Regina caminhou até o castelo de madeira feito na beira do mar que banhava a costa. Lembrou-se de um comentário de Henry sobre o local ser privilegiadamente solitário e com uma bela vista do mar. Sobre ser seu local de reflexão. Ao aproximar-se, o viu sentado na parte de cima e sorriu. Aproximou-se lentamente, e sentou-se ao lado dele, que permaneceu em silêncio.

“Sua mãe está assustada, Henry.”

Ele continuou olhando em frente, sem encará-la.

“Parece que Storybrooke não fez muito bem a vocês, não é?”

“Eu achava que quando chegássemos aqui as coisas mudariam. Que ela teria mais tempo para mim. Que seriamos uma família de verdade.”

“Você tem uma família de verdade, Henry.”

“Não, não tenho. Você está aqui e ela não. Isso já prova que você é muito mais família para mim do que ela.”

“Henry, ela é sua mãe. Você precisa parar com essas bobagens.”

Ela o encarou, com um semblante sério e ele sorriu para ela.

“Não seja tão hostil. Eu sei que gosta de mim. Dá pra notar. Está com medo de eu me afastar da Emma por sua causa. Mas eu juro, não é culpa sua.” Regina encarou-o com um sorriso meigo no rosto. “Minha mãe é ausente demais o tempo todo. Eu sei que ela pensa que aulas adicionais e cursos extracurriculares me darão melhores chances no futuro. Mas pra mim, é só a maneira que ela achou de me manter o tempo todo ocupado, para que eu não note o quanto ela fica longe.”

Regina olhou para frente, mordendo o lábio inferior e sentindo o peito arder. Ela sabia o que era sentir-se assim. Cora havia feito o mesmo. Sua mãe a dispensara, enviando-a para aquele maldito colégio interno. Sobrepujando suas vontades quando a obrigava a estudar aquelas aulas horrorosas de política e economia, quando tudo que Regina queria era estar com seu pai.

“Como você pode ter certeza disso, Henry? Emma ama você. Ela estava preocupadíssima quando foi te procurar no meu escritório. Eu a impedi de vir, mas ela queria ter vindo. Eu sabia que você não conversaria comigo se ela estivesse aqui. Mas ela ama você. Eu sei disso.”

“Não foi isso que sua mãe fez com você?”

Ele a olhou, e ela sentiu-se vulnerável.

“Henry.” Ela respirou fundo, aproximando-se dele. “Minha mãe era uma pessoa bem diferente da sua. Minha mãe fez coisas horríveis, coisas que eu duvido que a Emma faria.”

“Regina”

“Eu sei que você, no fundo, gostaria que eu fosse a sua mãe. Mas eu não sou. Eu adoraria ter um filho tão adorável como você, e vejo você com tanto carinho como se eu fosse mesmo sua mãe, mas você precisa encarar o fato de que você possui uma vida, e possui uma família. E não é comigo. É com a Emma.”

Regina levantou-se e desceu do castelo, com Henry a seu encalço.

“Regina, me leve com você. Sei lá, por uma semana, pode ser? Eu juro, você nem vai notar minha presença. Vou ficar no meu canto. Não vou atrapalhar.”

Ela respirou fundo, mas não se virou para olhá-lo.

“Sua mãe está esperando por nós, Henry.”

“Você não sabe o que é viver com ela! É uma merda! Eu não aguento mais!”

Regina virou-se para ele, a voz embargada pela mágoa que aquela conversa despertou dentro dela, remexendo um passado que ela insistira em enterrar.

“Você quer saber o que é uma merda, Henry? É ser obrigada a viver uma vida que você nunca quis. É ser trancada em um ridículo colégio interno cheio de regras absurdas depois de ter visto seu pai sendo assassinado pela sua mãe e uma cidade toda cair em miséria e sofrimento por causa do mau governo de alguém da sua própria família. É ver as pessoas censurando você pelo mal causado pela sua mãe. É perder tudo o que se tem e ter que começar do zero sozinha. Isso sim é uma merda. Sua mãe está se esforçando. Ela pode não ser a melhor mãe do mundo. Mas com certeza, não é a pior. Minha mãe matou meu cavalo favorito a machadadas para que eu parasse de cavalgar e voltasse a estudar. Era esse o tipo de carinho que ela costumava me dar.”

Henry estava com a boca semiaberta e os olhos fixados nela, incapaz de dizer alguma coisa.

