Amores Roubados
17 Capítulo 17
Quando acordou no hospital, Ruby sentia uma dor de cabeça horrível. Seu estômago possivelmente estava vazio, mas a garganta tinha um gosto azedo. Ela sentiu o corpo informando-a de dores que ela tinha desconsiderado. Ela olhou em volta, os olhos lentamente executando a função de foco.
De costas para ela, com o olhar em qualquer coisa através da janela, estava Regina Nolan. De todas as pessoas do mundo, quem ela menos esperaria ver ao lado do seu leito de hospital. A prefeita.
Ruby deve ter feito algum ruído, porque a morena se voltou para ela com um sorriso, aproximando-se da cama.
“Achei que não fosse acordar mais.”
“O que aconteceu?”
“Eu esperava que você pudesse dizer, Ruby.” E com isso, Regina levantou os pulsos de Ruby com cuidado, mostrando as duas ataduras que lhe protegiam os pulsos.
Ah, isso.
Ruby a olhou por alguns segundos, e deu um breve olhar em volta. Regina seguiu o olhar dela.
“Estamos sozinhas, se é a sua preocupação.”
“O que você está fazendo aqui, Prefeita?”
“Eu estou aqui como Regina.”
“Ainda é uma incógnita o porquê de estar aqui.”
“Eu encontrei você no banheiro da sua casa. Eu chamei a ambulância. É por isso que estou aqui.”
Ruby a estudou por alguns segundos, e percebeu que na sua mesa de cabeceira estava o livro que estava lendo, uma xícara e uma porção do seu chocolate preferido. Regina tinha pesquisado muito sobre ela, pelo jeito.
“Só por isso?”
“Ruby.” Regina deixou os ombros caírem, num semblante de cansaço. “Tudo bem. Eu soube da sua estadia no motel com o Robin e também soube que você saiu de lá bem alterada. Eu tinha ido até a sua casa conversar a respeito.”
“Desculpe-me, mas o que isso tem a ver com você? O Robin nem é seu marido.”
“Ele machucou você?”
“O Robbie? Não me faça rir.” Ruby gargalhou, mas seu corpo estava fraco para aquele movimento. Sua respiração tornou-se ofegante e ela sentou-se, encostando-se na cabeceira da cama para continuar.
Regina não sabia o que pensar. Aparentemente, nada era mais evidente do que o fato de que Robin poderia sim ter passado a noite com ela.
“Por que, Ruby?”
“Porque o quê?”
“Por que cortar seus pulsos? Por que tentar o suicídio?”
Ruby sorriu, mas Regina captou a tristeza naquele sorriso.
“Porque eu estava completamente sem saída.“
Ruby começou a brincar com o lençol, a cabeça abaixada. Na verdade, ela continuava sem saída. Ela estava perdida numa briga de cachorros, e ela era apenas um gato. Um arrepio subiu sua costela quando ela pensou nas palavras de Zelena. Na ferocidade de Gold.
“Não quero que fique sozinha, Ruby.”
“Isso é fofo.” Respondeu ela, sorrindo. “Mas irrelevante. Eu moro sozinha.”
“Por que você não vem para a minha casa?”
“O quê?! Eu mal conheço você!”
“Mal me conhece? Eu sou a prefeita desta cidade!”
“Eu disse como pessoa e não como autoridade política.”
“Ruby, caia na real. Você se tornou uma ameaça para a sua ex-equipe. Eles vão caçar você. Eu sei que a minha equipe também não é a mais bondosa de todas, mas na minha casa eles não pisam. Você estará segura lá até se recuperar. O que me diz?”
Ruby pegou um chocolate do criado mudo, e desembrulhou-o, mordendo um pedaço. Regina sorriu.
“Eu não sei, Regina.”
“E que outras opções você tem?”
Regina a encarava, o olhar inquisidor, os braços cruzados esperando (intimidando) uma resposta. Uma resposta que Ruby não tinha. Regina acenou com os ombros.
