Sirenes e luzes.

Estas tinham sido as últimas lembranças dela desde o acidente. Lembrava-se vagamente de ter sido colocada em uma ambulância e enviada para o hospital. Assim que abriu os olhos, estava deitada na maca, sentindo a dor de alguns cortes e sua roupa estava coberta de sangue. Havia um curativo em sua mão esquerda. Sentiu a pressão que as enfermeiras faziam para segurá-la e foi então que ela percebeu que estava se contorcendo o tempo todo. A voz dela saiu como um grito desesperado.

“Robin!”

“Senhora, por favor, fique quieta.”

“Eu preciso falar com ele” Resmungou ela, com uma voz contorcida pela dor. “Robin?”

“Precisamos examiná-la, senhora.”

“Ele está bem?”

“Não se mova.” Surgiu um policial á beira da maca. “Por favor.”

“Vamos estabilizar vocês dois. Por favor, colabore.”

Regina sentiu uma picada em sua veia, e aos poucos, sentiu o corpo amolecendo.

Ela não sabia a quanto tempo estava dormindo. Levantou-se, e notou que não estava mais interligada a nenhum medicamento intravenoso. Ela saiu do quarto, aos poucos e caminhou até a recepção. Precisava de notícias. Precisava vê-lo.

Regina caminhou até o balcão de atendimento.

“Olá”

“No que posso ajuda-la, senhora?”

“Eu... estou no leito 304. Eu...”

“Já que a senhora está aqui podemos terminar a sua papelada. Não recebemos muitos dados já que foi um atendimento emergencial.”

“Meu cartão do seguro está no carro, caso precise.”

“Não se preocupe. Conseguiremos o número através do relatório policial.”

“Eu preciso saber como está o Robin. Ninguém me conta nada por aqui.”

“Senhora Locksley, assim que tivermos qualquer informação sobre o seu marido, nós lhe diremos.”

“Eu sou a Senhora Locksley. Aqui estão os dados do seguro médico do meu marido.”

Marian materializou-se entre Regina e a balconista, que olhou para Regina com os dois olhos arregalados e um oh formado silenciosamente entre seus lábios. Regina olhou para longe por alguns segundos e suspirou – aquilo seria uma merda. Marian continuou.

“Ele é alérgico a penicilina, não sei ainda usam esse tipo de medicamento.”

“Eu irei avisar os médicos imediatamente.” Respondeu a balconista, e Regina quis, nem que por um segundo, estar no lugar dela e poder sair daquela situação tão facilmente.

“Como ele está?” A voz de Marian saiu ríspida e cortante.

“Ele estava inconsciente quando chegamos mas as enfermeiras garantiram que ele estava respondendo aos reflexos, e estável. Parece que estão fazendo as radiografias e a tomografia agora.”

Marian tentou passar por Regina, que colocou-se no caminho.

“Marian.”

“Vá em frente. Se é que há alguma coisa nesse mundo que você ainda possa me falar. Vai falar que sente muito? Eu sei que sente. Sente muito porque agora você também pode perdê-lo. Não porque foi pega.”

Regina saiu da frente dela, deixando-a passar.

David entrou no hospital com as mãos no bolso, o olhar pesado e o corpo todo curvado. Parecia cansado. Ele entrou na sala de espera e a viu sentada em um banco um tanto afastado, com as mãos na cabeça e os cotovelos apoiados nos joelhos. Havia sangue em suas roupas e uma faixa cobria uma parte da mão esquerda. Assim que ela o viu, engoliu em seco e soltou as mãos – forçando-se a encara-lo.

“Lander e Vince estiveram lá em casa, para avisar que minha esposa tinha sofrido um acidente.”

“Dav.”

“Há quanto tempo isso está acontecendo? Você ia me contar ou ia esperar eu descobrir tudo sozinho?”

Regina mordeu o lábio inferior, os olhos marejados.

“Você estava com ele.”

Ela balançou a cabeça, afirmativamente. A voz de David, sussurrada daquela maneira fraca, era como um soco feroz.

“Sim.”

“Você dormiu com ele?”

Regina abaixou a cabeça, incapaz de dizer aquilo em voz alta. Ela apenas manteve os olhos cravados ao chão, enquanto seu coração doía como ela jamais achava que conseguiria sentir. Não queria que as coisas acabassem desse jeito. Nunca ia imaginar aquela situação tão dolorosa.

David por sua vez respirou fundo, e abriu os braços, mantendo as palmas esticadas. Ele virou-se de costas e deixou-a para trás sem dizer uma palavra.

Regina sentou-se na beira do leito de Robin, e segurou sua mão. Com a ponta dos dedos, deslizou os cabelos dele para trás da faixa enrolada em sua cabeça. Havia alguns hematomas, mas felizmente ele estava fora de perigo. Quebrara um braço e sofrera contusões, mas nada muito grave.

Robin mexeu-se lentamente.

“Hei.”

