Amortentia
1 Prólogo
Notas iniciais
Minha noite de sábado se resumia em ficar sentada na cama olhando Margot decidir que casaco levar para os Estados Unidos. Um pouco triste para uma garota de dezesseis anos.
— Será que levo o sobretudo e minha saia azul ou só o sobretudo? — Ela me pergunta.
— Só o sobretudo, você pode usá-lo para ocasiões formais ou informais. — Estou deitada na cama dela, orientando o processo de arrumação das malas. — Além disso, você está velha demais para usar uma saia de estudante – Ela joga uma almofada na minha cara, me fazendo rir – Ei! Estou dizendo a verdade, se quiser levar a Corvinal com você, leve apenas o cachecol. É chique e te da um ar de sofisticação.
— De qualquer forma, acho que vou levar as duas — Diz Margot, dobrando a saia e a colocando em cima da mala.
— Não sei por que você perguntou se já sabia o que ia fazer — Retruco. — Aliás, você disse que vinha para casa no Natal. Ainda vem, não vem?
— Só se você parar de ser tão chata — Responde Margot. – Mas é provável que sim. Os americanos tem o feriado de ação de graças, então eu posso vir mais cedo.
Margot estava me abandonando naquele ano. Ela completou seu último ano em Hogwarts e agora estava indo trabalhar em um banco nos Estados Unidos, bem longe daqui. Quando ela tomou essa decisão eu fiquei indignada. Mas eu já sabia que aquilo iria acontecer, afinal ela era a Margot, a garota com as notas mais altas de toda a escola, a menina independente e a melhor irmã mais velha que alguém poderia ter. Não era culpa dela, mas sempre dissemos que nunca iríamos nos separar e agora ela está indo para América. De certa forma eu me sinto traída. Ela não parece estar levando muita coisa. Ela não precisa de muitas coisas para sobreviver em outro continente, se fosse eu ou Kitty, já teríamos colocado tudo dentro da mala. Isso não é ruim, na verdade é única vantagem que vejo nessa viagem toda, assim posso me usufruir das roupas que ela vai deixar.
Somos em três; Margot a mais velha, eu a do meio e Kitty nosso bichinho de estimação, vulgo irmã mais nova. Éramos o quarteto fantástico antes de minha mãe falecer. Eve Song era uma bruxa coreana e ex-estudante da escola de Mahotokouro no Japão. Meu pai a chamava de Evie e nós de mamãe. Todas temos Song como nome do meio, o que é totalmente estranho para uma família britânica tradicional. Nós nos parecemos mais com os Songs do que com os Coveys, que é o sobrenome do meu pai. Temos os olhos puxados dela, pelo menos eu e Margot; Kitty se parece mais com meu pai, tem a mesma coloração de pele, e os cabelos castanhos-claros dele.
— Lara Jean, esse pote de hidratante está novinho – Resmunga Kitty aparecendo na porta – Por que você me pediu para apertá-lo?
– Oh, desculpe – Me estico para alcançar o produto — Esse é meu, o da Margot está na escrivaninha.
– Não vou descer de novo, só para apertar um hidratante!
— Pode derramar dentro da mala. Gogo vai de avião esqueceu?
— Por que você vai de avião? – Ela se virou para Margot com a testa franzida — O ministério não te arranjou uma licença de aparatação? — Kitty pergunta sem entender – Se eu já tivesse dezessete anos iria aparatar o tempo todo!
— Ainda bem que você ainda só tem onze anos. – Eu estremeço só de pensar na possibilidade de Kitty usar magia fora da escola – E você ainda vai iniciar seus estudos mocinha, tem muito que aprender.
