Andarilho Dourado
1 Capítulo 1 - O escravo
Acordei de sobressalto. Finos raios de sol entraram por entre as fissuras na porta, iluminando aquele armário onde eu moro, meu quarto era pequeno empoeirado, sem conforto nenhum e cheio de materiais como vassouras e panos. Mas não posso reclamar, sendo escravo de Xerxes isto era mais do que muitos escravos recebiam.
Meu senhor estava me chamando. Ele simplesmente gritava o que era para ser feito, sendo escravo não possuía nome. Rapidamente abri a porta, uma luz forte me cegou por poucos segundos, mas não poderia perder tempo, ele deveria estar ficando impaciente.
Meu dono era quase um mago. Ele faz pesquisas e algumas dão resultados. Tornando-o hábil para fazer coisas que pessoas comuns não fazem. Como concertar objetos sem nenhum instrumento e mais rápido do que qualquer outro, transformar madeira em pergaminho, coisas deste tipo. O nome de meu patrão eu não sei ao certo, cada um o chama de um nome diferente e eu o chamo simplesmente de senhor. Meu senhor era pouco mais alto do que eu, ele já tinha uma idade avançada, mas é forte, possui o apoio e a amizade do rei e tem uma bela casa.
A casa onde trabalho é toda feita de pedra polida cor de areia. Possui janelas e portas simples mais resistentes. Seu interior é bem iluminado, menos no meu quarto, é constituída de quatro salas, sendo uma o ambiente de trabalho de meu senhor onde havia vários frascos, estantes de livros e materiais exóticos.
Chegando nessa sala meu patrão pediu para pegar uns frascos no armário, com um material que eu não fazia idéia do que era, fiz o que me foi mandado e sem nem mesmo olhar para mim estendeu a mão na qual entreguei os frascos.
- Faça algo para eu comer. Mas faça rápido, pois tenho uma audiência com o rei e não posso me atrasar.
Numa rápida reverência saí e me dirigi à cozinha. Ao abrir os armários me dei conta de que não havia temperos suficientes. Então larguei tudo, peguei uma capa pendurada ao lado da porta e sai. Andando rapidamente pelas ruas de terra batida do centro da cidade encontrei uma senhora vendendo temperos numa barraca próxima, na periferia do mercado principal.
- Poderia me vender cem gramas de cada. – falei para a senhora, que olhou para meu rosto e percebendo que estava com pressa aprontou o que lhe pedi o mais rápido que sua idade permitiu-lhe.
- Aqui está – entregou-me o que lhe pedi ao lhe entregar o dinheiro.
Virei-me e voltei para casa para ainda preparar a comida. Ao longe pude ouvir a senhora dizendo algo, mas estava com pressa, consegui apenas acenar rapidamente sem ao menos me virar.
Chegando lá encontrei meu senhor saindo de casa. Terminando de comer um pão velho. Levando na outra mão uns pergaminhos já amarelados e levemente rasgados.
Quando o vi parei sem saber o que dizer. Ele olhou para mim uns instantes e continuou seu caminho sem dizer nada. Entrei em casa, coloquei os temperos na cozinha, peguei a vassoura e comecei a limpar a casa, ainda me perguntando como pude ter me esquecido de preparar o alimento de meu mestre com antecedência. Já que não consegui chegar a tempo tenho que compensar de outras formas.
Quando cheguei à sala de trabalho dele, me contive um pouco, pois não poderia mexer naquelas coisas então me concentrei em limpar somente o chão. Foi quando ouvi uma voz me chamando:
- Ei você! – intrigado olhei para todos os lados procurando quem havia me chamado – É você mesmo. Dos cabelos dourados. Olhe. Estou aqui em baixo.
Foi quando percebi um frasco redondo transparente fechado estava em cima da mesa com um ser roxo quase negro redondo com grandes olhos negros e boca repleta de dentes.
- O que é você? – perguntei.
- Vamos dizer que sou tudo e nada. Sou um ser que nem nos sonhos mais remotos você imaginou que existisse. Sou um Homúnculo.
- Um o que?! – indaguei – O que um pequenino do frasco poderia ser alem de um mero experimento de meu mestre? – falando isso virei e continuei a fazer meu trabalho.
- Você nunca sonhou em ser rei, ter poderes além da fronteira da existência, viver além do limite de uma só vida? – disse o homúnculo – Pois eu posso oferecer-lhe tudo isso e um pouco mais...
Ainda meio zonzo com o que acabara de ouvir, tentava digerir toda aquela informação – Realmente nunca havia imaginado isso, mas sou apenas um escravo, o que faria se fosse imortal? Serviria meus senhores para sempre? Que poderes poderiam eu ter a não serem os de cuidar dos pertences de meu mestre e tornar sua vida mais confortável? Não seja tolo, nem Deus poderia mudar esta realidade.
- Você é um humano muito estranho... Qual é seu nome mesmo?
- Eu não possuo nenhum, sou escravo, não vê? – Respondi.
- Mas que pena...
O homúnculo foi interrompido pela porta da frente batendo num estrondo. Era meu mestre que tinha acabado de voltar, estava transtornado, murmurando para si mesmo “como pude esquecê-lo”, sem saber o que fazer apenas sai de sua frente, então ele se dirigiu aquele pequenino do frasco que acabara de falar comigo, pegou-o saiu novamente porta a fora. Não entendi nada do que havia acontecido, apenas fechei a porta que meu senhor havia deixado escancarada.
Foi quando percebi os pergaminhos que na pressa, foram esquecidos. Um deles estava aberto e mostrava em seu interior um desenho de um símbolo curioso. Era constituído de triângulos, escrituras e um grande círculo em volta de tudo. Nunca senti nada igual, parecia que aquilo emanava alguma energia. E eu era atraído de tal forma que não me importava se ia para rua ou seria morto, a vontade de ver aquelas pesquisas tomou conta de mim. Peguei-os, sentei à mesa de jantar e comecei a lê-los, analisei vários outros símbolos que apareciam, os quais pareciam ser parte de um ritual muito incomum, nunca visto pela maioria das pessoas acho eu.
Detive-me, não poderia continuar com aquilo. Não poderia mexer nas pesquisas de meu mestre e aquilo deveria estar fazendo falta para ele, teria que levar estes pergaminhos para o palácio, onde ele já deveria estar numa audiência com o Rei. Segurando os pergaminhos disparei pela rua, corria o máximo possível, mas as ruas eram muito estreitas para a quantidade de pessoas.
Depois de um tempo cheguei aos portões do castelo. Era um castelo grande, mas os muros externos eram pobres em ornamentos, o castelo era dourado com bastantes torres baixas e pouquíssimas altas. Aproximando-me dos portões dois guardas que estavam de vigia, indagaram:
- O que queres?
-Entregar isto para meu mestre. – disse estendendo meus braços para mostrar-lhes os pergaminhos.
-Ninguém pode entrar. Ordens do Rei.
Sem pensar, sai correndo por entre os guardas e entrei no castelo.
-Volte aqui seu moleque! – gritaram. Porem com aquelas armaduras e com a minha juventude ao meu favor seria muito difícil me alcançarem.
Passei por um enorme corredor e no final havia uma porta enorme, de madeira, reforçada com ouro. Parei momentaneamente, para analisar tudo aquilo, mas antes que eu pudesse voltar a me mover tudo desapareceu em luz.
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