. Meus pensamentos foram cortados quando escutei o som do piano.
Primeiro pensei que tinha tomado água batizada e com um efeito rápido. Mas não. Alguém realmente estava tocando piano a essa hora da noite. Eu, curiosa, para não dizer fofoqueira, resolvi seguir o som. Eu deveria ser mesmo maluca. Em uma casa cheia de bruxos e eu andando livremente, como se não houvesse perigo.
Entrei em um corredor que ainda não tinha me dado ao luxo de explorar. O som ficou mais alto e eu reconheci a música. Era My Immortal. Fechei os olhos. Eu amava aquela música. Meu segundo namorado sempre ia na minha casa escutando ela. Me aproximei de uma grande porta de madeira entre aberta. Meus passos estava arrastados e cuidadosos.
Quando entrei, fiquei impressionada com a quantidade de livros em uma grande sala com enormes estantes. Então aquela era a biblioteca dos Glen? Deveria ter livros desde a época do início da maldição. Será que tinha livros sobre bruxaria? Com certeza, sim. Desviei o olhar dos livros e encarei o piano no centro da sala. Demorou alguns segundos para reconhecer quem estava tocando, por que o piano estava escondendo. Mas, consegui ver alguns fios dourados saindo pelos cantos e percebi que era Aurora.
Arregalei os olhos pela maneira que ela tocava. Era perfeita para uma garota de 13 anos. Só que deveria ser pessoal para ela. Dei um passo para trás, querendo sair discretamente. Então, a tábua atrás de mim rangeu e todo a minha discrição foi embora. Aurora parou de tocar e se levantou pousando os olhos azuis frios em mim.
“Me desculpe.”, dei mais uma passo para trás. “Já estava saindo. É que eu fui beber água e escutei. Putz, é uma das minhas músicas favoritas. Eu costumava escutar com meu ex namorado”
“Oh, pelo bom gosto música você tem, pelo o que eu reparei.”, ela desviou os olhos dos meus e voltou a sentar no piano. Estreitei meus olhos, pensando na probabilidade de prendê-la no piano. “Sente-se aqui, Rocky. Vamos nos socializar.”
Meus olhos se arregalaram e eu franzi o cenho. O que aquela anã estava aprontando? Antes que eu pudesse pensar em uma desculpa, Aurora voltou a tocar. My Heart Is Broken. Reconheci nas primeiras notas. Foi como se eu estivesse sido atraída pela música. Quando dei por mim, estava sentada em um banco atrás dela, cantarolando a música.
“Parece que você conhece o repertório dessa banda.”, Aurora comentou. Reparei que ela estava com um vestido rosa bem claro. Suas roupas quase não destacavam seu tom de pele. Mas, isso trazia um tipo de beleza incomum para ela. “Eu escuto Evanescence desde os meus 10 anos.”
“Eu fui no show esse ano. A uns dois meses.”, comentei. Ela parou de tocar e me encarou com os olhos arregalados. Percebi que ela estava encantada, como qualquer criança de 13 anos. “Fiquei de sete da manhã até meia noite fora de casa. Minha mãe quase deu um ataque.”, eu ri, lembrando de mim e algumas colegas na fila. Demétria não curtia muito essas bandas, mas ela curtia algumas músicas. “Foi muito emocionante. Algumas amigas passaram mal e eu estava tão perto do palco.”, contei.
Aurora continuava me encarando em silêncio.
“Eu nunca fui a um show antes.”, eu continuei falando. “Mas, quando me avisaram que teria Evanescence, eu tive que ir. Era como um sinal dos céus. Convencer a minha mãe foi a parte mais fácil. Eu tinha um dinheiro guardado.”, dei de ombros.
“E o seu pai?”, Aurora perguntou, totalmente virada para mim.
Abaixei os meus olhos, meu sorriso diminuindo.
“Meu pai é da igreja.”, eu disse como se explicasse tudo. Então, percebi que estava falando com uma bruxa. “Ele é um pouco rígido com essas coisas. Ele não gosta, mas também não me impede. Até porque, só quem pode fazer isso é minha mãe. Nós, eu e meu pai, quase não nos vemos. Tenho mais dois irmãos. Daniel e Rosana. Daniel tem quase 18 e é meu irmão de consideração, filho da minha madrasta. Rosana é minha meia irmã. Ela deve ter a idade de Marie.”
Me calei, percebendo que estava contando metade da minha vida para uma criança. Coisas que eu nem havia contado para Felipe. Fechei os olhos por um momento, imaginando os motivos que levaram meu pai a não responder o meu e-mail. Aurora, percebendo que eu não falaria mais nada, voltou a tocar no piano. Lithium. Sorri, balançando a cabeça e lembrando das cenas do show. Cantarolei baixo.
“Eu nunca fui a um show.”, Aurora disse de repente, me fazendo abrir os olhos. Ela estava de costas para mim e as notas continuavam soando pela biblioteca. “Com essa coisa de poderes e maldição, nunca tive tempo para ser uma garota normal. Nunca dormi na casa de uma amiga. Nem, ao menos, tenho uma amiga.”
Mordi o lábio. Eu poderia acabar com aquele sofrimento se desse o anel a Felipe. Mas, só de imaginá-lo consumido pelo poder e pela solidão, meu coração se apertava. Eu não desejava aquilo nem para o pior inimigo. Muito menos para Felipe. Sabia que ele queria fazer aquilo para ajudar a família, mas... Eu não poderia deixar.
“Muitos pensamentos passam a sua mente de uma vez, Rocky.”, Aurora disse, ainda de costas para mim. Fiquei tensa. “Tente ordená-los.”