“Eu sei que é difícil, Henry e sei que às vezes parece que ela não te ama, mas ao menos ela se importa. Ela se importa o suficiente para deixa-lo livre, para que você seja feliz do jeito que quiser.”

Seus olhos estavam marejados quando ela parou de falar, e Henry veio a seu encontro, colocando os braços em volta dela e abraçando-a com força.

“Me desculpe, Regina. Eu não quis machucar você.”

Regina sorriu, enquanto lágrimas lavavam seu rosto. Ela abraçou-o forte, e assim que ele afrouxou os braços ao redor dela, ela deslizou o polegar pelo rosto dele e beijou o topo de sua cabeça.

“Você não me machucou querido. Você é um menino lindo e doce, e eu com certeza quero ser sua segunda mãe. Mas você precisa se entender com a primeira.”

“Tudo bem.” Sussurrou ela, abraçando-a novamente.

Emma estava esperando-os sentada no primeiro degrau da escada, na entrada da sua casa. Henry passou por ela, completamente indiferente e entrou. Emma observou-o até que ele desapareceu escada acima e então voltou a olhar para Regina.

“Obrigada.”

“Sem problemas.”

“Parece que ele simpatizou com você.”

“Eu diria que é recíproco. Ele é um menino de ouro.”

“Eu espero que não tenha ficado nenhum mal entendido entre nós.”

Regina arqueou uma das sobrancelhas, notando a arrogância diluída nas palavras de Emma.

“Como?”

“O que aconteceu não é um convite para que você permaneça na vida dele, Regina.”

“E o que há de tão ruim em eu estar na vida dele?”

“Acontece que durante os últimos catorze anos, eu estive limpando cada fralda, eu estive cuidando de cada resfriado, fazendo cada mamadeira e aguentando cada crise adolescente. Você pode ter simpatizado com ele e saído com ele para passear uma ou duas vezes, mas ele é meu filho. Você não tem direito nenhum sobre ele, e nem vai ter. Eu sugiro que entre no seu carro, e volte para sua vida de glamour e casos amorosos e o deixe em paz.”

“Emma, escute bem o que vou te dizer, porque não irei repetir duas vezes.“ Sibilou Regina, furiosa. “Minha vida não é da sua jurisdição, mas a sua vida pode ser jurisdicionada por mim. Se por acaso, eu receber mais alguma queixa do Henry, a respeito da sua ausência, ou negligência como mãe, eu vou caçar você. Não o seu cargo. Você. Eu vou até os confins da terra, e vou ler cada pequeno trecho de cada pequeno artigo em todos os livros e constituições legais e vou achar meios até então desconhecidos para fazê-la pagar caro, caso este garoto sofra. Portanto, cuide bem dele, ame-o muito como a mãe que você prega ser. Caso contrário, eu vou destruir você. Nem que seja a última coisa que eu faça.”

Regina a deixou para trás. Emma chegou até a porta da sua casa, mas virou-se e a indagou, com a voz alta.

“Por que você se importa tanto?”

Regina paralisou-se e deu meia volta. Com um sorriso maligno no rosto, ela encarou a loira.

“Porque eu o amo. E isso quer dizer que vou fazer de tudo para que ele seja feliz.”

David estava em pé, vestido com um jeans branco e camisa polo vermelha. Sua aparência física era um fato formidável, mas ele nunca se acostumara. Nem quando sentia aqueles olhares lascivos das mulheres sobre o seu corpo. Distraído, ele enfiou os olhos no visor do celular e sequer percebeu quando Regina aproximou-se dele.

“Viciado.” Brincou ela.

Ele levantou os olhos e admirou-a, sempre elegantemente vestida. O vestido tubo na cor azul bebê caíra como uma luva no corpo dela, deixando-a ainda mais sofisticada.

“Vamos?” Perguntou ele.

Ela balançou a cabeça, afirmativamente. Ela entrou na frente, os saltos tilintando em sintonia contra o chão laminado, a mão dele sobre a base da sua coluna – apenas dando-lhe suporte. Regina aproximou-se da atendente.

“Olá. Poderia avisar ao Juiz Terrison que Regina Mills está aqui?”

“Claro, senhora. Aguarde um minuto.”

Dois minutos exatamente. Foi esse o tempo que eles esperaram, em silêncio, até que um rapaz jovem e de cabelos ridiculamente arrepiados se apresentasse e os levasse para uma sala reservada. Havia uma mesa comprida, revestida com castanheira-brasileira e cadeiras do mesmo material no centro do local, e um painel onde provavelmente eram feitas videoconferências. Janelas enormes criavam um aspecto de iluminação formidável e Regina lamentou pelo fato de que o sol incessante ia corroer aquela madeira refinada em pouco tempo.