— Além disso, eu vou ficar na casa da vovó. Ela não sabe nada sobre o universo bruxo. – Gogo explica paciente. A família do meu é toda dos Estados Unidos, o que faz com que nós sejamos uma mistura louca entre americanos, ingleses e coreanos. Temos uma tripla nacionalidade como diz Kitty. Vovó não sabe nada sobre a família da minha mãe, ela só compreende o que foi inventado ou permitido dizer. Ela acha que minha mãe foi uma estudante de administração brilhante apenas. Teve um tempo em que queríamos contar para ela, eu quase dei com a língua nos dentes, mas meu pai me impediu de revelar qualquer coisa para vovó, depois disso Gogo teve que explicar para mim e Kitty sobre o Estatuto Internacional de Sigilo em Magia. É uma lei criada para o mundo bruxo e sua proteção mediante aos trouxas e todo o segredo da magia.
— Por que você tinha que escolher um lugar tão longe? — Perguntou Kitty fazendo beicinho — Eu queria poder ir junto. Você é mais legal que a Lara Jean — disse Indignada.
Dou um beliscão nela.
— Viu?
— Lara Jean vai ser a melhor irmã do mundo, se você ajudar ela e se comportar — Diz Margot. — E vocês não podem se esquecer de escrever para o papai todos os dias! Mandem algum doce, ele adora os sapos de chocolate.
— Sim, senhora — Kitty e eu dizemos em coro.
Papai é trouxa, que faz de nós três mestiças, não que isso seja um problema. Ele não entende muita coisa do nosso universo, mas tenta nos compreender o máximo possível. Meus pais se conheceram enquanto ela fazia um estágio no ministério da Inglaterra, e ele estava no terceiro ano da faculdade de medicina. Papai diz que foi amor à primeira vista, e eu acredito nele.
— Eu acho que já está na hora das três irem para cama — Ele aparece de pé na porta. Nosso pai bate na moldura, embora a porta esteja aberta e dê para ver claramente que é ele. – Enquanto isso vou começar a colocar as coisas dentro do carro. — anuncia.
— Ah, não precisam me ajudar. Eu me viro — Diz ele, irônico.
— Tão, tão longe — nós três cantarolamos. Ele saiu rindo com as coisas de Margot nos braços.
Eu e Margot nos entreolhamos apreensivas. Papai vai ficar sozinho a partir desse ano, agora que Gogo vai trabalhar fora e eu e Kitty vamos ficar na escola na maior parte do tempo. Não sei como ele vai se sentir quando essa casa estiver vazia, às vezes eu desejava poder leva-lo para Hogwarts.
— Será que ele vai ficar bem sem a gente? – Pergunto.
— Não sei. Mas tenho certeza que ele dará um jeito. – Responde Margot com convicção.
— Ele pode ter a companhia de Trina. Pode convida-la para assistir aqueles documentários com ele à noite, e dar uns amassos com ela.
— Kitty! – gritamos.
— Papai não tem mais idade para isso. – Gogo estava visivelmente desconfortável com a mudança de assunto.
— Ah, não é verdade. A senhora Stormy tem uns setenta anos e vive indo para bailes da meia idade. Uma vez ela convidou um senhor para ir a casa dela à tarde, e ele só saiu de lá no dia seguinte de manhã – Eu estremeci.
A ideia de nossa vizinha Stormy ainda fazer alguma coisa daquele tipo me dava calafrios. Eu não duvidava que aquilo acontecesse, ela sempre foi um espirito livre da natureza, como dizia para mim. Gostava de aproveitar a vida com o que ela tinha para oferecer de melhor não importando a idade que tivesse.
— Como exatamente a gente acabou conversando sobre a vida sexual da Stormy?
— Chega, esse assunto está sendo embaraçoso de mais – Margot terminou de arrumar suas coisas se enfiando no meio de nós duas
— Kitty você é nova demais para esse tipo de assunto.
Ela revirou os olhos.
— Qual é, o papai precisa de uma namorada! – Ela sussurrou – Ele não pode ficar sozinho para sempre.
— Você parece à vovó falando – Provoco.
Ninguém podia culpar Kitty por tentar arranjar alguém para o papai. Ela tinha apenas seis anos quando nossa mãe morreu. A única figura materna que ela tem é Margot e eu de vez em quando.
