Flashback on

David iria fazer um turno da noite, e Regina estava tomando um chá, quando a campainha tocou. O que era bem estranho, pois era tarde da noite para uma visita inesperada. Ela colocou o robe por cima da camisola, amarrando-o e caminhando até a porta.

"Robin?"

Ela continuava em pé, apenas uma fresta da porta semiaberta.

"Podemos conversar, por favor?"

Ela pensou por alguns segundos, mas aceitou.

"Tudo bem."

Regina fechou a porta atrás dela, e se encostou na madeira do parapeito.

"O que está fazendo aqui, Robin?"

"Eu precisava falar com você."

"Você não deveria vir aqui."

"Eu sei que ele não está."

"Mesmo assim", ela respondeu, apertando ainda mais o laço do robe. "Concordamos que era melhor seguirmos em frente."

"Você acha que eu não tentei? Eu queria até mudar daqui. Queria ir embora, como você me pediu para fazer. Mas é difícil esquecer alguém quando seu próprio filho fica o lembrando do quanto essa pessoa é bonita, especial e interessante."

"Robin..."

"Eu sei, eu sei. Você tem seu marido, eu tenho minha esposa grávida e o meu filho. Mas me mudar não vai apagar o que sinto. Atravessar uma porta, atravessar uma cidade... nada disso vai eliminar os sentimentos que já existem."

"Você é casado, Robin. O que você quer de mim? Está pedindo para eu deixar meu marido e ficar com você?"

"Não. Eu posso até continuar com essa mentira. Posso continuar sendo um amigo da família, e vivendo nessa cidade como se não fosse nada demais. Mas eu não sinto por ela o que eu sinto por você, Regina. E isso é um fato."

"Quantas vezes você já traiu sua esposa?"

"O quê?"

"Quantas vezes você já traiu a Marian, além daquele 'momento' entre a gente?"

"Você não está me perguntando isso, Regina. Eu não traio a minha mulher. Eu não chamaria o que eu sinto por você de traição."

"Você estragou tudo. Eu estava superando você. Eu estava conseguindo olhar nos olhos da sua esposa sem me sentir culpada, sem invejá-la por estar casada com você, sem pensar em..."

"Em quê?"

"Sem pensar naquela noite."

"Regina..."

"Robin, eu não posso fazer isso. Eu não posso lidar com isso. Eu não posso ficar com você, eu não posso deixar meu marido, muito menos tirar o marido da Marian. Eu não machucaria o Roland dessa maneira."

Robin tentou se aproximar dela, mas ela estendeu a mão.

"Não. Vá embora, Robin. Você não devia ter vindo aqui."

Robin abaixou a cabeça, e desceu as escadas em silêncio, com as mãos nos bolsos. Sequer olhou para trás. E ali, na varanda, deixou uma Regina com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Flashback off

O telefone tocou quando Regina estava prestes a ir embora. Ela torceu para ser engano, queria muito ir embora.

"Alô?"

"É a prefeita falando."

"Regina, desculpe... eu preciso falar com a Marian. É urgente."

Ela ainda estava se recuperando da última conversa deles. A voz a fez estremecer.

"Ela não está, Robin. Saiu para fazer alguns serviços externos."

"Mas que merda!"

O tom de voz dele estava instável, o que era inédito para ela.

"Está tudo bem, Robin?"

"Estou aqui no hospital, o Roland se machucou."

Houve um silêncio do outro lado da linha.

"Regina? Está me ouvindo?"

Robin ficou em dúvida e aguardou alguns instantes, sem saber que ela já estava acelerando impiedosamente à caminho do hospital.

Robin estava em pé ao lado da maca do filho quando ela apareceu.

"Oi."

Ela deu a volta e se debruçou sobre Roland, beijando-o na pontinha do nariz.

"Gina, eu fiz um dodói."

"Olá, meu pequeno príncipe. Deixa eu ver o que você fez aqui."

"Eu sinto uma pequena dorzinha..."

Ela puxou a gaze delicadamente. Havia bastante sangue.

"Parece que alguém está levando a sério as aventuras na floresta."

Roland sorriu para ela, e segurou na sua mão. Ela apertou os dedos pequenos com a sua mão e olhou para Robin, que agradeceu.

"Obrigado por vir."

Regina balançou a cabeça e caminhou até o balcão.

"Escute aqui, trate de providenciar um médico para atender aquele menino imediatamente ou vou demitir todo mundo desse lugar."

"Sim, senhora prefeita."

Imediatamente, um médico a acompanhou novamente até a maca, e fez um curativo no corte do garoto. Foi preciso dois pontos, mas como era no couro cabeludo, desaparecia rápido. Após uma verificação razoável dos sinais vitais, e da anestesia local, os médicos o dispensaram. Regina o pegou no colo, e eles saíram do hospital.

"Gina... vamos tomar sorvete agora?"

"Querido, eu preciso ir para casa. Além do mais, é melhor você esperar um pouquinho até tomar sorvete novamente. Não queremos que fique doentinho, certo?"

Roland foi transferido dos braços dela para os braços de Robin.

"Obrigado, Regina. Eu estaria perdido se você não tivesse aparecido."

"Eu só quis ajudar."

Eles cruzaram um olhar longo, e significativo. Regina se inclinou na ponta dos pés e o beijou na bochecha.

"Até mais, Robin. Cuide bem dele."

"Até mais, Regina."