“Oi.” Respondeu ela enquanto um sorriso de alívio lhe cobria o rosto.

“Seu rosto...” Ele estendeu a mão e fez carinho na bochecha dela. A voz dele era um sussurro fraco ainda.

“Foram só alguns arranhões. Nada demais.”

“Eu o estou vendo de novo. Eu juro, foi a última coisa que eu vi.”

“Graças a Deus não vai ser a última coisa que você verá.”

Ele começou a fazer carícias no pescoço dela.

“Robin, eles disseram que você está indo muito bem. Eu quero muito ficar aqui com você, mas...”

“David e Ruby.”

“Sim. Eu preciso ir.”

Ele a olhou por alguns segundos, e Regina o soltou, desvencilhando-se. Ela se levantou e começou a caminhar relutante até a porta.

“Regina.” A voz dele a paralisou e ela tornou a olhar para ele. “Eu sei que o que aconteceu passa infinitamente longe do que nós queríamos mas...”

Regina não aguentaria ouvir o resto, e virou-se para sair. “Regina.”

A voz dele, um pouco mais forte, a fez parar novamente. Regina voltou-se, caminhando até ele e se debruçou sobre o leito, segurando-o delicadamente pelo rosto e beijando-o. Seus lábios se encaixaram com suavidade e precisão, num beijo cálido. Quando seus lábios se afastaram, Regina roçou seu nariz contra o dele, e o beijou na testa, afastando-se logo em seguida e saindo do quarto.

Regina saiu do taxi e olhou para a sua casa. Ela estava relutante sobre entrar e ter uma conversa dolorosa com seu marido. Não queria mais dor. Queria uma trégua. Sentia-se incapaz física e emocionalmente de argumentar o que quer que fosse, com quem quer que fosse. Mas assim que ela chegou perto da escada que dava acesso à entrada, David saiu e fechou a porta atrás de si.

“Não acho que seja uma boa ideia entrar agora.”

“Essa casa também é minha e eu quero conversar com a Ruby.”

“Primeiro, nós vamos conversar. E como a Ruby está em casa, não quero fazer isso na frente dela.”

“David.”

“Há quanto tempo você está dormindo com ele?”

“David, não precisamos fazer isso.”

“Vai me fazer adivinhar? Por que eu posso repassar todas as vezes que estivemos todos juntos. Vai ser bem divertido para mim. Desde que ele chegou à cidade?”

“Não.”

“Na noite em que nós jantamos juntos? Ou naquela noite em que estávamos todos na Grannys? Porque estávamos todos muito bêbados.”

“Só faz algumas semanas... Eu nunca quis machucar você, David. Eu ia te contar.”

“Quando?” A voz dele estava mergulhada em sofrimento, o que a feria. Ela odiava vê-lo assim, como se fosse chorar de ódio a qualquer momento. “Todos os dias, eu olhava para o seu celular, para a senha do desbloqueio da tela e podia escolher entre desconfiar da sua lealdade ou confiar em você. E eu escolhi confiar em você todo santo dia. A senha é a data de aniversário dele, não é?”

Ela o encarou em silêncio.

“Eu tinha todo o direito de desconfiar de você. Todos os dias. E sabe por que eu não fazia isso? Primeiro, porque você é minha esposa. Segundo porque ele...” Os olhos dele encheram de lágrimas. “Eu achava que ele era um bom amigo. Talvez o melhor que eu tivesse.”

Regina começou a chorar, e sua embargou-se instantaneamente.

“Eu não sei o que dizer, David.”

“Diga o que você veio ensaiando para me dizer. Diga o que você planejou me dizer. Você o ama?”

“David, eu amo você...”

“VOCÊ O AMA?” O grito dele saiu rancoroso da garganta, atingindo-a com força.

“Sim, eu amo!” Regina confirmou em voz alta, e David deu um passo para trás, surpreso. “Eu amo.”

“Eu sou só o cara que dobrou os joelhos na tua frente, no meio de uma tempestade de neve e lhe pediu em casamento.” Ele cuspiu as palavras, jogando uma mala nos pés dela. Ela reconheceu a mala cara, e pode imaginar que suas roupas estavam dentro dela. “Sou só o cara que ignorou teu passado, limpou sua imagem e lhe apoiou o tempo todo, antes de você não ser ninguém e não ter nada.” Ele jogou as outras malas aos pés dela, deixando visível a raiva que ardia em seu peito. “Que te deu amor. Que te deu uma família novamente. Eu sou só o cara que te amou desde o primeiro momento que a viu.”

“David, você pode até me odiar, mas essa casa ainda é minha.”

“Vamos ver o que o advogado diz.”

David voltou a subir a escada. Ele parou na ponta, e virou-se para ela.

“Você tem dinheiro. Compre outra.”

Notas finais
Para quem quiser me chamar no twitter, para spoilers cobranças e xingamentos, é @caboafesta. Beijo. ♥