Amores Roubados
37 Capítulo 37
Ruby não havia dormido em casa.
Em pé, do lado de fora da varanda, Regina observava a cidade amanhecer enquanto bebia uma xícara de café reforçado. Mudanças, muitas mudanças. Toda sua vida parecia ter sido remanejada. Ela não se sentia mal com isso. Depois de tantos anos lutando para limpar sua imagem, limpar sua alma do mal que a mãe havia causado, limpar a cidade da catástrofe do passado – ela conseguira. Ela obteve sucesso em sua missão principal.
Sentia-se orgulhosa. Satisfeita, por que não?
Mas havia agora uma missão menor, porém não menos importante, a ser concluída.
Ela queria Robin. Precisava dele para ser feliz. Precisava que ele soubesse disso. Que ela lutaria por ele como ele lutou por ela, e nem mesmo Marian seria capaz de impedi-la. Ninguém seria. Ela terminou seu café e olhou para o relógio elegante pendurado na parede da sala. Ela tinha uma hora para se arrumar e ir atrás do que queria.
Era tempo suficiente.
Usando um vestido branco colado ao seu corpo, e delineando cada curva do seu suntuoso corpo. Foi assim que Regina saiu do seu carro. O salto alto e afiado na cor vermelha tilintando contra as pedras da calçada da casa de Robin.
Ela caminhou até a porta discreta de madeira e tocou a campainha. Um vizinho admirava-a por cima da cerca de grama, e ela sorriu, assentindo com a cabeça. Ele sorriu tímido e voltou a molhar a grama, lançando olhares furtivos para babar sobre ela.
Regina respirou fundo, e limpou a garganta. Ia falar com Robin. Se Marian ousasse falar algo, Regina passaria por cima dela como um tanque de guerra e seguir em frente até conseguir o que queria. Acima de tudo, era filha da Cora. E se tinha algo que Cora tinha de sobra era coragem e determinação. Uma Mills jamais desistia. Uma Mills fazia outros desistirem.
“Oi.” Uma senhora de cabelos grisalhos atendeu a porta.
“Olá. O Robin está?”
“Aconteceu alguma coisa séria, senhora prefeita?” Regina sorriu ao notar a preocupação nos olhos dela.
“Não, dear. Eu apenas precisava falar com ele. Onde posso encontrá-lo?”
“Ele foi para o aeroporto há meia hora. Se a senhora for rápido, ainda pode ser que o encontre.”
“Aeroporto? Ele não disse que ia viajar.” Estaria ele indo embora? O pensamento fez com que o estômago dela se contraísse desconfortavelmente.
“Eu não sei muita coisa por aqui, senhora. Não dizem muitas coisas para os empregados.”
Regina sorriu e a beijou delicadamente no rosto.
“Obrigada mesmo assim.”
Ela olhou no relógio e rezou uma pequena prece enquanto voltava para o carro.
Não ia perdê-lo. Não assim. Se fosse preciso, ia parar aquele avião.
“Ei! Você não pode parar o carro aí!” Gritou o manobrista.
“Eu sou prefeita e paro onde eu quiser. Manda guinchar!” Gritou ela em resposta, e nem se deu ao trabalho de ver a careta de surpresa que se instalou na face do homem.
Regina passou pelo portão principal. O aeroporto era grande, e aquele parecia ser um horário de pico. Havia gente por toda parte puxando suas malas, carregando bagagens, carrinhos, crianças, cadeiras, e movimentação intensa.
Péssimo lugar para brincar de esconde-esconde.
Ela atravessou o pátio pelo centro, atraindo olhares luxuriosos da maioria dos homens ali presentes e até de algumas mulheres. Estava vestida para matar. Para ser jogada contra um pilar e ser fodida até seu útero clamar por água. Ela precisava do sistema de busca. Ia jogar o sobrenome e rastrear o voo, chegando ao portão de embarque.
Caminhando até as cabines de compra, Regina avistou uma garotinha. A pequena garota não deveria ter mais do que cinco anos. Tinha a estatura de Roland, o que a fez sorrir. Tinha olhos azuis e o cabelo loiro, feições delicadas e um sorriso doce. Sentada atrás da maquina de refrigerante, a garota chorava silenciosamente. Regina olhou para o relógio dourado em seu pulso. Estava atrasada. Ia perder o voo dele. Mas a garota estava sozinha, provavelmente perdida. Em um horário como aquele, era impossível encontrar alguém. Principalmente se você tiver cinco anos.
Ela suspirou resignada e caminhou até a maquina de refrigerantes.
“Oi.”
Regina sorriu, encostada na mureta. Um par de olhos brilhantes a inspecionaram, assustados.
“Como é seu nome?”
“Aurora.”
“Bonito nome, Aurora.”
Regina estendeu a mão para ela. Aurora observou a mão dela por alguns segundos, cogitando a ideia. Lentamente, ela estendeu a mãozinha também e segurou a mão da prefeita.
