Amphitrite

1 Margaritas com sal demais


O mar me chamava quando eu era uma menina.

Eu tinha medo do repuxo do oceano, medo de cair em um buraco na areia e nunca mais ser encontrada, medo dos pequenos crustáceos que morderiam meus pés. De tudo isso, mas nunca da água. A água salgada que deixava minha pele grudenta e acariciava neus pés, e me puxava para dentro, e sussurrava "vem". Eu sempre soube que era o oceano, porque muitas vezes não havia outra viva alma em quilômetros, e eu ainda escutava. Vem, ele dizia, e eu nunca pude atender. Meu corpo queria seguir, queria encontrar quem o puxava para dentro, mas eu, consciente, não atendi. Não tinha guelras. Iria me afogar. Aquilo não era um sonho. Nos meus sonhos água e ar eram o mesmo. Já haviam me dito que ouvir o mar não era coisa boa. Que os espíritos do mar me queriam, e que ouvi-los apenas fazia me pôr em perigo. Se afaste do mar, me diziam.

Eu teria tido um futuro brilhante como médica, como advogada, como mulher de negócios. Mas nunca quis nada disso. Era uma menina despenteada e ativa demais, e quando implorei para nadar, meus pais atenderam. Acharam que era uma paixão infantil, mas eu me senti bem na água. Era onde precisava estar.

Cresci nadando melhor do que andava. Meus pais, conservadores, acharam que estava na hora de parar quando tinha doze anos. Não era coisa de meninas decente, eles diziam. Mas não foram bem sucedidos. Quando tiraram de mim as piscinas as notas caíram, eu não consegui mais parar em um lugar, e, depois de algum tempo, eles concluíram que o melhor a ser feito era permitir que eu nadasse.

Eu podia ter tido um futuro brilhante como médica, mas a Fortuna sorriu para mim, e eu tinha um futuro brilhante como nadadora pela frente. Com dezessete anos, era uma nadadora olímpica promissora. As competições eram um prazer, e, com o tempo, meus pais aprenderam a aceitar — aceitando, torciam por mim.

Talvez tivesse sido com dezessete que eu o vi pela primeira vez. Minha memória nunca me fez jus. Ele não estava ali para torcer. Estava ali para competir, competia na piscina do outro lado do prédio. Era preguiçoso. Presunçoso. Não se importava em estar adiantado nem nada assim. Sabia que iria vencer. E vencia. Só tinha mais medalhas do que eu entre a competição regional.

Nunca tive tempo para pensar em ter uma vida amorosa, e não iria começar naquele momento. Nunca procurei saber quem era, apenas segui com a vida. Foi difícil ignorar as notícias sobre o outro nadador, apesar, pois chegavam sem que eu requisitasse.

Cruzamos caminhos quando saí do país para uma das minhas primeiras competições internacionais. Éramos do mesmo lugar, naturalmente nossos quartos de hotel, assim como de nossos pares, eram próximos, e naturalmente comemos todos na mesma mesa de café da manhã. Eu com meu chá, prestando pouca ou nenhuma atenção à conversa em torno de mim, ele com qualquer coisa salgada que pudesse encontrar.

—Você é a Song. — ele me olha, como se pudesse ver até a camada interior de meu ego. Não sorri. E não pergunta. — Ouvimos muito sobre você.

—E nós sobre você. — respondo, sem perder a calma. Ele ri, mas aquilo não chega aos olhos.

—Vamos ver então se você é boa. — ele deixa seu prato sobre a mesa, calmo como o mar antes da tempestade, e sai do lugar, rodeado pelas especulações tanto do time feminino quanto masculino.

As outras garotas perguntaram se eu tinha feito algo para incomodá-lo, e eu as ignorei como era meu direito. Se algo havia acontecido, estava dentro da cabeça dele. Eu estava bebendo meu chá.

Aquela foi uma competição que ganhei. Sem muita surpresa. Apesar da habilidade das outras atletas, as apostas eram em mim. E depois disso, toda vez que ele passava por mim, me cumprimentava. Ninguém mais. Apenas os outros de seu time e eu. Aparentemente tinha passado no teste que me tinha imposto silenciosamente.

Nos tornamos amigos. Gradualmente e de uma maneira estranha. HyunSaeng Quan não era de muitas palavras, mas as usava bem. Era também extremamente bonito, o que fez com que toda sorte de boato surgisse. Estávamos ambos focados demais em nossas carreiras para dar qualquer atenção a eles naquele momento, e carreiras de sucesso, diga-se.