“Resolvido. Você vai para a minha casa.”
O quarto que Regina preparara para sua hóspede era maior do que o apartamento da própria. Ruby sorria em admiração.
“Tem certeza que o David não vai ficar incomodado?”
“Meu marido jamais se incomodaria com uma convidada minha.”
Ruby estava deitada, e Regina estava em pé ao lado dela.
“Bom, você já sabe onde fica o banheiro e a cozinha. Sinta-se à vontade aqui. Se por acaso, ver alguma coisa que não queria, feche os olhos e se faça de morta.”
“Tipo o quê?” Ruby parecia preocupada.
“Tipo eu e o meu marido transando, querida.”
Ruby enrubesceu, fazendo-a gargalhar.
“Calma! Não era pra ficar com vergonha! Era uma brincadeira!”
“Regina, não quero atrapalhar nada.”
“Ruby.” Ela respirou fundo.”Você não está atrapalhando. Eu a convidei. Nós vamos nos comportar. Eu só estava tentando te fazer relaxar.”
“O efeito foi justamente o contrário.”
Regina sorria genuinamente enquanto fechava a janela. Ruby a observou. Era mesmo uma mulher incrivelmente linda, e inteligente. E tinha uma maneira de cuidar dos outros, de cuidar dela como se ela fosse a única pessoa no universo; uma espécie rara de empatia.
“Espero ser como você algum dia.”
Regina mediu a temperatura dela.
“Parece que alguém está começando a ter um pouco de febre. Vou lá embaixo pegar o medicamento. O médico disse que a perda de sangue te deixaria meio desnorteada no começo.”
“Olhe para você. Tem essa casa linda, um emprego maravilhoso, é bonita, é inteligente, tem um cara maravilhoso que te ama... Dois, dois caras maravilhosos que te amam.”
“Quem?”
Regina a encarou num sobressalto.
“Oras, o David e o Robin.”
“Ruby, acho que você bebeu antidepressivo demais.”
“Eu posso estar deprimida, mas não sou idiota. Eu sei o que ele sente por você.”
Regina engoliu em seco, e baixou o olhar.
“Vou pegar o medicamento. Já volto.”
Na cozinha, Regina separava o medicamento.
Com o copo embaixo da torneira, ela deixou a mente vaguear. Eles estavam juntos. Talvez Robin tivesse contado tudo á ela. Tudo sobre eles, sobre o beijo, sobre a tensão. Sobre a briga deles. Talvez eles conversassem sobre ela deitados na cama, enrolados apenas em lençóis. O pensamento lhe deu náuseas.
Ela gostava da garota. Verdadeiramente. Não podia culpa-la de nada. Robin, por outro lado... Ela o odiava. Odiava-o por atormentá-la desde aquele dia no Granny’s. Desde aquele beijo, por ter feito o papel do homem casado apaixonado por ela e transado com a assistente. Feito uma menina como essa tentar se matar porque fora um cafajeste que a levara para um motel e depois a dispensara.
Odiava-o intensamente.
Robin estava saindo do pequeno mercadinho quando a viu na calçada. Vestida com jeans, e um moletom vermelho, ele podia ver a delicadeza do seu rosto e seu semblante abatido. Fazia semanas que não a via. O arrependimento o derrubou, junto com uma dose pesada de remorso. Precisava falar com ela.
“Ruby?”
Ela olhou distraidamente para ele, mas ele percebeu a mudança nela quando ela o viu. O breve sorriso se desfez, os olhos dela perderam o brilho. Ela colocou as mãos no bolso da blusa e olhou em volta, preocupada. Robin se aproximou, ficando a um passo dela.
“Ruby, o que aconteceu com você? Onde estava?”
Ruby o encarou de uma maneira irreconhecível para ele. Ela parecia outra pessoa.
“Como você se importasse, Robin.”
“Ruby, eu me importo.”
