Andarilho Dourado

4 Capítulo 4 - Um corpo, um monstro, um Mago.


Notas iniciais
Desculpem a demora.

Saindo da cabana, percorremos um estreito caminho por entre algumas barracas até chegarmos na Fogueira. Duas mesas postas paralelamente, uma de cada lado da fogueira se estendiam até encontrar uma mesa menor, porém mais ricamente ornamentada, disposta perpendicularmente as duas maiores.

Ruby e eu nos dirigimos à mesa de seu pai, o chefe da vila, provocando saudações do povo enquanto passávamos perto das outras mesas. O povo parecia feliz; homens, já embriagados, riam e brindavam energeticamente; crianças passavam correndo por entre as mesas e em volta da fogueira, absortas em suas fantasias; jovens casais deixavam a timidez de lado e iam dançar, acompanhando a música dos flautistas. Os guardas que iniciaram a festa concentrados em seu dever, agora, riam de suas próprias piadas e assistiam à dança, entretidos.

Sentei-me entre Ruby e seu pai, lugar de honra, apesar de não ter feito nada para que merecesse tal honraria. Saloma era um homem grande e largo, estava vestindo ouro e ceda; e quando cheguei estava tomando alegremente uma taça de vinho tinto. Ele terminou sua taça em um só gole e depois me fitou com olhos instigadores.

-Então... Pode me dizer o que aconteceu com nossos queridos vizinhos de Xerxes? – o sarcasmo na voz dele era claro. Foi então que me lembrei dos Povos Vermelhos, pelo menos eram assim que eram chamados em Xerxes os homens de pele acobreada que vinham comercializar os tesouros que achavam pelo deserto. O povo de Xerxes não simpatizava com esses povos, só permitiam a entrada deles em Xerxes devido ao comércio extremamente lucrativo. Agora, esses homens estavam diante de mim oferecendo comida de sua mesa e dividindo o conforto de seus lares.

-Senhor, não posso dizer que a história é longa; mas, com certeza, é complicada. Acredita em magia senhor?

Estudou-me por algum tempo antes de dar uma intensa gargalhada – A época dos heróis e magos se foi há muito tempo. Hoje só existem em canções.

Antes que pudesse voltar a falar um grito cortou a noite. A música parou. Todos viraram para a direção de onde o grito veio, enquanto os guardas se levantavam e marchavam na direção do “problema”.

Saloma saiu apressado atrás dos guardas, não sabendo o que fazer, apenas o segui. Um grupo de soldados estava aglomerado num beco entre uma cabana e outra, aos murmúrios.

-Saiam da frente! – disse Saloma, imponente, para que pudéssemos ver o que estava diante daqueles homens.

Resolutos, abriram caminho. Um corpo de uma mulher estatelado no chão. Seus olhos estavam vazios, sua face, aterrorizada. Um rombo adentrava sua barriga, expondo seus órgãos destruídos; tudo isso coberto por sangue.

-Digam a Sandra que sua filha está morta.

Desanimado, caminhando devagar e pesarosamente, Saloma voltava para a Fogueira. Segui-o, Mas no meio do caminho ouvi um estrondo e o som de pessoas em pânico vindo da Fogueira. Todavia, o chefe da vila pareceu não ouvir, estava imerso em seus pensamentos. Chacoalhei-o até voltar ao normal. Percebendo a situação, virou-se para um guarda que estava passando correndo:

-Quero vinte guardas comigo na Fogueira vindo pelo Sul e mais trinta vindo das direções noroeste e nordeste. Vamos pegar esse assassino esta noite.

-Sim senhor. – e saiu apressado.

*****

A fogueira estava destruída. As mesas, destroçadas, pedaços de madeira flamejante perdiam-se pelo chão junto com a comida e bebida do banquete.

No centro dessa destruição um ser desumano estava devorando o ombro de uma garotinha, já morta. “Aquilo” parecia em certos aspectos com o ser humano, mas em outros era totalmente diferente. A criatura tinha pele clara, não tinha pelos pelo corpo, possuía braços e pernas grossos e mais fortes que o normal, apesar de ser baixo e gordo.

