Notas iniciais
O forninho caiu. Só isso.

Regina estava tomando um suco de laranja reforçado quando Ruby entrou na cozinha vestindo um pijama preto. Sorrindo diante esta escolha incomum e típica da ruiva, ela acenou para que a ruiva sentasse.

“Cara de quem quer conversar.”

“Me surpreende a facilidade com que você lê minhas expressões, Ruby.”

Ruby mordeu um pedaço da torrada.

“É a convivência.”

“Graham quer se encontrar com você.”

Sutil como um bovino voando por Nova York, Regina. Ótima maneira de abordar o assunto.

“Por quê?” A voz de Ruby denunciou sua desconfiança, e mais profundamente, seu medo.

“Se você não quiser, não vai. Ele não pode te obrigar.”

“Perguntei o porquê. O que ele quer?”

“Eu não sei, dear. Ele se resumiu a dizer que o assunto era particular.”

“Particular?” Ruby soltou a torrada e seu semblante formou uma expressão de preocupação. “Não tenho assuntos particulares com ele.”

“Direi a ele que você não vai.”

Regina lançou um olhar distante, para algum ponto do jardim. Ela sentia algo bem parecido com um pressentimento. Um pressentimento ruim.

“Eu vou.”

“O quê?”

“Eu vou me encontrar com ele.”

“Ruby, dear... Por que você faria isso?”

“Por que você está fazendo isso por ele?”

“Eu só estou fazendo uma pergunta. Você é quem está aceitando sair com ele.”

Ruby sorriu e tocou a mão dela.

“Você é Regina Mills Nolan. Você não faz ‘favores’ para as pessoas. Não ‘pergunta’ as coisas por elas. Você manda. Você faz. Se está aqui me perguntando isso, é porque deve alguma coisa para ele.”

“Eu tive um problema, e ele deu um jeito.”

“Zelena.”

Regina a olhou por alguns segundos, as sobrancelhas formando um arco.

“Sim.”

“Posso fazer isso por você, Regina. Como vai ser?”

“Não precisa fazer isso. Muito menos por mim.”

“Eu vou fazer.”

Regina respirou fundo, derrotada.

“Tudo bem. Mas vai ser do meu jeito.”

Ruby apenas assentiu com a cabeça, concordando.


O celular de Regina gritou alguns segundos antes que ela o alcançasse.

“Regina.”

“Milady.” A voz máscula e o sotaque a fizeram arrepiar. “Podemos nos encontrar?”

“Robin...”

“Você confia em mim?”

“Confio.”

“Então me escuta: em uma hora, vai estacionar um carro preto aí na frente. A placa dele é FTD – 0815. Você entra, e ele me traz você. O seu carro fica aí, e você não levanta suspeitas.”

“Me leva onde?”

“Onde eu estarei te esperando.”

Ela considerou a legitimidade do plano dele.

“Tudo bem. Você terá uma hora, dear. E sem segundas intenções.”

“Eu lhe prometo que minhas intenções são sinceras, prefeita. Só quero conversar.”

“Até breve, dear.”

“Mal posso esperar, love.”

Regina suspirou ao ouvir aquela palavra. Ele desligou, e ela pôs se a trabalhar.


Graham estava vestido elegantemente. Com um terno azul marinho, cortado delicadamente – cujas dobras eram justas e moldadas ao seu corpo, deixando-o ainda mais irresistível. A gravata em cor púrpura lhe dava autenticidade, e ele parecia ter saído de um ensaio muito, muito chique sobre o homem de negócios contemporâneo. Ele entrou no restaurante, e logo um educado senhor indicou a mesa onde Ruby o esperava.

Ruby estava sentada, as pernas longas delineadas por uma meia calça preta e um vestido branco minúsculo que parecia ter sido tatuado em seu corpo. Ela havia jogado um colete de pele por cima, e bebia água em uma taça elegante. Ao seu lado, havia dois seguranças. Eles estavam a um passo de distância dela, em pé e apenas seguiam Graham com os olhos, sem demonstrar nenhuma reação.

Graham puxou a cadeira e sentou-se.

“Isso.” Começou ele, apontando para os seguranças logo atrás dela. “É realmente necessário?”

“Você já trabalhou e já namorou com a Regina. O que acha?”

“É a cara dela.”

Ruby bebericou sua água.

“Vai beber alguma coisa?”

Graham acenou e um garçom se aproximou.

“Uma dose dupla de Chigas Regal Royal Salute.”

O garçom deixou que uma sobrancelha formasse um arco sobre seus olhos, e se afastou levemente constrangido.

“Precisava pedir uma coisa tão mesquinha?”

Graham a encarou. Ela estava sorrindo. Ela era linda, ainda mais sorrindo.

“É um dos uísques mais caros do mundo. Foi lançado em 2002, durante uma comemoração do Jubileu de ouro da Rainha Elizabeth II pela Chigas Regal – mas já envelhecia desde 1952. Só foram produzidas 255 garrafas.”