“Você veio sozinha, Aurora?”
Aurora olhou em volta, e Regina viu pelo olhar em sua carinha travessa que ela estava assustada com o mar de pessoas. Ela segurou a mão da criança, e olhou em seus olhos, puxando-a para perto.
“Pode falar comigo. Eu também estou perdida aqui.”
“Sério?” Ela sorriu timidamente.
“Sim. Perdi meu namorado e não estou achando. E você, perdeu quem?”
“Minha mamãe. Ela me disse para eu não sair do banheiro, e eu saí.”
“Tá vendo?” Regina sorriu. “Por isso não pode desobedecer a mamãe. Coisas ruins acontecem.”
Aurora parecia bem mais a vontade com ela. Regina passou a mão pelo rosto dela, acariciando-o num gesto adorável.
“Vamos procurar juntas?”
Aurora balançou a cabeça, sinalizando sua aprovação. Regina abaixou-se e a pegou no colo.
“Tem certeza que pegou tudo?”
“Robin, eu sei o que meu filho precisa. Parece que não confia em mim como mãe.”
Ele respirou fundo, com Roland no colo e a mochila dele sobre o ombro esquerdo.
“Não estou dizendo isso.”
“Quer que eu confira a lista novamente?”
“Não, pelo amor do Deus Maior. Aquela lista parece uma nova bíblia.”
Marian gargalhou enquanto se debruçava através do alto homem à sua frente e checava no painel a abertura dos portões do seu voo.
“Como é sua mãe, Aurora?”
“Ela tem cabelo marrom, olho marrom e veste preto.”
Regina sorriu com a descrição apropriadíssima. Ia demorar dois dias. Com a pequena garota no colo, ela caminhou até o guichê de informação.
“Mas eu não posso ceder informações sobre os passageiros. Isso é quebra de sigilo.”
“Queridinha”, a voz de Regina soou pouco amigável. “Não tenho tempo para isso. Se quiser, mande o processo lá na prefeitura. A cobrança, a polícia, seus advogados. Mande quem quiser me procurar na prefeitura. Mas agora, você vai fazer o que eu estou lhe pedindo, e rápido. Primeiro que se a polícia descobrir que eu reportei essa criança perdida e me colocaram em espera, vários probleminhas judiciais aparecerão. Seu chefe não vai gostar. E segundo, se não fizer o que estou pedindo, vai ser demitida. Eu ligo para o Samuel agora mesmo se necessário.”
“Não!” Ela rebateu. “Eu encontro para a senhora.”
Regina sentiu os bracinhos de Aurora em volta do seu pescoço e a abraçou também, beijando o topo de sua cabeça.
“Vamos achar sua mãe, pequena. Você vai para casa.”
A atendente anotou rapidamente em um cartão o portão de embarque e a cabine.
“Aqui está.”
Regina pegou o papel.
“Obrigada!”
A fila para o embarque estava enorme, mas segundo as anotações, era aquele o portão. Regina olhou em volta, e perto do final da fila, havia uma mulher acompanhada por dois policiais. Estava vestida de preto, os cabelos marrons e pelo seu rosto, era claro que tinha chorado muito.
Provavelmente, era ela.
Regina estava se aproximando quando ouviu a pequena reconhecendo-a.
“Mamãe?”
“Aurora!”
Regina estava certa. A mulher saiu do meio dos oficiais e correu ao seu encalço, pegando-a no colo, beijando-a, enquanto lágrimas felizes escorriam pelo seu rosto. “Onde você se meteu, menina? Eu fiquei com tanto medo! Nunca ia me perdoar se algo acontecesse! Eu te amo tanto, praga! Tanto!”
Com a garota presa em um abraço apertado, a morena em questão andou até Regina, abraçando-a com força. Ela assentiu com a cabeça, dispensando os policiais.
“Obrigada por ter me devolvido minha filha. Eu estava sem esperanças já.”
“Ela é uma criança adorável.”
“Eu” A morena estava emocionada. Seus olhos encheram de lágrimas. “Eu nem sei como agradecer.”
“Não deixe ela escapar de novo. Ela é linda demais para ficar perdida por aí.”
“Ela estava do meu lado no banheiro, e de repente, desapareceu. Nunca deixei a Aurora sem supervisão. Nem quando a tirei da guarda das tias retardadas dela, ela estava sempre por perto de Diaval. Infelizmente ele não pode vir hoje, mas isso nunca mais vai acontecer. Não é, Aurora?”
Aurora roçou o nariz contra o nariz dela, sorrindo. “Não, mami.”
Regina sorriu. Ela estava se afastando quando a mulher a segurou pelo pulso. Uma eletricidade as conectou, e Regina a encarou com atenção. Não era um toque simples. Tinha significado. A mulher ficou de frente para ela, observando-a em silêncio.
“Eu tenho a impressão que nós voltaremos a nos encontrar, senhorita...”
“Regina Mills.”