Quando ela morreu, estávamos aproveitando as férias de verão, em alguns dias eu iria começar meus estudos em Hogwarts enquanto Margot iria iniciar seu terceiro ano. Minha mãe era uma posionista talentosa, e gostava de fazer seus experimentos em casa. Ela havia terminado um deles naquela manhã; tinha a cor verde e estava brilhando, disse que finalmente tinha conseguido criar á poção que desejava, e estava radiante com o feito. Porém alguma coisa deu errado, e o líquido verde começou a soltar algum gás tóxico, e rapidamente a casa cheirava a algo muito ruim. Eu e Kitty estávamos no mercado com meu pai, e Margot tinha ido brincar com uma menina do bairro, — mamãe sempre gostou que tivéssemos contado com o lado trouxa. — Foi Margot quem a encontrou. Ela só tinha treze anos, mas cuidou de tudo, mandou uma carta para o hospital St. Mungus e para o Ministério. Depois ligou para nosso pai e me deixou cuidando de Kitty. Nesse meio tempo a casa já estava livre do gás, e eu pude ficar com ela lá dentro onde era “seguro”. Liguei a televisão para Kitty, no quarto de brinquedos, e fiquei com ela. Foi tudo o que fiz. Não sei o que teria feito se Margot não estivesse lá. Apesar dela ser só dois anos mais velha do que eu, eu a admiro mais do que a qualquer outra pessoa. Quando descobrem que meu pai é viúvo e tem três filhas, as pessoas balançam a cabeça, admiradas, como se dissessem: Como ele consegue? Como cuida de tudo sozinho? A resposta é: Margot. Ela é organizada, com suas etiquetas, seus planejamentos perfeitos, mesmo quando eu e ela não estávamos em casa, ela sempre dava um jeito de colocar as coisas em ordem para meu pai. Ela é a melhor pessoa que existe, e acho que Kitty e eu estamos seguindo seu exemplo. Nunca colei, nem fiquei bêbada, nem fumei um cigarro, nem mesmo tive um namorado. Nós brincamos com papai e dizemos o quanto ele tem sorte de sermos tão boas, mas a verdade é que nós é que tivemos sorte. Ele é um ótimo pai.
Gogo acha que eu herdei o talento dela com poções, eu não acho, nenhuma de nós chegou a ver realmente suas habilidades em magia, não tem como ela saber se eu sou realmente tão boa quanto Eve Song.
— Lara Jean sabe fazer poções do amor, quem sabe isso ajude.
“Obrigada Margot” movimento os lábios para ela. Gogo pensa que Kitty pode esquecer de um comentário desses, mas eu já sei que ela vai me encher com isso em um futuro próximo.
Kitty está me olhando com aqueles olhinhos marotos que ela tem como se fosse aprontar alguma coisa.
E eu sei que vai.
— Não se preocupe, Lara Jean, não vou precisar usar Amortentia com o papai. – Ela pisca para mim e sinto como se Margot tivesse cometido o primeiro erro de sua vida: aberto a boca.
Nós três dormimos no quarto dela naquela noite. Kitty adormece primeiro, como sempre. Fico deitada no escuro ao lado dela com os olhos abertos. Não consigo dormir. A ideia de que a partir de amanhã à noite Margot não vai mais dormir neste quarto me deixa triste, é como se eu não fosse vela nunca mais. Para quem eu irei pedir concelhos toda vez que precisar apresentar um trabalho na escola? Oh, Merlin, o torneio tribruxo! E se alguém me convidar para o baile, como eu fui me esquecer disso? Com quem vou falar se algum menino vier me convidar? E se ninguém me convidar? As corujas conseguem voar todo oceano atlântico em menos de uma noite? Fico tentada em fazer todas essas perguntas a Margot, mas ela já está dormindo e não quero acordá-la. Com um suspiro ansioso, tento voltar a dormir.
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