Não foi até termos vinte anos que qualquer coisa aconteceu. Éramos novos e estúpidos, e nenhum de nós dormia com facilidade. Fui eu que o beijei, em um hotel em algum país estrangeiro, numa madrugada depois de um ouro para ele e uma prata para mim, com margaritas com sal demais à nossa frente.

Nunca foi algo sério. Não era para ser. Não nos encontrávamos de nenhuma outra maneira. Os treinos eram sérios demais para serem interrompidos por uma estupidez qualquer. Nossas vidas pessoais não incluíam espaço para algo assim. Mas toda vez que estávamos no mesmo lugar com vitórias na costas acordávamos sob os mesmos lençóis sem uma peça de roupa entre nós. Tornou-se um hábito. Um hábito que precisava de um fim, dizia qualquer um que soubesse, mas um hábito.

Naquele momento de nossas vidas, estávamos no topo, fazendo mais dinheiro do que poderíamos pensar em gastar — e portanto eu o guardava — e sempre em outro lugar. Nunca cheguei a me mudar da casa de meus pais quando chegava de volta a meu lugar de origem. Eles nunca souberam de nada além de minhas vitórias.

Nunca tivemos facilidade para dormir. Aquilo tudo acontecia fazia um ano quando fomos parar naquela piscina, de pés para dentro da água três horas da manhã. Ele tinha parecido preocupado desde que me vira na viagem para lá. A piscina era dentro do hotel, num ambiente onde tudo era branco, e as janelas para o oceano ocupavam uma parede inteira. Tínhamos nossas medalhas, e ele insistira em ver a piscina interna. Depois de uma longa história sobre como o cachorro de meus pais comera um telefone, ríamos com os pés na água, ele com as calças escuras de pijama enroladas até o joelho, eu usando uma camisola comprida de algodão.

—Devíamos pular. — ele declara, encarando a água com olhos escuros.

—Talvez devêssemos. — respondo.

Ele levanta e me estende a mão sem dizer mais nada. Sorri, mas vejo a apreensão no fundo. Levanto também, e aceito a mão estendida. Contamos juntos até três, e rindo, pulamos na piscina. Ele segurava minhas mãos, e enquanto me segurava debaixo da água, sorria. Apreensivo, contente, temendo algo, deleitado. Sorri de volta. Segurava o ar, e por mais que fosse eficiente, não duraria para sempre. Mas quando o ar que me mantinha acabou, HyunSaeng continuou a me segurar embaixo da água. Lutei, empurrei, mas quisesse ou não, ele era mais forte. Entrei em pânico. Minha vida inteira dediquei à água, e é nela em que eu morrerei, afogada por quem compartilhara meus melhores momentos. As bolhas começaram a surgir em torno de mim. Não tinha mais ar. E não me soltou. Ele, que não parecia jamais perder o fôlego sob a água como se respirasse dela, ele, que sorria de maneira demoníaca e cuja expressão falava de um segredo que só ele conhecia. O jeito com que o mantinha dizia que estava disposto a compartilhá-lo comigo. Presumi, naquele momento, que me queria morta. Meu corpo gritava por oxigênio, e eventualmente a água invadiu meus pulmões. Me preparei para sufocar.

E não sufoquei.

Não sufoquei, não me afoguei. A água invadiu meus pulmões e saiu, naturalmente, como se fosse ar e como se eu mesma tivesse guelras para respirá-la.

"Você e eu," o sorriso dele dizia. "Agora nós compartilhamos a mesma sina."

Haviam algumas coisas a retirar daquela experiência. Não consiga crer naquilo que meus sentidos me proviam, e foi a primeira vez que entendi a noção de sentidos que enganam dos filósofos gregos. Ele podia respirar água. Era por isso que ganhava com tanta facilidade. Eu estava em um estado em que podia respirar água. Eu não era o que quer que ele fosse, era meramente humana. Alguma coisa havia causado aquela situação. O que levava a minha última conclusão. Quando cheguei a ela, pus a mão sobre a boca automaticamente. Ele fechou os olhos e riu, após me soltar, afastando o cabelo do rosto. Concordou com a cabeça. Tinha ficado óbvio para ele também.

Mais uma vez ele tinha me testado. Mas dessa vez, ele queria ter certeza de que seria pai.