“Cobertas de ouro?” Brincou ela.

“E prata também. 24k de ouro por garrafa.”

Ruby sentiu as bochechas corando.

“Uau. Eu estava brincando...”

“Talvez eu não seja um idiota completo.”

“Talvez seja um idiota culto. Vai me dizer o que quer? Porque me trouxe aqui?”

Graham observou enquanto o garçom colocava o copo na mesa e se distanciava.

“Tudo bem.” Limpou a garganta, abriu um pouco a gravata e olhou em volta. Respirou fundo.

“Está passando bem?” Os olhos dela tinham um brilho cuidadoso.

“Estou.” Sorriu. “Criando coragem para conversar.”

“Está me preocupando.”

“Ruby, eu... quero pedir desculpas.”

Ruby tentou segurar um riso, mas ele se embolou e virou uma curta risada.

“Desculpe.”

“Leve a sério, por favor.” A voz dele soou sincera e seu olhar era duro. Ela percebeu que ele estava se esforçando. “Me desculpe. Me desculpe por tê-la colocado naquela posição. Por usar você para derrubar o Robin, por ter permitido que o Gold a chantageasse e por forçarmos você a levar o Robin para a cama. Por todas as ofensas que eu lhe dirigi quando você disse que não queria fazer aquilo.”

“O que mudou?”

“Como?” Ele parecia confuso.

“Tudo isso aconteceu há muito tempo. O que mudou? Por que está pedindo perdão agora?”

“Eu já fiz muita merda, Ruby. Muita. Só quero me redimir antes de desaparecer.”

“Para onde você vai?”

“Não sei.”

“E por que está indo?”

“Trouxe problemas demais para a Regina. Ela me quer muito longe, e eu não gostaria de me tornar inimigo dela.”

Ruby ponderou o assunto. Ninguém deveria gostar disso. Regina era tão boa quanto podia ser má.

“Não há nada a ser perdoado aqui, Graham. A meu respeito, fique em paz. O que aconteceu, aconteceu – e a vida continua.”

“Vem comigo.”

Ruby gargalhou estridentemente, e os casais nas mesas ao redor dela a olharam, contrariados. Ela se debruçou para a frente com um sorriso debochado no rosto.

“Por que razão absurda eu faria isso?”

“Você pretende passar mais quanto tempo naquela casa? Sabendo que Regina está perdidamente apaixonada pelo mesmo homem que você?”

“Você não sabe do que está falando, Graham.”

“Não sei? Minta para mim. Diga-me que não morre aos poucos toda vez que ele liga procurando por ela. Toda vez que você descobre que eles transaram. Sempre que vê aquele sorriso idiota no rosto dela quando fala dele. Quando assiste de camarote as inevitáveis brigas entre ela e David. Vamos lá, Ruby. Me convença.”

Ruby olhou em volta. O ar parecia escasso. Alguém sabia. Depois de todo esse tempo, depois de seus esforços em disfarçar tudo, em digerir tudo, aceitar e se submeter, torcendo para que ninguém estivesse percebendo seus sentimentos. Alguém percebeu. E justo quem? Justo ele. O arrogante com terno caro e gosto por uísques que custavam uma vida.

“Mesmo que isso seja verdade...” Ela se arrependeu de ter dito isso no instante que um sorriso nasceu nos lábios dele. “Eu jamais faria nada contra a Regina. Ela salvou minha vida.”

“Então vem comigo.”

“Graham, acorda! Eu não confio em você.” A voz dela começou a ficar ainda mais alta. “Você estava do lado do cara que quebrou meu braço em dois. Do lado da mulher que me ameaçou, que me chantageou e me mandou para o quinto dos infernos. Não me venha com esse papinho de desculpas e confie em mim, vamos mochilar pelo mundo. Vai se foder, meu querido. Vai se foder com muito gosto. Pode morrer que eu te envio flores.”

A essa altura, todo o restaurante assistia a discussão. Ruby levantou-se e saiu, caminhando até o carro escoltada por um dos seguranças. O outro impediu que Graham a seguisse, mas ele pode ver que ela estava chorando.

E ele se sentiu o pior bosta na face da terra.

Não tinha sido essa a intenção.

Entre todas as suas motivações, entre todos os finais que ele imaginava para aquele encontro, não imaginava que ela causaria essa reviravolta.

Ela o mandou se foder dentro do restaurante mais elegante da cidade.

Na frente de todos.

E então foi embora.

E ele adorou.

Regina estava dentro do carro preto que a levara para algum lugar fora de Storybrooke. Ela viu as copas de muitas árvores, até que o carro entrou em um condomínio florestal. Algumas ruas e esquinas depois o motorista estacionou em frente de uma casa enorme.

“É aqui, senhora.”

Regina sorriu. Ele não havia falado com ela desde que ela entrara no carro, na frente da prefeitura.

