Molhados e mais acordados do que nunca, voltamos ao quarto dele. Ele respondeu todas as minhas perguntas antes que eu as fizesse, e eu apenas ouvi, enrolada em uma toalha.

Sim, ele tinha uma cauda. Parecida com a de um peixe leão, disse. Mas só aparecia quando em água salgada. Precisava estar imerso em água pelo menos uma vez por dia, e como em maioria era água doce, bebia água salgada o tempo todo.

Sim, eu estar carregando um filho dele era o que me dava a capacidade de respirar na água.

—Seu corpo muda em prol da criança. — balançou a cabeça. — Assim que o sangue dela estiver fora do seu sistema, essa capacidade vai embora. Aproveite a vantagem nas piscinas enquanto isso, eu suponho. — e virou para mim. — A menos que não queira ficar com ela.

Aquilo me fez parar. Não havia nenhum elemento indutor de culpa na voz dele, e no entanto, não tinha pensado naquilo ainda. Descobrira não tinha nem meia hora. Mas a ideia não parecia um peso. Eu tinha os meios e o dinheiro para criar um filho. Obviamente não fora planejado, mas aquilo não mudaria a maneira de tratá-lo. Parecia apropriado. A nadadora e sua família composta por nadadores. Crescia em mim como um broto. Sim, eu queria ficar com a criança.

HyunSaeng assentiu. Se fosse meu desejo, ele ficaria, se não, ajudaria de longe. A imagem de uma família já tinha crescido e amadurecido desde o tempo de nossa chegada, quando sentiu o cheiro produzido pelo embrião. Decidira que queria aquilo também. Sabia que seria uma jornada longa e complicada, a apreensão agarrava nele como perfume, e estava disposto a passar por aquilo.

Disse que eu deveria beber água salgada, entrar no oceano tanto quanto possível. Eu não era como ele. Aquela criança me faria mais cansada, mais faminta, mais sedenta, mas também mais forte, se eu a provesse com o que precisava.

Ele tinha medo, eu sentia. Medo de tudo que podia ir errado. Não era incomum que mães humanas morressem no parto de um deles se feito do modo errado. Implorou pelo segredo, eu concordei. Sabia que tiraria muito de meus pais por contar a eles ou porventura perder a gravidez. Era arriscado para todos os envolvidos. Eu continuaria treinando e competindo até que ficasse óbvio demais que eu não tinha simplesmente ganhado peso. Tiraria "férias". Meu treinador obviamente saberia que era uma licença, mas ninguém mais. E o último, e talvez mais apavorante passo, fazer com que a mãe e avó dele ajudassem no parto. Para mim era apavorante porque não sabia como eram. Para ele, era justamente porque as conhecia.

Seguimos em frente com aquilo. Decidimos que era melhor que fôssemos um casal publicamente, assim, seria menos ensurdecedor o barulho que saísse quando voltássemos de férias com um bebê. Querendo ou não éramos figuras públicas, nadadores com certa fama e que apareciam em toda sorte de tablóide.

Quis saber mais sobre o mundo em que ele vivia, e da qual meu filho seria parte. Às vezes fazia perguntas, e ele respondia a maioria delas mesmo quando eram enxeridas.

HyunSaeng era o primeiro filho da família principal de um clã massivo. Sua mãe e seu pai eram como ele, seus avós, bisavós... E quem mais estivesse na ascendência dele.

—Maiores do que nós apenas os Zale. Minha família odeia Zales. — balançou a cabeça.

Ele seria o líder (chefe? Governante?) do clã assim que o considerassem pronto. A herança do título era por ordem de nascimento. Sua avó tinha sido a matriarca, mas estava idosa e sem vontade de desempenhar suas funções. Seu pai então as herdara, mas ele sabia, com um revirar de olhos, que o pai também queria se livrar delas assim que possível. Na maioria dos clãs, a estrutura era matriarcal. Os Zale também iam por ordem de nascimento, Os Meltem e Anahita eram de estruturas patriarcais.

Ele tinha uma irmã, Sandara. Ele a chamava de Limão.

—Por quê?

—É azeda. — sorriu.

Era dois anos mais nova do que ele, e segundo ele, muitas vezes mais irritante.

Os clãs costumavam ter habilidades específicas. O dos Quan, segundo ele, novamente, era de controlar a água.

—Como em Avatar?

—Como em Avatar.

