Amor.exe: Arquivo Corrompido
5 Capítulo 4: Próximo serviço
Na Universidade de Beacon Hills, tudo era cuidadosamente segregado com base no "tipo" a que você pertencia. A justificativa? Cada grupo tinha suas próprias necessidades nutricionais e sociais. Mas, sejamos sinceros, isso só complicava a vida dos ômegas. Enquanto alfas e betas costumavam comer juntos, mesmo com refeitórios separados, os ômegas eram tratados como seres frágeis que precisavam de proteção constante. A lógica era a seguinte: os ômegas podiam ser alvos de ataques a qualquer momento por causa da sua fertilidade, beleza, ou sabe-se lá mais o quê.
Stiles? Ele achava tudo aquilo uma bela desculpa. Para ele, a segregação tinha apenas um objetivo: controle.
O refeitório dos ômegas era uma bolha isolada. A ideia era “preservar a castidade” deles, ou algo igualmente antiquado. Para completar, o cardápio era rigidamente monitorado, com dietas criadas para manter os ômegas dentro do “peso ideal”. Não era de graça, claro. O preço das refeições era exorbitante, e você ainda tinha que sair com fome. Por essas e outras, Stiles evitava aquele lugar como quem foge de um vírus e preferia se alimentar na lanchonete do Poe, onde a comida era gordurosa, barata e deliciosa.
Mas nem sempre ele podia escapar. Naquela manhã Stiles se viu obrigado a tomar café no refeitório dos ômegas. Ele entrou na ampla sala, onde pequenas mesas estavam dispostas de maneira quase simétrica. No centro, um self-service minimalista oferecia uma seleção deprimente de saladas e outras opções fitness servidas em porções tão pequenas que era um milagre alguém sobreviver com aquilo.
Enquanto andava rapidamente pelo local, sua barriga roncava em protesto, ecoando sua indignação. Ele avistou uma mesa abarrotada de ômegas. Conversas e risadas enchiam o ar, a maioria sobre quem estava ficando com quem, as últimas tendências de moda ou algo igualmente fascinante. No entanto, conforme Stiles se aproximava, o burburinho foi diminuindo. Os olhares voltaram-se para ele — uma mistura de surpresa e irritação.
Ah, o doce privilégio de ser tão adorado.
— O que você quer, Stilinski? — disparou um dos ômegas, tentando afinar a voz de forma exagerada. Stiles sabia que isso fazia parte da etiqueta ômega: falar em tons delicados, quase esganiçados, independentemente do gênero. Ele quase revirou os olhos.
— O que eu quero? — Stiles inclinou a cabeça teatralmente, como se estivesse realmente considerando a pergunta. — Bem, primeiro: muito dinheiro. Segundo: uma pizza. Mas não qualquer pizza. Quero aquela fatia fria, esquecida na geladeira desde a noite passada. Sabe do que estou falando? O tipo de pizza que é o verdadeiro café da manhã dos campeões.
— Céus! Você sabe quantas calorias tem isso? — exclamou uma ômega de cabelos loiros trançados, olhando para ele como se ele tivesse acabado de sugerir comer vidro.
— E é isso que torna o processo mágico — respondeu Stiles, com um meio sorriso sarcástico. — O mistério de não contar as calorias.
Ele sabia que era um completo alienígena naquele ambiente. Enquanto os outros ômegas estavam impecavelmente arrumados, seguindo todas as regras de etiqueta — cabelos penteados, roupas ajustadas e posturas eretas —, Stiles usava seu moletom folgado, jeans surrados e tênis All Star que já tinham visto dias melhores. Seu cabelo curto e sem qualquer esforço de estilização, o rosto limpo de maquiagem e sua postura desleixada completavam o pacote de ômega fora do padrão. E, sinceramente? Ele não podia se importar menos.
— Bem, estou aqui à procura de Jackson... — anunciou Stiles, sem a menor preocupação em dar explicações. Sua voz ecoou no refeitório, atraindo olhares curiosos e desconfiados.
Os ômegas se entreolharam, murmurando baixinho, até que todos os olhares se voltaram para o fim da mesa. Lá estava Jackson Whittemore, o centro das atenções. Seu cabelo curto — mas não tão curto quanto o de Stiles (porque, convenhamos, isso seria ousado demais) — estava perfeitamente estilizado, o suficiente para ser moderno, mas ainda aceitável. Seus olhos claros brilhavam sob a luz natural do ambiente, e sua fisionomia bonita, embora musculosa, era ligeiramente fora do padrão esperado para um ômega. Mas ele era Jackson Whittemore. E Jackson era praticamente intocável.
— Stilinski, veio aqui me incomodar logo cedo? — ralhou Jackson, sem tirar os olhos da salada de frutas que comia com a concentração de um cirurgião.
— Oh, querido, sinto muito — começou Stiles, sua voz carregada de um falso tom dramático. — Mas você sabe, não deu pra falar ontem à noite... no nosso ninho de amor. Fizemos tantas coisas que, sinceramente, é melhor nem mencionar na frente desses ômegas virgens. — Ele suspirou teatralmente, com a mão no peito. — De qualquer forma, estava tão exausto que precisei vir te falar de manhã.
O refeitório foi tomado por risadinhas e murmúrios escandalizados. Enquanto isso, Jackson, que estava no meio de um pedaço de manga (ou mamão, difícil dizer), praticamente se engasgou. Ele tossiu, tentando não morrer de vergonha e falta de ar ao mesmo tempo.
— Stilinski! — conseguiu dizer finalmente, o rosto vermelho como um semáforo.