Ela desceu, e olhou em volta. Parecia uma vizinhança pacifica e discreta. Ela moraria ali, se possível. Estava admirando o verde ao redor das casas quando Robin saiu de dentro da casa. Vestia uma camiseta branca justa, e os músculos pareciam querer explodir para fora do tecido. O jeans batido o acompanhava além das botas de escalada. Ele caminhou até ela, e antes que ela pudesse sorrir e dizer alguma coisa, ele levou as duas mãos ao pescoço dela, e a puxou para um beijo forte e intenso. A língua dele viajou pela boca dela, e a sugou-a avidamente. Assim que se separaram, ele sussurrou contra a boca dela.

“Quero te mostrar uma coisa.”

Ela sorriu quando ele entrelaçou seus dedos nos dedos dela e a guiou para dentro da casa.

E que casa! Era linda. Era tão bonita por dentro, mais linda do que qualquer sonho que ela poderia ter. Com luzes brancas e douradas, janelas grandes e um jardim majestoso cercando a casa. A textura era deslumbrante. Robin passou por onde seria a cozinha, pela sala, cuja lareira era feita com tijolos coloquiais. Regina começou a se perguntar de quem era aquela casa. Será que Marian moraria ali?

Ela afastou o pensamento quando ele a puxou para mais perto, abraçando-a por trás e estendendo o braço para mostrar a sala de jantar. Mas ela estava incomodada com a ausência de respostas. Ele a levou até o andar superior, e mostrou os quartos. Três suítes? Ela estava começando a fazer as contas, e as respostas pareciam óbvias. Mas ele não a levaria para a casa da família feliz para se despedir dela, levaria? Ele não podia ser canalha a este ponto.

A casa era mais do que perfeita, era deslumbrante. Era a coisa mais linda, mais amorosa e aconchegante do mundo. Era espaçosa, era iluminada – tinha ventilação, o jardim estava incrivelmente bem cuidado, e por uma das janelas ela pode ver a piscina, o campo de futebol e um pequeno playground nos fundos.

Playground.

Roland.

Era óbvio.

Não se iluda, Regina.

“Gostou?” Perguntou ele sorrindo, mas o sorriso morreu quando ele percebeu os olhos tristes que ela tentava esconder.

“O que eu estou fazendo aqui, Robin?”

“Como assim, milady?”

“Você está se despedindo de mim?”

Ele gargalhou e a abraçou.

“Amor, você está entendendo tudo errado. Olhe à sua volta.”

“A casa é maravilhosa. Ok, eu já entendi.”

“É sua.”

Regina pensou ter sentido um leve desconforto nos ouvidos.

“Como?”

“Eu comprei para nós. Uma das suítes é para o Roland, e a outra para o Henry, caso a Emma deixe-o vir nos visitar.”

Ela sentiu o ar se esvair do seu peito. Ele fizera mesmo aquilo? Por ela? Ele estava construindo um futuro, com ela? Aquele pedaço do paraíso era seu? Seu peito ardeu de felicidade.

“Regina, porque está chorando?”

Ela nem percebera que estava chorando. Mas era de emoção. Era de felicidade. Era de alívio. Seu coração pulsava tão forte em seu peito que ela pensou que ele sairia a qualquer momento.

“Eu estou feliz, dear. Por isso, porque você é o homem mais maravilhoso que eu já conheci, e essa casa...” Ela olhou em volta e o abraçou com força, enfiando o nariz no pescoço dele. “Essa casa é a coisa mais maravilhosa que eu já vi na minha vida. Eu não mereço nada disso.”

Ele a segurou gentilmente pelo rosto, roçando seu nariz no dela.

“Merece tudo isso e muito mais. Nós seremos felizes aqui, love.”

Tocava American Authors no rádio do carro enquanto Robin e Regina voltavam para Storybrooke. Ele insistira em que ela fosse com ele, e dispensou o motorista. Regina estava sorrindo apaixonadamente para ele, que dirigia despreocupado.

Eles não se preocupavam com mais nada. Um tinha o outro, e eles lutariam contra os problemas que viriam. Regina sentia uma leveza inexplicável, algo que não sentia desde que seu pai morrera. Tinha certeza do que sentia mais do que nunca. Sabia que seria difícil e cansativo. Mas sentia que era o certo a fazer.

Ela tinha que libertar David.

Ela olhou ao redor, e adorou a estrada, adorou a luz do sol cruzando o ar, adorou aquele momento. A sensação em seu corpo.

Oo-o-o-o-oo
This is gonna be the best day of my life
My li-i-i-i-i-ife
Oo-o-o-o-oo
This is gonna be the best day of my life
My li-i-i-i-i-ife

Regina estendeu o braço, e deixou que seus dedos tocassem o rosto dele. Robin a encarou por alguns segundos, e ela soube o que vira naquele olhar.

Uma buzina alta chamou a atenção deles. A única coisa que Regina conseguiu ver foi a capota do caminhão.

E tudo escureceu.