O dos Zale era poder comunicar por via telepática com os outros de mesmo sangue desde que estivessem perto o suficiente. Os Meltem controlavam o vento. Os Anahita podiam prever o futuro imediato, alguns tinham visões mais abrangentes. Os Durdana podiam conversar com animais. Os Kaimana podiam ler mentes humanas. Os Raga e os Venilia podiam transformar a pele em diamante. Não quis me falar de outros. Disse que aqueles eram os únicos de que eu precisava saber, e saber demais é perigoso.

Perguntei o que sua família pensava de humanos. Ele balançou a cabeça e disse uma palavra apenas.

—Comida.

Levou muito tempo até que eu perguntasse sobre algo assim de novo.

Eles matavam, sim, a humanos quando adultos. Podiam usar formas de controle que pareceriam canto para nós. O quanto matavam estava indiretamente ligado a seu poder. Mulheres o faziam por necessidade, seu poder e saúde ia e vinha com o tempo e as ondas, e era melhor mantê-lo constante. Homens geralmente o faziam por gosto, se faziam, já que não tinham variações significativas. Matava-se o humano e se comia seu coração.

Eles não podiam conversar com animais marinhos, salvo os que podiam, mas estes eram como animais de fundo de quintal para eles. Alguns tinham tubarões de estimação, em áreas onde o acesso ao oceano era fácil e tubarões fossem comuns.

Quis saber quanto tempo viviam. "Muito", me respondeu. "Muito mais do que humanos vivem." Não tentei perguntar de novo.

Os Quan eram uma família antiga e de números. Hyunsaeng diz que muitas de suas ancestrais eram tomadas como concubinas nos tempos de império da China. Não aspiravam dar filhos a imperador nenhum porque certamente viveriam mais do que ele, embora às vezes acontecesse, e não incomum, pelo favoritismo blatante que tinham por suas mães, era a criança favorita do governante. Disse que uma delas foi a primeira esposa de um príncipe que se tornou herdeiro, uma moça sábia chamada Huijie, na dinastia Song.

Houveram outros momentos em que fiz perguntas mais estúpidas.

—Ei?

—Sim?

—Vocês... — fiz um sinal vago. — Sabe. Quando estão com cauda de peixe? — Ele riu e balançou a cabeça de maneira estranha.

—Só mer casados fazem isso. Não se faz algo assim a esmo. É a coisa mais íntima possível.

E ele respondeu mesmo assim.

Casamento era uma coisa diferente para eles. Não era algo religioso, e talvez fosse a razão de haver poucos deles casados fora de casamentos políticos. Era um elo energético, um sentia o que o outro sentia, e em caso de ferimentos, um retirava sua força do outro. Era um ritual que uma vez feito só podia ser quebrado com a morte de um deles. Não havia uma maneira de divórcio. Enquanto estivessem ali estariam ligados. E não podia ser feito em humanos, não por purismo, por capacidade física. Seria demais para um humano.

A cada mês passante me aproximava do momento em que a criança nasceria. Eventualmente precisamos começar a planejar.

Eu não sabia dizer qual de nós estava mais nervoso quando entramos no barco. A avó dele morava em uma ilha, pegamos a balsa para lá. Sua mãe e irmã ficavam lá também depois que ele saíra de casa, diferente de mim, ele tinha comprado um apartamento próprio.

Estava no último mês de gravidez, e, embora com ressalvas, a família dele tinha concordado em ajudar com o parto. Esperávamos, ao menos.

A ilha era um lugar ébrio e de aparência fria, rochoso, repleto de penhascos e de um vento frio e salgado. Não era lugar para humanos, mas lá eles estavam, fazendo turismo e festivais. Podia jurar que frente ao ar do oceano alguma coisa nele pareceu mudar. Os olhos certamente mudaram. Eu via a luz refletir no fundo dos olhos como com gatos.

As mulheres Quan viviam numa parte remota da ilha, com um bloqueio de floresta entre elas e o restante da cidade. A casa fora construída no alto de um dos penhascos, o que parecia mais estável, e a estrada para lá era íngreme e difícil. Ele me diz que há passagens pelo penhasco, e cavernas mais adiante, nas porções da pedra que adentram o mar.

Ele é recebido com carinho, mas também com rigidez. Não há nenhum afeto quando sorriem e me dão boas vindas. Depois de tudo acontecer, ele me diz que a velha Quan Ru Yi cantava para mim toda vez que estava perto. Sua mãe, SunHye, nem se incomodava com isso. Não me queria ali. Sandara foi tão azeda quanto ele disse que seria. Mas apesar do ódio por mim que as unia, convivemos em paz no tempo em que fiquei ali. Passei a maior parte dele em repouso.

Estranhamente ou não, foi enquanto a velha Ru Yi cantava para mim que a bolsa de água estourou.