Quando nos aproximamos “daquilo”, ele parou de comer e se voltou para nós. Sua boca era imensa e exibia grandes dentes vermelhos, sujos de sangue, sua língua lambia o sangue dos dentes e depois pendia para fora da boca exibindo um símbolo de uma cobra querendo comer seu próprio rabo. Seu nariz era feio, redondo; e dois grãos vermelhos em sua face, pareciam ser seus olhos.

Num instante o ruído de passos e metal encheu o lugar. Soldados surgiram por trás de mim e Saloma, e também a nossa frente; assim como lhes foi ordenado.

Aquela criatura que antes saboreava tranquilamente sua refeição, se encheu de raiva ao se sentir encurralada pelos soldados. Quando olhei dentro daqueles olhos vermelhos, as lembranças do meu encontro com o homúnculo vieram à tona, fiquei paralisado enquanto as gargalhadas maléficas do homúnculo ecoavam na minha mente.

Enquanto isso, muitas coisas aconteciam ao meu redor em um curto espaço de tempo. O monstro saltou por cima de mim e do pai de Ruby e caiu pesadamente em cima de alguns soldados atrás de nós, deixando-os quebrados no chão. Os que estavam próximos soldados atingidos espetaram suas lanças na criatura, porém esta somente soltou um ganido de dor e continuou a carnificina. Desferiu socos poderosos, que mataram com um único impacto; esmagou a cabeça de outro com a mão esquerda enquanto a outra balançava um homem no ar até ser lançado na direção de outros soldados que estavam vindo. Num instante os vinte soldados deram lugar a uma pilha de defuntos.

Aquele ser parou um instante para soltar uma risada maliciosa e apreciar o que acabara de fazer, ao mesmo tempo suas feridas se curavam, fazendo com que as lanças, espetadas pelos soldados, fossem expelidas de seu corpo. Essa risada me fez acordar do meu transe, Quando olhei para trás vi tudo o que tinha acontecido enquanto fiquei imóvel.

“O que um mero escravo como eu pode fazer?”, “Nem os soldados de Saloma conseguiram feri-lo.”, “Porque tudo isso está acontecendo?”, só vinham pensamentos de desespero a minha mente. “Se meu mestre estivesse aqui ele saberia o que fazer”. Nesse instante minha mente foi inundada por um sentimento, um instinto, tão forte que não pude me conter. Peguei um pedaço de madeira próximo e comecei a desenhar um dos símbolos que tinha visto nos pergaminhos de meu mestre. “Meu mestre conseguiria, ele conseguiria...” repetia em minha mente. O monstro parou um momento e me olhou com curiosidade por um instante, foi o suficiente. Agachei, repousei minha mão esquerda sobre o desenho no chão e estendi a palma da mão direita para criatura.

-Desapareça! – gritei desesperado.

Um raio vermelho disparou de minha mão e perfurou o monstro, que tombou inerte. Uma súbita sensação de alivio veio e foi embora com a mesma rapidez. Os ferimentos estavam se regenerando.

-Suma daqui! – disse, disparando uma enxurrada de raios vermelhos.

A criatura levantou e fugiu perseguida por raios vermelhos.

Depois de alguns instantes de perplexidade, Saloma desatou a falar:

-Uma segunda Era dos Magos acabou de se iniciar diante dos nossos olhos, senhores. – disse para seus soldados antes de se virar para mim – Qual é mesmo seu nome rapaz?

“... resolvi te dar um presente. Afinal não poupei sua vida para que viva como um escravo”, agora essas palavras faziam sentido.

-Se aceitei seu poder, devo aceitar o nome... – sussurrei para mim mesmo, provocando um olhar de indagação por parte de Saloma – Hohenheim! – disse subitamente.

-Como? – falou o chefe da vila meio confuso.

-Meu nome senhor, Hohenheim.

- Hohenheim, o Senhor dos Raios! – disse para seus soldados.

- Hohenheim! Hohenheim! Hohenheim! Hohenheim! – exaltaram todos.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.