“Pare de mentir!” A voz dela saiu mais alta do que ela queria. As pessoas ao redor começaram a prestar atenção. “Faz semanas que eu deixei sua equipe! Você não deu a mínima! Você não se preocupou! Você não me ligou nem uma única vez!”
“A Zelena disse que você não queria mais contato comigo. Eu respeitei sua vontade.”
“A Zelena te disse? Ah claro, Robin! Seu idiota! Continue acreditando em tudo que aquele monstro coloca na sua cabeça!”
“Não precisava ter ido embora sem dar nenhuma explicação. Eu disse que ia cuidar daquela situação...”
“Você é egocêntrico demais para ver qualquer coisa ao seu redor.”
“Você sabe que isso não é verdade.”
“Será que sei mesmo, Robin? Será que você sabe o que é verdade e o que é mentira?”
Robin estava visivelmente irritado, segurando o pacote contra seu peito. Ruby tinha lágrimas lavando seu rosto, mas gritava ferozmente, com uma raiva tão profunda latejando em seu peito que Robin temia uma explosão. No momento em que ele ia questionar o que ela ia dizer, uma voz sensual e carregada de ódio os interrompeu.
“O que está acontecendo aqui?”
Robin a encarou. Puta Merda. Era só o que faltava agora. Adicionar Regina a conversa.
“Isso não é da sua conta, Regina.”
A voz dele saiu ríspida, com um misto de desprezo e raiva. Regina ignorou a investida, descendo as escadas e colocando-se entre ele e Ruby. Ela sorriu, os olhos fincados nos olhos dele como um gavião sobre a presa.
“Está enganado, dear. É da minha conta. É da minha conta se você está atormentando uma garota que está sob os meus cuidados, uma garota que você levou para o motel e depois a deixou ir embora pela manhã, aos prantos. É da minha grande e prepotente conta se você machucar novamente essa menina, porque eu me encarregarei pessoalmente de arrancar as suas bolas e pendurá-las no espelho retrovisor do meu carro novo. Fui clara?”
Robin bufava na frente dela. Filha da puta presunçosa. Ela estava incrivelmente gostosa naquele vestido branco, grudado em seu corpo. As curvas faziam suntuosidades sob seus olhos. O batom vermelho marcava aqueles lábios franzidos de puro ódio. Ela estava com ódio dele. Oh, que bonito.
“Corrigindo você, intrometida. Não vou machucar novamente ninguém. Eu não machuquei a Ruby.”
Regina segurou-o pela borda da jaqueta, diminuindo a distância entre eles. O movimento seria sensual se ela não estivesse literalmente prestes à lhe dar um soco no meio dos dentes. Seus lábios estavam incrivelmente próximos.
“Ruby, mostre a ele.”
Ruby mantinha um semblante perplexo, e ficou divagando por um minuto o que isso significava.
“Ruby, faça o favor de arregaçar essas mangas. Agora.”
Relutantemente, Ruby subiu as mangas. Robin observou em silêncio enquanto notava os curativos cirúrgicos sobre ambos os pulsos e o olhar entristecido de Ruby sobre eles. Regina puxou-o e sussurrou contra os lábios dele, enfurecidamente.
“Ela cortou os dois pulsos depois que a sua cadelinha de estimação lhe fez uma visitinha. Se você causar mais algum dano a essa menina, Robin, eu juro por Deus que caço você e lhe arranco todos os ossos. Avise sua assistente Zelena de que eu vou rastelar as tripas dela quando tiver a mínima das oportunidades. E achar que eu considerava você decente, achava que você realmente gostava de mim. Como sou ingênua. Não conseguiu me levar para cama, então levou a coitada da Ruby, não é?”
“Regina, eu não sabia...”
“Eu não quero ouvir, Robin. Fique longe. E pode ter certeza que isso não é mais uma eleição. É uma guerra. E da minha parte, não vai ter misericórdia nenhuma.”
Do interior do estabelecimento, Marian assistia a discussão dos dois.
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