Um dos maiores tabus daquele mundo era ômegas se relacionarem entre si. Ômegas eram "designados" para alfas ou, vá lá, betas. E a piada de Stiles? Totalmente rebelde. E completamente perigosa.
— Calma, Jack-Jackie — continuou Stiles, dando um sorriso travesso. — Não se iluda. Não é como se eu gostasse de você. Foi só uma noite. Nada de compromissos.
Jackson não aguentou mais. Levantou-se de repente, puxando Stiles pelo moletom. O ômega tagarela mal teve tempo de rir da própria piada antes de ser arrastado para fora do refeitório, longe dos olhares escandalizados.
— Você não tem nenhuma noção do que está falando? — ralhou Jackson, andando rápido pelos corredores enquanto arrastava Stiles como se ele fosse um saco de batatas.
— Às vezes tenho. Outras, nem tanto. — Stiles deu de ombros, claramente mais entretido do que arrependido. — Mas, sinceramente, era melhor falar aquilo do que discutir negócios no meio do dormitório.
— Eu podia ter falado com o Scott! — resmungou Jackson, largando Stiles finalmente quando chegaram à saída.
— Podia. Mas onde estaria a graça nisso? — respondeu Stiles, ajeitando o moletom com toda a calma do mundo. — Além disso, você mereceu. Não pagou pelo meu último serviço. E, convenhamos, um pouquinho de caos é sempre bom pra começar o dia.
Eles pararam na pequena praça arborizada em frente ao grande dormitório ômega. O prédio, com suas tonalidades rosas e pastéis, parecia saído diretamente de um conto de fadas açucarado. Stiles olhou para ele e fez uma careta.
— Que tipo de monstro escolhe essas cores? — murmurou, apontando para o prédio. — Sério, é como viver dentro de um cupcake. Um cupcake deprimente.
Jackson ficou em silêncio, ocupado tentando decidir se valia a pena continuar discutindo ou simplesmente socar Stiles. Certo, talvez fosse um comportamento ligeiramente fora do padrão ômega, mas Jackson não era exatamente convencional. Ele gostava de esportes, treinava artes marciais e boxe, e, honestamente, estava tentado a dar uma demonstração prática naquele momento.
Como se pressentindo o perigo iminente, Stiles abriu a boca — porque, claro, quando não sabia o que fazer, ele falava.
— E também queria saber sobre o próximo serviço... Quero ver se consigo encaixar você na minha agenda.
Sim, talvez essa frase não tivesse ajudado a aliviar a tensão. Na verdade, só atiçou ainda mais o fogo. Stiles realmente não tinha instinto de autopreservação.
— E você tem dinheiro para ter uma agenda? — retrucou Jackson.
— Se você me pagar o que me deve, talvez eu tenha — respondeu Stiles, sorrindo de lado, como se estivesse desafiando Jackson a um duelo de sarcasmo.
Jackson bufou, rolando os olhos. Ele sabia que Stiles tinha razão, o que só tornava a situação mais irritante. Não era como se houvesse outros ômegas dispostos a fazer o que Stiles fazia — substituir ômegas que queriam fugir de encontros arranjados e espantar potenciais pretendentes com sua personalidade única. Na verdade, Stiles era a única pessoa louca o suficiente para se envolver nesse tipo de negócio.
— Você tem sorte de não ter concorrência nesse mercado... — resmungou Jackson.
— Claro que tenho. Eu monopolizei o setor. — Stiles deu um sorriso tão satisfeito que Jackson teve vontade de socar uma parede. — Mas, enfim, o que vou fazer desta vez? Jantar cinco estrelas, pago por algum alfa mimado e egocêntrico? Porque, se for, eu adoraria experimentar comida cara e encher meu estômago.
— Esse pode ser um problema... — murmurou Jackson, meio incerto, o que fez Stiles franzir o cenho.
— Como assim?
— Meu pai exigiu que eu fosse a um encontro com um alfa. Disse que bloquearia meus cartões de crédito se eu recusasse ou inventasse uma desculpa.
— Que trágico. Sinto muito. — O tom de Stiles era tão falsamente simpático que Jackson decidiu ignorar.
— O pior é que ele não me disse quem seria o alfa. Só que é “importante” e tem dinheiro.
— Nada de novo aí. — Stiles coçou o queixo, pensativo. — Mas, espera... Será que ele tem uma má fama? Porque isso explicaria o sigilo.
Jackson parou por um momento, relutante, e então assentiu devagar. Ele não tinha pensado nessa possibilidade, e a ideia o deixou ainda mais desconfortável.
— Então... Você vai aceitar? — Jackson finalmente perguntou, rangendo os dentes. — Eu pago o que devo, e mais.
Ele odiava ter que implorar, mas preferia passar a noite levantando peso na academia ou saindo com amigos do que aturando alfas grudentos que só se importavam com seu corpo ou com a fortuna da sua família.
Stiles colocou uma mão no queixo, em um gesto deliberado de quem estava fingindo pensar profundamente.
— Um alfa misterioso, num encontro às cegas... Pode ser perigoso — ponderou ele, com um brilho de diversão nos olhos.
Jackson engoliu em seco. Ele odiava o fato de Stiles ser esperto o suficiente para pegar as nuances da situação.
— Claro que vou aceitar! — Stiles exclamou, com um sorriso de pura animação. — Parece divertido.
Jackson fez uma careta. Ele odiava ainda mais o quanto Stiles podia ser inconsequente. Sério, o que Scott via nesse ômega maluco? Whittemore não fazia ideia. E isso o irritava mais do que qualquer coisa.
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