Andarilho Dourado
3 Capítulo 3 - De escravo a Senhor
Notas iniciais
Quando abri os olhos vi o chão indo e vindo por baixo de mim, mas não era o mundo que estava mexendo, era eu. Estava jogado na garoupa de um camelo. Quando me levantei vi que não estava sozinho, uma enorme caravana estava ao meu redor.
Levantei os olhos calmamente e me sentei corretamente no camelo. Um garoto um pouco mais novo que eu percebeu que eu tinha acordado e deu ordens à sua montaria para que se aproximasse de mim. Era um garoto moreno, com cabelos despenteados, olhos grandes e negros, ainda sem nenhum pelo na face, vestia roupas de ceda largas e frescas.
– Finalmente acordou! – disse com um sorriso meio debochado.
–Onde estou? – falei, ainda esfregando os olhos e ignorando o comentário do garoto.
– Ora ora... Já acordou fazendo perguntas... Fique calmo, se fossemos alguma ameaça para você tenha certeza que já teríamos te matado – disse ainda em tom de brincadeira – Você é de Xerxes certo? – sem esperar alguma resposta continuou – Bem tenho que agradecer a seu povo. Se alguma coisa não os tivesse exterminado tão rápido nos não teríamos conseguido achar nenhum tesouro – falou apontando para os camelos que estavam carregando objetos ao invés de homens.
Aquelas palavras feriram-me mais do que qualquer espada. Então tudo aquilo tinha realmente acontecido. Meus amigos, mestre e rei, não existiam mais. O animo abandonou meu corpo naquele instante. Devo ter aparentado tão mal que até mesmo aquele sorriso constante do garoto o abandonou. Ele falou alguma coisa a mim, mas pareceu que as palavras não chegavam a mim e as minhas palavras se trancaram dentro de minha boca. Logo depois ele desistiu de mim e começou a conversar com outro homem que estava na caravana.
O calor estava insuportável, uma imensa massa de ar quente se desprendia da areia e subia para os céus enquanto eu cambaleava de um lado para o outro do camelo. A imagem da caravana a minha frente estava totalmente turva e constante, até que um borrão marrom começou a aparecer mais a frente e os gritos de comemoração dos homens que estavam ao meu lado, pareceram a mim distantes e remotos. Aos poucos a quantidade de areia foi diminuindo e uma terra batida com tufos de grama aqui e acolá começavam a tomar o seu lugar.
A alguns metros de uma vila meu camelo passou por cima de uma pedra, que fez meu corpo desequilibrar e cair inerte no chão.
Quando me dei conta estava nu em uma banheira de cobre frio, ainda vazia. Estava sozinho a não ser por uma mulher morena, de seios fartos e cintura esguia. A luz proveniente de algumas velas refletia em cada curva do corpo daquela bela mulher. Uma bela visão para alguém que tinha acabado de perder tudo que conhecia. Ela estava de costas mergulhando panos em água gelada. Além dos panos em suas mãos tinham panos em todos os outros lugares, a começar pela tenda feita de panos e couros pardos sustentada por hastes de madeira, pelo chão estendiam-se tapeçarias ricamente ornamentadas e outros tecidos revestiam todos os móveis que ali estavam, para onde olhasse havia tecidos menos no corpo da bela moça, ela vestia uma cortina de peças redondas de ouro pra cobrir os seios, e algo feito de fio de cobre com partes em couro que servia para esconder suas partes íntimas.
Quando ela virou e me viu atônito olhando para ela, arregalou levemente os olhos, mas logo após sorriu com um dos cantos da boca e fitou-me com seus enormes e negros olhos estranhamente familiares.
–Já acordou... – disse surpresa – Existem homens que não são feitos para o deserto – disse andando lentamente e fazendo suas peças de ouro tilintarem, até parar e me lançar olhares de superioridade.
Estava me levantando para dar uma resposta a altura para ela quando escorreguei e cai desastrosamente sentado dentro da banheira, provocando risinhos por parte da Morena.
– Fique ai mesmo. Tire a areia de seu corpo e se apronte porque meu pai quer falar com você – dizendo isso ela levantou as mão e bateu palmas duas vezes, duas servas vestidas de tecidos brancos simples, meio encardidos entraram com duas enormes jarras de água fresca e despejaram na minha banheira, depois ela virou para as escravas – Ajudem-no com o banho e depois podem se juntar a suas famílias na Fogueira.
As duas outras mulheres fizeram um leve aceno com a cabeça em resposta enquanto a Morena saia dali seguida pelo tilintar do ouro, deixando o pano molhado jogado em cima de um móvel completamente ornamentado. Logo após de sua saída, uma das servas pegou aquele pano e começou a passar em meus ombros e busto enquanto a outra jogava água nos meus cabelos. No começo pareceu estranho, duas mulheres limpando e perfumando meu corpo, mas depois comecei a relaxar e gostar de tudo aquilo, até gostei de um leve formigamento que senti quando elas passaram aquele pano nas partes mais sensíveis do meu corpo. Depois de algum tempo elas se levantaram guardaram os panos e voltaram com toalhas. Levantei e sai da banheira, sem cair dessa vez, e elas me secaram. Depois que elas saíram pela segunda vez, não voltaram mais. Deixando-me nu e sozinho naquela tenda. Comecei a percorrer os olhos pelo lugar e pensar como um escravo como eu, pode desfrutar de tudo aquilo nem que fosse por apenas aquele instante.
Meus olhos pararam quando encontraram minhas roupas velhas e esfarrapadas dobradas e deixadas em cima de um banco estofado com tecidos vermelhos. Aproximei-me daquele banco e quando estava começando a me vestir uma voz falou atrás de mim.
– Você não vai vestir esses trapos vai? – disse a Morena, segurando roupas de ceda vermelhas e douradas – Meu pai mandou essas roupas para você – disse estendendo os braços.
Envergonhado, aproximei-me e peguei as roupas, porém ao desdobrá-las não fazia a mínima idéia de como vesti-las. Percebendo minha dificuldade com as roupas, ela me ajudou a vesti-las.
–Veja como está – disse ela apontando para um espelho, depois de eu estar vestido. Eu nem me reconheci, estava parecendo um senhor.
Dei uma olhadela nas roupas e depois nela.
–Quem é você?
–Me chamo Ruby, sou filha de Saloma, o chefe dessa vila.
–Porque eu estou aqui? E porque recebi tudo isso?
–Outras perguntas serão respondidas há seu tempo, agora você tem um compromisso com o Senhor meu pai. Ele te espera na Fogueira. Venha comigo – disse Ruby saindo por uma brecha da cabana.
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