Amores impossíveis
1 Maria Aparecida
Notas iniciais
P.O.V. Cida.
Desde que a minha mãe faleceu minha madrinha e meus patrões estão sempre cuidando de mim.
Eles me adotaram, me deram a melhor educação que o dinheiro possa pagar, mas eu ainda sou empregada doméstica. Minha madrinha já é idosa e não tem muita condição de fazer serviço pesado.
Então eu fico no lugar.
—É uma festa de noivado. Maria Aparecida!
—Sim Dona Perpétua?
—Você pode ficar até mais tarde hoje?
—Eu precisava sair mais cedo, o meu namorado Rodnei vai fazer uma exposição.
—Por favor.
—Tá. Você sabe que eu faço tudo por você né Dona Perpétua?
—Eu sei querida. Você é a filha que eu nunca tive.
—Mas, a senhora tem a Isadora.
—Meu sobrinho Conrado Verneck vem á festa hoje á noite.
—Isso parece ótimo Dona Perpétua.
—E eu preciso que dance na festa.
—Dançar?
—Sim. Por favor Cidinha?
—Tá bem Tia Perpétua. Quer dizer, Dona Perpétua.
—Pode me chamar de Tia Perpétua. Você também faz parte da família Cida.
—O que quer que eu dance?
—Dança do ventre.
—Dança havaiana.
—Espera, qual delas?
—Dança do ventre. Ela é a melhor dançarina do ventre.
—Por isso mesmo. Vai me ofuscar!
—Como se isso fosse possível. Você é ótima Isadora.
—Sou mesmo?
—É claro. Você é bonita... talentosa, inteligente.
—Viu mãe? A Cida disse que eu sou inteligente.
—Feliz aniversário adiantado.
—O que é isso Tia Perpétua?
—Um vestido pra você usar na festa de noivado da Isadora.
—Obrigado tia Perpétua.
—Venham, eu vou deixar vocês lindas. Minhas duas lindas meninas, minhas duas lindas filhas.
—Porque tá chorando Cida?
—É que é a primeira vez que a senhora me chama de filha.
P.O.V. Dona Perpétua.
Eu sou a única que sei o segredo de Maria Aparecida. Eu a vi uma vez, pensei que ela fosse me machucar, mas não machucou.
Meu esposo e eu sempre soubemos que ela era especial, mas eu nunca pude se quer imaginar que ela fosse tão especial assim. Ela tem um encanto próprio que nenhuma outra pessoa tem, basta colocar os olhos nela para amá-la. E o efeito que ela surte sob os homens é... indescritível. Mas, duvido que ela já tenha ferido alguma pessoa.
Cida tem pesadelos todas as noites. Ela diz que são lembranças de algo ruim. Mas, ninguém jamais soube o que foi essa coisa tão terrível que lhe aconteceu.
Levamos ela na terapia, mas ela não disse nada. Nada.
Ela tem um diário, acho que o único que conhece os segredos de Maria Aparecida é aquele diário que ela carrega com ela o tempo todo pra onde quer que vá. O diário é trancado com um cadeado e a chave fica no pescoço dela o tempo todo.
O medalhão de Cida é a chave do diário. Ela não solta daquele diário nem por decreto federal. Se aquele diário cair nas mãos erradas sabe lá Deus o que fariam com ela. Uma menina tão meiga, calma e boa. Isso não seria visto, tudo o que eles veriam seriam o fato dela ser um milagre, sua parte humana seria enterrada.
—Dona Perpétua? A senhora está bem?
—Estou.
—Tem certeza?
—Tenho. Algum dia vai me contar o que houve com você Cida? O porque desses pesadelos?
—Eu não sei. Provavelmente não.
—Porque não?
—Não quero que tenham pena de mim. Se soubessem o que houve comigo, me tratariam diferente.
![]()
Fale com o autor