Amphitrite
3 Ressaca
Estávamos na casa apenas as quatro mulheres. Ru Yi sabia exatamente o que estava fazendo, e esperou até saber que ele estaria fora por tempo o suficiente. Eu não era páreo para o poder dela, que me mantinha calma e disposta a seguir quaisquer instruções que ela desse.
Fui levada para uma banheira de água salgada — diferente do normal, a água da casa era provida pelo mar, e era o que corria pelos canos, ótimo para elas, normalmente ruim para mim — e lá fiquei por um bom tempo. Meu corpo estava dolorido, nenhuma posição era realmente confortável.
Enquanto eu estava lá, a matriarca comandava o cenário. Sandara mantinha a agenda dele sob controle, sempre adicionava coisas a fazer. Parecia despreocupada. SunHye por outro lado parecia estar com os nervos à flor da pele.
Passaram horas antes que Ru Yi me examinasse e decidisse que era hora de ir. Fui amparada pela mãe dele, enquanto fazíamos a descida pelos degraus encavados no penhasco até a rebentação. Nenhuma de nós usava sapatos e a pedra era fria e lisa debaixo de meus pés, com muitos anos de pés subindo e descendo aquelas escadas.
Passamos por um caminho também encavado no penhasco, à beira da água. Eu via escamas iridescentes brilharem à luz quando as ondas lambiam os pés daquelas mulheres, e alívio quando lavavam os meus. Fui posta em uma formação da pedra que possibilitava que ficasse sentada ou na posição que quisesse, realmente, e ainda ter água salgada sobre a maior parte do corpo. A única que permaneceu perto de mim foi a matriarca.
Em algum momento, comecei a empurrar. Respirava fundo, e empurrava, com toda a força que me tinha restado. E às vezes parecia que não podia mais, que não conseguiria passar por aquilo, mas continuava. E grunhia, gritava, gemia, e continuava. Em algum momento decidi que pelas forças do céu e da terra aquele filho nasceria de mim e assim seria. Não durou pouco, pelo contrário. Mas eu não tinha nenhuma noção de tempo, a criatura que paria era eu e era alheia de mim. Horas se foram como segundos, e segundos como anos.
Não havia mais sol no céu quando empurrei pela última vez. Naquele momento várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Sandara correu, pés rápidos na areia molhada. SunHye correu atrás, igualmente eficiente, ambas pretendendo parar a quinta figura na cena, que estava em total desespero. A figura tentou lutar contra elas, mas a despeito de toda sua aparente força física, não tinha força suficiente para superar ambas.
Ru Yi tomou a criança que havia acabado de nascer da água nos braços. Olhava para ela como um leão vê os filhotes de seu oponente vencido.
Eu sorri. Não sabia de nada. Era um bebê gordinho e rosado, com tufos de cabelo escuro na cabeça.
—É uma menina, você vê? — sorriu ela para além de mim.
Ouvi gritos. Ele implorava em uma língua que eu não falava, mas cujo som reconhecia como a língua materna da matriarca. Implorava e repetia sempre as mesmas palavras.
Eu sorri sem entender. Talvez tenha balbuciado. Queria dizer que tínhamos uma filha. Que olhasse, que viesse dar boas-vindas a ela.
Ele continuou a implorar. Ela tirou das pregas da roupa uma tesoura de metal brilhante, e cortou o cordão umbilical que ainda ligava nós duas.
Ele lutou contra seu confinamento. Com toda a força que tinha. E não foi suficiente.
Ela apenas segurava a criança. Não fez mais nada. E não fazia sentido.
Não até o bebê se mexer, procurando algo que não tinha. Não até sua pele começar a ficar azulada, não até seu rosto ficar roxo e ela parar de se mexer totalmente.
Eu estava fraca demais para me mover dali assim que percebi. E não sabia o que faria se não estivesse. Não foi até longos minutos depois de ela parar totalmente que Ru Yi a deixou na água de novo. Apenas então a mãe e a irmã permitiram que ele se soltasse delas.
Ru Yi deixou a tesoura em cima da pedra.
—Dê ao mar o que é seu de direito e limpe sua bagunça.
Não o culpei por ir primeiro até o pequeno corpo e passar minutos, talvez horas tentando reanimá-lo debaixo da água de maneira frenética. Aquele bebê deveria ter sido desconectado de mim enquanto pudesse respirar água. Iria demorar dias fora do útero para respirar ar.
Quando a aceitação se impôs sobre ele, eu o vi enterrar a cabeça nas mãos e soluçar. Não haviam lágrimas. Seu corpo não disporia delas nem para expiar o que sentia naquele momento. Punha nos soluços toda a força que teria posto em lágrimas. E enquanto eu estive fraca para me mover, ele soluçou, abraçado à nossa filha, que tinha morrido antes de viver.
Eu também a segurei, apertei firme, memorizei seus traços, e foi uma tristeza que veio de forma muito mais lenta para mim. Não processava. Era como se tudo fosse um pesadelo, mas não era.
Ele enterrou o corpo fundo no mar. Saiu por um longo tempo e fez o que era necessário.
Quando recolheu a tesoura, segurou-a firme, e por um momento eu vi passar por ele a vontade de desesistir e fazer aquilo que sua avó queria. Ele estava tão cansado. Mas guardou-a. Pediu que eu não saísse dali.
Fomos embora na mesma noite. Não sei como ele fez para conseguir que a balsa nos levasse àquela hora. Levou consigo a tesoura. Toda vez que parávamos para descansar acabávamos soluçando juntos.
Demoraram vários dias já em casa para que pudéssemos realmente fazer alguma coisa que não fosse passar o dia inteiro deitados e agarrados um ao outro enquanto fazíamos valer a criança que tinha sido arrancada de nós.
Eu não queria ver aquela tesoura nunca mais. Ele nunca mais deixaria aquela tesoura sair do alcance dele.
Voltei a nadar. Ele perdeu o amor pela coisa.
Eu queria seguir em frente. Ele queria tudo pago com juros e correção monetária.
Nunca mais daríamos certo, não era? Tudo aquilo tinha puxado de dentro de nós o pior. E nosso pior nunca mais seria compatível.
Nos afastamos, e no fim, só nos víamos uma vez por ano, na frente de uma lápide onde se lia Quan Yin.
Eu me mudei para outro lado do oceano. Ainda faço a viagem de volta todo ano. A cada ano falava menos. Alguma coisa mudou em algum momento, e ele voltou a expressar o que sentia. Mais tarde, descobri que era o ano em que havia se casado, e o ano em que sua esposa também engravidara.
Talvez tivesse sorrido um pouco quando vi uma imagem da moça, uma Zale de olhos prateados e expressão inocente. Aquilo teria irritado a família dele e muito.
Talvez tivesse ficado feliz de saber que ele finalmente tinha seguido em frente, mesmo tão longe e alheio a mim.
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