“Você lê mentes?”, eu perguntei com um fio de voz.
Aurora riu.
“Não, bobinha.”, ela respondeu e finalizou a música. Então se virou para mim. “Mas eu sinto suas emoções. Medo, indecisão, paixão.”, meus olhos se arregalaram. “Eu iria te dar um aviso sobre Felipe, mas como sei que todos esses sentimentos tem a ver com ele, sei que você não vai me escutar.”, ela olhou fundo nos meus olhos. “Você está muito envolvida emocionalmente com ele.”
“O que você quer dizer com isso?”, eu perguntei, hesitante em escutar a resposta.
O sorriso de Aurora aumentou.
“Não preciso usar meus poderes para ver que você está apaixonada por Felipe, Rocky”, ela disse. Meu coração deu uma pausa e meus pulmões pararam de responder por alguns segundos. Ai, Jesus. “Está nos seus olhos.”, abri a minha boca para tentar me defender, mas Aurora levantou a mão, me interrompendo. “Não precisa dizer nada.”
Eu estava tonta. Atordoada. Eu estava... apaixonada? Levantei, sem saber o porque. Minha mente estava um turbilhão. Eu não deveria está assim, afinal, já deveria desconfiar que estava apaixonada por Felipe Glen desde a primeira que o parado na porta de casa cheio de malas e me chamando de empregada. Passei a mão por meus cabelos desgrenhados e comecei a ir em direção a saída.
“Eu tenho que tomar um ar.”, eu disse e fechei a porta atrás de mim.
Minhas pernas se tornaram gelatina por um momento e eu escorreguei com as costas na porta. Sentei, abraçando as minhas pernas e com o coração acelerado. Droga. Eu não acredito que me apaixonei pelo vilão de história. Gustavo seria uma opção melhor, certo? Todos gostavam dele. Ele era bonito. Fechei os olhos, lembrando o beijo dele. Vazio. Nada.
Balancei a cabeça, me levantando. Precisava tomar um ar fresco. Andei com passos apressados até a porta e a abri, recebendo um leve brisa no rosto. Fiquei tensa. Esse era o elemento de Felipe. Como eu iria voltar para o quarto e dormir? Dormi do lado dele? Droga, eu realmente estava agindo como uma garota apaixonada.
Sempre pensei que o elemento de Felipe fosse o mais fraco, mas só agora estava percebendo o quanto ele era... forte. Comecei a andar pelo quintal, parando encostada na árvore dele. O ar era tão presente. Sem ele não existiria vida. Poderíamos ficar um dia sem beber água, mas nem um minuto sem ar.
Senti o anel se esquentando por cima do meu blusão e me levantei rapidamente. Olhei para os lados, alarmada. Então, toquei o anel. Será que tinha alguma coisa errada com ele? Só faltava eu ter quebrado o anel dos seis. Eles me matariam. Isso trouxe uma pergunta a minha mente. Por que eles apenas não me matavam e pegavam o anel? Mas, logo depois que fiz a pergunta, me arrependi. Todos eram bons demais para fazer essa atrocidade.
“Porcaria.”, eu reclamei sozinha, pegando o anel e o analisando. “Não pode ter quebrado.”
“Esse anel é um estraga prazeres.”
Eu fiquei tensa quase que imediatamente ao escutar a voz dele. Minha pernas endureceram e foi quase impossível virar. Mas, eu o fiz, quando senti o anel se esfriando. Então, isso era um sinal para quando um bruxo se aproximava? Mas, isso não tinha acontecido quando eu estava com Aurora. Eu realmente precisava falar com Leonardo o mais rápido possível.
Me virei devagar, encarando os olhos verdes de Felipe, conforme ele se aproximava. Uma leve brisa bateu em meu rosto, mas eu não conseguia prestar atenção nisso. Primeiro, porque eu estava parecendo um monstro descabelado. Segundo, Felipe estava sem camisa, vestindo apenas uma calça de moletom e a visão de abdômen sarado não me ajudava a pensar muito a pensar. Pisquei com força e quando percebi, ele estava a poucos passos de mim.
“Eu queria me desculpar pelo o que eu fiz mais cedo.”, ele disse e deu um pequeno sorriso. Seu cabelo loiro estava desordenado e alguns fios estavam tampando os seus olhos. “Não foi muito delicado da minha parte tampar a sua boca e exigir uma resposta que você não queria dar.”
Eu me preparei para dar uma bela resposta, mas parecia que alguem tinham planejado o dia de Não Deixe a Rocky Falar. Felipe deu mais um passo a frente parando bem a minha frente e as palavras ficaram presas em minha garganta. Na verdade, eu quase engasguei com elas.
“Isso, Rocky.”, ele levantou a mão e acariciou meu rosto. “Não estrague o clima.”
Mais uma brisa tocou o meu rosto, fazendo meu cabelo voar.
“Pra que clima?”, perguntei.
Felipe deu um meio sorriso e passou um braço em volta da minha cintura. Eu arfei, surpresa. Mesmo a brisa sendo fria, seu corpo era quente. Muito quente. Seus olhos estavam fixos nos meus. Doía o modo como eles brilhavam feito esmeraldas. Mas, eu não conseguia desviar. Meu coração batia com tanta força que eu estava envergonhada dele poder escutar. Meus pulmões, eu nem sabia mais onde estava. A expectativa me atingiu em cheio. Ele deu um meio sorriso antes de responder, aproximando nossos rostos.
“Para isso”
E me beijou.
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