“Aguardem mais um minuto, o senhor Terrison está a caminho.”

Regina suspirou, e David sorriu.

“É apenas um minuto, Regina.”

“É muita burocracia.”

“Eles estão sendo rápidos. Você é a prefeita, obviamente eles não te farão esperar.”

Ela mostrou a língua para ele, mas colocou-a rapidamente para dentro quando Terrison entrou na sala. Vestido com uma toga preta, ele estava devidamente caracterizado. Com uma pasta em mãos, ele fechou a porta rapidamente, tirando duas cópias e colocando-as sobre a mesa.

“Vocês tem algum assunto a ser resolvido antes? Porque a informação que eu recebi é que era uma decisão de comum acordo e os advogados já tinham resolvido todos os trâmites legais.”

“Só estamos aqui para assinar, precisávamos que fosse à presença de um juiz.” Respondeu Regina, e sentiu no exato momento em que David entrelaçou seus dedos nos dedos dela. Ela sorriu.

“Tudo bem.”

Terrison assinou ambas as vias. Ele ergueu os olhos e estranhou ver o casal à sua frente de mãos dadas. David delicadamente soltou-a, debruçando sobre a mesa e assinando a papelada à sua frente.

Regina respirou fundo ao debruçar-se sobre a mesa. Ela leu toda a declaração, em silêncio, e admirou a assinatura de David, sempre tão bem feita. Quase uma obra-prima. Ela assinou nos únicos espaços em branco que faltavam. Os seus. Suspirou pesadamente, mais uma vez. Era incomodo, para dizer o mínimo.

Assim que ela afastou e observou-o colocando os papéis de volta na pasta, Terrison sorriu polidamente e os cumprimentou com um aperto de mão profissional.

“Vocês estão divorciados legalmente. Os detalhes financeiros e de outros parâmetros devem ser tratados diretamente com os advogados. Mais alguma coisa em que eu possa ajudar?”

“Por favor, não esqueça o sigilo. Não quero ver meu divórcio no jornal de amanhã, Terry.”

“Fique tranquila, prefeita. Cuidaremos de tudo.”

David levou-a até seu carro, no estacionamento.

“Tudo isso é um pouco esquisito, Dav.”

“Nós vamos nos acostumar.”

Ela olhou para ele com carinho.

“Quer dizer que amanhã você vai tomar café com o meu pai?”

“Ele te disse?”

“Quer dizer que ele chega à cidade e a primeira coisa que faz é ir tomar café com você?” Riu David.

“Ele me adora. Supere isso.”

“Aquele velho é pilantra.”

“Vou contar isso para ele.” Ironizou ela, encostando-se ao carro. “Ele vai ficar quanto tempo?”

“Acho que uns três dias. Meu pai não gosta muito daqui.”

“Desde sempre.” Resmungou ela, olhando em volta. “Quais os planos?”

“Beber, pescar, e ouvi-lo resmungar sobre o meu novo negocio.”

“Acho que irei rouba-lo para uma caminhada até a floresta.”

“Meu pai fazia parte do acordo? Preciso reler aqueles documentos do divórcio.”

Regina socou o braço dele, e ele sorriu, fingindo estar ferido.

“Lei Maria da Penha para você, senhorita Mills.”

Ela sorriu, e antes que pudesse responder, o celular dele tocou.

“Nolan.”

Regina o encarou, distraída pelos seus próprios pensamentos.

“Eu estarei aí em alguns minutos. Segure os carregamentos. Eu quero checar pessoalmente.”

Ele sorriu para ela.

“Trabalho.”

“Melhor você correr.”

Ele adiantou-se e a segurou contra ele, os dedos na nuca dela, abraçando-a com carinho e cuidado. Ele beijou-a no rosto.

“Se cuida. Eu vou ficar de olho.”

Regina segurou-o pela blusa e puxou-o para si, beijando-o de leve, apenas deixando que seus lábios se encostassem. Assim que se separaram, ela sussurrou contra a boca dele.

“Eu jamais vou deixar de amar você, David Nolan.”

“E nem eu de amar você, Regina. Até que a morte nos separe, lembra?”

E com um sorriso no rosto, ele se afastou, caminhando na direção do seu carro.