“Senhorita Mills. Um dia, talvez não em breve. Mas nós nos veremos. E eu vou compensar o que fez pela minha família.”
“Cuide dessa princesa. É a melhor coisa que pode fazer por mim.”
“E eu farei.”
Regina estava prestes a ser afastar novamente quando ela sorriu e colocando a alça da bolsa sobre o ombro, sussurrou.
“Ah propósito. Sou a Mally. Apelido para Malévola.”
“Prazer, Mally.”
Regina olhou pela última vez, e então, sorrindo notou quem estava na fila, um pouco mais distante.
Robin.
Seu sorriso intensificou-se, assim como o brilho em seus olhos. Ele não ia viajar mais. Ia voltar com ela. Iria tornar-se seu, apenas seu.
Regina deu dois passos na direção dele antes de estancar violentamente.
Ele não estava sozinho. Robin estava sorrindo quando Roland pulou em seu colo. Robin estava sorrindo quando Marian o abraçou, e ele beijou o topo da cabeça dela.
Como ela não havia pensado nisso?
Ele estava indo embora.
Com ela.
Regina olhou em volta, visivelmente constrangida e pôs-se a caminhar rapidamente contra a saída mais próxima.
Flashback on
“Posso entrar?” Perguntou Marian através de uma fresta da sala do hospital.
“Pode.”
Ele ajeitou-se em seu leito, e ela sentou-se na beira do lençol.
“Como você está?”
“Você precisa ver o outro cara.”
Ela sorriu, e ele sorriu em resposta. Um silêncio se fez entre eles. Aquela situação era... Pra dizer o mínimo, estranha.
“Robin, precisamos falar sobre o que aconteceu.”
“Sim.” Ele a encarou, concordando lentamente com um movimento da cabeça. “Precisamos resolver isto.”
Marian olhou pelo vidro das paredes, fixando o olhar no vaivém de enfermeiras e médicos. Respirou fundo e voltou a encará-lo.
“O que é?”
“O que é o quê?” Perguntou ele, esforçando-se para ser o mais polido possível.
“Que Regina tem e que eu não fui capaz de ter.”
“Mar... Não é assim que você tem que encarar isso.”
“E como eu devo encarar isso, Robbie?” Ele sentiu a oscilação emocional na voz dela. Não ia ser fácil. Para nenhum dos dois.
“Não se trata do que você fez ou não fez. Nunca foi uma competição. Você é perfeita. Mas eu me apaixonei por ela. Não há nada que você possa ter feito diferente. Eu a conheci e me apaixonei, e essas coisas acontecem.”
“Quando você ia me contar?”
“Nós já estávamos separados, milady. Eu comprei outra casa, eu me mudei. Você só está ferida por conta da Regina.”
“E você pode me culpar por isso? Olhe para ela, Robin! Ela tem tudo!”
“Você não sabe disso.”
“Você sabe?”
“Também não sei muito.” Ele chacoalhou os ombros, indiferente. “Mas o que eu sei é que temos um filho, e eu quero ter uma relação maravilhosa com ele, e pra isso, preciso me dar bem com a mãe dele.”
“Por que, Robin, por quê? Porque foi se apaixonar por ela?”
“Marian, não existe resposta satisfatória pra uma pergunta dessas. Você não vai gostar independente do que eu diga. O coração tem razões que a própria razão desconhece. Eu me apaixonei. Fim.”
Ela começou a chorar, cobrindo os olhos com as mãos.
“Ei, vem cá.” Chamou ele, com a voz embargada.
Marian relutantemente sentou-se perto dele, e ele a puxou com força, forçando-a a deitar-se sobre o seu tórax. Robin a abraçou com carinho.
“Nós estaremos sempre juntos, Marian. Temos um filho para criar. Aquela casa é sua. Nós ainda vamos nos ver praticamente todos os dias. Mas você é uma mulher maravilhosa, sexy, inteligente. Sei que vai encontrar um homem decente. Um homem que a ame como eu amei um dia. Ou mais, quem sabe.”
“Eu a odeio.”
“Eu sei” Suspirou ele, sorrindo e beijou o topo da cabeça dela. “Mas isso vai passar. Aos poucos, vai ver que era assim que as coisas tinham que acontecer. Você continua sendo uma parte importante da minha vida, Mar. Você e o Roland. Eu amo vocês. Mas eu também amo a Regina e eu preciso ficar com ela.”
“Você sabe que eu posso exigir a pensão, não sabe?”
“Você tem direito de exigir tudo o que quiser, Marian. Sei que não fui exatamente justo, correto com você. Deveria ter dito a verdade antes. Deveria ter feito muitas coisas de um jeito diferente, mas infelizmente, eu não fiz. E agora, estou tentando fazer com que as coisas funcionem. Vai ser mais trabalhoso, mas nada é impossível.”
Marian chorou um pouco mais contra a camisola vagabunda de hospital que ele usava. Eles permaneceram ali abraçados até ambos caírem no sono.
Flashback off
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